quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Hilda Hilst: Há este céu duro empedrado de ventos . . .

Cantares – Hilda Hilst | Le Livros
____________________
LVII

Há este céu duro
Empedrado de ventos.
Eternidade és tu, meu ódio-amor
Senhor do meu sentimento.

Há este Nunca-Mais
Ancorado no Tempo.
E uma só tarde num aroma de ruas
De mogorim, de aves.

E há refrões e ágatas
Nas praças
Daquele paraíso de ilusões.
E barcas, pedras roladas

Extensos esgarçados
Eternidade de nós, meu ódio-amor
No SEMPRE-NUNCA MAIS.

(Cantares de perda e predileção — 1983)

Exposição no MIS paulista celebra os 90 anos de Hilda Hilst | CLAUDIA
____________________
Cantares — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora, 2002, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de Perda e Predileção (1983), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (1984), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Abílio Víctor (Nhô Bentico): Trovas

  
____________________
Lá no céu eu vi, de noite,
u’a istrela suspirá,
só por tu fechá a janela,
quano foi pra se deitá.

Moreninha, esse teu rancho
prantadinho lá na serra,
foi o ponto de discanso
quano Deus andô na terra.

O amo tem dois mistério
que é pra gente resorvê:
um, é só pra regalá,
ôtro só pra padecê...

dansei samba, sapatiado,
já dansei cateretê,
mais me sinto atrapaiado,
quano eu óio pra você.

Na vida tem dois caminho
que a gente deve pensá:
um, é quano vem a morte,
ôtro, intão, pra se casá...

aquela rosa vermeia
que pra mim você negô,
de dó do meu desaponto,
garanto que amarelô.

Eu nasci pra padecê,
vim no mundo, pra chorá:
meu zóio vive cansado
i num póde discansá.

Quem tem sogra, tem barúio,
quem tem sogra, tem tormento,
eu fico tudo arripiado
quano vejo um casamento...

Quem é filiz, sendo amado,
tem o zóio pra adorá!
mais quem vive desprezado,
o zóio é só pra chorá...

____________________
Folhas do Mato — versos caipiras, Prefácio de Manuel Cerqueira Leite (1ª edição, datado de 06 de dezembro de 1938), 2ª edição aumentada, 1940, Gráfica Sorocabana, Sorocaba — SP; Nhô Bentico e Abílio Soares Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato, Versos Humorísticos, Favas de Ingá e Poemas Sertanejos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Georg Trakl: Música em Mirabell

Resultado de imagem para o livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português) ediouro
____________________
[traduzido por Olympio Monat da Fonseca]

Uma fonte canta. As nuvens pairam
Ao claro azul, brancas e suaves.
Com passos lentos e graves as pessoas
À tarde cruzam o velho jardim.

Cinza é agora o mármore antigo.
Um bando de pássaros busca o longínquo.
Um fauno com seus olhos mortos contempla
As sombras que se perdem na escuridão.

A folhagem cai rubra das velhas árvores
E paira e penetra pelas janelas abertas.
Um fulgor de incêndio brilha em todo o cômodo,
Traçando confusos fantasmas de angústia.

Um estranho todo de branco penetra na casa.
Um cão se precipita pelos velhos corredores.
A criada apaga uma luz.
É noite então, e ouvimos os acordes de uma sonata.

Templo Cultural Delfos: Georg Trakl - poeta expressionista austríaco
Georg Trakl

Musik im Mirabell

Ein Brunnen singt. Die Wolken stehn
Im klaren Blau, die weissen, zarten.
Bedächtig stille Menschen gehn
Am Abend durch den alten Garten.

Der Ahnen Marmor ist ergraut.
Ein Vogelzug streift in die Weiten.
Ein Faun mit toten Augen schaut
Nach Schatten, die ins Dunkel gleiten.

Das laub fällt rot vom alten Baum
Und kreist herein durchs offne Fenster.
Ein Feuerschein glüht auf im Raum
Und malet trübe Angstgespenster.

Ein weisser Fremdling tritt ins Haus.
Ein Hund stürzt durch verfallene Gänge.
Die Magd löscht eine Lampe aus.
Das Ohr hört nachts Sonatenklänge.
____________________
O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum,1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em agosto de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

Olympio Monat da Fonseca: O alquimista

Franklin Levy - Leiloeiro Oficial
____________________
Assim, após tantos anos
E desenganos
Eu teria enfim todo aquele ouro
Para comprar as pompas do mundo,
Para comprar todas as virtudes,
Para comprar todas as esperanças,
Para comprar qualquer eunuco
Que nos governa,
Para comprar o triunfo semanal
Do beletrista-colunista.
Para comprar as leis que os juristas improvisados
Nos oferecem.
Ah, com um simples filtro e esse pó
Da Assíria...
Adonai! Adonai!
Belphagor, sete vezes.
Astaroth, Asmodeu!

Sobretudo comprar e destruir.
Destruir para possuir.
E cantemos então agora, já.
Nesse momento que passa
E não volta mais,
Os inocentes, os loucos, os bêbados,
E as semi-virgens,
Nesse momento que passa,
(Sem um pranto),
E que não volta mais.
E será preciso então morrer
Lucidamente, cada dia
Porque o homem só vive após
Algum dano.
E cantemos de novo
Cinicamente o suicídio do amor
Na cidade dos homens.
____________________
Livro de Poemas (1947 — 1957): Olympio Monat da Fonseca, Coleção “Rex” nº 12, 1957, “Organização Simões” Editora, Rio de Janeiro — RJ; sobre o autor poeta Olympio Monat da Fonseca, o aprendiz de blogueiro e pesquisador responsável por este Verso e Conversa [quase] nada encontrou em seus caminhos googleanos; porém, pelo Correio da Manhã (domingo, 25.12.1949, 4ª secção Vida Literária), ficamos sabendo que naquele ano houve a publicação do seu livro de estréia, Cantos (lançado pelo Jornal de Letras); ainda, pela estante virtual, encontrou-se também a edição de Poemas (Editora Guanabara, 1950) e, pelo books.google, Um homem sem rosto e Passeio de cavalo morto (romances, de 1964 e 1978, respectivamente); Olympio Monat da Fonseca traduziu poemas de Georg Trakl, Stefan George e Friedrich Georg Jünger, é o que constatamos em O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia, edição bilíngüe (seleção de Geir Campos, Ediouro, 1985), traduções estas que fazem parte do acervo deste Verso e Conversa (clique aqui); quem souber de outras notícias a respeito do autor, e/ou de sua vida literária, e puder/quiser compartilhar com este blogue, fica o agradecimento público.

domingo, 27 de setembro de 2020

Brinque nº 1 — s/data [abril? de 1983] — Depto. Cultural do SeebSP

  
____________________



____________________
Brinque Nº 1 — sem data [abril? de 1983] — Publicação do Depto. Cultural do Sindicato dos Bancários de São Paulo; tal devezenquandário, desenvolvido pelo coletivo do Cultural do Seeb-SP deve ter tido mais de uma vintena de edições, ou quase...; é o que deduz este aprendiz de blogueiro, pois há em seus arquivos, além de outros diversos números, o Brinque nº 18, de outubro de 1985; o jornaleco Brinque era distribuído nos eventos culturais do SeebSP, no 'sexta seis e meia' e nas atividades de rua que aconteciam nos arredores do sindicato (ruas Quinze de Novembro, Três de Dezembro etc.), particularmente no horário do almoço, mas também no final do expediente bancário; lembremos, ou relembremos, que no chamado centro velho de sampa e em apenas dois ou três quarteirões trabalhavam naquela época, folgadamente, mais de 20 mil bancários em dezenas de agências, departamentos e centros administrativos; este blogueiro entende que o sindicato tenha tudo isso em seus arquivos (Cedoc), quiçá digitalizados.

W. H. Auden: Sonetos da China (I e II)

Antologia da Nova Poesia Norte-Americana | Livro Editora ...
____________________
[traduzido por Jorge Wanderley]

I

E recebendo seus bens a mancheias
Ligaram-se ao que a vida lhes reclama:
O pêssego a seu molde, a truta à escama,
A abelha à sociedade da colméia.

Deram-se desde a primeira empresa.
O aprendizado foi seu nascimento
E amaram tão precoce entendimento
De seus destinos, de suas certezas.

Veio depois uma infantil criatura
A quem os anos dão qualquer figura
(De leopardo e pomba, ao seu dispor),

Que a brisa mais amena desconcerta,
Que ama a verdade, mas que nunca acerta
E inveja amigos e escolhe um amor.

II

Por que lhes fora o fruto proibido?
Nada ensinara... o seu orgulho agora
Calavam; à censura, pouco ouvido.
Sabiam bem o que fazer lá fora.

Saíram. E desde então olvidaram
O que sabiam: já não mais contavam
Com os cães que antigamente os ajudaram
E estava mudo o rio a que falavam.

Sofreram: a liberdade era rude...
Fugia a madureza a que aspiravam
Como às crianças o horizonte ilude.

Perigos aumentaram como a dor
E os caminhos da volta, anjos guardavam
Contra o poeta e o legislador.

W. H. Auden

I

So from the years their gifts were showered: each
Grabbed at the one it needed to survive;
Bee took the politics that suit a hive,
Trout finned as trout, peach moulded into peach,

And were successful at their first endeavour.
The hour of birth, their only time in college,
They were content with their precocious knowledge,
To know their station and be right for ever.

Till finally there came a childish creature
On whom the years could model any feature,
Fake, as chance fell, as leopard or a dove,

Who by the gentlest wind was rudely shaken,
Who looked for truth but always was mistaken,
And envied his few friends, and chose his love.

II

They wondered why the fruit had been forbidden:
It taught them nothing new. They hid their pride,
But did not listen much when they were chidden:
They knew exactly what to do outside.

They left. Immediately the memory faded
Of all they’d known: they could not understand
The dogs now who before had always aided;
The stream was dumb with whom they’d always planned.

They wept and quarrelled: freedom was so wild.
In front maturity as he ascended
Retired like a horizon from the child,

The dangers and the punishments grew greater,
And the way back by angels was defended
Against the poet and the legislator.
____________________
Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

sábado, 26 de setembro de 2020

Furnandes Albaralhão: Mal sicreto *

____________________
S’a cólera que põe danada a gente,
distrói a paz da bida disijada,
tudo o que nos vilisca intiriormente
suvisse á nossa cara, qu’istupada!...

Si si pudesse, a ialma padicente,
bêre por trás de muita guergalhada,
canta gente a se rire vestamente,
que era muito milhóre estar calada!

Canta gente só ri p’ra disfarçare
um turco á porta que lhe bem cuvrare
a quemisa, a ciloira1, a maia, u cinto...

Cantos há nesse mundo a tres por dois,
que tendo à janta só cumido arroz,
arrotam p’ru2, laitão e binho tinto!

Recanto das Palavras - Galeria: Furnandes Albaralhão e o Caldo Berde

* Nota deste Verso e Conversa: Para efeito de comparação, este atrevido aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: Mal secreto: Se a cólera que espuma, a dor que mora / n'alma, e destrói cada ilusão que nasce / tudo o que punge, tudo o que devora / o coração, no rosto se estampasse; // se se pudesse, o espírito que chora, / ver através da máscara da face, / quanta gente, talvez, que inveja agora / nos causa, então piedade nos causasse! // Quanta gente que ri, talvez, consigo / guarda um atroz, recôndito inimigo / como invisível chaga cancerosa! // Quanta gente que ri, talvez existe, / cuja ventura única consiste / em parecer aos outros venturosa! (Raimundo Correia)

Notas do organizador Idel Becker:
ciloira: ceroula;
2 p’ru: peru.
____________________
Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 1964), fluminense e carioca, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).