Mostrando postagens com marcador Humor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Humor. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Lili Leitão: Em leilão & Operações do amor

 
____________________
Em leilão

Quando o teu coração, poeta, exibiste
uma vez em leilão, para vendê-lo,
na venda original me garantiste
em suma, que era um coração modelo.

E por isso comprei-o, mas, ao vê-lo,
certifiquei-me de que me iludiste:
teu coração é um coração de gelo,
sem fé, sem crença, sem bondade e triste.

Arrependido estou de o ter comprado,
de ter um beijo meu por ele dado,
não tendo ele o valor sequer de um riso.

Podes levá-lo e devolver-me o beijo,
que neste mundo, onde só mágoas vejo,
de coração sem crença eu não preciso!

— o —

Operações do amor

Quando somos solteiros seduzimos,
Perversamente, as moças enganamos,
E as tolinhas, a quem amar fingimos,
São tantas, tantas, tantas, que somamos.

Quando noivos, porém, depois ficamos,
E levamos a sério o que sentimos,
As mentiras de amor que então pregamos
Muito instintivamente diminuímos.

Quando, casados, com fervor gozamos
Da esposa amada os delicados mimos,
A ventura e o prazer multiplicamos.

E, quando somos pais, enfim, sorrimos;
Numa vida feliz que desfrutamos,
A amizade entre os filhos dividimos.

____________________
Lili Leitão, o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas brabas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Lili Leitão: Não

 
____________________
Desde que ao mundo fui arremessado,
Meu destino é igual de Sul a Norte;
Um “Não”, somente um “Não” tenho encontrado,
“Não” no amor, “Não” na gaita*, “Não” na sorte.

E assim venho vivendo amargurado,
Maldizendo a vida e bendizendo a morte;
Nascer foi das asneiras a mais forte
Que involuntariamente hei praticado.

Entretanto, esse “Não” que não me deixa,
Essa constante e eterna negativa,
A direta razão de minha queixa,

Esse “Não” que da mente não me sai
É consequência de uma afirmativa,
De um “Sim” que minha mãe deu a meu pai.


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página aduz acerca do uso da palavra 'gaita', e seu sentido, no soneto ora apresentado:
          gaita [gíria] = dinheiro, grana, bufunfa, dindin, prata, cascalho, tutu.
____________________
Lili Leitão, o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Luiz Leitão: A cagada*


____________________
“Certa vez para dar uma cagada,
ou por outra, passar um telegrama,
embarafustei por uma reservada
de um Café que eu nem sei como se chama.

Entro e, ao cagar, sorte danada:
num dos papéis sujos de merda e lama
vejo o retrato da mulher amada,
por quem meu peito o coração se inflama.

Nisto, interrompo minha caganeira,
pego o retrato dela e boto na algibeira,
satisfeito, sorrindo e suspirando.

Que porco!  hão de dizer  mas eu protesto.
Porque assim procedendo, no meu gesto,
Provei que gosto dela até cagando.”

[Comida brava]


* Nota da edição: Poema gentilmente recitado de memória por Gentil da Costa Lima.
____________________
Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933) e outras...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Lili Leitão: 9º Mandamento & Coruja


____________________
9º Mandamento

Que os padres não me passem sarabanda
Por algum pecadinho que eu tiver;
Pois sou cristão de fato, em qualquer banda,
E hei de morrer assim, se Deus quiser.

Dos mandamentos faço propaganda,
Cumpro-os à risca, como a igreja quer,
Principalmente aquele tal que manda
Não desejar do próximo a mulher.

Apesar de um mortal estar sujeito
Às tentações que neste mundo vejo,
As mulheres dos próximos respeito.

Passei, por elas como passa um monge;
Tanto que da mulher que amo e desejo
O marido está longe... muito longe...

— o —

Coruja

Vai-te, coruja, vai-te, mais distante
pousar de mim, noutro qualquer arbusto,
onde eu não possa ouvir este implicante
gargalhar, que me causa horror e susto!

Não queiras perturbar-me; dormir custo,
ouvindo o teu cantar, coruja errante,
Deixa-me em paz, o que te peço é justo,
ave fatal, nojenta e horripilante!

Vai-te coruja, e seja a derradeira
esta vez em que te ouço, ave agoureira
que de pavor o peito meu trespassa...

Muita aversão eu tenho-te, acredita:
tua presença os nervos meus irrita.
Vai-te, ó prenúncio negro da desgraça!

____________________
Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica "roda", para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Luiz Leitão: Eu e o relógio


____________________
Sou do relógio muito diferente,
Quer no tamanho, quer na formação:
Se trabalho como ele, diariamente,
É apenas para defender o pão.

Nada tenho comigo, propriamente,
Que se lhe tome por comparação,
Apesar de existir constantemente,
Um tic-tac no meu coração.

Eu sou de carne e ando sem corda, ao passo
Que o relógio que é feito de metais.
Trabalha à custa de uma corda de aço.

Até nisto nós somos desiguais:
Contrario o relógio, nada faço:
Se me dão corda, não trabalho mais...

([tablóide] O Almofadinha}

____________________
Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933) e outras...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Lili Leitão: Nosso amor & Meu casório


____________________
Nosso Amor

Foi num colégio público que andamos
juntos outrora, juntos aprendendo,
que muita vez, ingênuos, conversamos,
formosa, e que eu fiquei te conhecendo.

Depois, um dia, alfim, nos separamos
e nisso fomos, flor, ambos crescendo;
e bom tempo passou-se, que passamos
sem te ver, sem me veres, não nos vendo.

Porém, o acaso novamente quis
que nós nos encontrássemos, ó flor...
Bendito acaso, divinal, feliz!

Pois nesse encontro, no mais vivo andor,
foi que promessas lânguidas te fiz
e a roseira floriu do nosso amor!

— o —

Meu casório

Caso-me em breve, está determinado:
Vou deixar de bancar o solteirão.
Já tenho tudo pronto e preparado:
Papéis, igreja, padre e sacristão.

Já comprei uma cama de casado,
Dessas largas, macias, de enxergão,
Um terno almofadinha, bem cintado,
E uma casaca de segunda mão.

Comprei também chupetas, mamadeiras,
Fraldas, touquinhas e outras baboseiras,
Para os bebês que, um dia, Deus me der.

Meu casamento é um caso decidido,
Pois para muito breve ser marido
Só me falta arranjar uma mulher.

____________________
Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sábado, 9 de setembro de 2023

Padre Correia de Almeida: Ele ou Ela?


____________________
Da Mensageira, Revista
dada à luz na Paulicéia,
uma questão ponho à vista,
e não é theodicéia.
As eruditas senhoras
que ilustram a Mensageira
certamente são credoras
de saudação lisonjeira.
Eu, portanto, mui sincero
as cumprimento e saúdo;
no acolhimento, que espero,
estribo-me e não me iludo.
E conto que elas me escutem
atentas, benevolentes;
pois casos que se discutem
não se topam indolentes.
Vou falar das criaturas
que povoam este globo,
quer boas, quer más figuras,
homem, mulher, loba ou lobo.
A preferência dos sexos
é o ponto discutível,
e eu, sem rodeios complexos,
direi qual o preferível.
Que é mais garboso o cavalo
do que sua companheira
não é preciso prová-lo
nem há aí quem o requeira.
A mais formosa vitela,
de mais luzidio couro,
de ser desenhada em tela
é menos digna que um touro.
Se em crista, em cores, em cauda
o galo vence a galinha,
para que melhor se aplauda,
o paralelo se alinha.
Se o passarinho bem canta,
fica sabido que é macho,
nem mais questão se levanta,
pois motivos lhe não acho.
Se o peru todo enfunado
no brio se conceitua,
não tem crédito abonado
a cabisbaixa perua.
Vai sendo dito e redito,
e a fama não corre, voa,
que um pavão é tão bonito,
quanto é feia uma pavoa.
Não ser o pato vaidoso,
comparado com a pata,
caso é assaz duvidoso,
e que não se desempata.
Incapaz de aleivosia,
se discorro desta sorte,
não é porque primazia
queira dar ao sexo forte.
Longe mim tal intento,
nesta medalha há reverso,
e demonstrá-lo é o que tento
neste meu prosaico verso.
O meu intuito é discreto,
não sei jogar por tabela
e aceito como decreto
o parecer de uma bela.
Sem timidez nem fraqueza,
pois que nenhuma é medrosa,
cada uma com franqueza
exprima-se em verso ou prosa.
Declare a mais erudita,
assim em forma de esboço,
se acha a moça mais bonita,
ou se é mais bonito o moço.
Com a candura de um anjo,
cujas vistas não são baças,
encare bem um marmanjo,
olhe bem para um barbaças.
E nesta questão pendente,
se ser franca bem o pode,
fotografe um pretendente,
figurino de bigode.
Merece fotografia,
e menção em treva ou copla!
A mão ele nunca enfia,
Por ser maior que a manopla!
E quanto ao pé, não falemos,
nem o castelo se arrase!
Descende dos Polyphemos,
a julgar-se pela base!
Raciocinando com jeito,
e dando o seu a seu dono,
veja se um outro sujeito
não escapou de ser mono.
Repare se o mais janota,
que é besouro quando canta,
não tem um nó que se nota,
e lhe faz grossa a garganta.
Diga tudo quanto saiba,
ajuste o direito ao fato,
e, ainda que bem não caiba,
a execução eu lhe acato.
Se as razões que há pró e contra
com restrições eu lhe aplaudo,
a incerteza que se encontra
exige de mim um laudo.
Não dou muito apreço às raças
em cujo instinto há fereza,
para não fazer pirraças
ao primor da natureza.
E exponho, enfim, o meu voto,
que pouco influi no libelo:
O sexo que é mais devoto
É sem dúvida o mais belo.

Barbacena, 24 de Fever[eiro] de 1898.
P. Corrêa de Almeida

[A Mensageira — São Paulo,
15 de março de 1898 — Ano I, nº II]

____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; José Joaquim Correia de Almeida (1820 1905), mineiro de Barbacena, foi professor de latim e poeta satírico; presbítero secular (padre), ordenado em 1844, Correia de Almeida logo teve as ordens sacerdotais cassadas por uma vez ter revelado, em poemas, coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou no segredo do confessionário; suas obras: Satyras, epigramas e outras poesias (1ª edição em 1854), A república dos tolos — dois volumes (1881 e 1887), Sonetos e sonetinhos (1884), Sonetos e sonetinhos — 2º volume (1887), Sensaborias métricas — 2 volumes (1890 e 1892), Decrepitudes metromaníacas (1894), Produções da caducidade (1896), Puerilidades de um macróbio (1898), entre outros.

domingo, 16 de abril de 2023

Fernando Santoro *: O Louro (e a Filosofia da Decomposição)

____________________
Paródia paranóica do Corno, digo d'Corvo, de Edgar Allan Poe (ler com sotaque americano).

Numa madrugada brava, em que ao leito eu deleitava,
e eu fintava e eu driblava, respingado de suor,
pelo corpo ali desnudo, mui cheiroso e manteúdo,
quando entrei com bola e tudo corpo adentro de Lenor';
como o gol quando a torcida enlouquecida comemor'
              (era mais que brasa, mor'?)

Quando alcei minha bandeira do timão quando goleia
pelo amor comprometido desta cálida senhor'
ai, que gemia, gemia, como o leito que rangia,
demos de ouvir que batia, na porta do lado de for'
"Toc-toc" (uma fria) "Quem será, do lado de for'?"
              "Edgar a esta hor'?"

"Não: ele possui a chave." disse ela num tom grave.
"E viaja ao estrangeiro, não há de voltar agor'.
É somente algum vizinho. Volto já, bem rapidinho."
Desgarrou dos meus carinhos, se vestindo sem demor'.
esperei, pastor sereno, vendo seus pés ir embor'...
              minha ovelha vai: Lenor'!

Nos lençóis fiquei suado, em cios d'ócio cerrado
escutando longe "Senhor...", ela dizer, ou "senhor'
que chegai assim tão tarde, perdoai à minha parte
que não abra minhas grades, pois a noite me apavor'
eu a sós tenho arrepios, não consigo abrir a por'
              Voltai amanhã, outr' hor'."

Espiou na gelosia e expirou pelo que via
"É Ninguém!", olhou de novo, "Não tem viv'alma lá for'!"
Lá em frente levantada, ficou contemplando o nada
pela lua iluminada. Da sombra gritei: "Lenor',
vem, não foi ninguém, meu Bem, só uma brisa um pouco sonor'.
              vem meu docinho de amor' "

Ela vinha armando o bole, lânguida com passo mole
quando um ruído a sobressalta, por pouco não evapor':
ao voar um louro ao quarto, penetrado no entreato
pela janela do lado, feita a espiar lá for'.
que Lenora, sem cuidado, encostou-se e foi-se embor'.
              "Vê: um louro e só, Lenor'!"

Ela riu com guizo e gozo, se despiu e quis de novo,
"Viste? Não foi Edgar, Bem. Toda tua estou por hor'..."
Ao ouvir 'por ora' eu morro e vejo as garras de agouro
deste louro sobre o torso de Priapo de Lenor',
"Papagaio empoleirado, qual tua graça? És Lady ou Lor'?"
              e ele disse: "Qualquer hor'."

"Mas que louro boa praça, o fofo fala e com graça!
vem, bichinho, com a titia, dá a patinha prá Lenor'."
(Ai, mulher quando ama bicho, trata o homem como um lixo,
e o meu rouxinol no nicho foi largado sem demor'
pela arara devorada ao deus Priapo de Lenor'
              que falava "qualquer hor' ".)

"Teu amor, se é fingido, um passatempo sem marido,
fica aí com o papagaio, tchau, adeus eu vou embor'.
Nosso amor, se é confete, um caso curto, um curto flerte,
quando poderei rever-te? Diz um dia e diz a hor'."
Antes que ela respondesse, antes que ela desse um for',
              entra o louro: "Qualquer hor'."

Ao meu lado então Lenora voltou lépida: "Ora, ora,
mas que pássaro assanhado, chegou justo no melhor,
vai-te agora ave amestrada, vai seguir a tua estrada
mas, ao ir, ave estudada, repete a lição de cor 
Quando encontro meu amado, qual momento ardente mor?"
              e ave disse: "Qualquer hor'."

"Pára, espera! Ave da peste." Resolvi fazer um teste,
(pois bandeira ao ser guardada fica tímida, menor...
requisita lábios quentes, língua doce, dedos, dentes...
e a resposta renitente me excitava com Lenor')
Chamo o louro de meu louro, antes que ele vá-se embor'.
              "Venha cá, ô Qualqueror'!

"Se a mulher já tem traído tantas vezes seu marido
com amante destemido que com muito amor namor',
Considera a preferência, usa a tua sapiência,
doutor louro na indecência, quantas vezes a senhor'
deve vir sem resistência quando seu amante implor'?"
              disse o louro: "Qualquer hor'."

"Mas, meu louro", Ela retruca, já me armando uma arapuca,
"Se o amante é quem dá mole, se ele embroma na demor'
Se a batuta não se anima e o concerto desafina...
Quando eu, mulher grã-fina, que não sou de jogar for',
Posso procurar um outro de uma prontidão melhor?"
              Pronto o louro: "Qualquer hor'."

" Onde aprendeste, em que casta, este estribilho iconoclasta
Foi num consultório aberto, um lupanar de vulta flor",
sala de um doutor dentista, num poleiro de analista
foi ouvindo um jornalista de um programa de auditór'?
Não responda seu lorota! Puxe as asas vai-te embor'!"
               Nem deu bola e: "Qualquer hor'."

"Louro", disse-lhe, "peralta! e na calada ave pirata,
que nem foge ou sai de cima, louro parco, empada, for'!
Já não basta o teu marido que atrapalha o meu cozido,
Vem agora este sabido desandar a minha tor' 
Ah! Lenora, quando a dita rebelou-se como agor'?"
              Louro espalha: "Qualquer hor'."

"Louro", disse ela, "peralta! e na calada ave pirata!
Venha louro catalépto, vê se agora colabor'
Diga ao meu amor, meu rico, senão jogo-te o pinico
Diz ou eu te quebro o bico, te depeno e te devor'
quando encontro o meu marido, qual momento é bem pior?"
              respondeu-lhe: "Qualquer hor'..."

... É agora! Entrou com flores, Edgar saudou de amores:
"Lêê... Surpresa!" e, sem graça: "Surpresa..." responde Lenor'
e "Surpreso" então repito, como um gentleman aflito
muito avesso a tais conflitos. Mais um caso que evapor':
pensam juntos, de uma vez, e falam três a mesma hor':
              "nunca mais a qualquer hor'!"

E o louro estabanado bate as asas no Priapo
cujos cacos no assoalho se espalham além da por'.
Grito seu de ave acuada é mui sonsa (ai) gargalhada,
que se espalha em revoada mais que os cacos sob a por'
e se ouve redobrado como um eco que apavor'
              se os pisar a qualquer hor'...

Fernando  Santoro

* Fernando Santor’ (este aprendiz de blogueiro não resiste, escreve com 'sotaque americano' o nome do autor), tem extensa produção filosófica publicada em jornais, revistas especializadas e em livros.
____________________
Poesia (e) Filosofia — por poetas filósofos em atuação no Brasil, Organização de Alberto Pucheu, 1998, Sette Letras, Rio de Janeiro — RJ; Fernando José de Santoro Moreira, do Rio de Janeiro, nascido em 1968, graduado em filosofia pela UFRJ  Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Literatura e Civilização Francesa em Nancy III, mestre e doutor em Filosofia (UFRJ) e pós-doutor pela Université Paris Sorbonne Paris IV, é professor, pesquisador, ensaísta, pensador, escritor e poeta; possui vínculo institucional com a UFRJ Filosofia, dirige o Laboratório OUSIA de Estudos em Filosofia Clássica e integra o GdRI Groupement de recherche internationaux 'Philosopher em Langue. Comparatiems e traduction', do CNRS  Centre national de la recherche scientifique; suas obras: Agravo (1991), Poesia e Verdade (1994), Imaculada (poesia, 1996), O Poema de Parmênides: Da Natureza, vol. I (2006), Arqueologia dos Prazeres (2007), Filósofos Épicos, vol I 'Xenófanes e Parmênides' (2011) e outros títulos.