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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Gonzaga Duque: Instantâneo de B. Lopes

 
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                    Entra o poeta, espalhafatoso no seu vestuário, uma camisa azul, enorme laçaria de sede creme presa sob as pontas largas dum colarinho branco, calças de xadrez dançando nas pernas, polainas de brim, um pára-sol de “foulard” amarelo, um chapéu de palha branca, e na lapela do jaquetão um “bouquet”, verdadeiramente um “bouquet”. Nada menos de três cravos vermelhos e duas rosas “tela de ouro”.
                    “Sinhá Flor” está ali, a dois passos, bebericando um vermouth, em companhia dumas raparigas.
                    Lopes entra, pára, relanceia o olhar pela sala, corresponde à saudação de alguns camaradas com um gesto intraduzível pelo que tinha de largo e de ridículo e, sem a menor consciência da responsabilidade daquelas senhoras, arranca da lapela o seu “bouquet” e desfolha-o, “desfolha-o” na cabeça da Mameluca!
                    O escândalo foi indizível.
                    Ato contínuo, como se houvera feito a coisa mais simples deste mundo, e, enquanto as senhoras assim afrontadas se retiravam, dirige-se ao balcão, pede um copo de vinho do Porto e numa voz estridente, volta-se para os assistentes: “Viva la Gracia”!
                    
(Do Diário Íntimo, in Autores e Livros,
 suplemento literário de A Manhã, 18-10-1942.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 2ª edição, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Luís de Gonzaga Duque Estrada (1863 — 1911), carioca, frequentou os colégios Abílio, Paixão (Petrópolis) e Meneses Vieira, foi jornalista e escritor; em 1880, foi cofundador da revista Guanabara, depois colaborou na revista Gazetinha, do dramaturgo e poeta Artur Azevedo, e na Gazeta da Tarde, órgão abolicionista de José do Patrocínio, foi crítico de arte em A Semana, também foi cofundador da Rio Revista, da revista simbolista Galáxia, dos periódicos Mercúrio e Fon-Fon, além de ter colaborado nas revistas simbolistas Vera Cruz, Rosa Cruz e Kosmos; bibliografia: Mocidade Morta (1889, 2ª edição em 1971), Horto de Mágoas (contos e fantasias em prosa poética, 1914); de sua biografia, consta ter sido uma das mais importantes expressões do Simbolismo brasileiro.