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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Federico García Lorca: Alma ausente

 
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[traduzido por William Agel de Mello]

O touro não te conhece, nem a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
O menino não te conhece, nem a tarde,
porque morreste para sempre.

O lombo da pedra não te conhece,
nem o chão negro em que te destroças.
Nem te conhece a tua recordação muda,
porque morreste para sempre.

O outono virá com caracóis,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá mirar teus olhos,
porque morreste para sempre.

Porque morreste para sempre,
como todos os mortos da Terra,
como todos os mortos que se olvidam
em um montão de cachorros apagados.

Ninguém te conhece. Não. Porém eu te canto.
Eu canto sem tardança teu perfil e tua graça.
A madureza insigne do teu conhecimento.
A tua apetência de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve a tua valente alegria.

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Canto-lhe a elegância com palavras que gemem
E recordo uma triste brisa nos olivais.

(Pranto por Ignacio Sánchez Mejías — 1935)

Federico García Lorca

Alma ausente

No te conoce el toro ni la higuera,
ni caballos ni hormigas de tu casa.
No te conoce el niño ni la tarde
porque te has muerto para siempre.

No te conoce el lomo de la piedra,
ni el raso negro donde te destrozas.
No te conoce tu recuerdo mudo
porque te has muerto para siempre.

El otoño vendrá con caracolas,
uva de niebla y monjes agrupados,
pero nadie querrá mirar tus ojos
porque te has muerto para siempre.

Porque te has muerto para siempre,
como todos los muertos de la Tierra,
como todos los muertos que se olvidan
en un montón de perros apagados.

No te conoce nadie. No. Pero yo te canto.
Yo canto para luego tu perfil y tu gracia.
La madurez insigne de tu conocimiento.
Tu apetencia de muerte y el gusto de tu boca.
La tristeza que tuvo tu valiente alegría.

Tardará mucho tiempo en nacer, si es que nace,
un andaluz tan claro, tan rico de aventura.
Yo canto su elegancia con palabras que gimen
y recuerdo una brisa triste por los olivos.

(Llanto por Ignacio Sánchez Mejías — 1935)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, edição bilíngue, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Pranto por Ignacio Sánchez Mejías (Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, 1935), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Federico García Lorca: Corpo presente

 
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[traduzido por William Agel de Mello]

A pedra é uma fronte onde os sonhos gemem
sem água curva nem ciprestes gelados.
A pedra é uma espádua para levar ao tempo
com árvores de lágrimas e cintas e planetas.

Eu vi chuvas cinzentas correrem rumo às ondas
levantando seus ternos brancos esburacados,
para não ser caçadas pela pedra estendida
que desfaz seus membros sem se empapar de sangue.

Porque a pedra recolhe sementes e nuvens,
ossadas de calhandras e lobos de penumbra;
mas não produz sons, nem cristais, nem fogo,
senão praças e praças e outras praças sem muros.

Já está sobre a pedra Ignacio, o bem-nascido.
Já se acabou; o que acontece? Contemplai a sua figura:
a morte o cobriu de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de escuro minotauro.

Já se acabou. A chuva penetra-lhe pela boca.
O ar como louco escapa de seu peito afundado,
e o Amor, empapado de lágrimas de neve,
se aquece no topo dos currais.

Que dizem? Um silêncio com fedores repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara onde rouxinóis havia
e vêmo-la encher-se de buracos sem fundo.

Quem enruga o sudário? Não é verdade o que diz!
Aqui ninguém mais canta, nem chora lá no lado,
nem aplica as esporas, nem espanta a serpente:
aqui não quero nada mais que os olhos redondos
para ver esse corpo sem possível descanso.

Eu quero ver aqui os homens de voz dura.
Os que domam cavalos e dominam os rios:
os homens cuja ossada ressoa, e cantam
com uma boca cheia de sol e pedernais.

Aqui eu quero vê-los. Diante da pedra.
Diante deste corpo com as rédeas arrebentadas.
Eu quero que me mostrem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.

Eu quero que me mostrem um pranto com um rio
que tenha doces névoas e praias profundas,
para levar o corpo de Ignacio e que se perca
sem escutar o duplo resfolegar dos touros.

Que se perca na praça redonda da lua
que finge ao ser menina dolente rês imóvel;
que se perca na noite sem canto dos peixes
e na maleza branca do fumo congelado.

Não quero que lhe tapem o rosto com lenços
para que se acostume com a morte que leva.
Vai-te, Ignacio: Não ouças o candente bramido.
Dorme, voa, repousa: O mar também morre!

(Pranto por Ignacio Sánchez Mejías — 1935)

F. García Lorca

Cuerpo presente

La piedra es una frente donde los sueños gimen
sin tener agua curva ni cipreses helados.
La piedra es una espalda para llevar al tiempo
con árboles de lágrimas y cintas y planetas.

Yo he visto lluvias grises correr hacia las olas
levantando sus tiernos brazos acribillados,
para no ser cazadas por la piedra tendida
que desata sus miembros sin empapar la sangre.

Porque la piedra coge simientes y nublados,
esqueletos de alondras y lobos de penumbra;
pero no da sonidos, ni cristales, ni fuego,
sino plazas y plazas y otras plazas sin muros.

Ya está sobre la piedra Ignacio el bien nacido.
Ya se acabó; ¿qué pasa? Contemplad su figura:
la muerte le ha cubierto de pálidos azufres
y le ha puesto cabeza de oscuro minotauro.

Ya se acabó. La lluvia penetra por su boca.
El aire como loco deja su pecho hundido,
y el Amor, empapado con lágrimas de nieve,
se calienta en la cumbre de las ganaderías.

¿Qué dicen? Un silencio con hedores reposa.
Estamos con un cuerpo presente que se esfuma,
con una forma clara que tuvo ruiseñores
y la vemos llenarse de agujeros sin fondo.

¿Quién arruga el sudario? ¡No es verdad lo que dice!
Aquí no canta nadie, ni llora en el rincón,
ni pica las espuelas, ni espanta la serpiente:
aquí no quiero más que los ojos redondos
para ver ese cuerpo sin posible descanso.

Yo quiero ver aquí los hombres de voz dura.
Los que doman caballos y dominan los ríos;
los hombres que les suena el esqueleto y cantan
con una boca llena de sol y pedernales.

Aquí quiero yo verlos. Delante de la piedra.
Delante de este cuerpo con las riendas quebradas.
Yo quiero que me enseñen dónde está la salida
para este capitán atado por la muerte.

Yo quiero que me enseñen un llanto como un río
que tenga dulces nieblas y profundas orillas,
para llevar el cuerpo de Ignacio y que se pierda
sin escuchar el doble resuello de los toros.

Que se pierda en la plaza redonda de la luna
que finge cuando niña doliente res inmóvil;
que se pierda en la noche sin canto de los peces
y en la maleza blanca del humo congelado.

No quiero que le tapen la cara con pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.
Vete, Ignacio: No sientas el caliente bramido.
Duerme, vuela, reposa: ¡También se muere el mar!

(Llanto por Ignacio Sánchez Mejías — 1935)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, edição bilíngue, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Pranto por Ignacio Sánchez Mejías (Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, 1935), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

sábado, 16 de maio de 2020

Federico García Lorca: Morte

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[traduzido por William Agel de Mello]

A Luis De La Serna

Que esforço!
Que esforço do cavalo para ser cão!
Que esforço do cão para ser andorinha!
Que esforço da andorinha para ser abelha!
Que esforço da abelha para ser cavalo!
E o cavalo,
que flecha aguda exprime da rosa!
que rosa gris levanta de seu beiço!
E a rosa,
que rebanho de luzes e alaridos
ata no vivo açúcar de seu tronco!
E o açúcar,
com que punhaizinhos sonha em sua vigília!;
e os punhais diminutos,
que lua sem estábulos, que nudezas,
pele eterna e rubor, andam buscando!
E eu, pelos beirais,
que serafim de chamas busco e sou!
Mas o arco de gesso,
quão grande, quão invisível, quão diminuto!,
sem esforço.

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Federico García Lorca

Muerte

A Luis De La Serna

¡Qué esfuerzo!
¡Qué esfuerzo del caballo por ser perro!
¡Qué esfuerzo del perro por ser golondrina!
¡Qué esfuerzo de la golondrina por ser abeja!
¡Qué esfuerzo de la abeja por ser caballo!
Y el caballo,
¡qué flecha aguda exprime de la rosa!,
¡qué rosa gris levanta de su belfo!
Y la rosa,
¡qué rebaño de luces y alaridos
ata en el vivo azúcar de su tronco!
Y el azúcar,
¡qué puñalitos sueña en su vigilia!;
y los puñales dimínutos,
¡qué luna sin establos, qué desnudos,
piel eterna y rubor, andan buscando!
Y yo, por los aleros,
¡qué serafín de llamas busco y soy!
Pero el arco de yeso,
¡qué grande, qué invisible, qué diminuto!,
sin esfuerzo.

Poeta en Nueva York — 1929 a 1930 (1940)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

sábado, 2 de maio de 2020

Federico García Lorca: Vaca

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[traduzido por William Agel de Mello]

A Luis Lacasa

Estendeu-se a vaca ferida;
árvores e arroios trepavam por seus chifres.
Seu focinho sangrava no céu.

   Seu focinho de abelhas
sob o bigode lento da baba.
Um alarido branco pôs de pé a manhã.

   As vacas mortas e as vivas,
rubor de luz ou mel de estábulo,
baliam com os olhos semicerrados.

   Que saibam as raízes
e aquele menino que afia sua navalha
que já podem comer a vaca.

    Em cima empalidecem
luzes e jugulares.
Quatro patas tremem no ar.

   Que saiba a lua
e essa noite de rochas amarelas:
que já se foi a vaca de cinza.

   Que já se foi balindo
pelo entulho dos céus hirtos
onde merendam morte os bêbados.

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Federico García Lorca

Vaca

A Luis Lacasa

Se tendió la vaca herida;
árboles y arroyos trepaban por sus cuernos.
Su hocico sangraba en el cielo.

   Su hocico de abejas
bajo el bigote lento de la baba.
Un alarido blanco puso en pie la mañana.

   Las vacas muertas y las vivas,
rubor de luz o miel de establo,
balaban con los ojos entornados.

   Que se enteren las raíces
y aquel niño que afila su navaja
de que ya se pueden comer la vaca.

   Arriba palidecen
luces y yugulares.
Cuatro pezuñas tiemblan en el aire.

   Que se entere la luna
y esa noche de rocas amarillas:
que ya se fue la vaca de ceniza.

   Que ya se fue balando
por el derribo de los cielos yertos
donde meriendan muerte los borrachos.

Poeta en Nueva York — 1929 a 1930 (1940)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Federico García Lorca: Som de negros em Cuba

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[traduzido por William Agel de Mello]

Quando chegar a lua cheia irei a Santiago de Cuba,
irei a Santiago
em um carro de água negra.
Irei a Santiago.
Cantarão os tetos de palmeira.
Irei a Santiago.
Quando a palma quiser ser cegonha,
irei a Santiago.
E quando quiser ser medusa o plátano,
irei a Santiago.
Irei a Santiago
com a loira cabeça de Fonseca.
Irei a Santiago.
E com a cor rosada de Romeu e Julieta
irei a Santiago.
Mar de papel e prata de moedas.
Irei a Santiago.
Oh, Cuba! Oh, ritmo de sementes secas!
Irei a Santiago.
Oh, cintura quente e gota de madeira!
Irei a Santiago.
Harpa de troncos vivos. Caimão. Flor de tabaco.
Irei a Santiago.
Sempre disse que iria a Santiago
em um carro de água negra.
Irei a Santiago.
Brisa e álcool nas rodas,
irei a Santiago.
Meu coral na treva,
irei a Santiago.
O mar afogado na areia,
Irei a Santiago.
Calor branco. Fruta morta.
Irei a Santiago.
Oh, bovino frescor de canaviais!
Oh, Cuba! Oh, curva de suspiro e barro!
Irei a Santiago.

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Federico García Lorca

Son de negros en Cuba

Cuando llegue la luna llena iré a Santiago de Cuba,
iré a Santiago,
en un coche de agua negra.
Iré a Santiago.
Cantarán los techos de palmera.
Iré a Santiago.
Cuando la palma quiere ser cigüeña,
iré a Santiago.
Y cuando quiere ser medusa el plátano,
iré a Santiago.
Iré a Santiago
con la rubia cabeza de Fonseca.
Iré a Santiago.
Y con el rosa de Romeo y Julieta
iré a Santiago.
Mar de papel y plata de monedas.
Iré a Santiago.
¡Oh Cuba! ¡Oh ritmo de semillas secas!
Iré a Santiago.
¡Oh cintura caliente y gota de madera!
Iré a Santiago.
Arpa de troncos vivos. Caimán. Flor de tabaco.
Iré a Santiago.
Siempre he dicho que yo iría a Santiago
en un coche de agua negra.
Iré a Santiago.
Brisa y alcohol en las ruedas,
iré a Santiago.
Mi coral en la tiniebla,
iré a Santiago.
El mar ahogado en la arena,
iré a Santiago.
Calor blanco. Fruta muerta.
Iré a Santiago.
¡Oh bovino frescor de cañaveras!
¡Oh Cuba! ¡Oh curva de suspiro y barro!
Iré a Santiago.

Poeta en Nueva York — 1929 a 1930 (1940)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Federico García Lorca: O amor dorme no peito do poeta

Resultado de imagem para Federico García Lorca — Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamarit, Tradução e Apresentação de William Agel de Mello
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[traduzido por William Agel de Mello]

Tu nunca entenderás o quanto te quero
porque dormes em mim, e estás adormecido.
Eu te oculto chorando, perseguido,
por uma voz de penetrante aço.

Norma que agita igual carne e luzeiro
traspassa já no meu peito dolorido
e as turvas palavras têm mordido
as asas de teu espírito severo.

Grupo de gente salta nos jardins
esperando teu corpo e minha agonia
em cavalos de luz e verdes crinas.

Mas continua dormindo, vida minha.
Ouve meu sangue roto de violinos!
Vê que nos espreitam ainda!

(Sonetos do amor obscuro — 1936)

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Federico García Lorca

El amor duerme en el pecho del poeta

Tú nunca entenderás lo que te quiero
porque duermes em mí y estás dormido.
Yo te oculto llorando, perseguido
por una voz de penetrante acero.

Norma que agita igual carne y lucero
trespasa ya mi pecho dolorido
y las turbias palabras han mordido
las alas de tu espíritu severo.

Grupo de gente salta en los jardines
esperando tu cuerpo y mi agonía
en caballos de luz y verdes crines.

Pero sigue durmiendo, vida mía.
!Oye mi sangre rota en los violines!
!Mira que nos acechan todavía!

(Sonetos del amor oscuro  1936)
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Federico García Lorca — Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamarit, Tradução e Apresentação de William Agel de Mello, edição bilíngue, Literatura Íbero-Americana Coleção Folha 2, 2012, Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898  1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Federico García Lorca: O poeta diz a verdade

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[traduzido por William Agel de Mello]

Quero chorar minha mágoa, e digo-te
para que tu me ames e me chores
em um anoitecer de rouxinóis,
com um punhal, com beijos e contigo.

Quero matar a única testemunha
para o assassinato de minhas flores
e converter meu pranto e meus suores
em eterno montão de duro trigo.

Que não acabe nunca a madeixa
do bem-me-quer, mal-me-quer, sempre ardida
com decrépito sol e lua velha.

Que o que não me dás e não te peça
será para a morte, que não deixa
nem sombra pela carne estremecida.

(Sonetos do amor obscuro — 1936)

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Federico García Lorca

El poeta dice la verdad

Quiero llorar mi pena y te lo digo
para que tú me quieras y me llores
en un anochecer de ruiseñores,
con un puñal, con besos y contigo.

Quiero matar al único testigo
para el asesinato de mis flores
y convertir mi llanto y mis sudores
en eterno montón de duro trigo.

Que no se acabe nunca la madeja
del te quiero me quieres, siempre ardida
con decrépito sol y luna vieja.

Que lo que no me des y no te pida
será para la muerte, que no deja
ni sombra por la carne estremecida.

(Sonetos del amor oscuro  1936)
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Federico García Lorca — Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamarit, Tradução e Apresentação de William Agel de Mello, edição bilíngue, Literatura Íbero-Americana Coleção Folha 2, 2012, Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898  1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.