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segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Filinto Elísio: Estende o manto, estende, ó Noite escura . . . [soneto]


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Estende o manto, estende, ó Noite escura
enluta de horror feio o alegre prado;
molda-o bem co'o pesar dum desgraçado,
a quem nem feições lembram da Ventura.

Nubla as estrelas, Céu; que esta amargura,
em que se agora ceva o meu cuidado,
gostará de ver tudo assim trajado
da negra cor da minha Desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
rebente o mar em vão em ocos rochedos,
solte-se o Céu em grossas lanças de água:

consolar-me só podem já pesares;
quero nutrir-me de arriscados medos,
quero saciar de mágoa a minha mágoa.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Manuel do Nascimento (1734 1819), português e lisboeta, conhecido literariamente pelos pseudônimos Filinto Elísio ou Niceno, foi sacerdote, poeta do Arcadismo, prosador e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve que fugir para Paris França e ali viveu até sua morte; durante o exílio, Filinto Elísio ocupou-se como tradutor, para sobreviver, pois todos seus bens haviam sido sequestrados; escreveu e publicou: Obras Completas (11 tomos, 1817 1819), Vida e Feitos de D. Manuel; traduziu La Fontaine ('As Fábulas', 1816), Chateaubriand (‘Os Mártires’), Sílio Itálico (‘Púnica’) ... e verteu para o francês, Mariana Alcoforado (‘Lettres Portugaises’).

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Francisco Manuel do Nascimento: À Violeta [Liras]

 
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[Liras]

Quando Adônis morreu do ebúrneo dente
           Do javali cerdoso,
Lívida cor lavrou incontinenti
           Pelo corpo formoso.

Vênus, com prantos, com cruéis saudades
           A terra enternecia,
Enternecia as altas divindades
           Da olímpia monarquia.

Jove, que amou, e que se compadece
           Duma Vênus chorando,
Mandou que a terra em torno florescesse
           Do moço miserando;

E a flor trouxesse em si a cor escura,
           Que tanta pena dava
Aos olhos da saudosa formosura.
           A terra, a quem regava

A corrente das lágrimas mimosas,
           O cio úmido abrindo,
Violetas brotou, que maviosas
           A dor lhe estão sentindo.

"Sereis entre os amantes, e os poetas,
           "Todo o tempo futuro
(Vênus disse:) "Oh terníssimas violetas,
           "Símbolo de amor puro."

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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Manuel do Nascimento (1734 1819), português e lisboeta, conhecido literariamente pelos pseudônimos Filinto Elísio ou Niceno, foi sacerdote, poeta do Arcadismo, prosador e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve que fugir para Paris França e ali viveu até sua morte; durante o exílio, Filinto Elísio ocupou-se como tradutor, para sobreviver, pois todos seus bens haviam sido sequestrados; suas obras: Obras Completas (11 tomos, 1817 1819), Vida e Feitos de D. Manuel; traduziu La Fontaine ('As Fábulas', 1816), Chateaubriand (‘Os Mártires’), Sílio Itálico  (‘Púnica’) ... e verteu para o francês, Mariana Alcoforado (‘Lettres Portugaises’).

terça-feira, 27 de julho de 2021

Francisco Manuel do Nascimento: Já vem a primavera, desfraldando . . . [soneto]

 
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Já vem a primavera, desfraldando
Pelos ares as roupas perfumadas,
E os rios vão, nas águas jaspeadas,
Os frondíferos troncos retratando;

Vão-se as neves dos montes debruçando
Em tortuosas serpes argentadas;
Pelas veigas, o gado, alcatifadas,
A esmeraldina felpa vai tosando.

Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
E a natureza as melindrosas cores
Esmera na pintura das boninas.

Ah! Se assim como brotam novas flores,
Se remoça todo o orbe... das ruínas
Dos zelos renascessem meus amores!

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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Manuel do Nascimento (1734 1819), português e lisboeta, conhecido literariamente pelos pseudônimos Filinto Elísio ou Niceno, foi sacerdote, poeta do Arcadismo, prosador e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve que fugir para Paris — França e ali viveu até sua morte; durante o exílio, Filinto Elísio ocupou-se como tradutor, para sobreviver, pois todos seus bens haviam sido sequestrados; obras: Obras Completas (11 tomos, 1817 1819), Vida e Feitos de D. Manuel; traduziu La Fontaine ('As Fábulas', 1816), Chateaubriand (‘Os Mártires’), Sílio Itálico (‘Púnica’) ... e verteu para o francês, Mariana Alcoforado (‘Lettres Portugaises’).

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Francisco Manuel do Nascimento: Dormias Márcia, e eu vi Cupido ansioso, . . .

 
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[Madrigal]

Dormias Márcia, e eu vi Cupido ansioso,
Já dum, já doutro lado
Querer furtar-te um beijo gracioso,
Que tu, a cada arquejo descansado,
Na linda boca urdias.
Graciosíssimo, oh! Márcia!... Não sabias
Como o nume girava de alvoroço,
Escolhendo-lhe o jeito
De o dar do melhor lado. Eu vim, e dei-to
Bem na boca, e logrei o esperto moço.

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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Manuel do Nascimento (1734 1819), português e lisboeta, conhecido literariamente pelos pseudônimos Filinto Elísio ou Niceno, foi sacerdote, poeta do Arcadismo, prosador e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve que fugir para Paris França e ali viveu até sua morte; durante o exílio, Filinto Elísio ocupou-se como tradutor, para sobreviver, pois todos seus bens haviam sido sequestrados; obras: Obras Completas (11 tomos, 1817 1819), Vida e Feitos de D. Manuel; traduziu La Fontaine ('As Fábulas', 1816), Chateaubriand (‘Os Mártires’), Sílio Itálico (‘Púnica’) ... e verteu para o francês, Mariana Alcoforado (‘Lettres Portugaises’).

domingo, 4 de julho de 2021

Filinto Elísio*: Epigrama

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Este aqui, tenda, aquele assenta banca;
um ganha com padeiro, outro com tranca**,
Cada um labora nesse escasso mundo
com mister, com ofício, ou benefício.
Clori acertou, que com saber profundo,
na alcova a loja abriu do seu ofício.


Notas de Sergio Faraco:
* Pseudônimo de Francisco Manuel do Nascimento;
** Carregador “de pau e corda”, moço de fretes, mariola.
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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Filinto Elísio (1734 1819), ou Niceno, pseudônimos de Francisco Manuel do Nascimento, português e lisboeta, foi sacerdote, poeta do Arcadismo e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve que se exilar em Paris França, ali tendo se ocupado como tradutor, para sobreviver; obras: Obras Completas (11 tomos, 1817 1819); traduziu La Fontaine ('As Fábulas', 1816), Chateaubriand (‘Os Mártires’), Sílio Itálico (‘Púnica’) etc. e verteu para o francês, Mariana Alcoforado (‘Lettres Portugaises’).

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Filinto Elísio: Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados, . . . [soneto]

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Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados,
um garbo senhoril, nevada alvura,
metal de voz que enleva de doçura,
dentes de aljôfar, em rubi cravados.

Fios de ouro, que enredam meus cuidados,
alvo peito, que cega de candura,
mil prendas; e (o que é mais que formosura)
uma graça, que rouba mil agrados.

Mil extremos de preço mais subido
encerra a linda Márcia, a quem ofereço
um culto, que nem dela inda é sabido.

Tão pouco de mim julgo que a mereço,
que enojá-la não quero de atrevido
com as penas que por ela em vão padeço.

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Sonetos de Amor & Desamor (vários autores), Organização de Ivan Pinheiro Machado e Notas de Sergio Faraco, Coleção L&PM Pocket, vol. 1095, 2016, Porto Alegre  RS; Filinto Elísio (1734  1819), ou Niceno, pseudônimos de Francisco Manuel do Nascimento, português e lisboeta, foi sacerdote, poeta do Arcadismo e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve que se exilar em Paris  França, ali tendo se ocupado como tradutor, para sobreviver; bibliografia: Obras Completas: 1817  1819); traduziu La Fontaine ('As Fábulas'), Chateaubriand (‘Os Mártires’), Sílio Itálico (‘Púnica’) e verteu para o francês, Mariana Alcoforado (‘Lettres Portugaises’).