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domingo, 15 de março de 2026

Musset: Pequena Canção

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[traduzido por Álvaro Reis]

Se acreditais... que eu diga, um dia,
               Quem ousou amar
               (Nada o revela)
               Nem por um trono saberia
               Pronunciar
               O nome dela.

Cantemos alto, ao sol que doura
               Os dias belos.
               Se desejais...
Quanto eu a adoro e quanto é loura
               Com os seus cabelos
               Cor dos trigais.

Eu cumpro tudo o que a fantasia
               Desta querida
               Quer me ordenar;
Se for preciso, com alegria,
               A minha vida
               Lhe posso dar.

Do mal que o amor desconhecido,
               Sempre ocultado,
               Nos faz sofrer,
O coração levo ferido,
               Despedaçado,
               Até morrer.

Amo demais; por isso, nada,
               Nada revela,
               Quem ouso amar...
Morrer prefiro por minha amada,
               Que o nome dela
               Pronunciar.

[“Fortunio canta — Segundo Ato, Cena 3,
em O Castiçal, ou O Lustre, comédia em 3 atos,
publicada em 1835 e representada em 1848]

Alfred Musset

Chanson de Fortunio

Si vous croyez que je vais dire
           Qui j'ose aimer,
Je ne saurais, pour un empire,
           Vous la nommer.

Nous allons chanter à la ronde,
           Si vous voulez,
Que je l'adore et qu'elle est blonde
           Comme les blés.

Je fais ce que sa fantaisie
           Veut m'ordonner,
Et je puis, s'il lui faut ma vie,
           La lui donner.

Du mal qu'une amour ignorée
           Nous fait souffrir,
J'en porte l'âme déchirée
           Jusqu'à mourir.

Mais j'aime trop pour que je die
           Qui j'ose aimer,
Et je veux mourir pour ma mie
           Sans la nommer.

[“Fortunio chante — Acte deuxième, Scène III”,
en Le Chandelier — Comédie en trois actes,
públiée en 1835, représentée en 1848.]
(Poésies nouvelles)
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Joséphin Soulary: O Soneto

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[traduzido por Álvaro Reis]

Não caberei aqui diz-me, doida, sorrindo
Vou romper-te, afinal, colete de Procusto!
Infla o colo e depois torce o quadril robusto,
E estorce em demasia um braço airoso e lindo...

Nessas lutas, paciente, esqueço um tempo infindo.
Pelo estreito vestuário em que seu talhe ajusto,
Ora apertando um laço, ora outro desunindo,
Faço passar, por fim, cabeça, espádua e busto.

Sob as dobras da veste, os contornos, agora,
Desenhemos com arte... E a forma se avigora,
Vede: a roupa flutua e a beleza se acusa.

Estará bem ou mal nesses traços serenos?
Nada ao corpo de mais, nem na alma de menos
Gosto assim da mulher e assim desejo a Musa.

Joséphin Soulary

Le Sonnet

Je n’entrerai pas là, dit la folle en riant,
Je vais faire éclater ce corset de Procuste!
Puis elle enfle son sien, tord sa hanche robuste,
Et prête à contresens un bras luxuriant.

J’aime ces doux combats, et je suis patient.
Dans l’étroit vêtement qu’à sa taille j’ajuste,
Là serrant un atour, ici le déliant,
J’ai fait passer enfin tête, épaules et buste.

Avec art maintenant dessinons sous ces plis
La forme bondissante et les contours polis.
Voyez! la robe flotte, et la beauté s’accuse

Est-elle bien ou mal en ces simples dehors?
Rien de moins dans le coeur, rien de plus sur le corps,
Ainsi me plaît la femme, ainsi je veux la Muse.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [várias autorias e tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Joséphin Soulary ou Joseph Marie Soulary (1815 1891), francês de Lyon, foi um escritor, dramaturgo comedista e poeta francês; rejeitado pelos pais, teve uma infância difícil, aos dezesseis anos alistou-se num regimento, depois, acolhido por Hippolyte-Paul Jaÿr, então prefeito de Lyon e que apreciava suas poesias, tornou-se funcionário da prefeitura e seguiu dupla carreira: a administrativa gerente de escritório e, depois, bibliotecário no Palais de Arts de Lyon e a literária; de seus traços bibliográficos, é tido que seus sonetos humorísticos atraiam a atenção e encantavam os leitores; tinha o pleno domínio das técnicas poéticas, particularmente das do soneto; suas obras: À travers champs (1837), Les Cinq cordes du luth (1838), Les Éphéméres (deux séries, 1846 et 1857), Sonnets humouristiques (1862), Les Figulines (1862), Pendant l’invasion (1871), Les Rimes ironiques (1877), Jeus divins (1882), e duas comédias: Un grand homme qu'on attend (1879) e La Lune rousse (1879); suas obras poéticas foram reunidas em 3 volumes (18721883).

domingo, 28 de dezembro de 2025

Jean Richepin: Tuas palavras


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[traduzido por Álvaro Reis]

Tuas palavras têm melodias divinas,
acordes de cristal, pianíssimo, vibrando!
De olhos cerrados fico, imerso em gozo, quando,
dizendo-me um segredo, o alvo pescoço inclinas...

Então não me inebria o olor das balsaminas
de tua boca é, mais o tom límpido e brando,
que dás a uma palavra, a um simples "sim", falando...
Tuas palavras têm meiguices peregrinas!

Eis, pois, o que me faz dormentes os sentidos;
ouço-te, sem saber o que estás a dizer-me,
qual numa língua estranha e suave aos meus ouvidos!...

E em pleno arrebatar dos êxtases radiosos
sinto invisível mão percorrer-me a epiderme...
Tuas palavras, flor! têm dedos cariciosos...

Jean Richepin

[Tes paroles ont des musiques . . . ]

XX

Tes paroles ont des musiques cristallines.
Rien qu’à les écouter, que de fois j’ai joui!
Je pâme, les yeux clos, et presque évanoui,
Quand, pour me parler bas, dans le cou, tu t’inclines.

Ce n’est pas de ton souffle embaumant les pralines
Que je me grise alors; c’est du ton inouï
Que tu mets dans un mot quelconque, un simple oui.
Ta bouche a des façons de prononcer câlines.

Voilà ce qui me fait tous les sens engourdis.
Je t’écoute, mais sans savoir ce que tu dis,
Comme si tu parlais une langue inconnue;

Je me laisse couler dans l’extase; et je sens
Une invisible main passer sur ma peau nue,
Car tes paroles même ont des doigts caressants.

(Les Caresses [groupement Thermidor] — 1877)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Auguste-Jules Richepin, ou Jean Richepin (1849 1926), franco-argelino nascido em Medeia Argélia, à época departamento francês no norte da África, diplomou-se em Literatura na École Normale Supérieure, Paris, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, estivador, porteiro, professor ...; frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros parisienses, sua vida boêmia e marginal acabou por inspirá-lo na criação das primeiras e provocativas poesias, as quais, já na estréia com sua obra La chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como o ocorrido com Baudelaire (na publicação de Les Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação à prisão, além do pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas terem sido considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras: coleções de poemas: Chanson des gueux (1876), Les Caresses (groupements: Floréal, Thermidor, Brumaire et Nivôse, 1877), Les Blasphemes (1884), La Mer (1886), Les Litanies de la mer (1894), Mes Paradis (1894), La Bombarde (1899), Poèmes durant la guerre: 1914-1918, (1919), Les Glas (1922) ..., romances: Les Morts bizarres (1876), Madame André (1878), La Glu (1881), Le Pave (1883), Miarka la fille à l'ours (1883), Les braves gens (1886), Césarine (1888) ..., e peças teatrais: Nana Sahib (drame en vers en 7 tableaux, 1883), Le Chemineau (drame en 5 actes, 1897), etc.; o poeta também compôs textos para músicos, colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie Française (Academia Francesa); um “viajante incansável”, andejou por Londres, viajou pela Itália, Espanha, Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões em que proferia conferências e redigia artigos para a imprensa parisiense.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

François Coppée: Ruínas do coração

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Era meu coração um palácio romano,
de mármore construído e pedrarias caras;
muito cedo as paixões invadiram-no, ignaras,
num confuso tropel de bárbaros, insano.

E tudo desabou... Nenhum rumor humano;
só mochos e reptis; flores sem viço e raras;
partidos pelo chão, porfírios e carraras,
e a encobrir o caminho o matagal profano.

Diante desse desastre eu fiquei muitos dias;
manhãs, tardes sem sol e noites sem fulgores
passaram; lá vivi horas longas, sombrias...

Mas surgiste, afinal, numa luz soberana!
E audaz, para abrigar nossos doces amores,
das ruínas do palácio ergui minha choupana.

François Coppée

Ruines du coeur

Mon coeur était jadis comme un palais romain,
Tout construit de granits choisis, de marbres rares.
Bientôt les passions, comme un flot de barbares,
L’envahirent, la hache ou la torche à la main.

Ce fut une ruine alors. Nul bruit humain.
Vipères et hiboux. Terrains de fleurs avares.
Partout gisaient, brisés, porphyres et carrares;
Et les ronces avaient effacé le chemin.

Je suis resté longtemps, seul, devant mon désastre.
Des midis sans soleil, des minuits sans un astre,
Passèrent, et j’ai, là, vécu d’horribles jours;

Mais tu parus enfin, blanche dans la lumière,
Et, bravement, afin de loger nos amours,
Des débris du palais j’ai bâti ma chaumière.

[Arrière-saison; poésies — 1887]
(Le Livre des sonnets — 1893)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; François Édouard Joachim Coppée (1842 — 1908), francês e parisiense, estudou no Lycée Saint-Louis, empregou-se como funcionário público trabalhou na biblioteca do Senado e como arquivista da Comédie Française, foi romancista, dramaturgo e poeta do parnasianismo; em 1884, tendo sido eleito para a Academie Française, se afastou de suas funções públicas e passou a dedicar-se inteiramente à arte literária e à dramaturgia; seus primeiros versos impressos datam de 1864; obras publicadas: Le Reliquaire (poésie, 1866), Les Intimités (poésie, 1867), Poèmes modernes: 1867-1869 (1869), Le Passant (comédie en un acte, en vers, 1869), Deux douleurs (drame en un acte, en vers, 1870), L’Abandonnée (drame en deux actes, en vers, 1871), Le Rendez-vous (comédie en un acte, en vers, 1872), Le Cahier rouge (poésie, 1874), La Guerre de cent ans (drame en cinq actes, en vers), Madame de Maintenon (drame en cinq actes avec un prologue, en vers, 1881), Severo Torelli (drame en cinq actes, en vers, 1883), Les Jacobites (drame en cinq actes, en vers, 1885), Arrière-Saison (poésie, 1887), Les Paroles sincères (poésie, 1891), e outros títulos em verso, prosa e para teatro.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Sully-Prudhomme: Os laços

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Querendo a tudo amar, trago a alma dolorida,
Porque multipliquei a causa dos tormentos…
Frágeis laços, grilhões inúmeros, cruentos,
Prendem meu coração às coisas desta vida.

Tudo a um tempo me atrai e enlaça-me igualmente:
Por seu brilho, a verdade e seus véus, o mistério;
Minha alma se une ao sol num raio de ouro, etéreo,
E em mil fios de seda a cada estrela ardente…

A cadência me prende à ária que triste evoca;
Seduz-me a veludez da rosa entre os abrolhos:
Eu de um sorriso fiz o grilhão dos meus olhos
E fiz também de um beijo a cadeia da boca!

Assim cativo sou dos seres que adoro, a esmo…
Suspenso é meu viver nesta rede que o enlaça…
E quando o menor sopro entre aqueles perpassa,
Sinto um pouco de mim se arrancar de mim mesmo.

(Musa Francesa, Salvador, 1917,
[de Stances et Poèmes — 1865]).

Sully-Prudhomme

Les Chaînes

J’ai voulu tout aimer, et je suis malheureux,
Car j’ai de mes tourments multiplié les causes;
D’innombrables liens frêles et douloureux
Dans l’univers entier vont de mon âme aux choses.

Tout m’attire à la fois et d’un attrait pareil:
Le vrai par ses lueurs, l’inconnu par ses voiles;
Un trait d’or frémissant joint mon cœur au soleil,
Et de longs fils soyeux l’unissent aux étoiles.

La cadence m’enchaîne à l’air mélodieux,
La douceur du velours aux roses que je touche;
D’un sourire j’ai fait la chaîne de mes yeux,
Et j’ai fait d’un baiser la chaîne de ma bouche.

Ma vie est suspendue à ces fragiles nœuds,
Et je suis le captif des mille êtres que j’aime:
Au moindre ébranlement qu’un souffle cause en eux
Je sens un peu de moi s’arracher de moi-même.

[Stances et Poèmes — 1865]
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Sully Prudhomme, por Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Banville: Andrômeda

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[traduzido por Álvaro Reis]

Geme Andrómeda, além, pelo deserto oceano,
nua e branca, a estorcer os braços num rochedo...
Nada sobre a erma praia, onde o vento, errante aedo,
canta! E na vastidão nem um trêmulo pano!

Sob o seu corpo nu esbraseia o penedo!
E um sol ardente a beija, impiedoso e profano...
E o glauco monstro investe e após recua, e, insano,
envolve-a, branca estrela esmaiada de medo!

Alma infantil e doce, ela geme, ofegante;
mas Perseu, vencedor de Atlas, em um momento,
vem, cortando a amplidão, no Pégaso flamante...

O herói vem desgrenhado, o áureo gládio empunhando,
e estática a princesa aspira novo alento,
e segue, olhos no Azul, o surto formidando!

Théodore de Banville

Andromède

Andromède gémit dans le désert sans voile,
Nue et pâle, tordant ses bras sur le rocher.
Rien sur le sable ardent que la mer vient lécher,
Rien ! pas même un chasseur dans un abri de toile.

Rien sur le sable, et sur la mer pas une voile!
Le soleil la déchire, impitoyable archer,
Et le monstre bondit comme pour s’approcher
De la vierge qui meurt, plus blanche qu’une étoile.

Ame enfantine et douce, elle agonise, hélas!
Mais Persée aux beaux yeux, le meurtrier d’Atlas,
Vient et fend l’air, monté sur le divin Pégase.

Il vient, échevelé, tenant son glaive d’or,
Et la jeune princesse, immobile d’extase,
Suit des yeux dans l’azur son formidable essor.

[Recueil: "Les princesses"]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Étienne Jean Baptiste Claude Théodore Faullain de Banville (1823 1891), francês de Moulins, Bourbonnais, estudou Direito, foi jornalista, dramaturgo, poeta e crítico literário e teatral; o poeta transitou no período tardio do romantismo, foi um dos líderes do movimento parnasiano, colaborou com críticas literárias no seu tempo e influenciou os simbolistas; aos 19 anos publicou seu primeiro livro de poemas, Les Cariatides (1842); depois vieram Les Stalactites (1846), Odelettes (1856), Odes funambolesques (1857), Améthystes (1863), Les Exilés (1867), Idylles prussiennes (1871) todos de poesia , Gringoire (comédia histórica, teatro, 1866), Florise (comédia em 4 atos, 1870), Petit traité de versification française (1871), Trente-six ballades joyeuses (1873), Deidamia (peça teatral, 1876), Contes pour les Femmes (1881), Contes féeriques (1882), Contes héroiques (1884), Contes bourgeois (1885), e outros títulos em verso e prosa e também para dramaturgia.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

José María de Heredia: Seguindo Petrarca


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[traduzido por Álvaro Reis]

Safeis de uma igreja e, num gesto apiedado,
As vossas nobres mãos abriram-se à pobreza;
À sombra do portal vossa clara beleza
Mostrava o ouro dos céus ao mendigo extasiado!

E quando, humilde como um cortesão curvado,
Eu vos saudei com toda a graça e gentileza,
Puxastes a mantilha aos olhos, com presteza,
Desviando-vos de mim, com ar de desagrado.

Mas Amor, que domina o peito mais altivo,
 Menos terna que linda  ah! não quis que uma graça
Me não desse a piedade, um doce lenitivo!

Porque fostes tão lenta o véu baixando, oh bela!
Que entre os cílios passou um clarão como passa
Dentre a folhagem negra o raio de uma estrela!

José María de Heredia

Suivant Pétrarque

Vous sortiez de l’église et, d’un geste pieux,
Vos nobles mains faisaient l’aumône au populaire,
Et sous le porche obscur votre beauté si claire
Aux pauvres éblouis montrait tout l’or des cieux.

Et je vous saluai d’un salut gracieux,
Très humble, comme il sied à qui ne veut déplaire,
Quand, tirant votre mante et d’un air de colère
Vous détournant de moi, vous couvrîtes vos yeux.

Mais Amour qui commande au coeur le plus rebele
Ne voulut pas souffrir que, moins tendre que belle,
La source de pitié me refusât merci;

Et vous fûtes si lente à ramener le voile,
Que vos cils ombrageux palpitèrent ainsi
Qu’un noir feuillage où filtre un long rayon d’étoile.

[Les Trophées — 1893]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

José María de Heredia: Perseu e Andrômeda


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[traduzido por Álvaro Reis]

Entre as vagas, o voo impávido sofreia
O matador do Monstro e da Medusa irada,
E coberto de horrenda espuma ensanguentada,
Belo, a virgem conduz, qual divina sereia!

Sobre o alado corcel que o oceano escouceia
E nitre e arfa e refuga, em meio à espumarada,
Ele depõe a amante, ainda em pranto banhada,
Que lhe sorri, e ao seio alvo e tímido o enleia.

Abraça-a. O mar azul envolve o grupo lindo!
E trêmula, à garupa, ela ergue, em sobressalto,
Os pequeninos pés que a onda beija, fugindo...

Mas Pégaso irritado aos vaivéns da água, ansiantes,
Ao brado de Perseu, erguendo-se de um salto,
Bate o ofuscado céu com as asas flamejantes!

José María de Heredia

Persée et Andromède

Au milieu de l’écume arrêtant son essor,
Le Cavalier vainqueur du monstre et de Méduse,
Ruisselant d’une bave horrible où le sang fuse,
Emporte entre ses bras la vierge aux cheveux d’or.

Sur l’étalon divin, frère de Chrysaor,
Qui piaffe dans la mer et hennit et refuse,
Il a posé l’Amante éperdue et confuse
Qui lui rit et l’étreint et qui sanglote encor.

Il l’embrasse. La houle enveloppe leur groupe.
Elle, d’un faible effort, ramène sur la croupe
Ses beaux pieds qu’en fuyant baise un flot vagabond;

Mais Pégase irrité par le fouet de la lame,
A l’appel du Héros s’enlevant d’un seul bond,
Bat le ciel ébloui de ses ailes de flamme.

[Les Trophées — 1893]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Trophées, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Victor Hugo: A Palavra


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[traduzido por Álvaro Reis]

Cautela, precaução em tudo o que dizeis.
Tudo pode surgir, todos vós compreendeis,
De uma palavra que se deixa no caminho,
Quer no meio de um grupo ou falando sozinho.
Tudo. O ódio e o luto. E não me repliqueis jamais,
Que o vosso amigo é certo, e que baixo falais.
Escutai isto bem: Dizei, porta fechada,
A sós, na vossa casa, em sala reservada,
Aos ouvidos do mais circunspecto da grei
Do amigo do peito, um segredo, dizei.
Ou, melhor murmurai quase indistintamente,
Num fundo subterrâneo, uma frase veemente,
Desagradável a um indivíduo qualquer.
E a frase que julgais ninguém ouvido ter,
Que dissestes tão baixo e num lugar sombrio,
Apenas emitida, ela não se demora...
A tal palavra corre e sai da sombra fora;
De olhos fechados sabe o caminho, marchando;
Possui dois pés, e empunha um bastão formidando,
Tem brutais sapatões e um passaporte em regra,
Se é mister, ela toma as asas da águia negra
E vos escapa, e foge, e nada a deterá:
Segue o cais, atravessa a praça, longe está;
Passa a água sem batel na estação das enchentes;
Das ruas através do dédalo animado,
Vai rente ao cidadão de que haveis murmurado.
Sabe o número, o andar, o interior do sobrado;
Leva as chaves; e sobe a alta escada, e abre as portas
E passa e entra e chega; entra até as horas mortas,
E, num riso insidioso, olhando fixamente
O homem que ali está, diz logo, frente a frente:
Eis-me. Da boca eu vim de um fulano de tal...
E pronto. Tendes um inimigo mortal!

Victor Hugo

Le mot

Jeunes gens, prenez garde aux choses que vous dites.
Tout peut sortir d'un mot qu'en passant vous perdîtes.
Tout, la haine et le deuil! Et ne m'objectez pas
Que vos amis sont sûrs et que vous parlez bas...
Ecoutez bien ceci:

Tête-à-tête, en pantoufle,
Portes closes, chez vous, sans un témoin qui souffle,
Vous dites à l'oreille au plus mystérieux
De vos amis de coeur, ou, si vous l'aimez mieux,
Vous murmurez tout seul, croyant presque vous taire,
Dans le fond d'une cave à trente pieds sous terre,
Un mot désagréable à quelque individu;
Ce mot que vous croyez que l'on n'a pas entendu,
Que vous disiez si bas dans un lieu sourd et sombre,
Court à peine lâché, part, bondit, sort de l'ombre!
Tenez, il est dehors! Il connaît son chemin.
Il marche, il a deux pieds, un bâton à la main,
De bons souliers ferrés, un passeport en règle;
Au besoin, il prendrait des ailes, comme l'aigle!
Il vous échappe, il fuit, rien ne l'arrêtera.
Il suit le quai, franchit la place, et caetera,
Passe l'eau sans bateau dans la saison des crues,
Et va, tout à travers un dédale de rues,
Droit chez l'individu dont vous avez parlé.
Il sait le numéro, l'étage; il a la clé,
Il monte l'escalier, ouvre la porte, passe,
Entre, arrive, et, railleur, regardant l'homme en face,
Dit: Me voilà! je sors de la bouche d'un tel.

Et c'est fait. Vous avez un ennemi mortel.

[Toute la lyre — 1888]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Victor-Marie Hugo (1802 1885), francês de Besançon, fez seus primeiros estudos no Seminário de Los Nobles de Madri e no Liceu Luis le Grand de Paris, foi poeta, escritor e dramaturgo do Romantismo francês; compôs poemas desde muito jovem e aos quinze anos foi premiado em concurso de poesia da Academia Francesa; em 1822 integrou-se ao Romantismo e logo tornou-se porta voz deste movimento; em 1825, liderando um grupo de jovens escritores, criou o Cenáculo; o poeta lutou contra Napoleão III e, quando este se tornou imperador, recusou a anistia e foi para o exílio em Bruxelas, Guernsey e Jersey; suas obras: Bug Jargal (novela, 1820), Odes et Poésies Diverses (1822), Odes et Ballades (1826), Cromwell (drama, cujo prefácio foi considerado o Manifesto do Romantismo contra o Classicismo, 1826), Marion de Lorme (peça teatral censurada, 1829), Les Orientales (poesias, 1829), Hernani (peça teatral, representando o fim do Classicismo, 1830), Notre Dame de Paris (romance histórico, 1831), Lucrèce e Marie Tudor (dramas, 1833), Littérature et Philosophie Mêlées e a novela Claude Gueux (ambas em 1834), Chants du Crépuscule (1835), Les Voix Intérieures (poesias, 1837), Les Rayons et les Ombres (poesias, 1840), Les Burgraves (teatro, 1843), Les Misérables (1845-1861) Os Castigos (1853), As Contemplações (1856), O Homem que Ri (1869) e outros títulos; Victor Hugo também foi estadista, elegendo-se deputado da Assembléia Nacional e, depois, elegendo-se senador.