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domingo, 12 de novembro de 2023

Georg Trakl: Canção de Kaspar Hauser


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[traduzido por Modesto Carone]

[Para Bessie Loos]

Ele amava realmente o sol que descia em púrpura a colina,
As sendas da floresta, o canoro pássaro preto
E a alegria do verde.

Era grave sua morada à sombra da árvore
E puro seu semblante.
Deus falou uma chama suave ao seu coração:
Oh, homem!

À noite seu passo encontrou a cidade em silêncio;
O obscuro lamento da sua boca:
Eu quero ser cavaleiro.

Mas seguiam-no no arbusto animal,
Casa e jardins sombrios de homens brancos
E o assassino o procurava.

Primavera e verão e belo o outono
Do Justo, sua passada leve
Junto aos quartos escuros dos sonhadores:
À noite ele ficava só com sua estrela.

Viu que a neve caía nos galhos nus
E no umbral ao crepúsculo
A sombra do assassino.

Tombou em prata a cabeça do não-nascido.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 16.01.83

Georg Trakl

Kaspar Hauser Lied

[Für Bessie Loos]

Er wahrlich liebte die Sonne, die purpurn den Hügel hinabstieg,
Die Wege des Walds, den singenden Schwarzvogel
Und die Freude des Grüns.

Ernsthaft war sein Wohnen im Schatten des Baums
Und rein sein Antlitz.
Gott sprach eine sanfte Flamme zu seinem Herzen:
O Mensch!

Stille fand sein Schritt die Stadt am Abend;
Die dunkle Klage seines Munds:
Ich will ein Reiter werden.

Ihm aber folgte Busch und Tier,
Haus und Dämmergarten weißer Menschen
Und sein Mörder suchte nach ihm.

Frühling und Sommer und schön der Herbst
Des Gerechten, sein leiser Schritt
An den dunklen Zimmern Träumender hin.
Nachts blieb er mit seinem Stern allein;

Sah, daß Schnee fiel in kahles Gezweig
Und im dämmernden Hausflur den Schatten des Mörders.

Silbern sank des Ungebornen Haupt hin.

[1913]

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.