____________________
As primas
vinham ensaboar as de missa.
Enchiam a
bacia de espuma, Tialzi cuspia dentro,
ai que
nojo. Mesmo assim, tão bonito!
As
calcinhas de Tialzi amarelavam no fundo,
dois,
três dias na grama, marronzavam.
Eu andava
em círculos, escutava conversa,
Interrogava
com apertada atenção.
Quando de
tão calada me notavam, eram as pragas.
Tão boas,
tão como devem ser que eu desinteressava,
Ia chamar
Letícia pra brincar.
Medo que
eu tinha era não ter mistério.
____________________
Bagagem —
Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP;
Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, fez
seus estudos iniciais no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e no Ginásio Nossa
Senhora do Sagrado Coração, cursou o magistério na Escola Normal Mário
Casassanta e fez filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Divinópolis, professora e filósofa, é contista e poetisa; como professora,
começou a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955;
exerceu o ofício no magistério por 24 anos, em várias instituições de ensino de
sua Divinópolis; na publicação de seu livro de estréia (Bagagem: poemas), em
1976, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético; suas obras: em
poesia, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976), O coração disparado (agraciado com
o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova
Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987),
A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo,
1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010)
etc., em prosa, Solte os Cachorros (contos, 1979), Cacos para um Vitral (1980),
Os Componentes da Banda (1984), Manuscritos de Filipa (1999), Filandras (2001);
a poetisa participou de várias antologias e teve obras vertidas para os idiomas
espanhol, inglês e italiano, entre os quais The Headlong Heart (O Coração
Disparado, inclui também poemas de Terra de Santa Cruz e Bagagem), The
Alphabeth in the Park (O Alfabeto no Parque: seleção de poemas), El Corazón
Disparado, Bagaje (Bagagem) e Poesie (Poesia: antologia em italiano);
premiações recebidas: além do Prêmio Jabuti (por O Coração Disparado, 1978), a
poetisa foi agraciada em 2024, com o Prêmio Camões (por sua obra em língua
portuguesa) e o Prêmio Machado de Assis (da ABL — Academia Brasileira de
Letras); Adélia Prado permanece morando em Divinópolis, sua cidade natal.


