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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Mallarmé: Brinde

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
Um branco afã de nossa vela.

Stéphane Mallarmé

Salut

Rien, cette écume, vierge vers
A ne désigner que la coupe;
Telle loin se noie une troupe
De sirènes mainte à l'envers.

Nous naviguons, ô mes divers
Amis, moi déjà sur la poupe
Vous l'avant fastueux qui coupe
Le flot de foudres et d'hivers;

Une ivresse belle m'engage
Sans craindre même son tangage
De porter debout ce salut

Solitude, récif, étoile
À n'importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile.
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Mallarmé [poemas: edição bilíngue], Coleção Signos — Tradução e textos/estudos de Augusto de Campos, Décio Pignatari & Haroldo de Campos e Nota Introdutória de Augusto de Campos, 4ª edição, 2010, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé, francês e parisiense, fez seus primeiros estudos em um internato, foi expulso, decidiu aprender Inglês, viajou para Londres, fez um ano de curso e, de volta à França, foi aprovado e designado a lecionar inglês, iniciando sua carreira vitalícia como professor, primeiro em escolas provinciais e depois em Paris; foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e de arte e, claro, professor de inglês; de sua biografia, consta ter sido um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta; seus poemas iniciais surgiram na década de 1860 e, assim como boa parte dos poetas de sua geração, ele também foi influenciado pela poesia de Charles Baudelaire; à época, Mallarmé tornou-se figura central de um grupo de escritores com os quais discutia poesia e arte, entre eles Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou seus textos poéticos e/ou ensaios nas revistas Artiste (revue l’Artiste, 1862), Renaissance Artistique (1874), Independent Review (Revue indépendante, 1885 e 1888), Cosmopolis (1897); traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler; Stéphane Mallarmé também recriou, dirigiu e editou a revista Última Moda (revue La Dernière Mode, 1874), criada “no verão de 1873”, por seu amigo e editor Charles Wendelen, composta apenas de gravuras e litografias; Mallarmé inovou-a e revitalizou-a preenchendo com ensaios sobre estética literária e, de início, fazendo uso dos pseudônimos Marguerite de Ponty, Miss Satin, Zizy, Olympe la nègresse, Ix, Le Chef de bouche chez Brébant ...; sob sua direção, La Dernière Mode resistiu por mais 8 edições, e Mallarmé, sozinho, escreveu sobre moda, culinária e educação de crianças; suas obras: Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Vers et Prose (antologia, 1892), Divagations (coleção de ensaios, 1897), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897), Poésies (Poesias, publicação póstuma, 1899) e outros textos, parte dos quais inacabados, como Igitur (Igitur, conto poético-filosófico iniciado em 1869), postumamente publicado inacabado em 1925.

sábado, 15 de agosto de 2026

Mallarmé: Folha de Álbum

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

De repente e como por jogo
Mademoiselle que declaras
Querer despertar um pouco
O som de minhas flautas raras

Este ensaio que já começa
A uma paisagem anteposto
Só se resolve quando cessa
para te olhar em pleno rosto

Sim o vão sopro que sofreio
Até o último limite
Em meus dedos dormidos sei-o
Escasso para que ele imite

Tão claro e natural a soar
Teu riso em flor que abraça o ar.

Mallarmé

Feuillet d’Album

Tout à coup et comme par jeu
Mademoiselle qui voulûtes
Ouïr se révéler un peu
Le bois de mes diverses flûtes

Il me semble que cet essai
Tenté devant un paysage
A du bon quand je le cessai
Pour vous regarder au visage

Oui ce vain souffle que j'exclus
Jusqu'à la dernière limite
Selon mes quelques doigts perclus
Manque de moyens s'il imite

Votre très naturel et clair
Rire d'enfant qui charme l'air.
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Mallarmé [poemas: edição bilíngue], Coleção Signos — Tradução e textos/estudos de Augusto de Campos, Décio Pignatari & Haroldo de Campos e Nota Introdutória de Augusto de Campos, 4ª edição, 2010, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé  francês e parisiense, fez seus primeiros estudos em um internato, foi expulso, decidiu aprender Inglês, viajou para Londres, fez um ano de curso e, de volta à França, foi aprovado e designado a lecionar inglês, iniciando sua carreira vitalícia como professor, primeiro em escolas provinciais e depois em Paris; foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e de arte e, claro, professor de inglês; de sua biografia, consta ter sido um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta; seus poemas iniciais surgiram na década de 1860 e, assim como boa parte dos poetas de sua geração, ele também foi influenciado pela poesia de Charles Baudelaire; à época, Mallarmé tornou-se figura central de um grupo de escritores com os quais discutia poesia e arte, entre eles Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou seus textos poéticos e/ou ensaios nas revistas Artiste (revue l’Artiste, 1862), Renaissance Artistique (1874), Independent Review (Revue indépendante, 1885 e 1888), Cosmopolis (1897); traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler; Stéphane Mallarmé também recriou, dirigiu e editou a revista Última Moda (revue La Dernière Mode, 1874), criada “no verão de 1873”, por seu amigo e editor Charles Wendelen, composta apenas de gravuras e litografias; Mallarmé inovou-a e revitalizou-a preenchendo com ensaios sobre estética literária e, de início, fazendo uso dos pseudônimos Marguerite de Ponty, Miss Satin, Zizy, Olympe la nègresse, Ix, Le Chef de bouche chez Brébant ...; sob sua direção a revista La Dernière Mode resistiu por mais 8 edições, e Mallarmé, sozinho, escreveu sobre moda, culinária e educação de crianças; suas obras: Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Vers et Prose (antologia, 1892), Divagations (coleção de ensaios, 1897), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897), Poésies (Poesias, publicação póstuma, 1899) e outros textos, parte dos quais inacabados, como Igitur (Igitur, conto poético-filosófico iniciado em 1869), postumamente publicado inacabado em 1925.

sábado, 18 de julho de 2026

Stéphane Mallarmé: O Azul

 
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[traduzido por Batista Cepelos]

Do sempiterno azul a serena ironia
Tortura, numa bela indolência de flor,
A alma do poeta, que, em ânsias de agonia,
Vocifera, amarrado a uma terrível dor!

Debalde os olhos fecho, ante o bárbaro açoite
Do meu medonho olhar, sempre a me perseguir!
Dizei-me onde fugir! Andrajos que de noite
Hei de lançar-lhe em cima. Onde e como fugir?

Ó neblinas, subi, de entre si as cinzas escuras;
Subi, trapos de bruma; e, no céu luminoso,
Empanando a outonal lividez das alturas,
Erguei um pavilhão enorme e silencioso!

Tédio amigo, abandona o marnel lutulento,
E com molhos de junco e lama dos caminhos
Tua incansável mão, de momento em momento,
Tape os rombos azuis que abrem os passarinhos.

Ainda não basta? Então, a fumaça que monte
Das chaminés, formando uma errante prisão,
Dentro da qual o sol, ao tombar no horizonte,
Agonize, amarelo, em meio à escuridão!

O céu morreu, enfim! Matéria, eu te conjuro
A fazer-me olvidar as loucuras que fiz,
E, distante do Ideal e do Pecado impuro,
Entre os homens viver, num rebanho feliz.

Possa aí, — desde que em minha mente esvaziada,
Como um pote de sal junto a um velho muro,
Já não pode vestir a idéia torturada,
— Tristemente esperar pelo meu fim obscuro...

Em vão! O Azul triunfa! Ouço-o nos badalares
Do sino. Ouves, minha alma, o seu grito nefando?
Pois, do vivo metal, sobe a correr os ares,
Na concertina azul das vésperas cantando!

E ao vir, solto no ambiente, entre a aragem dispersa,
Corta-me como o gládio aspérrimo do Sul,
Onde fugir? Revolta inútil e perversa!
Sou perseguido. O Azul! O Azul! O Azul! O Azul!

Stéphane Mallarmé

L’Azur

De l’éternel Azur la sereine ironie
Accable, belle indolemment comme les fleurs
Le poëte impuissant qui maudit son génie
À travers un désert stérile de Douleurs.

Fuyant, les yeux fermés, je le sens qui regarde
Avec l’intensité d’un remords atterrant,
Mon âme vide. Où fuir? Et quelle nuit hagarde
Jeter, lambeaux, jeter sur ce mépris navrant?

Brouillards, montez! Versez vos cendres monotones
Avec de longs haillons de brume dans les cieux
Que noiera le marais livide des automnes
Et bâtissez un grand plafond silencieux!

Et toi, sors des étangs léthéens et ramasse
En t’en venant la vase et les pâles roseaux,
Cher Ennui, pour boucher d’une main jamais lasse
Les grands trous bleus que font méchamment les oiseaux.

Encor! que sans répit les tristes cheminées
Fument, et que de suie une errante prison
Éteigne dans l’horreur de ses noires traînées
Le soleil se mourant jaunâtre, à l’horizon!

— Le ciel est mort. — Vers toi, j’accours! donne, ô matière,
L’oubli de l’Idéal cruel et du Péché
À ce martyr qui vient partager la litière
Où le bétail heureux des hommes est couché,

Car j’y veux, puisque enfin ma cervelle, vidée
Comme le pot de fard gisant au pied du mur,
N’a plus l’art d’attiffer la sanglotante idée,
Lugubrement baîller vers un trépas obscur…

En vain! l’Azur triomphe et je l’entends qui chante
Dans les cloches. Mon âme, il se fait voix pour plus
Nous faire peur avec sa victoire méchante,
Et du métal vivant sort en bleus angelus!

Il roule par la brume ancien et traverse
Ta native agonie ainsi qu’un glaive sûr;
Où fuir dans la révolte inutile et perverse?
Je suis hanté. L’Azur! l’Azur! l’Azur! l’Azur!
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Volume VIII da coleção Antologia da Literatura Mundial, 1960, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé, francês e parisiense, fez seus primeiros estudos em um internato, foi expulso, decidiu aprender Inglês, viajou para Londres, fez um ano de curso e, de volta à França, foi aprovado e designado a lecionar inglês, iniciando sua carreira vitalícia como professor, primeiro em escolas provinciais e depois em Paris; foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e de arte e, claro, professor de inglês; de sua biografia, consta ter sido um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta; seus poemas iniciais surgiram na década de 1860 e, assim como boa parte dos poetas de sua geração, ele também foi influenciado pela poesia de Charles Baudelaire; à época, Mallarmé tornou-se figura central de um grupo de escritores com os quais discutia poesia e arte, entre eles Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou seus textos poéticos e/ou ensaios nas revistas Artiste (revue l’Artiste, 1862), Renaissance Artistique (1874), Independent Review (Revue indépendante, 1885 e 1888), Cosmopolis (1897); traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler; Stéphane Mallarmé também recriou, dirigiu e editou a revista Última Moda (revue La Dernière Mode, 1874), criada “no verão de 1873”, por seu amigo e editor Charles Wendelen, composta apenas de gravuras e litografias; Mallarmé inovou-a e revitalizou-a preenchendo com ensaios sobre estética literária e, de início, fazendo uso dos pseudônimos Marguerite de Ponty, Miss Satin, Zizy, Olympe la nègresse, Ix, Le Chef de bouche chez Brébant ...; sob sua direção a revista La Dernière Mode resistiu por mais 8 edições, e Mallarmé, sozinho, escreveu sobre moda, culinária e educação de crianças; suas obras: Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Vers et Prose (antologia, 1892), Divagations (coleção de ensaios, 1897), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897), Poésies (Poesias, publicação póstuma, 1899) e outros textos, parte dos quais inacabados, como Igitur (Igitur, conto poético-filosófico iniciado em 1869), postumamente publicado inacabado em 1925.

sábado, 21 de março de 2026

Stéphane Mallarmé: III – Cântico de São João [Herodias]

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

O sol que um sobressalto
Apruma para o alto
Em breve redescente
    Incandescente

Por um momento a treva
Das vértebras se eleva
Em uníssono passo
    Por todo o espaço

Para que esta cabeça
Solitária apareça
No voo singular
    Da foice no ar

Em completa ruptura
Mais repele ou fratura
A desavença antiga
    Que ao corpo a liga

Bêbada de jejum
Que persegue nalgum
Salto louco a vogar
    Seu puro olhar

Lá no alto onde os cumes
Eternos têm ciúmes
De que possais vencê-los
    Todos ó gelos

Mas levada ao abismo
Pelo mesmo batismo
Que elegeu minha sina
    Grata se inclina.

Stéphane Mallarmé

III. Cantique de Saint Jean

Le soleil que sa halte
Surnaturelle exalte
Aussitôt redescend
    Incandescent

Je sens comme aux vertèbres
S'éployer des ténèbres
Toutes dans un frisson
    A l'unisson

Et ma tête surgie
Solitaire vigie
Dans les vols triomphaux
    De cette faux

Comme rupture franche
Plutôt refoule ou tranche
Les anciens désaccords
    Avec le corps

Qu'elle de jeûnes ivre
S'opiniâtre à suivre
En quelque bond hagard
    Son pur regard

Là-haut où la froidure
Éternelle n'endure
Que vous le surpassiez
    Tous ô glaciers

Mais selon un baptême
Illuminée au même
Principe qui m'élut
    Penche un salut.

(Hérodíade)
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, fez seus primeiros estudos em um internato, foi expulso, decidiu aprender Inglês, viajou para Londres, fez um ano de curso e, de volta à França, foi aprovado e designado a lecionar inglês, iniciando sua carreira vitalícia como professor, primeiro em escolas provinciais e depois em Paris; foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e de arte e, claro, professor de inglês; de sua biografia, consta ter sido um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta; seus poemas iniciais surgiram na década de 1860 e, assim como boa parte dos poetas de sua geração, ele também foi influenciado pela poesia de Charles Baudelaire; à época, Mallarmé tornou-se figura central de um grupo de escritores com os quais discutia poesia e arte, entre eles Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou seus textos poéticos e/ou ensaios nas revistas Artiste (revue l’Artiste, 1862), Renaissance Artistique (1874), Independent Review (Revue indépendante, 1885 e 1888), Cosmopolis (1897); suas obras: escreveu Hérodiade (Herodíade, 1869), L'Aprés midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Vers et Prose (antologia, 1892), Divagations (coleção de ensaios, 1897), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler; Stéphane Mallarmé também recriou, dirigiu e editou a revista Última Moda (revue La Dernière Mode, 1874), a qual fora criada “no verão de 1873”, por seu amigo e editor Charles Wendelen, só publicando-a com gravuras e litografias; Mallarmé inovou-a e revitalizou-a com ensaios sobre estética literária e, de início, fazendo uso dos pseudônimos Marguerite de Ponty, Miss Satin, Zizy, Olympe la nègresse, Ix, Le Chef de bouche chez Brébant ..., resistiu por 8 edições escrevendo sozinho sobre moda, culinária e educação de crianças.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Mallarmé: O Sineiro

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Embora o sino acorde uma voz que ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,

O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.

Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal

E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.

Mallarmé

Le sonneur

Cependant que la cloche éveille sa voix claire
A l'air pur et limpide et profond du matin
Et passe sur l'enfant qui jette pour lui plaire
Un angélus parmi la lavande et le thym,

Le sonneur effleuré par l'oiseau qu'il éclaire,
Chevauchant tristement en geignant du latin
Sur la pierre qui tend la corde séculaire,
N'entend descendre à lui qu'un tintement lointain.

Je suis cet homme. Hélas! de la nuit désireuse,
J'ai beau tirer le câble à sonner l'Idéal,
De froids péchés s'ébat un plumage féal,

Et la voix ne me vient que par bribes et creuse!
Mais, un jour, fatigué d'avoir enfin tiré,
Ô Satan, j'ôterai la pierre et me pendrai.

1862-1866
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Mallarmé [poemas: edição bilíngue], Coleção Signos — Tradução e textos/estudos de Augusto de Campos, Décio Pignatari & Haroldo de Campos e Nota Introdutória de Augusto de Campos, 4ª edição, 2010, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé, francês e parisiense, fez seus primeiros estudos em um internato, foi expulso, decidiu aprender Inglês, viajou para Londres, fez um ano de curso e, de volta à França, foi aprovado e designado a lecionar inglês, iniciando sua carreira vitalícia como professor, primeiro em escolas provinciais e depois em Paris; foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e de arte e, claro, professor de inglês; de sua biografia, consta ter sido um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta; seus poemas iniciais surgiram na década de 1860 e, assim como boa parte dos poetas de sua geração, ele também foi influenciado pela poesia de Charles Baudelaire; à época, Mallarmé tornou-se figura central de um grupo de escritores com os quais discutia poesia e arte, entre eles Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou seus textos poéticos e/ou ensaios nas revistas Artiste (revue l’Artiste, 1862), Renaissance Artistique (1874), Independent Review (Revue Indépendante, 1885 e 1888), Cosmopolis (1897); traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler; Stéphane Mallarmé também recriou, dirigiu e editou a revista Última Moda (revue La Dernière Mode, 1874), criada “no verão de 1873”, por seu amigo e editor Charles Wendelen, composta apenas de gravuras e litografias; Mallarmé inovou-a e revitalizou-a preenchendo com ensaios sobre estética literária e, de início, fazendo uso dos pseudônimos Marguerite de Ponty, Miss Satin, Zizy, Olympe la nègresse, Ix, Le Chef de bouche chez Brébant ...; sob sua direção a revista La Dernière Mode resistiu por mais 8 edições, e Mallarmé, sozinho, escreveu sobre moda, culinária e educação de crianças; suas obras: Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Vers et Prose (antologia, 1892), Divagations (coleção de ensaios, 1897), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897), Poésies (Poesias, publicação póstuma, 1899) e outros textos, parte dos quais inacabados, como Igitur (Igitur, conto poético-filosófico iniciado em 1869), postumamente publicado inacabado em 1925.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Stéphane Mallarmé: A tumba de Edgar Poe


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[traduzido por Augusto de Campos]

Tal que a Si-mesmo enfim a Eternidade o guia,
O Poeta suscita com o gládio erguido
Seu século espantado por não ter sabido
Que nessa estranha voz a morte se insurgia!

Vil sobressalto de hidra ante o anjo que urgia
Um sentido mais puro às palavras da tribo,
Proclamaram bem alto o sortilégio atribu-
Ído à onda sem honra de uma negra orgia.

Do solo e céu hostis, ó mágoa! Se o que escrevo
— Idéia e dor — não esculpir baixo-relevo
Que ao túmulo de Poe luminescente indique,

Calmo bloco caído de um desastre obscuro.
Que este granito ao menos seja eterno dique
Aos vôos da Blasfêmia esparsos no futuro.

Stéphane Mallarmé

Le tombeau d'Edgar Poe

Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change,
Le Poète suscite avec un glaive nu
Son siècle épouvanté de n’avoir pas connu
Que la mort triomphait dans cette voix étrange!

Eux, comme un vil sursaut d’hydre oyant jadis l’ange
Donner un sens plus pur aux mots de la tribu
Proclamèrent très haut le sortilège bu
Dans le flot sans honneur de quelque noir mélange.

Du sol et de la nue hostiles, ô grief!
Si notre idée avec ne sculpte un bas-relief
Dont la tombe de Poe éblouissante s’orne,

Calme bloc ici-bas chu d’un désastre obscur,
Que ce granit du moins montre à jamais sa borne
Aux noirs vols du Blasphème épars dans le futur.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativade Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

sábado, 13 de setembro de 2025

Stéphane Mallarmé: Dom do Poema

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Eis o filho que herdei da noite de Iduméia!
Negra, de asa sangrante e pálida, ninfeia,
Pelo vidro a queimar de arômatas e adornos,
Pelos vitrais gelados, ah! ainda mornos,
A aurora se lançou ao lume angelical.
Palmas! e quando tal troféu alça afinal
A esse pai que um sorriso hostil concede à hora,
A solitude azul e estéril estertora.
Berço e canção, com tua filha e o impoluto
De vossos pés, acolhe o tenebroso fruto:
E tua voz, viola e cravo, em tal anseio,
Com o dedo fanado apertarás o seio
De onde flui em alvor sibilino uma ama
Para os lábios que o ar do azul virgem inflama?

Stéphane Mallarmé

Don du poème

Je t'apporte l'enfant d'une nuit d'Idumée!
Noire, à l'aile saignante et pâle, déplumée,
Par le verre brûlé d'aromates et d'or,
Par les carreaux glacés, hélas! mornes encor
L'aurore se jeta sur la lampe angélique,
Palmes! et quand elle a montré cette relique
A ce père essayant un sourire ennemi,
La solitude bleue et stérile a frémi.
O la berceuse, avec ta fille et l'innocence
De vos pieds froids, accueille une horrible naissance
Et ta voix rappelant viole et clavecin,
Avec le doigt fané presseras-tu le sein
Par qui coule en blancheur sibylline la femme
Pour des lèvres que l'air du vierge azur affame?

(outubro de 1865)
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; sendo considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus poemas iniciais surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante tais anos, como a figura central de um grupo de escritores com os quais discutia poesia e arte, entre eles Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

terça-feira, 10 de maio de 2022

Stéphane Mallarmé: Brisa marinha

 
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[traduzido por Guilherme de Almeida]

A carne é triste, e eu li todos os livros, todos.
Fugir! além! Eu sei que há pássaros já doidos
Por se ver entre os céus e a espuma do alto-mar!
Nada, nem os jardins refletidos no olhar,
Retém meu coração que já no mar se aninha,
Nem, ó noites, a luz da lâmpada sozinha
Sobre o papel vazio, intangível de brilho,
E nem a mulher moça amamentando o filho.
Hei de partir! Vapor de mastros oscilantes,

Ergue a âncora para regiões extravagantes!
Um Tédio desolado, entre anseios intensos,
Ainda acredita no supremo adeus dos lenços!
E esses mastros, talvez, cheios de maus presságios,
São dos que um vento faz vagar sobre os naufrágios
Sem ilhas férteis e sem mastros de veleiros…
Mas, ó minha alma, ouve a canção dos marinheiros!

Stéphane Mallarmé

Brise marine

La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,

Lève l’ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots…
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!
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Poetas de França [vários autores] — Guilherme de Almeida, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Dedicatória ‘Soneto de amor pela França’ de Guilherme de Almeida e Prefácio de Marcelo Tápia, 5ª edição, 2011, Edições Babel, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; obras: Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Stéphane Mallarmé: Angústia

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Esta noite eu não vim vencer teu corpo, harpia,
Vórtice do pecado, ou cevar no desejo
Dos teus cabelos vis um lívido lampejo,
Sob o tédio sem fim que o beijo prenuncia.

Só demando ao teu leito o sono em que tu estiras,
Sob as cortinas do remorso reclinada,
E que podes gozar após tantas mentiras,
Tu que ainda sabes mais que os mortos sobre o nada.

Pois o Vício a roer minha nata nobreza
A ti e a mim marcou-nos de esterilidade,
Mas se teu seio tem tão pétrea natureza

No coração que dente algum do crime o invade,
Eu fujo em meus lençóis, hirto, sem cor, sem voz,
Com medo de morrer quando me deito a sós.

Stéphane Mallarmé

Angoisse

Je ne viens pas ce soir vaincre ton corps, ô bête
En qui vont les péchés d'un peuple, ni creuser
Dans tes cheveux impurs une triste tempête
Sous l'incurable ennui que verse mon baiser:

Je demande à ton lit le lourd sommeil sans songes
Planant sous les rideaux inconnus du remords,
Et que tu peux goûter après tes noirs mensonges,
Toi qui sur le néant en sais plus que les morts.

Car le Vice, rongeant ma native noblesse
M'a comme toi marqué de sa stérilité,
Mais tandis que ton sein de pierre est habite

Par un coeur que la dent d'aucun crime ne blesse,
Je fuis, pâle, défait, hanté par mon linceul,
Ayant peur de mourir lorsque je couche seul.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 — 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira Le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.