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E tu, famoso herói, por cuja sábia
Intervenção a igreja se viu livre
Deste cisma nascente, brandos
olhos
Corre a lançar-me, e a meu projeto
anima,
Mas do assunto, que é sério, não
te rias...
(Boileau)
De junho era no mês, por entre
névoas
E rosas purpurinas, no poente,
O sol, em áureas chamas, se
atufava:
Era dia de festa; era um domingo.
No templo augusto o povo, como
proteus,
Sedento de gozar divinas graças,
Em lufados cardumes se engolfava.
Na excelsa catedral de altivas
cúpulas,
De dourados relevos molduradas,
Bifranjadas purpúreas bambolinas
Dos marmóreos umbrais pendiam
trêmulas.
Soavam pelas vastíssimas abóbodas
Gregorianos cânticos plangentes,
Que a meditar aos crentes
convidavam.
Em púlpito elevado, posto à nave,
De estamenha vestido, hircoso
frade,
Da classe refinada dos Capuchos,
De joelhos, prostrado, em
parêneses,
Do céu, a idéia vã, néscio mentia.
Reluzia-lhe o crânio escabelado,
Descorado flamengo de Provença,
Ou nua de desenho esfera-mundi.
Do brunido carão, avermelhado,
Oleoso suor brotava, em bagas,
Como azeite infiltrado em nova
infusa.
Flamífero tição era o nariz,
De alcólicos ardores adornado,
Que, do altivo Himalaia sobre o
pico,
Do vasto mundo as trevas
devastara.
Nos baios olhos, de candeia em
vascas.
Felina raça o cachaçudo atesta;
Orelhas de abanar, pensa a
beiçola,
Obeso o ventre, de impinada banza,
Esguias gâmbias, de elevado porte:
— Cetáceo humano, roncador de
bromas.
Da Ordem os preceitos observando,
Segundo a grã filáucia dos oráculos,
De capuz no cachaço encrapitado,
Camandolas na cinta, a barba
hirsuta,
Medindo ao auditório a compostura,
Ergue-se, a pino, obeso e
fradalhão.
Ia já do dia a parte vespertina,
D’aure-arroixadas nuvens
revestida,
Vagarosa tombando no ocidente;
E, ou fosse por falta de talento,
Ou por vezo de normas corredias,
O nédio Carapanta, ao povo
imbecil,
Em linguagem comum do céu falava.
— “Meus irmãos! ronca o frade em
ré profundo:
“Em nome do Senhor desconhecido
“A verdade vos trago sem
contrastes.
“De artimanhas não venho
premunido;
“Ardendo em compunção, da fé mais
pura
“Trago o peito embebido
santamente;
“E ao cintilante lume das estrelas
“A mente depurei para falar-vos.
— “Perdido o mundo vai; de queda
em queda
“A moral se esboroa, e tíbia tomba
“Dos abismos no seio — atra
caverna!...
“O pecado seduz, zomba do dogma;
“A rebeldia ousada o colo altivo,
“Com arrojo, alevanta em toda
parte;
“Sutil o maçonismo, como a lava,
“Tragando vai Pompéias desta
idade;
“Corrompe o ouro vil; as leis
corrompem!
“O gládio da justiça poluído
“Faz tremer os concílios; Roma
treme!...
“Vacila a santa fé no Vaticano;
“Do Pescador a barca sobre as
ondas
“Vanzeia (sic) ao vendaval das
heresias!...
“O clero só, irmãos, puro
soergue-se,
“Afronta os vícios todos, e
derrama,
“Em torrentes de luz, santos
milagres!
— “Os governos... o apoio nos
retiram...
“Nós damos liberdade aos nossos
servos;
“Manda Deus o pão nosso aos que vadiam;
“De esmolas nossos cofres
regorgitam!...
“Escolas abre o povo em toda
parte...
“Nós temos seminários; e sotainas,
“Como chuva, espargimos pelo
mundo,
“Onde um homem houver uma samarra
“Há de ser tão somente o seu
vestido:
“E, confundindo, assim, as classes
todas,
“Teremos devastado a rebeldia.
— “A luz, a santa luz da sã
verdade
“Há de o orbe acender de amor em
chamas;
“Em vez da Inquisição, do sacro
lume,
“Serão as nossas línguas
labaredas,
“Nossos crânios vulcões, os olhos
brasas;
“De lavas transbordando nossos
peitos
“Vasto incêndio farão pelo
universo!...”
Mas... eis que, de repente, a voz
lhe falta,
Ou, no dengue falar dos
acadêmicos,
A palavra lhe impede agro caroço”...
Disfarçando parou; pela samarra
A manopla estendendo, vagaroso,
A chumbada boceta pôs de fora;
E, nela, os rombos dedos cabeludos
Foi, de pronto metendo costumeiro.
A tardonha taboca — nariz-tromba —
Em linha horizontal apropinquando,
Prepara-se a alojar cargas
adentro;
E, grunhindo, nas ventas
ressonantes,
— Clangoroso clarim, entre
tambores —
A mádida pitada se evapora!
Da narina obducta, encabelada,
Estanque, de granito, e do simonte,
Como a veia da linfa, que desliza
Da sombria floresta pelo solo,
De estioladas folhas tapetado,
Assim, da funda fossa fungadora,
Escuro, lento monco serpeava;
E, a cálida beiçada demandando,
Ia, nela, empecido, abrir lagoa.
Ali, pois, suspendido o pardo
fluxo,
E, dele, evaporada a parte aquosa,
Do enrubescido rosto pela
ardência,
Do vil tabaco um banco se projeta,
Que, com torvo subsídio, mais se
aumenta
Do lábio à orla, em cônica
pitomba.
. . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . .
Forceja, embalde, o pregador
sanhudo;
Cerrou-se a fauce, palradeira
insulsa,
Por ímpia falta da falaz memória!
Tressua, e geme, boquejando, e
gago;
Enorme bócio na garganta avulta;
Vermelha máscara, de zarcão
borrada,
Supõe-se a cara, de garraio a
perros!...
Ao parvo povo, que de ouvi-lo
pasma,
Impante afirma, que da arenga o
termo
Chegado tinha: Ave Maria implora...
Responde o coro, a resmungar
latim:
Cantaram, todos, da parlanda o
fim.
São Paulo — julho de 1876
L. Gama
[Almanaque Literário de São Paulo
para o ano de 1881]
* Nota de Ligia Fonseca Ferreira,
organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas: Publicado (sem assinatura) n’O
Polichinello nº 16, 30 de julho de 1876, e, quatro anos mais tarde, reproduzido
(com assinatura) no Almanaque Literário de São Paulo para o ano de 1881, mesmo
volume em que aparece o artigo “Luiz Gama”, de Lúcio de Mendonça [1854 — 1909].
Tomamos por base esta última publicação.
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Primeiras
Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de
Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora
Martins Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 — 1882), baiano
de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor
dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor
vendido como escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a
escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para
o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino
(primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política;
colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo
n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello — primeiro
periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos
ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 — 1865) e Cabrião (1866 — 1867);
tendo sofrido apagamento histórico por mais de um século, o poeta
abolicionista, defensor dos escravos e dos pobres foi reconhecido como advogado
pela Ordem dos Advogados do Brasil, em 2015, corrigindo-se assim uma injustiça;
em 2021 deu-se o lançamento do filme Doutor Gama, no qual é contada a história
do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista
e ter conseguido a libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas
recentes; sua única obra publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas
de Getulino, um pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.