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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Edith Södergran: Instinto

 
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[traduzido por Marcello Rolim Coelho]

Meu corpo é um mistério.
Enquanto esta coisa frágil viver,
sentirei o seu poder.
Eu redimirei o mundo.
Para isso corre em meus lábios o sangue de Eros
e o ouro de Eros em meus cachos fatigados.
Cansada ou de mau humor,
eu só preciso olhar: a terra é minha.

Ao deitar-me cansada em meu leito,
sei por certo: nesta mão fatigada está o destino do mundo.
É o poder que estremece em meu sapato,
é o poder que se move nas pregas de meu vestido,
é este poder diante do qual não há abismo, que está diante de vós.

Edith Södergran

Instinkt

Min kropp är ett mysterium.
Så länge detta bräckliga ting lever
skolen I känna dess makt.
Jag skall frälsa världen.
Därför ilar Eros blod i mina läppar
och Eros guld i mina trötta lockar.
Jag behöver blott skåda,
trött eller olustig: jorden är min.

Då jag ligger trött på mitt läger,
vet jag: i denna tröttande hand är världens öde.
Det är makten, som darrar i min sko,
det är makten, som rör sig i min klännings veck,
det är makten, för vilken ej avgrund finns, som står framför eder.

(Framtidens skugga 1920)
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Poemas: Edith Södergran [edição bilíngue] — Seleção e Tradução de Marcello Rolim Coelho, 1ª edição brasileira: 2001, Grupo Editorial Cone Sul, São Paulo — SP; Edith Irene Södergran (1892 1923), finlandesa-sueca, nascida em São Petersburgo Império da Rússia, foi poeta; ao que se sabe por sua biografia, Edith não frequentou escola infantil, foi educada em casa, aprendeu alemão com professora particular, língua mais falada na escola e entre seus amigos; de 1902 a 1909, estudou na Höhere Mädchenschule, em São Petersburgo, aprendeu “língua e literatura alemã, francesa, inglesa e russa” e outras atividades culturais, porém não tendo nunca recebido instrução formal em sueco; Edith Södergran, entre seus quatorze e dezesseis anos, “escreveu uns 225 poemas, dos quais vinte em língua sueca, cinco em francês e um em russo. Os demais eram todos em alemão [influenciados pela poesia de Heinrich Heine]”, após esse período escreveu somente no idioma sueco; aos 24 anos estreou na literatura com a coletânea de poemas Dikter; de sua biografia, também consta ter sido a poeta “uma das primeiras modernistas de língua sueca, influenciada pelo simbolismo francês, expressionismo alemão e futurismo russo”; suas obras: Dikter (Poemas coletânea, 1916), Septemberlyran (A Lira de Setembro, 1918), Rosenaltaret (O Altar da Rosa, 1919), Brokiga iakttagelser — aforismer (Observações Variadas — aforismos, 1919), Framtidens skugga (Sombra do Futuro, 1920), Tankar om Naturen — aforismer (Reflexões sobre a Natureza, 1920, publicados na revista literária modernista Ultra em 1922), Landet som icke är: postumt, redigerad av Hagar Olsson (A Terra que Não É, póstumo, editado por Hagar Olsson, 1925), Vaxdukshäftet: skrivet 1907—1909, under titeln Ungdomsdikter 19071909, av Olof Enckell (póstumo, O livreto de figuras de cera: escrito entre 1907 e 1909, sob o título Poemas Juvenis 1907—1909, editado por Olof Enckell em 1961 e reeditado em 1997) ...; a poeta, que em 1908 havia contraído tuberculose pulmonar e chegou a ser interna em sanatórios por alguns períodos, teve seus últimos anos de vida “marcados pela doença e pela pobreza”

sexta-feira, 13 de março de 2026

Edith Södergran: A sombra do futuro

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[traduzido por Marcello Rolim Coelho]

Eu pressinto a sombra da morte.
Eu sei que nossos destinos já foram urdidos das nornas.*
Sei que nem sequer uma gota de chuva cai sobra a terra
que não esteja escrito no livro das eras eternas.
Tão certo como o sol se levanta, sei que jamais virá
o momento em que, sem fôlego, o verei atingir o zênite.

O futuro lança sobre mim sua sombra bem-aventurada;
não há nada mais além do sol fluente:
trespassada de luz morrerei.
Tendo pisoteado todo o acaso, partirei da vida sorrindo.

Edith Södergran

Framtidens skugga

Jag anar dödens skugga.
Jag vet att våra öden ligger i hopar på nornornas bord.
Jag vet att icke en droppe regn sig suger i jorden
som icke är skriven i de eviga tidernas bok.
Jag vet så visst, som att solen går opp,
att jag aldrig skall skåda det andlösa ögonblick, då hon står i zenit.

Framtiden kastar på mig sin saliga skugga;
den är ingenting annat än flödande sol:
genomborrad av ljus skall jag dö,
då jag trampat all slump med min fot, skall jag leende vända mig bort
ifrån livet.

(Framtidens skugga 1920)

* Nota do tradutor Marcello Rolim Coelho: Na mitologia escandinava, as três deusas do destino (Passado, Presente e Futuro), que urdiam os destino das pessoas.
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Poemas: Edith Södergran [edição bilíngue] — Seleção e Tradução de Marcello Rolim Coelho, 1ª edição brasileira: 2001, Grupo Editorial Cone Sul, São Paulo — SP; Edith Irene Södergran (1892 1923), finlandesa-sueca, nascida em São Petersburgo Império da Rússia, foi poeta; ao que se sabe por sua biografia, Edith não frequentou escola infantil, foi educada em casa, aprendeu alemão com professora particular, língua mais falada na escola e entre seus amigos; de 1902 a 1909, estudou na Höhere Mädchenschule, em São Petersburgo, aprendeu “língua e literatura alemã, francesa, inglesa e russa” e outras atividades culturais, porém não tendo nunca recebido instrução formal em sueco; Edith Södergran, entre seus quatorze e dezesseis anos, “escreveu uns 225 poemas, dos quais vinte em língua sueca, cinco em francês e um em russo. Os demais eram todos em alemão [influenciados pela poesia de Heinrich Heine]”, após esse período escreveu somente no idioma sueco; aos 24 anos estreou na literatura com a coletânea de poesia Dikter; de sua biografia, também consta ter sido a poeta “uma das primeiras modernistas de língua sueca, influenciada pelo simbolismo francês, expressionismo alemão e futurismo russo”; suas obras: Dikter (Poemas — coletânea, 1916), Septemberlyran (A Lira de Setembro, 1918), Rosenaltaret (O Altar da Rosa, 1919), Brokiga iakttagelser — aforismer (Observações Variadas — aforismos, 1919), Framtidens skugga (Sombra do Futuro, 1920), Tankar om Naturen — aforismer (Reflexões sobre a Natureza, 1920, publicados na revista literária modernista Ultra em 1922), Landet som icke är: postumt, redigerad av Hagar Olsson (A Terra que Não É, póstumo, editado por Hagar Olsson, 1925), Vaxdukshäftet: skrivet 1907—1909, under titeln Ungdomsdikter 19071909, av Olof Enckell (póstumo, O livreto de figuras de cera: escrito entre 1907 e 1909, sob o título Poemas Juvenis 1907—1909, editado por Olof Enckell em 1961 e reeditado em 1997) ...; a poeta, que em 1908 havia contraído tuberculose pulmonar e chegou a ser interna em sanatórios por alguns períodos, teve seus últimos anos de vida “marcados pela doença e pela pobreza”

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Edith Södergran: O Inferno

 
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[traduzido por Marcello Rolim Coelho]

Oh quão magnífico é o inferno!
No inferno ninguém fala da morte.
O inferno é murado no interior da terra
e enfeitado com flores em brasa...
No inferno ninguém diz palavra vazia...
No inferno ninguém bebe e nimguém dorme
e ninguém repousa e ninguém fica sentado.
No inferno ninguém fala; todos gritam.
Lá as lágrimas não são lágrimas e todo pesar é impotente.
No inferno ninguém adoece e ninguém se cansa.
O inferno é imutável e eterno.

Edith Södergran

Helvetet

O vad helvetet är härligt!
I helvetet talar ingen om döden.
Helvetet är murat i jordens innandöme
och smyckat med glödande blommor...
I helvetet säger ingen ett tomt ord...
I helvetet har ingen druckit och ingen har sovit
och ingen vilar och ingen sitter stilla.
I helvetet talar ingen, men alla skrika,
där äro tårar icke tårar och alla sorger äro utan kraft.
I helvetet blir ingen sjuk och ingen tröttnar.
Helvetet är oföränderligt och evigt.

(Dikter 1916)
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Poemas: Edith Södergran [edição bilíngue] — Seleção e Tradução de Marcello Rolim Coelho, 1ª edição brasileira: 2001, Grupo Editorial Cone Sul, São Paulo — SP; Edith Irene Södergran (1892 1923), finlandesa-sueca, nascida em São Petersburgo Império da Rússia, foi poeta; ao que se sabe por sua biografia, Edith não frequentou escola infantil, foi educada em casa, aprendeu alemão com professora particular, língua mais falada na escola e entre seus amigos; de 1902 a 1909, estudou na Höhere Mädchenschule, em São Petersburgo, aprendeu “língua e literatura alemã, francesa, inglesa e russa” e outras atividades culturais, porém não tendo nunca recebido instrução formal em sueco; Edith Södergran, entre seus quatorze e dezesseis anos, “escreveu uns 225 poemas, dos quais vinte em língua sueca, cinco em francês e um em russo. Os demais eram todos em alemão [influenciados pela poesia de Heinrich Heine]”, após esse período escreveu somente no idioma sueco; aos 24 anos estreou na literatura com a coletânea de poesia Dikter; de sua biografia, também consta ter sido a poeta “uma das primeiras modernistas de língua sueca, influenciada pelo simbolismo francês, expressionismo alemão e futurismo russo”; suas obras: Dikter (Poemas — coletânea, 1916), Septemberlyran (A Lira de Setembro, 1918), Rosenaltaret (O Altar da Rosa, 1919), Brokiga iakttagelser — aforismer (Observações Variadas — aforismos, 1919), Framtidens skugga (Sombra do Futuro, 1920), Tankar om Naturen — aforismer (Reflexões sobre a Natureza, 1920, publicados na revista literária modernista Ultra em 1922), Landet som icke är: postumt, redigerad av Hagar Olsson (A Terra que Não É, póstumo, editado por Hagar Olsson, 1925), Vaxdukshäftet: skrivet 1907—1909, under titeln Ungdomsdikter 19071909, av Olof Enckell (póstumo, O livreto de figuras de cera: escrito entre 1907 e 1909, sob o título Poemas Juvenis 1907—1909, editado por Olof Enckell em 1961 e reeditado em 1997) ...; a poeta, que em 1908 havia contraído tuberculose pulmonar e chegou a ser interna em sanatórios por alguns períodos, teve seus últimos anos de vida “marcados pela doença e pela pobreza”

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Edith Södergran: Vierge Moderne

 
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[traduzido por Marcello Rolim Coelho]

Não sou mulher. Sou neutro.
Sou criança, pajem e decisão temerária,
sou risonha fresta de um sol escarlate...
Sou rede para os peixes gulosos,
sou brinde à honra de todas as mulheres,
sou passo rumo à dissipação e à ruína,
sou salto para a liberdade e o ego...
Sou o sussurro do sangue no ouvido do homem,
sou calafrio da alma, o desejo e a recusa da carne,
sou p0laca de entrada a novos paraísos.
Sou chama atrevida sempre em busca,
sou água profunda que ousa até os joelhos,
sou fogo e água em sagrada união por livre e espontânea vontade...

Edith Södergran

Vierge Moderne

Jag är ingen kvinna. Jag är ett neutrum.
Jag är ett barn, en page och ett djärvt beslut,
jag är en skrattande strimma av en scharlakanssol...
Jag är ett nät för alla glupska fiskar,
jag är en skål för alla kvinnors ära,
jag är ett steg mot slumpen och fördärvet,
jag är ett språng i friheten och självet...
Jag är blodets viskning i mannens öra,
jag är en själens frossa, köttets längtan och förvägran,
jag är en ingångsskylt till nya paradis.
Jag är en flamma, sökande och käck,
jag är ett vatten, djupt men dristigt upp till knäna,
jag är eld och vatten i ärligt sammanhang på fria villkor…

(Dikter 1916)
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Poemas: Edith Södergran [edição bilíngue] — Seleção e Tradução de Marcello Rolim Coelho, 1ª edição brasileira: 2001, Grupo Editorial Cone Sul, São Paulo — SP; Edith Irene Södergran (1892 — 1923), finlandesa-sueca, nascida em São Petersburgo Império da Rússia, foi poeta; ao que se sabe por sua biografia, Edith não frequentou escola infantil, foi educada em casa, aprendeu alemão com professora particular, língua mais falada na escola e entre seus amigos; de 1902 a 1909, estudou na Höhere Mädchenschule, em São Petersburgo, aprendeu “língua e literatura alemã, francesa, inglesa e russa” e outras atividades culturais, porém não tendo nunca recebido instrução formal em sueco; Edith Södergran, entre seus quatorze e dezesseis anos, “escreveu uns 225 poemas, dos quais vinte em língua sueca, cinco em francês e um em russo. Os demais eram todos em alemão [influenciados pela poesia de Heinrich Heine]”, após esse período escreveu somente no idioma sueco; aos 24 anos estreou na literatura com a coletânea de poesia Dikter; de sua biografia, também consta ter sido a poeta “uma das primeiras modernistas de língua sueca, influenciada pelo simbolismo francês, expressionismo alemão e futurismo russo”; suas obras: Dikter (Poemas coletânea, 1916), Septemberlyran (A Lira de Setembro, 1918), Rosenaltaret (O Altar da Rosa, 1919), Brokiga iakttagelser — aforismer (Observações Variadas — aforismos, 1919), Framtidens skugga (Sombra do Futuro, 1920), Tankar om Naturen — aforismer (Reflexões sobre a Natureza, 1920, publicados na revista literária modernista Ultra em 1922), Landet som icke är: postumt, redigerad av Hagar Olsson (A Terra que Não É, póstumo, editado por Hagar Olsson, 1925), Vaxdukshäftet: skrivet 1907—1909, under titeln Ungdomsdikter 19071909, av Olof Enckell (póstumo, O livreto de figuras de cera: escrito entre 1907 e 1909, sob o título Poemas Juvenis 1907—1909, editado por Olof Enckell em 1961 e reeditado em 1997) ...; a poeta, que em 1908 havia contraído tuberculose pulmonar e chegou a ser interna em sanatórios por alguns períodos, teve seus últimos anos de vida “marcados pela doença e pela pobreza”.