sábado, 27 de junho de 2009

Genésio dos Santos: procedimento (18.10.2006)

palavras difíceis
não fazem poemas
ir ao dicionário
não é necessário

não busque na rima

o som das palavras
não faça da métrica
um padrão de estética

o poema surge

em tempo imprevisto
brincadeira à parte
poesia é arte


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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991  1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

Genésio dos Santos: A construção da poesia (outubro/2003)

Eu procuro as palavras...
É pelas palavras que explico o que me cabe explicar.
É através delas que eu vivo.

Elas vêm e vão, caoticamente,
sem nenhuma regularidade,
sem ritmo nem melodia.
E pedem que eu as ordene
e que as faça inteligíveis
aos olhos de quem as lê.
Ou não me pedem nada.

De todo modo,
eu deixo que elas se aproximem,
que vivenciem meu mundo
e se aquietem junto a mim.
Ou que, se fizerem rebuliço,
me deixem atônito.

Por um instante me ponho em dúvida
se vou saber lidar com elas.
No entanto as acaricio
e elas correspondem me acariciando também.

Só aos poucos é que vou me familiarizando.
E aí me faço artífice,
organizo-as, desloco uma aqui, ponho outra acolá,
substituo uma e outra e viro a página.

Vou atrás de outras palavras.

Começo a me dar conta de que a poesia pode estar nascendo.


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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

Genésio dos Santos: A negação do poema (27.03.2003)

Quisera que o poema viesse
e ele não veio.
Mas eu o percebo em mim,
escondido e mudo,
à espera de que algo
o coloque a nu.

Não o culpo
pela sua postura contemplativa,
pela sua quase fuga;
não o forço a nada,
a porta está aberta
e ele sabe disso.

Também não carrego culpa
por não ter sabido arrancá-lo de minhas entranhas,
por não libertá-lo.
Portas eu abro sempre,
entra e sai quem quer e quando quiser,
inclusive o poema
que permanece recluso.

No entanto, eu o sinto cá no peito,
em movimentos rítmicos
de lá pra cá e de cá pra lá.

O poema
pulsa
dentro de mim.


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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

Genésio dos Santos: Amor (fevereiro de 2007)

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O amor bateu na porta,
a casa estava vazia
e ele se retraiu.

Mas eis que a porta se abriu
e o amor podendo entrar
bem ligeiro se instalou.

Esse amor atrevido
não teve hora pra chegar
nem tem pressa de partir.

Foi chegando de mansinho
e eu me fazendo de bobo,
mas fico bem esquisito.

Ele de mim se apodera,
veio sem ser convidado
e me deixa bem perplexo.

Mesmo que o amor atropele

querendo furar a fila
percebo que não tem jeito.

O amor é como um doce
que antes não fora provado,
quem o provou lambuzou-se.

Com lápis, carvão ou giz
faço registro do amor
e quase me desconcerto.

E se o amor é um tattoo
gravado à ponta de faca

sempre deixa cicatrizes.

Vindo calmo ou turbulento
me rendo incontinenti
às peraltices do amor.

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Genésio dos Santos, paulista de Itapetininga, nascido em 1952, é poeta e cronista.

Genésio dos Santos: No mundo da lua (setembro de 2007)

Vi uma lua no céu
Vi uma lua tão bela.
Era uma lua redonda
Era uma lua amarela.

Primeiro eu vi a lua
Pela fresta da janela,
Depois fui até a porta
Lá também estava ela.

Zanzando pelas veredas

Me perdi em mil querelas,
De novo olhei pro céu
Mais uma vez era ela.

Me encorajei numa prosa
E a lua não me deu trela,
Com o silêncio da lua
Me bateu saudades dela.

Foi matutando no assunto
Que voltei para a janela,
A lua andou comigo
Eu também andei com ela.

O pranto corre na face
Um sonho que se esfacela,
Um sorriso preso aos lábios
Um novo sonho revela.

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Genésio dos Santos, paulista de Itapetininga, nascido em 1952, é poeta e cronista.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Genésio dos Santos: Teu canto

Quão belo foi oví teu canto, avezinha,
esse concerto subrime benfazejo à gente,
quano a tardinha, já no sór poente,
a solidão bejá minha arma vinha.

Ah, solidão e tristezas minha,
inspiração de um ómi discrente...
Faze calá o coração da gente
co'o teu canto, bela avezinha!

Quisera eu vuá, cantá alegremente,

pa isquecê este inferno que me feiz duente
de um renegado amor, a ruína minha.

Quisera eu fugí desta rude gente
e oví o teu cantá eternamente,
oh delicada e bela avezinha!

Minha foto
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Genésio dos Santos (1952), poeta e cronista, escreve desde a pré-adolescência e realizou seus primeiros escritos aos treze anos de idade; elaborou este poema, com valor de registro, em 20.06.1969 quando residia em Iperó  SP; esta "versão caipirês" do poema o autor a realizou em 2009 para expressar a sua origem de homem da roça.

Carlos Drummond de Andrade: Explicação

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.
Para beber, um copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres, folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem um ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre, sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.

Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado. Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.

Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com esta tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só, lê o seu jornal, mete a língua no governo, queixa-se da vida (a vida está tão cara) e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
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Drummond, em Alguma Poesia: Poesia e Prosa  Carlos Drummond de Andrade, Volume único, 1979, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro — RJ.

Genésio dos Santos: E se eu te desse . . .

E se eu te desse... O que é mesmo que tu queres?
Sem me pedires, como posso adivinhar,
se estragas flores entre bens e mal-me queres,
não sei se queres terra, lua, sol ou mar!

E se eu te desse... mesmo que tu não me peças
já que te calas e me prendes pelo olhar,
mesmo com o risco de que triste eu permaneça
se desdenhares o que tenho pra te dar?

E se eu te desse o que trago aqui no peito
que se esconde e teima em não aparecer!
Será amor o que talvez tanto procuras?

É o que tenho para te oferecer,
mas se eu te der, e já estou meio sem jeito,
como eu fico? Tudo bem... e tu? Me curas?
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Genésio dos Santos, 11.11.2007

Genésio dos Santos: Fazer sonetos II (02.12.2008)

Clique no título acima e continue viajando.

Fazer sonetos é um desperdício
de tempo e espaço, mas eu não me iludo
ao escrever com forma e conteúdo
e, deste modo, alimentar meu vício.

Fundamental pra que eu suporte tudo,
o que preciso é de um artifício
que espante o doido que evita hospício
e em mim habita feito meu escudo.

Sei que levito rente a um precipício,
não sei se grito ou permaneço mudo
ao me dar conta deste meu suplício.

Sinto a razão me abandonar, contudo,
já escaldado com este reinício,
me equilibro, pois senão me expludo.

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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária, participou no jornal Brinque (do coletivo cultural do SeebSP, 1983  1985) e  pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.