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quarta-feira, 18 de março de 2026

João Guimarães Rosa*: Poemas [Riqueza & Poder estóico & Encorajamento]

 
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Riqueza

Veio ao meu quarto um besouro
de asas verdes e ouro,
e fez do meu quarto uma joalharia...

Poder estóico

Acuado entre brasas,
um escorpião volve o dardo
e faz o hara-kiri...

Encorajamento

Meu desejo corre a ti com velas enfunadas...
Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio:
ele não traz âncora...


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e, embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

domingo, 1 de março de 2026

João Guimarães Rosa*: Sonho de uma Tarde de Inverno

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Fiquei, longamente, a ler, no frio
da tarde quieta,
uma crônica do tempo merovíngio,
dos monges da Abadia de Cluny.
E um rádio gritante trouxe, pela janela,
todo o banzo e o azougue de um samba sensual:
vôo de cantáridas tontas
no hálito de incenso de uma nave,
fenestrada de ogivas e ventanas
e toda colorida de vitrais...

E no vago torpor do meu subsonho,
vi como trabalhava,
extasiado, na penumbra
parda de um meio inverno,
um monge
rendilhador de jóias de ouro,
discípulo, talvez, de Santo Elói:
depois de modelar um cimo de coroa,
com Virtudes de auréola
em meio de anjos louros,
e de cinzelar,
na pasta de sol frio do rebordo
de um anel real,
uma rosácea, um gládio e um globo,
deixou errar seus dedos e seus sonhos,
e fez crescer, no jalde de um cibório,
o relevo de uma Vênus
com um Cupido ao colo...

E era tão bela a sua idéia de ouro,
e foi tão casto e cristão o beijo longo
que ele pôs na deusa,
que a tênue poeira flava do seu êxtase
de pronto se esvaiu.

E então, febril,
murmurando, constante, um exorcismo,
santificando traços, disfarçando os nus,
fez depressa da Vênus uma Virgem,
e do pagãozinho alado um menino Jesus.
Depois, sorrindo, o santo joalheiro
rezou, com outro beijo, a sua contrição...

E mil diabinhos crepitaram nas chamas,
rubros, rindo,
porque agora o seu beijo
fora ardente e pagão...


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.'
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e  embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

João Guimarães Rosa*: Consciência cósmica

 
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Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim…

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado…

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo…


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e, embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

João Guimarães Rosa: Anil

 
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O voo, quase vertical, da jaçanã fugida
levantou meu olhar,
no dorso esbelto, de zinco polido,
à calota do céu,
liso, congelado em calmaria,
e quase sólido, em cobalto líquido.
Pensei que a ave fosse frechar, de cheio,
para pescar peixinhos escamados de ouro:
as estrelas que mergulharam de madrugada…
E que a água longe se abrisse
nos nove círculos concêntricos
das nove beatitudes…

Mas o pássaro foi breve um grânulo dissolvido,
entre nuvens fugindo como flocos de espuma,
com a paisagem a luzir, no seio de uma bolha,
o sol a se desmanchar, como um sabão redondo,
e o céu todo água, num côncavo de bacia
onde lavam o dia…


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e, embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

João Guimarães Rosa*: Lunático

 
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Vou abrir minha janela sobre a noite.
E já bem noite, a lua,
alta a um terço do seu arco,
terá de deslizar pelo meu quarto adentro,
e passear sobre o meu rosto, adormecido e lívido,
quando eu sair a sonhar pelas estradas noturnas,
sem fim, sem marcos, nem encruzilhadas,
que levam à região dos desabrigos…
Sonharei com mares muito brancos,
de águas finas, como um ar dos cimos,
onde o meu corpo sobrenada solto,
por entre nelumbos que passam boiando…
Ouvirei a rainha do País do Suave Sonho,
cantando no alto sempre o mesmo canto,
como a sereia do sempre mais alto…
E a janela se fecha, prendendo aqui dentro
o raio suave que prendia a lua…
Para que eu soçobre no mar dos nenúfares grandes,
onde remoinham as formas inacabadas,
onde vêm morrer as almas, afogadas,
e onde os deuses se olham como num espelho...


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e, embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

sábado, 4 de junho de 2016

Guimarães Rosa *: Hai-Kais

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IMENSIDÃO

Cheiro salgado
de um cavalo suado.
Quem galopa no mar? . . .


ROMANCE  I

No cinzeiro cheio
de cigarros fumados,
os restos de uma carta . . .


EGOÍSMO

Se fosse só eu
a chorar de amor,
sorriria.


MUNDO PEQUENO

O albatroz prepara
breve passeio
de Pólo a Pólo . . .



TURISMO SENTIMENTAL

Viajei toda a Ásia
ao alisar o dorso
da minha gata angorá . . .


TURBULÊNCIA

O vento experimenta
o que irá fazer
com sua liberdade . . .



Nota deste aprendiz de blogueiro:
O livro Magma, de Guimarães Rosa, participou de um concurso de poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras, em 1936, e foi premiado em 1.º lugar. Assim se referiu à obra, o poeta Guilherme de Almeida, relator do concurso:

'...
"Neste, como em qualquer outro torneio, tal obra mereceria sempre um primeiro prêmio. E tão altamente distanciada paira ela sobre as demais, que não me parece possível a concessão, a qualquer outra, de um aproximador segundo prêmio."
...
"Pura, esplêndida poesia."
...
"É, pois, meu parecer que seja o 1.º prêmio do Concurso de Poesia de 1936 concedido ao livro Magma, de João Guimarães Rosa; e que não seja a ninguém, neste torneio, conferido o 2.º prêmio, tão distanciados estão do primeiro premiado os demais concorrentes."
...
São Paulo, 22 de novembro de 1936. Guilherme de Almeida, Relator.'
____________________
Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e Desenhos de Poty, 1997, 2ª. Impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, formado em Medicina, foi diplomata, escritor e também poeta; seu único livro de poesias, Magma (1936), participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, também nesse ano, e, embora tendo sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, além de Magma, escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) Ave, palavra (diversos, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia).

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Guimarães Rosa *: Meu Papagaio

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Toma a palavra, na gaiola alta, 
Papagaio Real, meu Papagaio Louro, 
sisudo e notável discursador!... 
Muito bem!... Apoiado!... 
Assim empoleirado, 
de fraque verde com botões cor de ouro... 

Não sabes, Narigudo Papagaio, 
o quanto admiro cada coisa em ti: 
tua eloquência, teus passinhos tortos, 
teu plastron rubro 
e teu soberbo humor... 

Mais uma vez, meu Papagaio, 
quase humano, 
meu confidente, 
meu consolador! 
Repete, discursando, 
gravemente: 
— "Io t′amo!..." 
— "Je t′aime!..." 
— "I love you!..." 
— "Te amo!..." 
— "Te quiero!..." 
— "Ia vás liubliú!..." 

Vai repetindo, amigo, 
caridoso, 
a cada instante, sem parar, 
tudo o que a minha esquiva amada 
teima em não me dizer... 




Nota deste aprendiz de blogueiro:
O livro Magma, de Guimarães Rosa, participou de um concurso de poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras, em 1936, e foi premiado em 1.º lugar. Assim se referiu à obra o poeta Guilherme de Almeida, relator do concurso:

'...
"Neste, como em qualquer outro torneio, tal obra mereceria sempre um primeiro prêmio. E tão altamente distanciada paira ela sobre as demais, que não me parece possível a concessão, a qualquer outra, de um aproximador segundo prêmio."
...
"Pura, esplêndida poesia."
...
"É, pois, meu parecer que seja o 1.º prêmio do Concurso de Poesia de 1936 concedido ao livro Magma, de João Guimarães Rosa; e que não seja a ninguém, neste torneio, conferido o 2.º prêmio, tão distanciados estão do primeiro premiado os demais concorrentes."
...
São Paulo, 22 de novembro de 1936. Guilherme de Almeida, Relator.'
____________________
Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e Desenhos de Poty, 1997, 2ª. Impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, formado em Medicina, foi diplomata, escritor e também poeta; seu único livro de poesias, Magma (1936), participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, também nesse ano, e, embora tendo sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, além de Magma, escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globoe na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia).

terça-feira, 2 de junho de 2015

Guimarães Rosa *: Bibliocausto

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Que a minha mão não trema
ao deitar no fogo forte e primitivo
todos os traidores
que me deram veneno.

Queimarei o frio
geometrizador da vida
lapidada através de lentes bem polidas
(ah, o horror daquela pedra voando,
tangida pela mão de não sei que demônio,
e a pensar, pelo espaço, que ainda tem arbítrio!...)…

Queimarei o detrator,
maníaco e vaidoso,
que quis deter a vida numa câmara lenta,
para a tingir depois numa câmara escura
(ah, o inferno galopando às doidas
nos cavalos sem freios
da vontade cega e sem destino!...)...

Queimarei o louco,
ébrio de orgulho,
raivoso de fraqueza,
que destilava haxixe em frascos verdes
na paisagem alpina
(ah, o prazer com que ainda o queimaria
em cada uma das voltas pavorosas
do seu Eterno Retorno!...)...

E só ficará comigo
o riso rubro das chamas, alumiando o preto
das estantes vazias.
Porque eu só preciso de pés livres,
de mãos dadas,
e de olhos bem abertos...

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Nota deste aprendiz de blogueiro:
O livro Magma, de Guimarães Rosa, participou de um concurso de poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras, em 1936, e foi premiado em 1.º lugar. Assim se referiu à obra o poeta Guilherme de Almeida, relator do concurso:

'...
"Neste, como em qualquer outro torneio, tal obra mereceria sempre um primeiro prêmio. E tão altamente distanciada paira ela sobre as demais, que não me parece possível a concessão, a qualquer outra, de um aproximador segundo prêmio."
...
"Pura, esplêndida poesia."
...
"É, pois, meu parecer que seja o 1.º prêmio do Concurso de Poesia de 1936 concedido ao livro Magma, de João Guimarães Rosa; e que não seja a ninguém, neste torneio, conferido o 2.º prêmio, tão distanciados estão do primeiro premiado os demais concorrentes."
...
São Paulo, 22 de novembro de 1936. Guilherme de Almeida, Relator.'
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e Desenhos de Poty, 1997, 2ª. Impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, formado em Medicina, foi diplomata, escritor e também poeta; seu único livro de poesias, Magma (1936), participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, também nesse ano, e, mesmo tendo sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, além de Magma, escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia).