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sexta-feira, 28 de abril de 2023

Luiz Gama: O moralista*

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E tu, famoso herói, por cuja sábia
Intervenção a igreja se viu livre
Deste cisma nascente, brandos olhos
Corre a lançar-me, e a meu projeto anima,
Mas do assunto, que é sério, não te rias...
(Boileau)

De junho era no mês, por entre névoas
E rosas purpurinas, no poente,
O sol, em áureas chamas, se atufava:
Era dia de festa; era um domingo.

No templo augusto o povo, como proteus,
Sedento de gozar divinas graças,
Em lufados cardumes se engolfava.

Na excelsa catedral de altivas cúpulas,
De dourados relevos molduradas,
Bifranjadas purpúreas bambolinas
Dos marmóreos umbrais pendiam trêmulas.
Soavam pelas vastíssimas abóbodas
Gregorianos cânticos plangentes,
Que a meditar aos crentes convidavam.

Em púlpito elevado, posto à nave,
De estamenha vestido, hircoso frade,
Da classe refinada dos Capuchos,
De joelhos, prostrado, em parêneses,
Do céu, a idéia vã, néscio mentia.
Reluzia-lhe o crânio escabelado,
Descorado flamengo de Provença,
Ou nua de desenho esfera-mundi.

Do brunido carão, avermelhado,
Oleoso suor brotava, em bagas,
Como azeite infiltrado em nova infusa.
Flamífero tição era o nariz,
De alcólicos ardores adornado,
Que, do altivo Himalaia sobre o pico,
Do vasto mundo as trevas devastara.
Nos baios olhos, de candeia em vascas.
Felina raça o cachaçudo atesta;
Orelhas de abanar, pensa a beiçola,
Obeso o ventre, de impinada banza,
Esguias gâmbias, de elevado porte:
Cetáceo humano, roncador de bromas.

Da Ordem os preceitos observando,
Segundo a grã filáucia dos oráculos,
De capuz no cachaço encrapitado,
Camandolas na cinta, a barba hirsuta,
Medindo ao auditório a compostura,
Ergue-se, a pino, obeso e fradalhão.

Ia já do dia a parte vespertina,
D’aure-arroixadas nuvens revestida,
Vagarosa tombando no ocidente;
E, ou fosse por falta de talento,
Ou por vezo de normas corredias,
O nédio Carapanta, ao povo imbecil,
Em linguagem comum do céu falava.

“Meus irmãos! ronca o frade em ré profundo:
“Em nome do Senhor desconhecido
“A verdade vos trago sem contrastes.
“De artimanhas não venho premunido;
“Ardendo em compunção, da fé mais pura
“Trago o peito embebido santamente;
“E ao cintilante lume das estrelas
“A mente depurei para falar-vos.

“Perdido o mundo vai; de queda em queda
“A moral se esboroa, e tíbia tomba
“Dos abismos no seio atra caverna!...
“O pecado seduz, zomba do dogma;
“A rebeldia ousada o colo altivo,
“Com arrojo, alevanta em toda parte;
“Sutil o maçonismo, como a lava,
“Tragando vai Pompéias desta idade;
“Corrompe o ouro vil; as leis corrompem!
“O gládio da justiça poluído

“Faz tremer os concílios; Roma treme!...
“Vacila a santa fé no Vaticano;
“Do Pescador a barca sobre as ondas
“Vanzeia (sic) ao vendaval das heresias!...
“O clero só, irmãos, puro soergue-se,
“Afronta os vícios todos, e derrama,
“Em torrentes de luz, santos milagres!

“Os governos... o apoio nos retiram...
“Nós damos liberdade aos nossos servos;
“Manda Deus o pão nosso aos que vadiam;
“De esmolas nossos cofres regorgitam!...
“Escolas abre o povo em toda parte...
“Nós temos seminários; e sotainas,
“Como chuva, espargimos pelo mundo,
“Onde um homem houver uma samarra
“Há de ser tão somente o seu vestido:
“E, confundindo, assim, as classes todas,
“Teremos devastado a rebeldia.

“A luz, a santa luz da sã verdade
“Há de o orbe acender de amor em chamas;
“Em vez da Inquisição, do sacro lume,
“Serão as nossas línguas labaredas,
“Nossos crânios vulcões, os olhos brasas;
“De lavas transbordando nossos peitos
“Vasto incêndio farão pelo universo!...”

Mas... eis que, de repente, a voz lhe falta,
Ou, no dengue falar dos acadêmicos,
A palavra lhe impede agro caroço”...
Disfarçando parou; pela samarra
A manopla estendendo, vagaroso,
A chumbada boceta pôs de fora;
E, nela, os rombos dedos cabeludos
Foi, de pronto metendo costumeiro.

A tardonha taboca nariz-tromba
Em linha horizontal apropinquando,
Prepara-se a alojar cargas adentro;
E, grunhindo, nas ventas ressonantes,
Clangoroso clarim, entre tambores
A mádida pitada se evapora!

Da narina obducta, encabelada,
Estanque, de granito, e do simonte,
Como a veia da linfa, que desliza
Da sombria floresta pelo solo,
De estioladas folhas tapetado,
Assim, da funda fossa fungadora,
Escuro, lento monco serpeava;
E, a cálida beiçada demandando,
Ia, nela, empecido, abrir lagoa.

Ali, pois, suspendido o pardo fluxo,
E, dele, evaporada a parte aquosa,
Do enrubescido rosto pela ardência,
Do vil tabaco um banco se projeta,
Que, com torvo subsídio, mais se aumenta
Do lábio à orla, em cônica pitomba.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Forceja, embalde, o pregador sanhudo;
Cerrou-se a fauce, palradeira insulsa,
Por ímpia falta da falaz memória!
Tressua, e geme, boquejando, e gago;
Enorme bócio na garganta avulta;
Vermelha máscara, de zarcão borrada,
Supõe-se a cara, de garraio a perros!...

Ao parvo povo, que de ouvi-lo pasma,
Impante afirma, que da arenga o termo
Chegado tinha: Ave Maria implora...

Responde o coro, a resmungar latim:
Cantaram, todos, da parlanda o fim.

São Paulo — julho de 1876

L. Gama

[Almanaque Literário de São Paulo para o ano de 1881]


* Nota de Ligia Fonseca Ferreira, organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas: Publicado (sem assinatura) n’O Polichinello nº 16, 30 de julho de 1876, e, quatro anos mais tarde, reproduzido (com assinatura) no Almanaque Literário de São Paulo para o ano de 1881, mesmo volume em que aparece o artigo “Luiz Gama”, de Lúcio de Mendonça [1854 — 1909]. Tomamos por base esta última publicação.
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Primeiras Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora Martins Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867); tendo sofrido apagamento histórico por mais de um século, o poeta abolicionista, defensor dos escravos e dos pobres foi reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em 2015, corrigindo-se assim uma injustiça; em 2021 deu-se o lançamento do filme Doutor Gama, no qual é contada a história do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista e ter conseguido a libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas recentes; sua única obra publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, um pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Luiz Gama: O gamenho*

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Parece-me impossível que o gamenho,
Que cuidoso só trata do cabelo,
Não tenha transformado em um novelo
O miolo que encobre tal sedenho!

Lá ginga na praça
Gentil namorado;
Vai tão adamado,
Que as belas mais dengues
Lhe rendem mendengues.

Passinhos de Ninfa
Mimosa, engraçada;
Parece uma fada,
Nem Vênus formosa
Como ele é garbosa!

Trejeitos femíneos,
Pisar delicado,
Andar compassado;
Oh céus, que luxúria,
Que terna melúria!

Que ar sedutor,
Que todo elegante,
Que lindo semblante,
Que pé delicado
Parece moldado!

Mas se queres, Leitor, ver um contraste,
Adônis em Morcego transformado,
Ou Cupido em figura de Macaco
Aproxima-te ao néscio namorado.

É um velho farçola, desfrutável,
Com fumaças de jovem, repimpado,
Que ao ridículo se presta, qual demente,
Figura de presepe ou mascarado.


* Nota de Ligia Fonseca Ferreira, organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas: Na 1ª edição, este poema intitula-se “Caricatura”, e sua epígrafe traz a assinatura “Do Autor”.
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Primeiras Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora Martins Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867); tendo sofrido apagamento histórico por mais de um século, o poeta abolicionista, defensor dos escravos e dos pobres foi reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em 2015, corrigindo-se assim uma injustiça; em 2021 deu-se o lançamento do filme Doutor Gama, no qual é contada a história do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista e ter conseguido a libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas recentes; sua única obra publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, um pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.

sábado, 1 de abril de 2023

Luiz Gama: Meus amores*


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Pretidão de amor,
Tão leda a figura
Que a neve lhe jura,
Que mudara a cor.
Camões  Endechas

Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa crioula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o inverno gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.

Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.
A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se distila o grato olor.

O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
É coisa de sentir, não de contar.

Quando a brisa veloz, por entre anáguas
Espaneja as cambraias escondidas,
Deixando ver aos olhos cobiçosos
As lisas pernas de ébano luzidas.

Santo embora, o mortal que a encontra pára,
Da cabeça lhe foge o bento siso;
Nervosa comoção as bragas rompe-lhe,
E fica como Adão no Paraíso.

Meus amores são lindos, cor de noite,
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Ao ver no chão tocar seus pés mimosos,
Calçando de cetim alvas chinelas,
Quisera ser a terra em que ela pisa,
Torná-las em colher, comer com elas.

São minguados os séculos para amá-la,
De gigante a estrutura não bastara,
De Marte o coração, alma de Jove,
Que um seu lascivo olhar tudo prostrara.

Se a sorte caprichosa em vento, ao menos,
Me quisesse tornar, depois de morto;
Em bojuda fragata o corpo dela,
As saias em velame, a tumba em porto,

Como os Euros, zunindo dentre os mastros,
Eu quisera açoitar-lhe o pavilhão;
O velacho bolsar, bramir na proa,
Pela popa rojar, feito em tufão.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Dar cultos à beleza, amor aos peitos,
Sem vida que transponha a eternidade,
Bem que mostra que a sandice estava em voga
Quando Uranus gerou a humanidade.

Mas já que o fato iníquo não consente,
Que amor, além da campa, faça vaza,
Ornemos de Cupido as santas aras,
Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa.

Getulino


* Nota de Ligia Fonseca Ferreira, organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas: Publicado no Diabo Coxo, 3 de setembro de 1865, sob o pseudônimo de Getulino.
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Primeiras Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora Martins Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830  1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello  primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867); tendo sofrido apagamento histórico por mais de um século, o poeta abolicionista, defensor dos escravos e dos pobres, foi reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em 2015, corrigindo-se assim uma injustiça; em 2021 deu-se o lançamento do filme Doutor Gama, no qual é contada a história do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista e ter conseguido a libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas recentes; sua única obra publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, um pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Luiz Gama: A Maria* — Epístola familiar


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Epístola familiar

Depois de penosa ausência,
Minha querida Maria,
Devo dar-te novas minhas,
Feriadas de alegria.

O beijo que tu me deste
Inda nos lábios o sinto,
Que nos meus lábios revivem
Dos teus o beijo faminto.

Aquele apertado abraço,
Que entre soluços me deste,
Há de ser o eterno laço
Do nosso encanto celeste.

Sinto por ti tais saudades,
Pulsa-me o peito tão forte,
Que meditando silente,
Vem-me a lembrança da morte!

Reina em minh’alma o segredo,
Da nossa antiga alegria...
Minh’alma é toda um mistério,
Trajando a melancolia.

Quando em sonhos me aparece,
És qual formoso botão,
De mimosa Guanabara,
A rosa do coração.

Aqui no céu azulado,
Dos olhos teus tenho a cor,
E das estrelas na luz.
Rebrilha o casto fulgor.

Nas alvas conchas da praia,
Orladas de carmesim,
Rubros lábios de coral,
Sobre dentes de marfim.

Nas folhas estioladas,
Da ramagem do salgueiro,
As longas áureas madeixas
Pelo colo feiticeiro.

As ondas mugem n’areia,
Palpita o meu coração;
Minh’alma triste vagueia,
É meu peito a solidão.

Tu, Maria, és o emblema
Dos lindos amores meus;
Do meu Serafim que alou-se,
Tenho os encantos nos teus.

Um teu sorriso[,] Maria,
Os dele traz-me à memória
E recorda-me pungente
E afetos idos a história...

Triste vivo no presente,
Mirando o tempo passado;
Tenho o pranto por consolo,
É meu consolo o cuidado.

Nas lides acerba d’alma,
O pensamento se cansa,
O sono enlanguesce o corpo,
Alma, porém, não descansa.

Vela constante no sonho
O pensamento atilado,
Corre mundos num instante,
Atido ao corpo pesado.

Como a bomba que murcha,
Dos raios do sol ao lume,
E lega nas brandas alas
Dos euros, brandos perfumes.

Do pensamento nas chamas,
Vai est’alma entristecida
Dar-te um beijo, minha amiga,
Beijo de flor ressequida...

Guarda-o, pois, no ebúrneo colo,
Sacro tesouro de amor,
O beijo da flor sem viço,
No caule da linda flor.

Luiza [pseudônimo]


* Nota de Ligia Fonseca Ferreira, organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas: Publicado na seção “Literatura” d’O Polichinello nº 19, 20 de agosto de 1876, sob o pseudônimo Luiza.
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Primeiras Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora Martins Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867); tendo sofrido apagamento histórico por mais de um século, o poeta abolicionista, defensor dos escravos e dos pobres foi reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em 2015, corrigindo-se assim uma injustiça; em 2021 deu-se o lançamento do filme Doutor Gama, no qual é contada a história do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista e ter conseguido a libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas recentes; sua única obra publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, um pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.

sábado, 25 de março de 2023

Luiz Gama: A um vate enciclopédico

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Quis um jovem marchar, só por mania,
Das letras pela senda trabalhosa;
Diz-se — Vate, mas prenda tão famosa
Ninguém nos versos seus a descobria.

Começa a dar patada, e tão bravia,
Que logo (alçando a voz imperiosa)
Lhe brada a Natureza: Chega à prosa!
E o maldito a encostar-se à poesia!1
(F. X. de Novais — Sonet.)

Qual cratera lançando lava ardente,
De Pompéia tragando a pobre gente2,
Novo Aníbal os mares agitan[d]o,
Arbustos e penedos derrubando,
Argentino Quixote se apresenta
Com bulha que as cabeças atormenta!
É Doutor em ciências sociais,
Conhece toda casta de animais;
Em direito, suplanta o Savigny,
Mormente quando toma a Parati;
E nos fastos da grã filosofia
Diz tais coisas que as carnes arrepia!

Da Medicina o novo Chernoviz,
Faz xaropes, do ferro tira giz!3
E, invadindo as baias do Parnaso
O lugar conquistou do tal Pégaso!
A sabença nos cascos se lhe aninha,
É por todos chamado o Dom Fuinha;
E da torva montanha da cachola,
Pende a velha e cediça c’raminhola!4

Um taful, que encarou o tal portento
Afirma que o coitado era jumento5;
E querendo provar o que dizia,
Mostrava uma castrada poesia:
D’asneiras enxurrada furibunda,
Onde o erro falaz superabunda:
Era prosa cediça, mui safada,
Asneira sobre asneira amontoada!
E no fim da maçante frioleira
A firma do grão-vate baboseira.

Correu, em peso, a sábia Academia,
Para ver o planeta que luzia;
Também veio a Polícia, a Medicina,
Discutir tanta asneira em sabatina!
Miraram de alto a baixo o sacripante
E vendo que o maroto era pedante,
Na barca de Caronte o encaixaram,
P’ra casa dos orates o mandaram.

Lá se foi o talento desmedido,
Todo o povo deixando espavorido,
Habitar os salões d’um hospital
Onde cura terá para o seu mal.


Notas de Ligia Fonseca Ferreira, organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas:
1. Epígrafe extraída do poema “A um aspirante a poeta”. Cf. Faustino Xavier de Novais [1820 — 1869], Poesias, cit.
2. Na edição de 1859: “Que de Pompéia sumiu a pobre gente,/”.
3. Na edição de 1859: “Com xaropes, do ferro tira o giz!/”.
4. Na edição de 1859: “E na boça rotunda da cachola? So dizem que preside a c’raminhola!/”.
5. Na edição de 1859: “Me afirmou que o coitado era jumento;/”.
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Primeiras Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora Martins Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867); tendo sofrido apagamento histórico por mais de um século, o poeta abolicionista defensor dos escravos e dos pobres foi reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil em 2015, corrigiu-se assim uma injustiça; em 2021 deu-se o lançamento do filme Doutor Gama, no qual é contada a história do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista e ter conseguido a libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas recentes; sua única obra publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, um pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Luiz Gama: Espiga*


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É hoje dia festivo, é dia de São João. Dormem uns cansados pelos folguedos da véspera, outros estão banzando por terem gasto o que não podiam, outros estão arrependidos do muito que fiaram, e pelo pouco que hão de cobrar, e todos estão no caso de dizer; Deus dando-nos a vida fez-nos presente de uma boa espiga! espiga tremenda, inevitável e fatal. O próprio homem, a natureza, a criação, enfim, é tudo um mistério, e o mistério é uma espiga. Pois bem; se tudo assim é, eu imploro graça aos dignos leitores, para humildemente fazer a apologia da

Espiga

É de mistérios pejada
Às almas causa fadiga;
Foi do mistério gerada
A grave história da espiga.

Formou-se a espiga dos grãos,
Que Deus na terra lançou;
Foi para gozo dos filhos,
Que o Padre-Eterno a criou.

Os grãos, nos seus epispemas[,]
Germinam todos no chão;
Guardando os fundos mistérios,
Mistérios da geração.

Os grãos fermentam, fecundam,
Sem o auxílio das mãos;
Dos grãos arrebentam grelos,
Dos grelos vêm novos grãos.

Os grelos tornam-se em troncos,
Os troncos crescem no ar;
E trajam virentes folhas,
As folhas do verde mar.

De tronco esvelto, e frondoso,
Da Faia, ou Pinho de Riga,
Pendem os grãos germinantes,
Origem de nova espiga.

Assim, pois, provado fica,
Além de contestação,
Que há mistério sobre a espiga,
Que há mistério sobre o grão.

Que o Rei dos mundos eterno,
Formando a espiga e o grão,
De tal sorte os confundiu,
Que vedou a distinção.

Hoje, nos atos humanos,
Por simples imitação,
Se diz  que levou da espiga 
O que sofreu logração.

Por que se julga enganado
Quem pretende definir
Do grão, da espiga o mistério,
Que Deus não quis descobrir.

O noivo que afadigado
Procura nova opulenta,
Sua casa, e fica logrado[,]
Da espiga tomou na venta.

Bem assim o candidato,
Que aspira ser deputado,
Se roda e decai do pleito,
Tomou da espiga o coitado.

O padre que cauteloso
Afaga moça bonita,
Se dão-lhe pela malhada,
Levou da espiga maldita.

O ardiloso carola,
Dos tempos o rezador,
Nos outros atiça a espiga,
Tremenda espiga de horror.

Com rezas pretende astuto,
Ao Deus supremo enganar;
Mas Deus o condena, o justo,
A morto espigas tragar.

O próprio orador colosso,
Famoso Tribuno ousado,
Se o povo lhe nega os votos,
Nas urnas fica espigado.

O ministério soberbo,
Que emerge da fina intriga,
Se nova intriga o desmonta
Na queda leve da espiga.

O pretendente ao Senado,
A quem o Rei favoneia,
Se na escolha é malogrado
Leva em cheio espiga e meia.

Se do Rei a escolha alcança,
E se a escolha é rejeitada,
O logrado cai de costas,
E toma espiga dobrada.

O mercador que faliu,
Finório como a formiga,
Guardando a chelpa segura,
Nos credores mete a espiga.

À guerra lançou-se altivo
O francês, povo guerreiro;
D’Alemanha toma a espiga;
Toma espiga, e dá dinheiro!

Vencendo a brava Alemanha,
Vencendo com fama e glória,
Anda medrosa da espiga
Que ganhou com a vitória.

É que as espigas germinam,
De espigas espigas vêm;
E se espigas dão espigas,
Ai de quem espigas tem!...

O cavalheiro bifronte,
Que a mão nos estende amiga,
Quando nos morde às ocultas,
Tem alma de pobre espiga.

O Doutor, o Lente, o Artista,
O homem sério, de bem,
Se os olhos fecha e se queda
Espigas leva também.

Os próprios Santos bondosos,
Oragos das confrarias,
Espigas tragam maiores
Que as torres, nas sacristias.

Um redator de jornal,
A quem a Musa falece,
Por certo leva da espiga,
Se o povo o não favorece.

É tal a força da espiga,
Tão grande o seu poderio,
Que Deus, que nos deu a espiga,
Negou-nos dela o desvio.

Por ela tudo se move,
O Céu, a terra e o mar;
Por ela tudo se encanta,
A flor, a brisa, o luar.

Faço pronto, pois, na espiga,
Não quero ser espigado;
Nem quero que o leitor diga
Ter eu da espiga abusado.

É de mistérios pejada,
Às almas causa fadiga;
Foi do mistério gerada
À gr[a]ve história da espiga.


* Nota de Ligia Fonseca Ferreira, organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas: Publicado n’O Polichinello nº 11, 25 de junho de 1876.
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Primeiras Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora Martins Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867); tendo sofrido apagamento histórico por mais de um século, o poeta abolicionista, defensor dos escravos e dos pobres foi reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em 2015, corrigindo-se assim uma injustiça; em 2021 deu-se o lançamento do filme Doutor Gama, no qual é contada a história do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista e ter conseguido a libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas recentes; sua única obra publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, um pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.