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sábado, 29 de novembro de 2025

Heine: Diz que outrora um cavalheiro Adorava uma donzela, . . .

 
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[traduzido por Ary de Mesquita]

XXXIX.

Diz que outrora um cavalheiro
Adorava uma donzela,
Que amava outro, e que, um dia,
Foi saber que não a ela,
Mas a outra este queria.

De rancor e de despeito,
Ao primeiro namorado
Ela aceita o casamento,
E o cavalheiro, coitado!
Vai morrer de sofrimento.

* * *

Tais histórias são antigas,
Antigas como as estrelas,
Mas sempre novas serão,
E a quem sucede uma delas
Se lhe parte o coração.

(Livro das Canções [inclui Intermezo Lírico] — 1827)

Heinrich Heine

Ein Jüngling liebt ein Mädchen

Lied XXXIX.

Ein Jüngling liebt ein Mädchen,
Die hat einen andern erwählt;
Der andre liebt eine andre,
Und hat sich mit dieser vermählt.

Das Mädchen heiratet aus Ärger
Den ersten besten Mann,
Der ihr in den Weg gelaufen;
Der Jüngling ist übel dran.

Es ist eine alte Geschichte,
Doch bleibt sie immer neu;
Und wem sie just passieret,
Dem bricht das Herz entzwei.

[1822]

(Buch der Lieder [+ Lyrisches Intermezzo] — 1827)
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Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formou-se em Direito, estudou nas universidades de Bonn, Göttingen e Berlim, sempre se interessou mais pela literatura, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; em 1817, teve poemas publicados pela primeira vez na revista Hamburgs Wächter; frequentou salões e círculos literários berlinenses, traduziu obras de Lord Byron; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por renomados compositores: Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner, e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; Heine, devido a suas posições político-progressistas e críticas à Alemanha, sofreu censura, seus livros estiveram proibidos de circular no país e, em 1831, o poeta foi forçado a se mudar para Paris; viveu no exílio até a morte parte deste período esteve “permanentemente acamado devido a uma doença espinhal” que o paralisou; suas obras: Gedichte (Poesias, 1821), Reisebilder (Quadros de Viagem, 4 volumes, prosa, 18261831), Buch der Lieder [+ Lyrisches Intermezzo] (Livro das Canções [inclui Intermezo Lírico 20 poemas], poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Hebraïsche Melodien (Melodias Hebraicas), Lyrische und Spruchwitz-Dichtung (Poesia Lírica e sarcástica), Deutschland. Ein Wintermärchen (Alemanha. Um Conto de Inverno, poema satírico, 1844), Atta Troll — Ein Sommermachtstraum (Atta Troll — sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos, inclusive prosa.

domingo, 16 de novembro de 2025

Heine: Imagens do meu passado, Imagens do tempo antigo, . . .

 
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[traduzido por Ary Mesquita]

XXXVIII.

Imagens do meu passado,
Imagens do tempo antigo,
Às vezes vão ressurgindo,
Os dias reproduzindo
Em que falei contigo.

De dia, andava tristonho
Falando comigo mesmo,
A todas perguntas mudo,
Se retrucava era a esmo,
Indiferente a tudo.

De noite, pálido, errante,
Lá ia eu pela rua,
Só da sombra acompanhado,
Com o semblante enamorado
A contemplar a lua.

E os meus passos fatigados
Palmilhavam a cidade
Até que enfim, devagar,
Os astros na imensidade
Deixassem de brilhar.

E parava em sua casa,
E ficava horas olhando
Tua janela fechada,
Com minh’alma apunhalada
E o coração sangrando.

Eu sei, uma vez, curiosa,
Na ponta dos pés, a medo,
Tu foste à janela, e me viste:
Imóvel como um rochedo,
E como a noite triste.

(Livro das Canções [inclui Intermezo Lírico] — 1827)

Heinrich Heine

Manch Bild vergessener Zeiten

Lied XXXVIII

Manch Bild vergessener Zeiten
Steigt auf aus seinem Grab,
Und zeigt, wie in deiner Nähe
Ich einst gelebet hab.

Am Tage schwankte ich träumend
Durch alle Straßen herum;
Die Leute verwundert mich ansahn,
Ich war so traurig und stumm.

Des Nachts da war es besser,
Da waren die Straßen leer;
Ich und mein Schatten selbander,
Wir wandelten schweigend einher.

Mit widerhallendem Fußtritt
Wandelt ich über die Brück;
Der Mond brach aus den Wolken,
Und grüßte mit ernstem Blick.

Stehn blieb ich vor deinem Hause,
Und starrte in die Höh,
Und starrte nach deinem Fenster —
Das Herz tat mir so weh.

Ich weiß, du hast aus dem Fenster
Gar oft herabgesehn,
Und sahst mich im Mondenlichte
Wie eine Säule stehn.

(Buch der Lieder [+ Lyrisches Intermezzo] — 1827)
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Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formou-se em Direito, estudou nas universidades de Bonn, Göttingen e Berlim, sempre se interessou mais pela literatura, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; em 1817, teve poemas publicados pela primeira vez na revista Hamburgs Wächter; frequentou salões e círculos literários berlinenses, traduziu obras de Lord Byron; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por renomados compositores: Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner, e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; Heine, devido a suas posições político-progressistas e críticas à Alemanha, sofreu censura, seus livros estiveram proibidos de circular no país e, em 1831, o poeta foi forçado a se mudar para Paris; viveu no exílio até a morte parte deste período esteve “permanentemente acamado devido a uma doença espinhal” que o paralisou; suas obras: Gedichte (Poesias, 1821), Reisebilder (Quadros de Viagem, 4 volumes, prosa, 18261831), Buch der Lieder [+ Lyrisches Intermezzo] (Livro das Canções [inclui Intermezo Lírico 20 poemas], poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Hebraïsche Melodien (Melodias Hebraicas), Lyrische und Spruchwitz-Dichtung (Poesia Lírica e sarcástica), Deutschland. Ein Wintermärchen (Alemanha. Um Conto de Inverno, poema satírico, 1844), Atta Troll — Ein Sommermachtstraum (Atta Troll — sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos, inclusive prosa.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Heine: Ela dança. E como gira o corpo! . . .

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[traduzido por André Vallias]

Ela dança. E como gira o corpo!
Cada membro se contorce solto!
Esvoaça o que será que a impele
Desejar se desprender da pele?

Ela dança. E quando se revira
Num pé só, e para, e enfim respira,
Braços estirados para o chão
Protegei, ó Deus, minha razão!

Ela dança. A tal coreografia
Que teria a filha de Herodias
Feito para o rei judeu Herodes,
Tanto ardeu nos olhos dela a morte.

Ela dança. Eu fico alucinado!
O que queres em sinal de agrado?
Tu sorris? Soldados, em revista!
Tragam-me a cabeça do Batista!

[Romanzero, 1851]

Heinrich Heine

Sie tanzt. Wie sie das Leibchen wiege!
Wie jedes Glied sich zierlich biegt!
Das ist ein Flattern und ein Schwingen,
Um wahrlich aus der Haut zu springen.

Sie tanzt. Wenn sie sich wirbelnd dreht
Auf einem Fuß, und stillesteht
Am End’ mit ausgestreckten Armen.
Mag Gott sich meiner Vernunft erbarmen!

Sie tanzt. Derselbe Tanz ist das,
Den einst die Tochter Herodias’
Getanzt vor dem Judenkönig Herodes.
Ihr Auge sprüht wie Blitze des Todes.

Sie tanzt mich rasend ich werde toll
Sprich, Weib, was ich dir schenken soll?
Du lächelst? Heda! Trabanten! Läufer!
Man schlage ab das Haupt dem Täufer!

[1844–1845]

[Romanzero, 1851]
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (Livro das Canções, poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Atta Troll — Ein Sommermachtstraum (Atta Troll — sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Heine: Como rasteja devagar . . .


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[traduzido por André Vallias]

Como rasteja devagar
O tempo, caracol horrendo!
E eu, sem poder mover os membros,
Não saio mais deste lugar.

Na minha cela sempre escura
Não entra sol nem a esperança;
Daqui, em derradeira instância,
Só me liberta a sepultura.

Quem sabe já virei defunto
E esses semblantes em cortejo,
Que à noite desfilando eu vejo,
Não são visitas do outro mundo.

Fantasmas a vagar sem corpo
Ou deuses do templo pagão,
Que adoram fazer confusão
No crânio de um poeta morto.

A doce festa dos espíritos,
Orgia saturnal e tétrica,
Busca a mão óssea do poeta
Deitar às vezes por escrito.

Heinrich Heine

Wie langsam kriechet sie dahin,
Die Zeit, die schauderhafte Schnecke!
Ich aber, ganz bewegungslos
Blieb ich hier auf demselben Flecke.

In meine dunkle Zelle dringt
Kein Sonnenstral, kein Hoffnungsschimmer;
Ich weiß, nur mit der Kirchhofsgruft
Vertausch ich dies fatale Zimmer.

Vielleicht bin ich gestorben längst;
Es sind vielleicht nur Spukgestalten
Die Phantasieen, die des Nachts
Im Hirn den bunten Umzug halten.

Es mögen wohl Gespenster seyn,
Altheidnisch göttlichen Gelichters;
Sie wählen gern zum Tummelplatz
Den Schädel eines todten Dichters.

Die schaurig süßen Orgia,
Das nächtlich tolle Geistertreiben,
Sucht des Poeten Leichenhand
Manchmal am Morgen aufzuschreiben.

[1853-1854]
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (Livro das Canções, poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Atta Troll  Ein Sommermachtstraum (Atta Troll  sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Heine: O conteúdo que um poema encarna . . .

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[traduzido por André Vallias]

O conteúdo que um poema encarna
Jamais surgiu num estalar de dedos;
Se demiurgos não criam do nada,
Ah, muito menos os mortais aedos.

Do preexistente lixo primordial
Foi que eu formei o corpo masculino;
Dele eu tirei o osso com o qual
Moldei o da mulher ainda mais lindo.

O céu saiu do entulho aqui da Terra,
Os anjos desdobrei da mulherada;
Somente pelo esforço do “poeta” 
É que a matéria é valorizada.

Heinrich Heine

Der Stoff, das Material des Gedichts,
Das saugt sich nicht aus dem Finger;
Kein Gott erschafft die Welt aus nichts,
Sowenig wie irdische Singer.

Aus vorgefundenem Urweltsdreck
Erschuf ich die Männerleiber,
Und aus dem Männerrippenspeck
Erschuf ich die schönen Weiber.

Den Himmel erschuf ich aus der Erd'
Und Engel aus Weiberentfaltung;
Der Stoff gewinnt erst seinen Werth
Durch künstlerische Gestaltung.

[1844]
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (Livro das Canções, poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Atta Troll  Ein Sommermachtstraum (Atta Troll  sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Heine: Os tecelões da Silésia*


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[traduzido por André Vallias]

Não há lágrimas em seus olhares;
Rangem dentes diante dos teares:
Alemanha, nós tecemos tua mortalha,
E tramamos nossa tripla maldição
Nós tecemos e tramamos!

Maldição ao Deus a quem oramos,
Quando a fome e o frio nos maltratam;
Suplicamos de joelhos sua graça,
Ele tripudia e ri da nossa cara
Nós tecemos e tramamos!

Maldição ao Rei, rei dos ricaços,
Da miséria faz tão pouco caso;
Nos roubou até o último centavo
Para nos lançar nos braços do carrasco
Nós tecemos e tramamos!

Maldição à Pátria desamada,
Onde o escárnio e a humilhação se alastram;
Onde a flor que flore é logo estraçalhada;
Onde a podridão seus vermes amealha
Nós tecemos e tramamos!

Voa a lançadeira no tear,
Noite e dia, trabalhamos sem parar
Alemanha, nós tecemos tua mortalha,
E tramamos nossa tripla maldição,
Nós tecemos e tramamos!

[1844–1845]

Heinrich Heine

Die schlesischen Weber

Im düstern Auge keine Thräne,
Sie sitzen am Webstuhl und fletschen die Zähne:
Altdeutschland, wir weben Dein Leichentuch,
Wir weben hinein den dreyfachen Fluch
Wir weben, wir weben!

Ein Fluch dem Gotte, zu dem wir gebeten,
In Winterkälte und Hungersnöthen;
Wir haben vergebens gehofft und geharrt,
Er hat uns geäfft und gefoppt und genarrt
Wir weben, wir weben!

Ein Fluch dem König, dem König der Reichen,
Den unser Elend nicht konnte erweichen,
Der den letzten Groschen von uns erpreßt,
Und uns wie Hunde erschießen läßt
Wir weben, wir weben!

Ein Fluch dem falschen Vaterlande,
Wo nur gedeihen Schmach und Schande,
Wo jede Blume früh geknickt,
Und Fäulniß und Moder den Wurm erquickt
Wir weben, wir weben!

Das Schiffchen fliegt, der Webstuhl kracht,
Wir weben emsig Tag und Nacht
Altdeutschland, wir weben Dein Leichentuch,
Wir weben hinein den dreifachen Fluch,
Wir weben, wir weben!

[1844–1845]

* Nota do tradutor André Vallias:Os tecelões da Silésia”: motivado pela rebelião de tecelões, ocorrida de 4 a 6 de junho de 1844, na Silésia, duramente reprimida pelo exército prussiano, que terminou com onze mortos e dezenas de feridos; a primeira versão do poema — intitulada “Os pobres tecelões”, com uma estrofe a menos — foi publicada quatro dias após o desfecho dos acontecimentos, na revista Vorwärts! [Avante!], editada por Karl Marx e Arnold Ruge em Paris; o poema foi, em seguida, distribuído na região do conflito, em formato de panfleto, numa tiragem de 50.000; traduzido por Friedrich Engels para o inglês, tornou-se um dos mais populares hinos do movimento operário internacional. Heine pretendia publicá-lo no Romanzero, mas foi dissuadido pelo editor Julius Campe.
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (Livro das Canções, poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Atta Troll  Ein Sommermachtstraum (Atta Troll  sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos.

domingo, 27 de novembro de 2022

Heine: Os anjos*

 

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[traduzido por André Vallias]

Eu, incrédulo Tomé,
Já não creio na doutrina
Que o rabi e o padre ensinam:
Nesse “céu” não levo fé!

Mas nos anjos acredito,
Dou aqui meu testemunho:
Perambulam pelo mundo,
Impolutos e bonitos.

Só refuto essa bobagem
De anjo aparecer de asinha;
Sei de muitos, Senhorinha,
Desprovidos de penagem.

Com carinho e claridade,
De olho atento nos humanos,
Nos protegem, afastando
O infortúnio e a tempestade.

Amizade tão discreta
Reconforta toda gente,
Tanto mais o duplamente
Judiado, que é o poeta.

Heinrich Heine

Die Engel

Freylich ein ungläub’ger Thomas
Glaub’ ich an den Himmel nicht,
Den die Kirchenlehre Romas
Und Jerusalems verspricht.

Doch die Existenz der Engel,
Die bezweifelte ich nie;
Lichtgeschöpfe sonder Mängel,
Hier auf Erden wandeln sie.

Nur, genäd’ge Frau, die Flügel
Sprech’ ich jenen Wesen ab;
Engel giebt es ohne Flügel,
Wie ich selbst gesehen hab’.

Lieblich mit den weißen Händen,
Lieblich mit dem schönen Blick
Schützen sie den Menschen, wenden
Von ihm ab das Mißgeschick.

Ihre Huld und ihre Gnaden
Trösten jeden, doch zumeist
Ihn, der doppelt qualbeladen,
Ihn, den man den Dichter heißt.

[1847]

* Nota do tradutor André Vallias:Os anjos”: poema escrito para Betty Rothschikld (1805 — 1886) — nascida Betty Salomon von Rothschild, mulher (e sobrinha) do barão James Mayer de Rothschild (1792 — 1868) — na edição do Atta Troll que o poeta lhe presenteou.
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (Livro das Canções, poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Atta Troll — Ein Sommermachtstraum (Atta Troll — sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos.

domingo, 11 de outubro de 2020

Heinrich Heine: “Intermezzo Lírico” (Fragmentos)

Resultado de imagem para o livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português) ediouro
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[traduzido por Machado de Assis]

Prólogo

Um cavalheiro havia, taciturno,
Que o rosto magro e macilento tinha.
Vagava como quem de algum noturno
Sonho levado, trépido caminha.
Tão alheio, tão frio, tão soturno,
Que a moça em flor e a lépida florinha,
Quando passar tropegamente o viam,
Às escondidas dele escarneciam.

Amiúde buscava a mais sombria
Parte da casa, por fugir à gente:
Daquele posto os braços estendia
Tomado de desejo impaciente.
Uma palavra só não proferia.
Mas, pela meia-noite de repente
Estranho canto e música escutava,
E logo alguém que à porta lhe tocava.

Furtivamente então entrava a amada
O vestido de espumas arrastando,
Tão vivamente fresca e tão corada
Como a rosa que vem desabrochando;
Brilha o véu; pela esbelta e delicada
Figura as tranças soltas vão brincando;
Os meigos olhos dela os dele fitam,
E um ao outro de ardor se precipitam.

Com a força que o amor somente gera,
O peito a cinge, agora afogueado;
O descorado as cores recupera
E o retraído acaba namorado,
O sonhador desfaz-se da quimera...
Ela o excita, com gesto calculado;
Na cabeça lhe lança levemente
O adamantino véu alvo e luzente.

Ei-lo se vê em sala cristalina
De aquático palácio. Com espanto
Olha, e de olhar a fábrica divina
Quase os olhos lhe cegam. Entretanto,
Junto ao úmido seio a bela ondina
O aperta tanto, tanto, tanto, tanto...
Vão as bodas seguir-se. Notas belas
Vêm tirando, das cítaras, donzelas.

As notas vêm tirando e, deleitosas,
Cantam e cada uma a dança tece
Erguendo ao ar as plantas graciosas.
Ele, que todo e todo se embevece,
Deixa-se ir nessas horas amorosas...
Mas o clarão de súbito fenece,
E o noivo torna à pálida tristura
Da antiga e solitária alcova escura.

Livro das Canções — 1827

Heinrich Heine - Pensador
Heinrich Heine

“Lyrisches Intermmezzo” (Bruchstücke)

Prolog

Es war’ mal ein Ritter trübselig und stumm,
Mit hohlen, schneeweissen Wangen;
Er schwankte und schlenderte schlotternd herum,
In dumpfen Träumen befangen.
Er war so hölzern, so täppisch, so links,
Die Blümlein und Mägdlein, die kicherten rings,
Wenn er stolpernd vorbeigegangen.

Oft sass er im finstersten Winkel zu Haus;
Er hatt sich vor Menschen verkrochen.
Da streckte er sehnend die Arme aus,
Doch hat er kein Wörtlein gesprochen.
Kam aber die Mitternachtstunde heran,
Ein seltsames Singen und Klingen begann
An die Türe da hört er es pochen.

Da kommt seine Liebste geschlichen herein,
Im rauschenden Wellenschaumkleide,
Sie blüht und glüht wie ein Röselein,
Ihr Schleier ist eitel Geschmeide.
Goldlocken umspielen die schlanke Gestalt,
Die Äuglein grüssen mit süsser Gewalt
In die Arme sinken sich beide.

Der Ritter umschlingt sie mit Liebesmacht,
Der Hölzerne steht jetzt im Feuer,
Der Blasse errötet, der Träumer erwacht,
Der Blöde wird freier und freier.
Sie aber, sie hat ihn gar schalkhaft geneckt,
Sie hat ihm ganz leise den Kopf bedeckt
Mit dem weissen, demantenen Schleier.

In einen kristallenen Wasserpalast
Ist plötzlich gezaubert der Ritter.
Er staunt, und die Augen erblinden ihm fast
Vor alle dem Glanz und Geflitter.
Doch hält ihn die Nixe umarmet gar traut,
Der Ritter ist Bräutgam, die Nixe ist Braut,
Ihre Jungfrauen spielen die Zither.

Sie spielen und singen, und singen so schön,
Und heben zum Tanze die Füsse;
Dem Ritter dem wollen die Sinne vergehn,
Und fester umschliesst er die Süsse
Da löschen auf einmal die Lichter aus,
Der Ritter sitzt wieder ganz einsam zu Haus,
In dem düstern Poetenstübchen.

Buch der Lieder — 1827
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Shubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias, Romanceiro, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.