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[traduzido por Rogério Tomaz Jr.]
Por alguma razão que desconheço, sinto que hoje Pepe está com a guarda
baixa. Anda suspirador e parcimonioso. Vejo que antes de mergulhar em alguma
resposta deixa passar várias ondas. Então, sem olhar para ele, levanto e,
enquanto procuro o isqueiro no bolso, olho para a rua pela janela e tento uma
pergunta curta.
— E a Lucía[*]?
— O que tem a Lucía?
— Como você a vê, como ela te vê, como é a vida pela
história, pelo amor e pela relação política? Isso...
Quando ele vai falar
sobre ela, caminha por um campo minado. Escolhe cada palavra, pensa, mastiga,
olha o chão procurando mais. Dá um leve sorriso por um segundo. Está prestes a
dizer algo e sua boca o ajuda a não deixar escapar o que vem do peito e é a
primeira (e a única) vez que seus olhos ficam chorosos. Eu não esperava por
isso. Olha pelo canto do olho para a casa, onde ela sempre parece realizar o
ritual amoroso de fingir que está vigiando se ele não está fumando. Pepe se
apoia na mesa. Coça a cabeça. Descansa. Respira. Enquanto o espero, lembro que,
quando estamos os três juntos, se Lucía fala, ele nunca a interrompe. Ele olha
para ela, presta atenção nela. E se eles discutem, as balas assobiam. Mas na
hora das refeições sempre havia apenas dois copos na mesa: um para mim e outro
para eles. Os pactos e rituais permanecem intactos: há trinta anos bebem do
mesmo copo. Quando digo a Lucía que me parece um detalhe, ela desmistifica com
muita rapidez e com uma risada: “menos coisas para lavar”. Suas intimidades
amorosas são privadas e se você viu alguma, fique quieto. Lição aprendida.
O velho toma ar e solta:
— É a sorte da minha vida.
E ele fica lá,
assentindo com a cabeça a própria frase. Olho para ele e aceno com a cabeça
também. Um galo que não sabe os horários começa com grande escândalo a anunciar
o dia às cinco da tarde. O velho cai na gargalhada e seus olhos brilham:
— Esse galo de merda está louco!
Vejo que as nuvens
passaram. Pepe se repõe. Bate forte as mãos nos joelhos, levanta os ombros e
começa:
— Vejamos, Lucía é uma política enorme, valiosa, é uma
mulher excepcional, e também me lembra onde deixo meus óculos e o meu gorro de
lã. O que mais se pode pedir? Nesta idade o amor é um doce costume...
— E na política?
— Lucía é uma formiguinha. Sistemática, paciente...
— Você era mais agitado.
— Sim, mais caótico, menos previsível. Mais
contraditória, sei lá. Lucía era mais metodológica, mais organizada... Não sei
direito se essas coisas têm a ver com formação ou com as tripas, o disco
rígido, tem de tudo. E certamente existem tipos de inteligência, algumas são
mais disciplinadas, outras são mais caóticas. Dizem que o velho Churchill, por
exemplo, era um cara que todos os dias te dizia nove besteiras e uma
genialidade. Era o preço que tinha que pagar com Churchill, entende? Afinal,
lhe vinham as ideias, como a dos porta-documentos.
Na época mais dura da
clandestinidade, Lucía estava a cargo dos documentos falsos. Mas não ficou só
nisso. Havia idealizado todo um sistema com a sua irmã. Na época se vendiam uns
porta-documentos que tinham vários envelopes transparentes que se desdobravam
quando eram abertos, então ali colocavam cédula de identidade, carta de
motorista, a carteira de sócio do Peñarol e outras coisas, o clandestino o
abria desajeitado, permitindo que se visse tudo, e o policial já não
desconfiava.
— O que você achava da Lucía antes de serem um casal?
— Não, quase não tive contato com ela. Estava em outra
coluna, nem a conhecia.
— Vocês se conheceram depois da prisão?
— Não, antes.
— Antes.
— Antes, mas nos conhecemos em momentos de grande
desastre, caíam companheiros como erva daninha. Por isso nós tínhamos uma
organização dividida em colunas, porque era o que nos dava mais segurança. Cada
coluna tentava reproduzir a organização como um todo, quando uma era derrubada,
as outras seguiam operando. Pegamos o esquema de resistência da guerra da
Argélia, mais ou menos, e tal. Eu a conheci naqueles dias e andamos juntos um
par de meses até que fomos presos. Depois nos juntamos quando saímos, anos
depois.
— Havia um acordo de se juntarem quando saíssem ou
aconteceu?
— Sim, eu mandei uma carta que lhe chegou e pronto. Na
mesma noite que saímos, nos juntamos. E aqui estamos.
— Alimentando as galinhas às três da tarde.
— Claro, simples assim.
— Você mandou uma carta.
— Sim, mandei uma carta. Mas, imagina, ela estava na
cadeia de Punta de Rieles e eu estava nos quartéis que me levavam de um lado
para outro e às vezes três ou quatro meses sem visita. Nenhuma relação,
nenhuma. Mas, bem, quando saímos existia uma efervescência muito grande. Nos
juntamos e aqui estamos. E nos casamos faz pouco tempo. Nos casamos pela lei de
herança, porque estamos ficando velhos e depois dá uma confusão com os papéis
para quem fica. Você não tem ideia. Nada mais além disso, simples facilidade
burocrática.
O suspiro dá um ar de
nostalgia onde não há espaço nem tempo para a clarividência. Apenas todas as
lembranças como um furacão organizado onde a seriedade termina naquele sorriso
de quem sabe que tem final feliz. Acompanho silenciosamente seus gestos e não
vou quebrar aquele vidro finíssimo, até que ele solta uma travessura quase
inocente...
— Claro que nos demos alguns luxos: o juiz veio, nos
casou no meio da cozinha e tchau.
— Essa pergunta é mais difícil, como a Lucía te vê ou
como você acha que a Lucía te vê?
— Eu sei lá...
— Eu sei que é mais fácil perguntar a ela, mas como você
acha que ela te vê?
— Como um louco que precisa ser cuidado um pouco, porque
nunca sabe onde deixou os óculos, o boné, um monte de coisas.
— Uma coisa é o casal e outra coisa é o trabalho
político, há espaço que não se misturam. Existe uma mão dupla? Vocês têm essa
relação dupla?
— Não, politicamente ela tem o seu lugar, a sua militância.
Ela está na direção do MPP [Movimento de Participação Popular] e vai, e debate.
Ela é praticamente a primeira senadora, seus companheiros lhe dão muita
atenção.
Lucía é uma figura histórica de verdade, sem firula.
— Mas entre vocês?
— Funcionamos bem entre nós. Falamos de política,
convivemos, às vezes temos algumas nuances e tal, mas se não estivéssemos em
sintonia o casal não teria durado. Durou justamente por isso, porque éramos
iguais. E sempre dizemos aos nossos companheiros que quem não consegue
conquistar a companheira e acompanhá-la, está perdido. Porque o casal vira uma
coisa só, e a vida de militante é incompreensível.
— Se vocês não estão dentro, se vocês não estão juntos
dentro... Porque isso é vinte e quatro por sete.
— Claro, você é militante sempre. A essa altura da vida
estamos redimidos, somos uma espécie de símbolo. E sei lá, é isso que significa
para mim. É a perna que me mantém no chão e tive uma sorte bárbara.
— Você repete muito isso.
— É porque é isso mesmo: é a sorte da minha vida.
(Conversas com Pepe Mujica... pág. 55)
[*] Nota do
atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Lucía Topolansky
Saavedra, nascida em 1944, uruguaia de Montevidéo, é política da Frente Ampla
uruguaia, foi deputada, senadora e vice-presidenta daquele país; na década de 1960-1970, foi guerrilheira e militante do Movimiento de Libertación Nacional — Tupamaros, foi presa; vive em Rincón del
Cerro, Montevidéo e é casada com Pepe Mujica.
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Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Fabián
Restivo, Tradução de Rogério Tomaz Jr., texto da quarta-capa por Olívio
Dutra, 1ª edição, outono de 2024, Editora Coragem, Porto Alegre — RS; Fabián Restivo, nascido em 1961, argentino, ‘autointitulado “um fotógrafo que escreve”’, é jornalista, escritor, fotógrafo, documentarista e cineasta; frequentou a Universidad Mayor de San Andrés — La Paz, Bolívia, escreve para o jornal argentino Página 12; o autor deste Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica tem “mais de 40 anos de carreira e obras publicadas internacionalmente”, foi fotógrafo do documentário Adiós, comandante Che (dirigido e roteirizado por Edgardo Cabeza, 1997) e também dirigiu o documentário Conversas com Pepe Mujica (2024); Fabián Restivo ainda realizou outros trabalhos "nos mais variados formatos, inclusive direção de teatro ou programas de canais de televisão".
José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, nascido em 1935, uruguaio de Paso de La Artena — Montevidéo, é político e agricultor, foi presidente do Uruguai (2010 — 2015), senador (2015 — 2018), combatente contra a ditadura militar uruguaia, guerrilheiro e membro do então Movimiento de Libertación Nacional — Tupamaros, na década de 1960 — 1970, época em que foi preso algumas vezes, na última permanecendo recluso por 13 anos, tendo sido libertado em 1985, ao ser anistiado no final do período ditatorial; foi presidente pro tempore do Mercosul em 2013, reside em Rincón del Cerro, Montevidéo — Uruguai; Pepe Mujica já havia sido deputado por Montevidéo (1994), senador (1999), ministro da Agricultura, Pecuária e Pesca (2005).