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[traduzido por Modesto Carone]
[Para Bessie Loos]
Ele amava realmente o sol que
descia em púrpura a colina,
As sendas da floresta, o
canoro pássaro preto
E a alegria do verde.
Era grave sua morada à sombra
da árvore
E puro seu semblante.
Deus falou — uma chama suave — ao seu coração:
Oh, homem!
À noite seu passo encontrou a
cidade em silêncio;
O obscuro lamento da sua boca:
Eu quero ser cavaleiro.
Mas seguiam-no no arbusto
animal,
Casa e jardins sombrios de
homens brancos
E o assassino o procurava.
Primavera e verão e belo o
outono
Do Justo, sua passada leve
Junto aos quartos escuros dos
sonhadores:
À noite ele ficava só com sua
estrela.
Viu que a neve caía nos galhos
nus
E no umbral ao crepúsculo
A sombra do assassino.
Tombou em prata a cabeça do
não-nascido.
[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 16.01.83
Kaspar Hauser Lied
[Für Bessie Loos]
Er wahrlich liebte die Sonne,
die purpurn den Hügel hinabstieg,
Die Wege des Walds, den
singenden Schwarzvogel
Und die Freude des Grüns.
Ernsthaft war sein Wohnen im
Schatten des Baums
Und rein sein Antlitz.
Gott sprach eine sanfte Flamme
zu seinem Herzen:
O Mensch!
Stille fand sein Schritt die
Stadt am Abend;
Die dunkle Klage seines Munds:
Ich will ein Reiter werden.
Ihm aber folgte Busch und
Tier,
Haus und Dämmergarten weißer
Menschen
Und sein Mörder suchte nach
ihm.
Frühling und Sommer und schön
der Herbst
Des Gerechten, sein leiser
Schritt
An den dunklen Zimmern
Träumender hin.
Nachts blieb er mit seinem
Stern allein;
Sah, daß Schnee fiel in kahles
Gezweig
Und im dämmernden Hausflur den
Schatten des Mörders.
Silbern sank des Ungebornen
Haupt hin.
[1913]
* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de
blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de
cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro,
trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha
editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989;
o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim,
periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de
Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições
Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 — 1914), austríaco de Salzburgo
(antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira
Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg
Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em
edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se
Sebastião no Sonho (1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma
paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte
de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma
forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl,
ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela,
já mentalmente transtornada, em 1917.