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terça-feira, 21 de maio de 2019

Friedrich Hölderlin: Canção-do-destino de Hiperião

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[traduzido por Mário Faustino]

Afortunados gênios, que pairais
Na luz acima, pelos prados férteis!
Leves, divinas brisas reluzentes
Vos acalentam
Como dedos de artista
Sobre cordas sagradas.

Despidos de destino, tal dormente
Recém-nascido, assim eles respiram.
Os celestiais: castamente aninhados
Em pétalas sensíveis
Florescem para sempre seus espíritos
E seus olhos benditos
Contemplam sempiterna
Claridade serena.

Ai de nós! que recanto
De repouso nos toca?
Desgraçados humanos
Tombamos e murchamos
Às cegas, de hora a hora
Como de fraga em fraga
A torrente se atira,
Anos abaixo, rumo
ao desconhecido.

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Hyperions Schicksalslied

Ihr wandelt droben im Licht
Auf weichem Boden, selige Genien!
Glänzende Götterlüfte
Rühren euch leicht,
Wie die Finger der Künstlerin
Heilige Saiten.

Schicksallos, wie der schlafende
Säugling, atmen die Himmlischen;
Keusch bewahrt
In bescheidener Knospe,
Blühet ewig
Ihnen der Geist,
Und die seligen Augen
Blicken in stiller
Ewiger Klarheit.

Doch uns ist gegeben,
Auf keiner Stätte zu ruhn;
Es schwinden, es fallen
Die leidenden Menschen
Blindlings von einer
Stunde zur andern,
Wie Wasser von Klippe
Zu Klippe geworfen,
Jahrlang ins Ungewisse hinab.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã  Antologias de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro  RJ; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen am Neckar, foi poeta lírico, romancista e filósofo; bibliografia: A Morte de Empédocles (fragmentos, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799),Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826) etc.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Mário Faustino: Vida toda linguagem

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Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará  oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem 
                                       como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
                      amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva,
tenta fazê-la eterna 
 como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
                                  língua
                                            eterna.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Mário Faustino dos Santos e Silva (1930 1962), piauiense de Teresina, foi jornalista, tradutor, crítico literário e poeta; inicialmente colaborou como cronista no jornal A Província do Pará e notabilizou-se como crítico escrevendo no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil; traduziu Ezra Pound, escreveu O Homem e sua Hora (poesias, 1955) e deixou-nos poemas esparsos publicados em jornais e revistas; foi tradutor da ONU Organização das Nações Unidas, entre 1959 e 1960; morreu em desastre aéreo.