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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Novalis*: Um raio de luz refrata-se ainda em algo totalmente outro, que não cores. [frag. 190] & outros fragmentos

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

Pólen [fragmentos ou tarefas do pensamento]

          198. Todos os seres humanos são variações de um único indivíduo completo, i. é. De um casal. Um acordo de variações é uma família incluída aí toda sociedade intimamente vinculada. Se uma variação tão simples, como Natalie e a bela alma, já suscita um tão profundo bem-estar, quão infinito tem de ser o bem-estar daquele que percebe o todo em sua poderosa sinfonia?

          190.** Um raio de luz refrata-se ainda em algo totalmente outro, que não cores. Pelo menos o raio de luz é suscetível de uma animização, onde então se refrata a alma em cores anímicas. A quem não ocorre o olhar da amada?

          191.*** Todo contacto espiritual compara-se ao toque de uma varinha mágica. Tudo pode tornar-se utensílio de magia. Para quem porém os efeitos de um tal contacto parecem tão prodigiosos este que se lembre apenas do primeiro toque da mão de sua amada de seu primeiro, significativo olhar, em que a varinha mágica é o raio de luz refratado do primeiro beijo, da primeira palavra de amor e pergunte-se o sortilégio e feitiço desse momento não é também fabuloso e prodigioso e eterno?

          201. A humanidade é o sentido superior de nosso planeta, o nervo, que conecta esse membro com o mundo de cima, o olho, que ele eleva ao encontro do céu.

Novalis

          198. Alle Menschen sind Variationen Eines vollständigen Individuums, d. h. einer Ehe. Ein Variationen Accord ist eine Familie wozu jede innig verbundene Gesellschaft zu rechnen ist. Wenn eine so einfache Variation, wie Natalie und die schöne Seele, schon ein so tiefes Wohlgefühl erregt, wie unendlich muß das Wohlgefühl dessen seyn der das Ganze in seiner mächtigen Symphonie vernimmt?
          199. Ein Lichtstrahl bricht sich noch in etwas ganz Anderes, als in Farben. Wenigstens ist der Lichtstrahl einer Beseelung fähig, wo sich dann die Seele in Seelenfarben bricht. Wem fällt nicht der Blick der Geliebten ein?
          200. Alle geistige Berührung gleicht der Berührung eines Zauberstabs. Alles kann zum Zauberwerckzeug werden. Wem aber die Wirckungen einer solchen Berührung so fabelhaft, wem die Wirckungen eines Zauberspruchs so wunderbarvorkommen der errinnre sich doch nur an die erste Berührung der Hand seiner Geliebten an ihren ersten, bedeutenden Blick, wo der Zauberstab der abgebrochne Lichtstrahl ist, an den ersten Kuß, an das erste Wort der Liebe und frage sich, ob der Bann und Zauber dieser Momente nicht auch fabelhaft und wundersam, unauflöslich und ewig ist?
          201. Die Menschheit ist der höhere Sinn unsers Planeten, der Nerv, der dieses Glied mit der Obern Welt verknüpft, das Auge, was er gen Himmel hebt.

[Fragmente oder Denkaufgaben]

Notas deste Verso e Conversa:
* Acerca da ‘escritura dos primeiros românticos’ que ‘já nasce na forma de fragmento ...’, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo os quatro primeiros parágrafos do Texto/Apresentação Novalis: O Romantismo estudioso, de Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor deste Pólen — Fragmentos ...:
          'O avesso é adverso. As esplêndidas construções sistemáticas que a tradição filosófica nos legou sob o título de “idealismo alemão” (Fichte, Schelling, Hegel) edificam-se sobre um solo de crise — a metafísica minada pela crítica da razão (Kant) — e erguem sua travação conceitual como que a esconjurá-la. Do que se pensou no reverso desses sistemas, no epicentro dessa crise, os escritos do primeiro romantismo (Novalis, Tieck, os irmãos Schlegel) dão alguma medida, e não é de admirar que, já na forma, se apresentam como fragmentários.
          O discurso dos pré-socráticos foi reduzido a fragmentos pela erosão do tempo e as conflagrações da História. A escritura dos primeiros românticos nasce já na forma de fragmento — produto, talvez, de uma erosão e conflagração no próprio pensamento?
          Certo é que essa ideia, que poderia ocorrer a qualquer um, faz parte na verdade da auto-imagem dos próprios românticos, e quem a formulou, devidamente em forma de “fragmento”, foi Friedrich Schlegel (1772 — 1829), já em 1798, na revista Athenaeum: “Muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. Muitas obras dos modernos o são logo em seu surgimento”. (Fragmento nº 24, que Novalis batizou de: “Fragmentos tornados e natos”.)
          Essa espécie da simetria macro-histórica, essa forma, ainda que demasiado sobranceira, de ligar o cabo ao rabo, não deixa de indicar que, em caso de pertinência, a filosofia dos românticos, faria parte marcante da História da Filosofia ocidental.'
** Em pesquisa ‘googleana’, este aprendiz de blogueiro encontrou correspondente ao fragmento 190 ora traduzido: Fragmente oder Denkaufgaben — 199;
*** Idem, correspondente ao fragmento 191 traduzido: Fragmente oder Denkaufgaben — 200.
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Pólen — Fragmentos, diálogos, monólogo: Novalis, Tradução, Apresentação e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 2001, 2ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Novalis: Anseio pela morte


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[traduzido por Felipe Vale da Silva

[Hinos à Noite (VI)]

Abaixo, no ventre da Terra
Muito aquém do reino do Dia
A fúria, a dor e a guerra
anunciam sua oportuna partida
Chegamos em canoa estreita
nas praias do paraíso
Bendita seja a Noite infinda!
Bendito, o sono infinito!
É certo que o Dia acalenta,
mitiga o antigo pesar.
Foi-se o anseio por reinos distantes,
junto ao Pai encontramos um lar.
O que resta fazer neste mundo,
do que vale o amor e apego?
O que é arcaico deixamos de lado,
ao moderno temos menosprezo.
Solitário e aflito é o estado
de quem ama o que está no passado.
Um passado em que a luz dos sentidos
já ardeu com imensa fulgência
Onde a face do Onipresente
era parte da humana vivência.
Em grandor, em sublimidade
remetíamos à diva imagem.
Em que troncos remotos da espécie
esbanjavam em emolumentos;
preferível era a morte e o martírio
pois assim chega-se ao firmamento.
E conquanto o desejo é constante
foi o amor que saiu triunfante.
Um passado onde, ainda jovem
Deus revela sua face à Terra
Por amor à verdade Ele morre
Como poucos, doce vida era
Não acossou de si medo e dor
Isso é prova de seu firme amor.
Com anseio, vivemos inquietos,
encobertos pela noite escura
Hoje nem toda a água do mundo
Poderá saciar esta secura,
Resta a ânsia de voltar para casa
Reviver uma era sagrada
E o que impede o nosso regresso?
Já repousam aqueles que amamos;
a tumba é o limite do nosso caminho;
a nos resta só horror e prantos
Esta busca não visa algo certo
o peito está cheio o mundo é um deserto.
Infinito e misterioso
Nos domina um terror doce e mudo
Creio ouvir, dos profundos recessos
O murmúrio de quem veste luto
É possível que um amigo aguarde,
nos envie um sinal de saudades.
Entreguemo-nos à noiva doce,
mais para além, a Jesus, o amado
Consolai-vos com as trevas da noite
os que amam e os conturbados
Pois, quiçá, em um sonho, nossa algema cai
E seremos entregues aos cuidados do Pai.

Novalis

Sehnsucht nach dem Tode

Hinunter in der Erde Schoß,
Weg aus des Lichtes Reichen,
Der Schmerzen Wut und wilder Stoß
Ist froher Abfahrt Zeichen.
Wir kommen in dem engen Kahn
Geschwind am Himmelsufer an.
Gelobt sei uns die ew’ge Nacht,
Gelobt der ew’ge Schlummer.
Wohl hat der Tag uns warm gemacht
Und welk der lange Kummer.
Die Lust der Fremde ging uns aus,
Zum Vater wollen wir nach Haus.
Was sollen wir auf dieser Welt
Mit unsrer Lieb und Treue.
Das Alte wird hintangestellt,
Was soll uns dann das Neue.
Oh! einsam steht und tiefbetrübt,
Wer heiß und fromm die Vorzeit liebt.
Die Vorzeit wo die Sinne licht
In hohen Flammen brannten,
Des Vaters Hand und Angesicht
Die Menschen noch erkannten.
Und hohen Sinns, einfältiglich
Noch mancher seinem Urbild glich.
Die Vorzeit, wo noch blütenreich
Uralte Stämme prangten
Und Kinder für das Himmelreich
Nach Qual und Tod verlangten.
Und wenn auch Lust und Leben sprach,
Doch manches Herz für Liebe brach.
Die Vorzeit, wo in Jugendglut
Gott selbst sich kundgegeben
Und frühem Tod in Liebesmut
Geweiht sein süßes Leben.
Und Angst und Schmerz nicht von sich trieb,
Damit er uns nur teuer blieb.
Mit banger Sehnsucht sehn wir sie
In dunkle Nacht gehüllet,
In dieser Zeitlichkeit wird nie
Der heiße Durst gestillet.
Wir müssen nach der Heimat gehn,
Um diese heil’ge Zeit zu sehn.
Was hält noch unsre Rückkehr auf,
Die Liebsten ruhn schon lange.
Ihr Grab schließt unsern Lebenslauf,
Nun wird uns weh und bange.
Zu suchen haben wir nichts mehr
Das Herz ist satt die Welt ist leer.
Unendlich und geheimnisvoll
Durchströmt uns süßer Schauer
Mir deucht, aus tiefen Fernen scholl
Ein Echo unsrer Trauer.
Die Lieben sehnen sich wohl auch
Und sandten uns der Sehnsucht Hauch.
Hinunter zu der süßen Braut,
Zu Jesus, dem Geliebten
Getrost, die Abenddämmrung graut
Den Liebenden, Betrübten.
Ein Traum bricht unsre Banden los
Und senkt uns in des Vaters Schoß.

Hymnen an die Nacht [VI]
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; teve textos publicados no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos, dos quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Novalis: Erguida está a rocha . . .


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[traduzido por Felipe Vale da Silva

[extrato da seção V de Hinos à Noite]

Erguida está a rocha
A humanidade, elevada
seguimos sendo teus filhos
Enfim livres de amarras
O mais forte apreço
verte o teu cálice argênteo;
a última ceia é chegada
chegado é o fim dos tempos.
As bodas evocam a morte
E tochas queimam intensas;
pela unção do consorte
a virgem aguarda tesas
E se de longe se ouvisse
sons de uma tal comitiva
E se a estrela clamasse
Com língua humana, o faria.
A ti, ó Maria, já batem
forte milhares de peitos
Pois nesta vida de trevas
és alvo de nosso anseio.
Do esperar por uma cura
com presciente desejo
Aperta-nos, ó divina,
achega-nos em teu seio.
Tantos que ardem e consomem
padecem angústias amaras
Tantos que do mundo fogem
Voltam-se a ti, virgem amada;
Pois és a auxiliadora
Das almas necessitadas
voltamo-nos todos a ti
Em busca de eterna morada.
Não deite lágrimas aos mortos
Não sofra, pois tua fé
no amor doce e devoto
Não será abalada, sequer
Terás teu anseio saciado
A noite será teu entusiasmo
teu coração está guardado
Pelos fiéis filhos do céu
Com tal consolo, a vida segue
perdura o seu percurso eterno,
expande-a um imo ardor
que transfigura o intelecto.
O céu estrelado então dissipa
chegada é a hora do repasto
Reflui o néctar da áurea vinha
converte-nos na luz dos astros
O amor não encontra mais barreiras
as velhas divisões são findas
Ressoam aí a plena vida
tal qual um mar ilimitado.
A vida será um longo êxtase
uma noite eterna, doce hino
e o Sol que a todos ilumina
terá a face do divino.

Novalis

[ . . . ]

V

Gehoben ist der Stein
Die Menschheit ist erstanden
Wir alle bleiben dein
Und fühlen keine Banden.
Der Herbeste Kummer Fleucht
Vor deiner goldnen Schale,
Wenn Erd und Leben weicht
Im letzten Abendmahle.
Zur Hochzeit ruft der Tod
Die Lampen brennen helle
Die Jungfraun sind zur Stelle
Um Öl ist keine Not
Erklänge doch die Ferne
Von deinem Zuge schon,
Und ruften uns die Sterne
Mit Menschenzung' und Ton.
Nach dir, Maria, heben
Schon tausend Herzen sich.
In diesem Schattenleben
Verlangten sie nur dich.
Sie hoffen zu genesen
Mit ahndungsvoller Lust
Drückst du sie, heilges Wesen,
An deine treue Brust.
So manche, die sich glühend
In bittrer Qual verzehrt
Und dieser Welt entfliehend
Nach dir sich hingekehrt;
Die hülfreich uns erschienen
In mancher Not und Pein
Wir kommen nun zu ihnen,
Um ewig da zu sein.
Nun weint an keinem Grabe
Für Schmerz, wer liebend glaubt,
Der Liebe süße Habe
Wird keinem nicht geraubt
Die Sehnsucht ihm zu lindern,
Begeistert ihn die Nacht
Von treuen Himmelskindern
Wird ihm sein Herz bewacht.
Getrost, das Leben schreitet
Zum ew’gen Leben hin;
Von innrer Glut geweitet
Verklärt sich unser Sinn.
Die Sternwelt wird zerfließen
Zum goldnen Lebenswein,
Wir werden sie genießen
Und lichte Sterne sein.
Die Lieb ist frei gegeben,
Und keine Trennung mehr.
Es wogt das volle Leben
Wie ein unendlich Meer.
Nur eine Nacht der Wonne
Ein ewiges Gedicht
Und unser aller Sonne
Ist Gottes Angesicht.

Hymnen an die Nacht [V]
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; teve textos publicados no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos, dos quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Novalis: A letra é apenas um auxílio da comunicação filosófica, . . .

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

[Fragmentos logológicos]

          3. <A letra é apenas um auxílio da comunicação filosófica, cuja essência própria consiste no suscitamento de uma determinada marcha de pensamentos. O falante pensa produz o ouvinte reflete reproduz. As palavras são um meio enganoso do pré-pensar veículo inidôneo de um estímulo determinado, específico. O genuíno mestre é um indicador de caminho. Se o aluno é de fato desejoso da verdade, é preciso apenas um aceno, para fazê-lo encontrar aquilo que procura. A exposição da filosofia consiste portanto em puros temas em proposições iniciais princípios. Ela é só para amigos auto-ativos da verdade. O desenvolvimento analítico do tema é só para preguiçosos ou inexercitados. Estes últimos precisam aprender a voar através dele e a manter-se numa direção determinada.
          Atenção é uma força centrante. Com a direção dada começa a relação eficaz entre o dirigido e o objeto da direção. Se mantemos firme essa direção chegamos então apoditicamente seguros ao alvo fixado.
          Genuíno filosofar-em-conjunto é portanto uma expedição em comum em direção a um mundo amado na qual nos revezamos mutuamente no posto mais avançado, que torna necessária a tensão máxima contra o elemento resistente, no qual voamos.>

Novalis
[Logologische Fragmente]

          3. <Der Buchstabe ist nur eine Hülfe der philosophischen Mittheilung, derem eigentliches Wesen in Erregung eines bestimmten Gedanckengangs besteht. Der Redende denckt producirt der Hörende denckt nach reproducirt. Die Worte sind ein trügliches Medium des Vordenckens unzuverlässige Vehikel eines bestimmten, specifischen Reitzes. Der ächte Lehrer ist ein Wegweiser. Ist der Schüler in der That wahrheitslustig, so bedarf es nur eines Wincks, um ihn finden zu lassen, was er sucht. Die Darstellung der Philosophie besteht demnach aus lauter Themas aus Anfangssätzen Principien. Sie ist nur für selbstthätige Wahrheitsfreunde. Die analytische Ausführung des Thems ist nur für Träge oder Ungeübte. Leztere müssen dadurch fliegen und sich in einer bestimmten Direction erhalten lernen.
          Aufmercksamkeit ist eine zentrirende Kraft. Mit der gegebenen Richtung beginnt das wircksame Verhältniß zwischen dem Gerichteten und dem Objecte der Richtung. Halten wir diese Richtung fest so gelangen wir apodiktisch sicher zu dem gesteckten Ziel.
          Ächtes Gesammtphilosophiren ist ein gemeinschaftlicher Zug nach einer geliebten Welt bey welchem man sich wechselseitig im vordersten Posten, welcher die meiste Anstrengung gegen das widerstrebende Element, worinn man fliegt, nöthig macht, ablößt.>
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Pólen — Fragmentos, diálogos, monólogos: Novalis, Tradução, Apresentação e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 2001, 2ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Novalis*: Deveria o princípio supremo conter o paradoxo supremo em seu problema? [frag. 9] & outros fragmentos

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

[Fragmentos logológicos]

          [ . . . ]

          7. <Quando se começa a refletir sobre filosofia então parece-nos a filosofia, como Deus e amor, ser tudo. Ela é uma idéia mística, eficaz ao extremo, penetrante que nos impele incessantemente para todas as direções. A decisão de filosofar Procurar filosofia é o ato da manumissão o golpe sobre nós Mesmos.>
          8. <Fora da filosofia da filosofia há ainda certamente filosofias que poderíamos chamar filosofias individuais. O método é genuinamente filosófico Elas partem do absoluto só que não de um absoluto puro. São por isso propriamente mesclas de filosofia e a-filosofia, e quanto mais íntimo é o entremesclamento, mais interessante. São individuais desde o fundamento Põem uma síntese, com violência, como tese. A exposição da fil[osofia] da fil[osofia] terá sempre algo de uma filosofia individual. O poeta igualmente expõe apenas fil[osofia] individual, e todo ser humano, por mais vividamente que de resto possa reconhecer a fil[osofia] da fil[osofia], será na prática apenas mais ou menos filósofo individual e, a despeito de todo esforço, nunca poderá sair totalmente do círculo mágico de sua filosofia individual.>
          9. <Deveria o princípio supremo conter o paradoxo supremo em seu problema? Ser uma proposição, que não deixasse absolutamente nenhuma paz que sempre atraísse, e repelisse sempre se tornasse de novo ininteligível, por mais vezes que já se a tivesse entendido? Que incessantemente ativasse nossa atividade sem jamais cansá-la, sem jamais se tornar costumeira? Segundo antigas tradições místicas Deus é para os espíritos algo semelhante.>
          10. <Nosso pensamento foi até agora seja meramente mecânico discursivo atomístico ou meramente intuitivo dinâmico Acaso chegou agora o tempo da unificação?>

          [ . . . ]

Novalis

          [ . . . ]

          7. <Wenn man anfängt über Philosophie nachzudenken so dünkt uns Philosophie, wie Gott, und Liebe, Alles zu seyn. Sie ist eine mystische, höchstwircksame, durchdringende Idee  die uns unaufhaltsam nach allen Richtungen hineintreibt. Der Entschluß zu philosophiren Philosophie zu suchen ist der Act der Manumission der Stoß auf uns Selbst zu.>
          8. <Außer der Philosophie der Philosophie giebt es allerdings noch Philosophieen die man Individualphilosophieen nennen könnte. Die Methode ist ächt philosophisch Sie gehn vom Absoluten aus nur von keinem rein Absoluten. Sie sind daher eigentlich aus Philosophie und Unphilosophie gemischt, und je inniger die Vermischung ist, desto interressanter. Sie sind individuell von Grund aus Sie setzen eine Synthesis mit Gewalt, als Thesis. Die Darstellung der Phil[osophie] der Phil[osophie] wird immer etwas von einer Individualphilosophie haben. Der Dichter stellt ebenfalls nur Individualphil[osophie] dar, und jeder Mensch wird, so lebhaft er übrigens auch die Phil[osophie] der Phil[osophie] anerkennen mag, praktisch nur mehr oder weniger Individualphilosoph seyn, und,
          9. <Sollte das höchste Princip das höchste Paradoxon in seiner Aufgabe enthalten? Ein Satz seyn, der schlechterdings keinen Frieden ließe der immer anzöge, und abstieße — immer von neuen unverständlich würde, so oft man ihn auch schon verstanden hätte? Der unsre Thätigkeit unaufhörlich rege machte ohne sie je zu ermüden, ohne je gewohnt zu werden? Nach alten mystischen Sagen ist Gott für die Geister etwas Ähnliches.>
          10. <Unser Denken war bisher entweder blos mechanisch  discursiv  atomistisch — oder blos intuitiv dynamisch Ist jezt etwa die Zeit der Vereinigung gekommen?>

          [ . . . ]

[Logologische Fragmente]

* Nota deste Verso e Conversa: Acerca da ‘escritura dos primeiros românticos’ que ‘já nasce na forma de fragmento ...’, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo os quatro primeiros parágrafos do Texto/Apresentação Novalis: O Romantismo estudioso, de Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor deste Pólen — Fragmentos ...:
          'O avesso é adverso. As esplêndidas construções sistemáticas que a tradição filosófica nos legou sob o título de “idealismo alemão” (Fichte, Schelling, Hegel) edificam-se sobre um solo de crise — a metafísica minada pela crítica da razão (Kant) — e erguem sua travação conceitual como que a esconjurá-la. Do que se pensou no reverso desses sistemas, no epicentro dessa crise, os escritos do primeiro romantismo (Novalis, Tieck, os irmãos Schlegel) dão alguma medida, e não é de admirar que, já na forma, se apresentam como fragmentários.
          O discurso dos pré-socráticos foi reduzido a fragmentos pela erosão do tempo e as conflagrações da História. A escritura dos primeiros românticos nasce já na forma de fragmento — produto, talvez, de uma erosão e conflagração no próprio pensamento?
          Certo é que essa ideia, que poderia ocorrer a qualquer um, faz parte na verdade da auto-imagem dos próprios românticos, e quem a formulou, devidamente em forma de “fragmento”, foi Friedrich Schlegel (1772 — 1829), já em 1798, na revista Athenaeum: “Muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. Muitas obras dos modernos o são logo em seu surgimento”. (Fragmento nº 24, que Novalis batizou de: “Fragmentos tornados e natos”.)
          Essa espécie da simetria macro-histórica, essa forma, ainda que demasiado sobranceira, de ligar o cabo ao rabo, não deixa de indicar que, em caso de pertinência, a filosofia dos românticos, faria parte marcante da História da Filosofia ocidental.'
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Pólen — Fragmentos, diálogos, monólogo: Novalis, Tradução, Apresentação e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 2001, 2ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Novalis*: A experiência é a prova do racional, e vice-versa. [frag. 10] & outros fragmentos

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

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          8. A distinção entre ilusão e verdade está na diferença de suas funções vitais. A ilusão vive da verdade; a verdade tem sua vida em si. Aniquila-se a ilusão, como se aniquilam doenças, e a ilusão portanto nada é senão incandescimento lógico ou apagamento, exaltação ou filisteísmo. Aquela costuma deixar atrás de si uma aparente deficiência de faculdade de pensar, que não pode ser removida por nada, a não ser uma série decrescente de incitamentos, meios coercitivos. Este passa frequentemente a uma enganosa vitalidade, cujos perigosos sintomas de revolução só podem ser repelidos através de uma série crescente de meios violentos. Ambas as disposições só podem ser alteradas através de curas crônicas, seguidas com rigor.
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          9. A totalidade de nossa faculdade perceptiva compara-se ao olho. Os objetos têm de passar através de meios opostos, para aparecer corretamente na pupila.
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          10. A experiência é a prova do racional, e vice-versa. A insuficiência da mera teoria na aplicação, sobre a qual o homem prárico frequentemente comenta, encontra-se reciprocamente na aplicação racional da mera experiência, e é notada pelo filósofo genuíno, embora com espontânea admissão da necessidade desse resultado, bastante perceptivelmente. O homem prático rejeita por isso a mera teoria por inteiro, sem pressentir quão problemática poderia ser a tentativa de resposta à questão: “Se a teoria é para a aplicação, ou a aplicação em vista da teoria?”
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          [ . . . ]

(Pólen)

Novalis

          8. Der Unterschied zwischen Wahn und Wahrheit liegt in der Differenz ihrer Lebensfunkzionen. Der Wahn lebt von der Wahrheit; die Wahrheit lebt ihr Leben in sich. Man vernichtet den Wahn, wie man Krankheiten vernichtet, und der Wahn ist also nichts, als logische Entzündung oder Verlöschung, Schwärmerey und Philisterey. Jene hinterläßt gewöhnlich einen scheinbaren Mangel an Denkkraft, der durch nichts zu heben ist, als eine abnehmende Reihe von Inzitamenten, Zwangsmitteln. Diese geht oft in eine trügliche Lebhaftigkeit über, deren gefährliche Revoluzionssymptome nur durch eine zunehmende Reihe gewaltsamer Mittel vertrieben werden können. Beyde Disposizionen können nur durch chronische, streng befolgte Kuren verändert werden.
          9. Unser sämtliches Wahrnehmungsvermögen gleicht dem Auge. Die Objekte müßen durch entgegengesetzte Media durch, um richtig auf der Pupille zu erscheinen.
          10. Die Erfahrung ist die Probe des Razionalen, und so umgekehrt. Die Unzulänglichkeit der bloßen Theorie in der Anwendung, über die der Praktiker oft kommentirt, findet sich gegenseitig in der razionalen Anwendung der bloßen Erfahrung, und wird von den ächten Philosophen, jedoch mit Selbstbescheidung der Nothwendigkeit dieses Erfolgs, vernehmlich genug bemerkt. Der Praktiker verwirft deshalb die bloße Theorie ganz, ohne zu ahnden, wie problematisch die Beantwortung der Frage seyn dürfte: »Ob die Theorie für die Anwendung, oder die Anwendung um der Theorie willen sey?«

          [ . . . ]

(Blüthenstaub)

* Nota deste Verso e Conversa: Acerca da ‘escritura dos primeiros românticos’ que ‘já nasce na forma de fragmento ...’, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo os quatro primeiros parágrafos do Texto/Apresentação Novalis: O Romantismo estudioso, de Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor deste Pólen — Fragmentos ...:
          'O avesso é adverso. As esplêndidas construções sistemáticas que a tradição filosófica nos legou sob o título de “idealismo alemão” (Fichte, Schelling, Hegel) edificam-se sobre um solo de crise — a metafísica minada pela crítica da razão (Kant) — e erguem sua travação conceitual como que a esconjurá-la. Do que se pensou no reverso desses sistemas, no epicentro dessa crise, os escritos do primeiro romantismo (Novalis, Tieck, os irmãos Schlegel) dão alguma medida, e não é de admirar que, já na forma, se apresentam como fragmentários.
          O discurso dos pré-socráticos foi reduzido a fragmentos pela erosão do tempo e as conflagrações da História. A escritura dos primeiros românticos nasce já na forma de fragmento — produto, talvez, de uma erosão e conflagração no próprio pensamento?
          Certo é que essa ideia, que poderia ocorrer a qualquer um, faz parte na verdade da auto-imagem dos próprios românticos, e quem a formulou, devidamente em forma de “fragmento”, foi Friedrich Schlegel (1772 — 1829), já em 1798, na revista Athenaeum: “Muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. Muitas obras dos modernos o são logo em seu surgimento”. (Fragmento nº 24, que Novalis batizou de: “Fragmentos tornados e natos”.)
          Essa espécie da simetria macro-histórica, essa forma, ainda que demasiado sobranceira, de ligar o cabo ao rabo, não deixa de indicar que, em caso de pertinência, a filosofia dos românticos, faria parte marcante da História da Filosofia ocidental.'
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Pólen — Fragmentos, diálogos, monólogos: Novalis, Tradução, Apresentação e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 2001, 2ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.