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domingo, 4 de janeiro de 2026

Adélia Prado: Rebrinco

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As primas vinham ensaboar as de missa.
Enchiam a bacia de espuma, Tialzi cuspia dentro,
ai que nojo. Mesmo assim, tão bonito!
As calcinhas de Tialzi amarelavam no fundo,
dois, três dias na grama, marronzavam.
Eu andava em círculos, escutava conversa,
Interrogava com apertada atenção.
Quando de tão calada me notavam, eram as pragas.
Tão boas, tão como devem ser que eu desinteressava,
Ia chamar Letícia pra brincar.
Medo que eu tinha era não ter mistério.

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, cursou o magistério na Escola Normal Mário Casassanta e fez filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, professora e filósofa, é contista e poetisa; como professora, começou a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955; exerceu o ofício no magistério por 24 anos, em várias instituições de ensino de sua Divinópolis; na publicação de seu livro de estréia (Bagagem: poemas), em 1976, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético; suas obras: em poesia, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976), O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010) etc., em prosa, Solte os Cachorros (contos, 1979), Cacos para um Vitral (1980), Os Componentes da Banda (1984), Manuscritos de Filipa (1999), Filandras (2001); a poetisa participou de várias antologias e teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano, entre os quais The Headlong Heart (O Coração Disparado, inclui também poemas de Terra de Santa Cruz e Bagagem), The Alphabeth in the Park (O Alfabeto no Parque: seleção de poemas), El Corazón Disparado, Bagaje (Bagagem) e Poesie (Poesia: antologia em italiano); premiações recebidas: além do Prêmio Jabuti (por O Coração Disparado, 1978), a poetisa foi agraciada em 2024, com o Prêmio Camões (por sua obra em língua portuguesa) e o Prêmio Machado de Assis (da ABL Academia Brasileira de Letras); Adélia Prado permanece morando em Divinópolis, sua cidade natal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Adélia Prado: Roxo

 
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Roxo aperta.
Roxo é travoso e estreito.
Roxo é a cordis, vexatório,
uma doidura pra amanhecer.
A paixão de Jesus é roxa e branca,
pertinho da alegria.
Roxo é travoso, vai madurecer.
Roxo é bonito e eu gosto.
Gosta dele o amarelo.
O céu roxeia de manhã e de tarde,
uma rosa vermelha envelhecendo.
Cavalgo caçando o roxo,
lembrança triste, bonina.
Campeio amor pra roxeamar paixonada,
o roxo por gosto e sina.

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, cursou o magistério na Escola Normal Mário Casassanta e fez filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, professora e filósofa, é contista e poetisa; como professora, começou a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955; exerceu o ofício no magistério por 24 anos, em várias instituições de ensino de sua Divinópolis; na publicação de seu livro de estréia (Bagagem: poemas), em 1976, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético; suas obras: em poesia, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976), O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010) etc., em prosa, Solte os Cachorros (contos, 1979), Cacos para um Vitral (1980), Os Componentes da Banda (1984), Manuscritos de Filipa (1999), Filandras (2001); a poetisa participou de várias antologias e teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano, entre os quais The Headlong Heart (O Coração Disparado, inclui também poemas de Terra de Santa Cruz e Bagagem), The Alphabeth in the Park (O Alfabeto no Parque: seleção de poemas), El Corazón Disparado, Bagaje (Bagagem) e Poesie (Poesia: antologia em italiano); premiações recebidas: além do Prêmio Jabuti (por O Coração Disparado, 1978), a poetisa foi agraciada em 2024, com o Prêmio Camões (por sua obra em língua portuguesa) e o Prêmio Machado de Assis (da ABL Academia Brasileira de Letras); Adélia Prado permanece morando em Divinópolis, sua cidade natal.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Adélia Prado: Episódio

 
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Ele tinha o costume de gesticular seu pensamento,
de sorte que estar parado era já ter compreendido
ou não ter dúvidas. Foi um abalo enorme quando se deu o que conto,
porque ultimamente ocupava a compreensão em tomar os remédios,
não comer sal, medir cor e volume de sua urina difícil.
Sem que ninguém suspeitasse ficou em pé na sala
e começou a cantar, pondo e tirando da jarra o galhinho de flor,
a voz como antes, firme, alta, grossa, anterior
a qualquer debilidade do seu corpo.
Um susto às avessas do susto foi o nosso,
porque a barriga dele continuava altíssima e alagava a mina
rompida de sua perna. Fugimos como nas guerras.
Um de nós foi chorar na privada, outro no quintal,
eu inventei uma barata pra matar com um chinelo.
A alegria dele desertava, quase, do que fosse
uma alegria humana e não estávamos à altura de entendê-la.
Sofrer era muito mais fácil.

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, cursou o magistério na Escola Normal Mário Casassanta e fez filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, professora e filósofa, é contista e poetisa; como professora, começou a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955; exerceu o ofício no magistério por 24 anos, em várias instituições de ensino de sua Divinópolis; na publicação de seu livro de estréia (Bagagem: poemas), em 1976, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético; suas obras: em poesia, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976), O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010) etc., em prosa, Solte os Cachorros (contos, 1979), Cacos para um Vitral (1980), Os Componentes da Banda (1984), Manuscritos de Filipa (1999), Filandras (2001); a poetisa participou de várias antologias e teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano, entre os quais The Headlong Heart (O Coração Disparado, inclui também poemas de Terra de Santa Cruz e Bagagem), The Alphabeth in the Park (O Alfabeto no Parque: seleção de poemas), El Corazón Disparado, Bagaje (Bagagem) e Poesie (Poesia: antologia em italiano); premiações recebidas: além do Prêmio Jabuti (por O Coração Disparado, 1978), a poetisa foi agraciada em 2024, com o Prêmio Camões (por sua obra em língua portuguesa) e o Prêmio Machado de Assis (da ABL Academia Brasileira de Letras); Adélia Prado permanece morando em Divinópolis, sua cidade natal.

sábado, 1 de novembro de 2025

Adélia Prado: A Meio Pau

 
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Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
coisas que não dou a qualquer pessoa
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, cursou o magistério na Escola Normal Mário Casassanta e fez filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, professora e filósofa, é contista e poetisa; como professora, começou a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955; exerceu o ofício no magistério por 24 anos, em várias instituições de ensino de sua Divinópolis; na publicação de seu livro de estréia (Bagagem: poemas), em 1976, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético; suas obras: em poesia, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976), O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010) etc., em prosa, Solte os Cachorros (contos, 1979), Cacos para um Vitral (1980), Os Componentes da Banda (1984), Manuscritos de Filipa (1999), Filandras (2001); a poetisa participou de várias antologias e teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano, entre os quais The Headlong Heart (O Coração Disparado, inclui também poemas de Terra de Santa Cruz e Bagagem), The Alphabeth in the Park (O Alfabeto no Parque: seleção de poemas), El Corazón Disparado, Bagaje (Bagagem) e Poesie (Poesia: antologia em italiano); premiações recebidas: além do Prêmio Jabuti (por O Coração Disparado, 1978), a poetisa foi agraciada em 2024, com o Prêmio Camões (por sua obra em língua portuguesa) e o Prêmio Machado de Assis (da ABL  Academia Brasileira de Letras); Adélia Prado permanece morando em Divinópolis, sua cidade natal.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Adélia Prado: Amor Feinho

 
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Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, cursou o magistério na Escola Normal Mário Casassanta e fez filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, professora e filósofa, é contista e poetisa; como professora, começou a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955; exerceu o ofício no magistério por 24 anos, em várias instituições de ensino de sua Divinópolis; na publicação de seu livro de estréia (Bagagem: poemas), em 1976, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético; suas obras: em poesia, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976), O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010) etc., em prosa, Solte os Cachorros (contos, 1979), Cacos para um Vitral (1980), Os Componentes da Banda (1984), Manuscritos de Filipa (1999), Filandras (2001); a poetisa participou de várias antologias e teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano, entre os quais The Headlong Heart (O Coração Disparado, inclui também poemas de Terra de Santa Cruz e Bagagem), The Alphabeth in the Park (O Alfabeto no Parque: seleção de poemas), El Corazón Disparado, Bagaje (Bagagem) e Poesie (Poesia: antologia em italiano); premiações recebidas: além do Prêmio Jabuti (por O Coração Disparado, 1978), a poetisa foi agraciada em 2024, com o Prêmio Camões (por sua obra em língua portuguesa) e o Prêmio Machado de Assis (da ABL Academia Brasileira de Letras); Adélia Prado permanece morando em Divinópolis, sua cidade natal.

sábado, 19 de outubro de 2019

Adélia Prado: Canícula *

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Ao meio dia, deságua o amor,
os sonhos mais frescos e intrigantes;
estou onde estão as torrentes.
Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas,
tomado de bananeiras, só bananeiras,
altas como coqueiros.
Chego e é na beira do mar encrespado de correntezas,
sorvedouros azuis.
Há um perigo sobre faixa exígua
que é de areia e é branca.
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.


Adélia Prado

Canicule

À midi débouche l’ amour
les rêves les plus frais et les plus intrigants;
je suis où sont les torrents.
Autour de la maison du maître s’élargit un verger sans enclos,
pris par les bananiers, seulement des bananiers,
hauts comme des cocotiers.
J’ arrive et c’est au bord de la mer crépue de courants,
des gouffres bleus.
Il y a un danger sur la bande exiguë
qui est de sable et qui est blanche.
Je veux des bracelets
et la compagnie du mâle que j’ai choisi.


* Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves/Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilingue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — FrançaAdélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, formada em Filosofia, poeta e professora, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos; teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês, italiano e francês.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Adélia Prado: Antes do nome

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Não me importa a palavra, esta corriqueira. 
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, 
os sítios escuros onde nasce o «de», o «aliás», 
o «o», o «porém» e o «que», esta incompreensível 
muleta que me apóia. 
Quem entender a linguagem entende Deus 
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender. 
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, 
foi inventada para ser calada. 
Em momentos de graça, infrequentíssimos, 
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. 
Puro susto e terror.

Bagagem  1976

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935,  mineira de Divinópolis, formada em Filosofia, poeta e professora, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988),  Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos; teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Adélia Prado: Uma vez visto

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Para o homem com a flauta,
sua boca e mãos,
eu fico calada.
Me viro em dócil,
sábia de fazer com veludos
uma caixa.
O homem com a flauta
é meu susto pênsil
que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta,
boca é boca,
mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo
roendo o inroível amor.
O homem com a flauta existe?

Bagagem — 1976

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935,  mineira de Divinópolis, formada em Filosofia, poeta e professora, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988),  Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos; teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano.

sábado, 31 de março de 2018

Adélia Prado: O que a musa eterna canta

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Cesse de uma vez meu vão desejo
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
“Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros”.
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as maltraçadas linhas.

Bagagem  1976

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935,  mineira de Divinópolis, formada em Filosofia, poeta e professora, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988),  Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos; teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Adélia Prado: Com licença poética

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Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
 dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

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Bagagem  Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo  SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935,  mineira de Divinópolis, formada em Filosofia, poeta e professora, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988),  Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos; teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Adélia Prado: Ensinamento

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Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
'coitado, até essa hora no serviço pesado'.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Bagagem  1976

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Reunião de Poesia — Adélia Prado (poemas selecionados), Prefácio de Adilson Citelli, segunda edição, 2013, Edições BestBolso, Rio de Janeiro — RJ; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, formada em Filosofia, poeta e professora, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos; teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Adélia Prado: Neurolinguística

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Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.

(Oráculos de maio, 1999)

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Reunião de Poesia — Adélia Prado (poemas selecionados), Prefácio de Adilson Citelli, segunda edição, 2013, Edições BestBolso, Rio de Janeiro — RJ; Adélia Luzia Prado de Freitas, poeta, nascida em Divinópolis MG, em 1935, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos.