sábado, 30 de setembro de 2023

Waly Sailormoon: Pickwick Tea


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(cenas da vida teresopolitana, petropolitana,
friburguense, itaipavanse)
A mãe comenta o Inferno de Dante.
A moça quinze nos lê o roman La Charteuse de Parma. Fala de Balzac aussi como servindo para descrições de paisagens e ambientes de baile. Narra as aventuras pelo impossível de Candide et Zadig. Thomas Mann na estante. Michelet écolier.

Quand le maître parle j’écoute/ le sac qui pend a mon épaule dit que je suis un bon garçon.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Maiacovski: Comumente é assim


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[traduzido por Emilio Carrera Guerra]

[trecho do poema “Eu amo”]

Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
Imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.

[1922]

Maiacovski

Обыкновенно так

[отрывок из поэмы «Люблю»]

Любовь любому рожденному дадена,
но между служб,
доходов
и прочего
со дня на день
очерствевает сердечная почва.
На сердце тело надето,
на тело  рубаха.
Но и этого мало!
Один
идиот!
манжеты наделал
и груди стал заливать крахмалом.
Под старость спохватятся.
Женщина мажется.
Мужчина по Мюллеру мельницей машется.
Но поздно.
Морщинами множится кожица.
Любовь поцветет,
поцветет
и скукожится.

[1922]
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Maiacovski: Antologia Poética — Estudo biográfico, Tradução e Notas de Emilio Carrera Guerra, 1981, 3ª edição, (1ª edição pela) Editora Max Limonad, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique e teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; em Moscou, ingressou na Escola de Belas Artes e fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo; ao serem expulsos da Escola, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), A propósito disto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), À Plena Voz (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publica Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Hermes Fontes: Buena-dicha


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Olhou-me a buena-dicha; olhou-me e disse:
 Amarás. Brilharás e sofrerás.
Eu ia, então, na minha meninice
Inquieta, à cerca de vintênio atrás.

E, se tal por sabê-lo, eu antevisse
O predestino esplêndido e mendaz,
Quis amar, quis brilhar, quis que a velhice
Não me recriminasse de ações más.

Para brilhar, busquei a glória na arte.
Para amar, procurei o bem no afeto.
Para sofrer, levei a cruz e o andor.

Mas, a glória mentiu. Por sua parte,
Mentiu-me o amor, tudo mentiu, exceto
A doce mãe dos imortais a dor!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), nascido em Buquim SE, bacharel pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, mas não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e foi oficial de gabinete do ministro da Viação , tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904) e colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, entre outros periódicos de sua época; o poeta também foi caricaturista do jornal O Bibliógrafo; obra poética: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930; sua poesia é de estética simbolista.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Vielimir Khlébnikov: Herdades noturnas, gengiscantem! . . .

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[traduzido por Augusto de Campos]

Herdades noturnas, gengiscantem!
Crepitai, bétulas azuis!
Albas da noite, zaraturvem
Ao céu cerúleo mozarteante!
Goyam trevas como nuvens!
Roops* é um cirro soturno!
Voa uma tromba de risos,
Enfrento firme o verdugo,
Gargalham garras de gritos,
E em torno o silêncio escuro.
A mim convoco os valentes,
Saem dos rios os afogados,
O miosótis, estridente,
Declama a velames pardos,
Gira o eixo cotidiano,
Move-se a massa vespertina,
Nas águas da noite vogando
(Sonho) uma carpa-menina.
Mamáj**  pinhos ao vento!
Nuvens nômades de Báti!***
Como cains do silêncio
Palavras santas se abatem.
Passo tardo, cercado de tropas,
Asdrúbal azul vai ao baile das rochas.

1916


Усадьба ночью, чингисхань!
Шумите, синие березы.
Заря ночная, заратустрь!
А небо синее, моцарть!
И, сумрак облака, будь Гойя!
Ты ночью, облако, роопсь!
Но смерч улыбок пролетел лишь,
Когтями криков хохоча,
Тогда я видел палача
И озирал ночную, смел, тишь.
И вас я вызвал, смелоликих,
Вернул утопленниц из рек.
"Их незабудка громче крика",
Ночному парусу изрек.
Еще плеснула сутки ось,
Идет вечерняя громада.
Мне снилась девушка-лосось
В волнах ночного водопада.
Пусть сосны бурей омамаены
И тучи движутся Батыя,
Идут слова, молчаний Каины,
И эти падают святые.
И тяжкой походкой на каменный бал
С дружиною шел голубой Газдрубал.

[1916]

Notas do tradutor Augusto de Campos:
* O pintor e gravador belga Félicien Roops.
** O cã tártaro Mamáj (ou Mamai), cujo exército foi derrotado pelos russos no campo de Kulikovo. Essa batalha marcou o início da libertação da Rússia do jugo tártaro.
*** Cã mongólico, fundador da Horda de Ouro; invadiu a Rússia em 1236.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Arthur Rimbaud: Adeus

 
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

     O outono já! Mas por que sentir falta dum sol permanente, se nos empenhamos na descoberta da claridade divina longe dos que morrem pelas estações.
     O outono. Nossa barca nas brumas imóveis avança para o porto da miséria, a enorme cidade manchada de fogo e lama. Ah! os farrapos podres, o pão molhado de chuva, a embriaguez, os mil amores que me crucificaram! Ela não terminará com o vampiro rei de milhões de almas e corpos e que serão julgados! Me imagino com a pele tomada pelo barro e a peste, vermes cheios de cabelos e axilas e o maior deles no coração, estendido entre desconhecidos sem idade, sem sentimento... Teria podido morrer... A terrível evocação! Execro a miséria.
     E temo o inverno por ser a estação do conforto!
      Não raro vejo no céu praias sem-fim cobertas de brancas nações alegres. Um grande navio de ouro, acima de mim, agita as bandeiras multicores sob as brisas da manhã. Criei todas as festas, todos os êxitos, todos os dramas. Procurei inventar flores novas, astros novos, carnes novas, línguas novas. Pensei adquirir poderes sobrenaturais. Bem! devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças! Uma bela glória de artista e narrador suprimida!
     Eu! Eu que tinha me dado por mágico ou anjo, dispensado de toda moral, à superfície da terra, com um dever a buscar, e a realidade rugosa a estender! Aldeão!
     Me enganei? A caridade seria irmã da morte para mim?
     Afinal pedirei perdão por me ter nutrido de mentira. Prossigamos.
     E nem uma mão amiga! onde encontrar socorro?

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     Sim, a hora nova é a menos severa.
     Pois posso dizer que a vitória está garantida: o ranger de dentes, as labaredas de fogo, os suspiros enfermos se moderam. Todas as lembranças sujas se apagam. Meus últimos remorsos se retiram invejas pelos mendigos, os facínoras, os amigos da morte, os retardados de toda espécie. Condenados, se eu me vingasse!
     É preciso ser absolutamente moderno.
     Nada de cânticos: manter o passo dado. Dura noite! O sangue seco recende no meu rosto, e nada tenho atrás de mim senão este horrível pinheiro!... O combate espiritual é tão brutal quanto a batalha de homens; mas a visão da justiça é o prazer apenas de Deus.
     Entretanto, a vigília. Recebemos todos os influxos de vigor e ternura real. E na aurora, armados duma ardente paciência, entraremos nas cidades esplêndidas.
     Que falei de mão amiga! Uma vantagem é que posso rir dos falsos amores e causar vergonha a esses casais mentirosos vi o inferno das mulheres e me será lícito possuir a verdade numa alma e num corpo.

     Abril—agosto, 1873

Arthur Rimbaud

Adieu

     L’automne, déjà! Mais pourquoi regretter un éternel soleil, si nous sommes engagés à la découverte de la clarté divine, loin des gens qui meurent sur les saisons.
     L’automne. Notre barque élevée dans les brumes immobiles tourne vers le port de la misère, la cité enorme au ciel tache de feu et de boue. Ah! les haillons pourris, le pain trempé de pluie, l’ivresse, les mille amours qui m’ont crucifié! Elle ne finira donc point cette goule reine de millions d’âmes et de corps morts et qui seront jugés! Je me revois la peau rongée par la boue et la peste, des vers pleins les cheveux et les aisselles et encore de plus gros vers dans le cœur, étendu parmi des inconnus sans âge, sans sentiment… J’aurais pu y mourir… L’affreuse évocation! J’exècre la misère.
     Et je redoute l’hiver parce que c’est la saison du comfort!
      Quelquefois je vois au ciel des plages sans fin couvertes de blanches nations en joie. Un grand vaisseau d’or, au-dessus de moi, agite ses pavillons multicolores sous les brises du matin. J’ai créé toutes les fêtes, tous les triomphes, tous les drames. J’ai essayé d’inventer de nouvelles fleurs, de nouveaux astres, de nouvelles chairs, de nouvelles langues. J’ai cru acquérir des pouvoirs surnaturels. Eh bien! je dois enterrer mon imagination et mes souvenirs! Une belle gloire d’artiste et de conteur emportée!
     Moi! moi qui me suis dit mage ou ange, dispensé de toute morale, je suis rendu au sol, avec un devoir à chercher, et la réalité rugueuse à étreindre! Paysan!
     Suis-je trompé? la charité serait-elle sœur de la mort, pour moi?
     Enfin, je demanderai pardon pour m’être nourri de mensonge. Et allons.
     Mais pas une main amie! et où puiser le secours?

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     Oui l’heure nouvelle est au moins très-sévère.
     Car je puis dire que la victoire m’est acquise: les grincements de dents, les sifflements de feu, les soupirs empestes se modèrent. Tous les souvenirs immondes s’effacent. Mes derniers regrets détalent, des jalousies pour les mendiants, les brigands, les amis de la mort, les arriérés de toutes sortes. Damnés, si je me vengeais!
     Il faut être absolument moderne.
     Point de cantiques: tenir le pas gagné. Dure nuit! le sang séché fume sur ma face, et je n’ai rien derrière moi, que cet horrible arbrisseau!… Le combat spirituel est aussi brutal que la bataille d’hommes; mais la vision de la justice est le plaisir de Dieu seul.
     Cependant c’est la veille. Recevons tous les influx de vigueur et de tendresse réelle. Et à l’aurore, armés d’une ardente patience, nous entrerons aux splendides villes.
     Que parlais-je de main amie! Un bel avantage, c’est que je puis rire des vieilles amours mensongères, et frapper de honte ces couples menteurs, j’ai vu l’enfer des femmes là-bas; et il me sera loisible de posséder la vérité dans une âme et un corps.

     Avril—août, 1873.
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Uma temporada no inferno — Arthur Rimbaud, edição bilíngue, Tradução de Paulo Hecker Filho, 2006, reimpressão 2015, Série L&PM Pocket Plus nº 35, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Jessica Marcele: Coloniza-dor


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É que eu sou terra, mas me transformo em barro quando me deixo ser
misturada às águas salgadas, do mar, suor e lágrimas.
Moldando e me transformando,
trazendo novos significados à essa vida tão empoeirada.
Areias que passam por meus dedos como uma ampulheta,
Me renovando a cada rima não escrita pela caneta.
Afirmando minha ancestralidade preta.

Camada de relacionamentos rasos, em que só me afogo sem afagos.
Me rasgo o peito
De mente aberta
E coração trancado!
Me sinto perdida, sem lar, sem teto, sem ar, sem afeto... sem... com,
cem, dim, mim, sim, vim, fim.

E agora? O que eu vou recitar?
Excitar
E se tá?
Em si tá
Em ti sa
Atiça
Cobiça
Atira
Mira
Mora
Alisa
Alista
Ali está
A beira
“eu queria falar de amor”
Nem queira
Se não repara a bagunça,
É que
Meu quarto é o reflexo da minha cabeça
E na casa do meu coração
Todos os dias tenho como vista a solidão
e eu a convido pra tomar um chá
Que me mate... de saudade
Mas me sinto tão otária
Tentando me adaptar com esse “estar só” de filha única solitária.

Todo mundo precisa de mim... inclusive eu mesma!
Introspectiva,
intuitiva,
expectativa,
retrospectiva:
Corri, corri, corri,
E morri na praça
Deixada às traças
Traçando metas e medos,
De toda essa bagaça!
Que diz que meu talento tá lento

E eu quase tive um treco com o troco que ela me deu, dizendo:
“Tó minha fia pra vc fazer seus teatro, suas coisinha...”
Pois é minha tia, eu ainda vou pagar minhas contas com poesia!
Assim como Rashid disse um dia:
Eu faço o que amo parceiro, e se vender é fazer o que não gosta pelo
dinheiro!

Ah, isso é LouCURA
FresCURA
Uma Ex... CURA atual
De um passado presente
E um futuro que passou
Uma força braçal que a cabeça não suportou
Nunca esquecerei de quando eu tropecei, quem foi que me levantou

Desde criança aprendi a não demonstrar anseios
Guardo tudo pra mim
O que aos 12 anos me ocasionou uma gastrite
Ceis quer gritar pega a visão pra mim que sou míope?
Vai pingar colírio nessa sua conjuntivite!
Pra ver se ceis enxerga a remela
Que cobre seu ponto de vista
De dentro da hidro na sua suíte,
Enquanto noiz tá na bacia de alumínio tomando banho no cano de
conduíte.

E a água rasgando a pele feita de aço
Forte abraço!
Quantas comun(idades) precisam ser abraçadas?
há 519 anos sendo golpeadas!
É mortal, cruzado excludente
Gancho, soco inglês evidente
faca nas costas, paulada na frente,
“Tira a presidente, depois tira o resto”

Eu tô me interPRETANDO a cada verso disperso,
Imerso na imensidão
Manifesto reverso e só um gesto de interpretação.

E ceis aí se achando plateia
Comendo torrada e geleia
E nossa alcateia
Cheia de fome, de migalha em migalha
Como Marília Casaro cantou “mastigando a miséria e cuspindo o pão”
que noiz mema amassou
Querem se aproveitar da nossa dor
Já disse MC Martina, é a tal “síndrome do colonizador”!

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pilares: raízes espelhadas — poesias: Jessica Marcele & Jaque Alves, Prefácio de MC Martina e Posfácio de Patrícia Meira, 2019, nosotros, Editorial, São Paulo — SP; Jessica Marcele, paulista e paulistana nascida na ZL, bairro de São Miguel Paulista, aprendeu a ler em karaokê, formou-se na Escola Livre de Teatro de Santo André e no Módulo de Pesquisa Teatral Continuada do Espaço Cultural Aldeia Satélite, é atriz, performer, slammer, poeta, ativista, produtora e empreendedora; foi/é oficineira no projeto Luâncias Crescentes da Cia. EmQuadro, com foco no empoderamento feminino e voltado a jovens do ensino médio em escolas públicas da periferia de sampa; a poetatriz também foi/é cofundadora do selo/produtora CIM Cultura Independente em Movimento e do Brechó Breguenaite, além de integrar [ou ter integrado] as companhias e grupos teatrais: Cia. Cínicos Cênicos, Cia. Utilidade Pública, Melancolia e Visão Periférica; é atuante no Coletivo PARDOnizadas grupo de intervenções cênico-poéticas que aborda temas voltados às mulheres negras e no Coletivo Pilares; obras: pilares: raízes espelhadas (zine [plaquete, livreto] em coautoria com Jaque Alves, 2019), Teatro Íntimo, Monólogos Minimalistas (antologia, diversas autorias, 2021), Sua língua é o seu corpo (antologia também traduzida em libras, várias autorias, 2022); outras intervenções: compõe o elenco de Essa Cia. de Teatro, com Ensaio para dois perdidos, colabora na criação de E lá fora o silêncio, do LABTD Grupo Laboratório de Técnica Dramática, projeto Manifesto das Margens, com o grupo Mundu Rodá, espetáculo itinerante Reset Brasil, com o Coletivo Estopô Balaio.

domingo, 24 de setembro de 2023

T. S. Eliot: East Coker* [excerto]


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[traduzido por Ivan Junqueira]

[ . . . ]

III
Ó escuro escuro escuro. Todos mergulham no escuro,
Nos vazios espaços interestelares, no vazio que o vazio inunda,
Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras,
Generosos mecenas de arte, estadistas e governantes,
Ilustres funcionários públicos, presidentes de vários comitês,
Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos mergulham no
escuro,1
E escuros o Sol e a Lua, o Almanaque de Gotha2,
A Gazeta da Bolsa, o Anuário dos Diretores,
E frio o sentido e perdido o fundamento da ação,
E todos os seguimos no silente funeral,
Funeral de ninguém, pois a ninguém há que enterrar.
Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e deixa baixar o escuro sobre ti3,
Pois que aí tudo será treva divina. Como num teatro,
As luzes se apagam para a troca de cenários
Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento de treva sobre
treva4,
E sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama
E a soberba fachada altiva estão sendo arrastados para longe5
Ou quando, no metrô, um trem se demora entre duas estações
E as conversas se animam e lentamente no vazio tombam
E vês por detrás de cada rosto aprofundar-se o vazio mental
Que semeia apenas o crescente terror de nada haver em que pensar;
Ou quando, sob o éter, o pensamento é consciente, mas consciente de
nada
Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e espera sem esperança
Pois a esperança seria esperar pelo equívoco; espera sem amor
Pois o amor seria amar o equívoco; contudo ainda há fé
Mas a fé, o amor e a esperança permanecem todos à espera.
Espera sem pensar, pois que pronta não estás para pensar:
Assim a treva em luz se tornará, e em dança há-de o repouso se
tornar.

[ . . . ]

T. S. Eliot

East Coker

[ . . . ]

III
O dark dark dark. They all go into the dark,
The vacant interstellar spaces, the vacant into the vacant,
The captains, merchant bankers, eminent men of letters,
The generous patrons of art, the statesmen and the rulers,
Distinguished civil servants, chairmen of many committees,
Industrial lords and petty contractors, all go into the dark,
And dark the Sun and Moon, and the Almanach de Gotha
And the Stock Exchange Gazette, the Directory of Directors,
And cold the sense and lost the motive of action.
And we all go with them, into the silent funeral,
Nobodys funeral, for there is no one to bury.
I said to my soul, be still, and let the dark come upon you
Which shall be the darkness of God. As, in a theatre,
The lights are extinguished, for the scene to be changed
With a hollow rumble of wings, with a movement of darkness on
darkness,
And we know that the hills and the trees, the distant panorama
And the bold imposing facade are all being rolled away
Or as, when an underground train, in the tube, stops too long between
stations
And the conversation rises and slowly fades into silence
And you see behind every face the mental emptiness deepen
Leaving only the growing terror of nothing to think about;
Or when, under ether, the mind is conscious but conscious of nothing
I said to my soul, be still, and wait without hope
For hope would be hope for the wrong thing; wait without love
For love would be love of the wrong thing; there is yet Faith
But the faith and the love and the hope are all in the waiting.
Wait without thought, for you are not ready for thought:
So the darkness shall be the light, and the stillness the dancing.

[ . . . ]

Notas do tradutor Ivan Junqueira:
* East Coker é o nome de aldeia que se estende nos arredores de Yeovil, no Condado de Somerset, Inglaterra, distante 32 quilômetros do litoral da Mancha. Foi daí que, em em 1667, o Rvdo. Andrew Eliot, um dos primeiros ancestrais do poeta, emigrou para a Nova Inglaterra, Estados Unidos, iniciando assim o ramo norte-americano da família Eliot. East Coker foi lançado no semanário londrino The New English Weekly, a 21 de março de 1940. A primeira edição isolada é de 12 de setembro de 1940.
1. Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras . . . [Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos mergulharam no escuro,]. Cf. Apocalipse, VI, 5: “ Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos, e todo o escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes.”;
2. Almanaque de Gotha. Espécie de almanaque genealógico do mundo;
3. Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e deixa que baixe o escuro sobre ti. É aqui bastate palpável a lembrança de Baudelaire, no soneto “Récueillement”, Les Fleurs du Mal, “Sois sage, ô ma Douleur, et tiens ti plus tranquille. / Tu réclamais le Soir; il descend . . . ”. O mesmo poeta já fora “eliotizado” no final da primeira seção de A Terra Desolada, verso 76, assim como em Burnt Norton, II, 49-50;
4. Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento de treva sobre treva. Maioria dos comentadores e exegetas de Eliot sustenta que o verso evoca o ronco dos aviões nazistas que bombardearam Londres entre 1940-42, período em que foram escritos os três últimos Quartetos. É fato sabido, aliás, que estes poemas estão repletos de alusões à Segunda Guerra Mundial;
5. E sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama / E a soberba fachada altiva estão sendo arrastadas para longe. Cf. Apocalipse, VI, 13-14: “As estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por vento forte, deixa cair seus figos verdes, e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então todos os montes e ilhas foram movidos dos seus lugares.”
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Poesia: T. S. Eliot — Tradução, Introdução, Nota biográfica e Notas de Ivan Junqueira, 3ª edição, 1981, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

Bertolt Brecht: Considerações políticas


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[traduzido por André Vallias]

Andam de canoa horas a fio na lagoa
Eu observo e isso simplesmente me enjoa.
Andar de canoa quando se está endividado
Até o pescoço, no estado em que está o Estado!

Fico ali fumando, e apenas observando
E penso na minha parte: observando
Eles tocarem também harmônica; que se ponha
Harmônica na boca, e o país soluça nas trevas da vergonha!

Eu, apático, penso, continuem tocando e andando de canoa.
Eu cuspo, sim, de resto, tanto faz pra minha pessoa.
Eu observo isso já há muitos anos
Eu vejo exatamente pra onde vamos.

Em Do Polo ao Polo lê-se que a população
De Orkney vivia de lavar sua roupa então
Apenas isso e continuaram por anos numa boa
Assírios e babilônios também andavam de canoa.

Bertolt Brecht

Politische Betrachtungen

Auf dem Stadtweiher fahren sie stundenlang Kahn
Ich sehe das wirklich einfach mit Ekel an.
Kahn fahren, wenn man bis über den Hals verschuldet ist
In so einem Staatswesen, daß das überhaupt geduldet ist!

Ich rauche da nur und sehe auch nur so zu
Und denke mir meinen Teil, ich denke mir: nur so zu
Sie spielen auch Mundharmonika hierzulande
Mundharmonika spielen, und das Land seufzt unter der schwarzen
Schande!

Ich denke da kalt, spielt nur weiter und fahrt nur weiter Kahn.
Ich spucke aus, ja, aber weiter geht’s mich nichts an.
Ich sehe nur so zu schon seit einigen Jahren
Ich sehe haarscharf, wohin wir da fahren.

Die Bewohner von Orkney, heißt’s in »Von Pol zu Pol«
Lebten davon, daß sie sich ihre Wäsche wuschen, jawohl
Nur so zu, nur so weiter gemacht noch einige Jahre
Die Assyrer und Babylonier sind ja auch Kahn gefahren.

[c. 1920]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.