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domingo, 30 de junho de 2024

Lima Barreto *: Pedra & Moskowa **


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          Os dois boêmios de tempos já distantes, H. Pedra e Pedro Moskowa, um dia se encontraram e foram tomar café uma infâmia, verdadeira perfumaria!
          Puseram-se, no botequim, a conversar e a palestrar.
          Veio a conversa recair sobre a arte de “morder”.
          Pedro, que era o mais inteligente, disse, num dado momento, ao H. Pedra:
           Pedra, nós somos uns tolos.
           Por quê?
           Não sabemos “morder” cientificamente.
           Não te compreendo.
           Eu te explico.
           Vá lá.
           Nós dispersamos os nossos esforços, quando tudo nos ensina que devemos conjugá-los, articulá-los, encadeá-los em benefício comum.
           Como é então?
           Olha: vamos organizar uma lista das pessoas “mordíveis”. Tu ficas com uma e eu com a outra. Num dia, mordo eu; noutro dia, tu. Antes do almoço, dividimos a féria; e, antes do jantar, também. Queres?
           Aceito. Mas no domingo?
           Cada um tem liberdade de ação, mas o melhor é não morder nenhuma pessoa da lista.
           Por quê?
           Pode acontecer que nós ambos mordamos, num mesmo domingo, uma delas, e, no dia seguinte, tanto eu como tu estaremos atrapalhados para fazê-la “sangrar”. Aceitas?
           Está feito.
          Combinado isto, os dois organizaram a relação das pessoas conspícuas que podiam merecer a honra das suas “facadas” e puseram em prática os fins de sua curiosa associação, que, se fosse registrada na Junta Comercial, teria de girar sob a firma Pedra & Moskowa.
          Pedra “mordia” nas segundas, e Moskowa, nas terças; e assim por diante, alternando-se.
          Nas horas marcadas, dividiam irmãmente a féria, sem que nenhum “refundisse” um níquel, isto é, sonegasse-o ao outro.
          Um dia, porém, em uma confeitaria, Pedra viu que o dr. F. C. era da lista, puxava uma nota graúda, para pagar um vermute que tomava no balcão. Não era o seu dia, mas não se conteve e deu o bote. A vítima sangrou e H. Pedra, que recebera uma “forquilha” (2$000), tratou de refestelar-se num angu do Bernardino; no largo da Sé.
          Moskowa, que não sabia da coisa, quando encontrou o dr. F. C., foi cumprir a sua obrigação, qual não foi o seu espanto, porém, quando ele disse:
           “Seu” Moskowa, hoje não é seu dia, pois já dei ao Pedra.

Lima Barreto

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”;
** Nota do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa: Assinado por Jonathan. Publicado em Careta n. 605, 24 jan. 1920.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

terça-feira, 2 de abril de 2024

Lima Barreto*: O meu consolo & A lição


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O meu consolo1

          Os debates financeiros e econômicos cessaram na tribuna da Câmara e nas colunas dos jornais.
          Foi um regalo este debate, com o qual muito gozei, ao apreciar a dança de apaches dos algarismos.
          Apareciam tantos que me estonteavam; eu, porém, teimava em ler os discursos e os artigos.
          Falava-se de dinheiro, de libras, de francos, de dólares e as cifras enormes, fantásticas, de todas as moedas do mundo, só com a leitura delas, eu me sentia um pouco rico.
          Tenho esse mau hábito de sonhar, de representar nitidamente o que me sugere a leitura; de modo que, vendo falar em milhões, em milhares de contos, eu apalpava, eu acariciava montões de libras nas minhas algibeiras ou as fazia escachoar lentamente das minhas mãos para cima da minha mesa de trabalho.
          Nunca vi ronda tão inverossímil de dinheiro como nessa discussão.
          O Brasil é assim tão rico, pensei eu; e eu sou brasileiro, devo ser também alguma coisa rico. Convenci-me de tal fato, que já me havia ensinado um preto velho que tinha em casa. Muitas vezes ele me disse:
           Seu F.!
           Que é?
           O senhor por que não compra uma casa?
           Porque não tenho dinheiro.
           Quá! O senhor tem?
           Onde?
           No Banco do Brasil.
           Como?
           O senhor é brasileiro; o banco é do Brasil; o senhor chega lá e tira o dinheiro. Está aí rematava o velho africano.
          Não segui o conselho dele. Não fui ao Banco do Brasil; mas, cada vez que me sinto mais pobre, mais me extasio com os algarismos das discussões financeiras. É o meu consolo.

— o —

A lição2

          Todos os transeuntes e habitantes desta nossa cidade do Rio de janeiro estão fartos de observar a proliferação da mendicidade que vai por ela.
          Não há bairro, não há esquina, não há rua, não há praça, em que não se topem às dezenas com mendigos de todas as nacionalidades, de todos os sexos, de todas as idades.
          Um coração piedoso que desse as esmolas pedidas diariamente teria que ter a fortuna de um milionário para não arrebentar as finanças ao fim de um mês.
          Eu não sou de todo coração duro, de modo que, às vezes, me rendo aos pedidos que me fazem os pobres na rua.
          Recebi, porém, em um dia destes uma lição que quase me tornou insensível perante às misérias dos outros.
          Estava eu em um restaurante dos subúrbios, quando se acercou de mim uma criança, dizendo:
           Moço, o senhor me dá um tostão para comprar um pão? Não comi nada hoje etc. etc.
          Olhei a criança bem e perguntei:
           Você quer mesmo o pão?
           Quero, sim, moço. Não comi nada hoje.
          Pensei que o melhor modo de beneficiar a criança era comprar o pão e dar-lhe.
          Exultei com o alvitre e fiquei contente com a minha consciência. Exercia a caridade e não corromperia o infante.
          Chamei o caixeiro, pedi um tostão de pão, que foi embrulhado, e entreguei ao menino.
          Ele recebeu com muita humildade, agradeceu até, e encaminhou-se com o embrulho para a porta.
          Tive satisfação com a coisa e julguei que a comida que ingeria tinha um sabor melhor.
          Quando o pequeno chegou à porta da rua, voltou-se e gritou:
           Seu besta! Eu não queria pão; queria dinheiro.
          Fiquei zonzo e quase arrependido da minha caridade.


Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.
Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1 Assinado por Jonathan. Publicado em Careta, nº 640, 25set. 1920;
2 Assinado por J. Caminha. Publicado em Careta, nº 373, 14 ago. 1915.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...