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segunda-feira, 13 de março de 2023

Laura Riding: Morte como morte

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Conceber a morte como morte,
É dificuldade conseguida facilmente,
Brancura se precipitando entre
Imagens de entendimento,
A morte essa mão fria e veloz
Sobre a testa quente de suicídio.
Assim é conseguida facilmente
Por um instante só. Fornalhas, outra vez,
Rugem nas orelhas, de novo o inferno revolve-se,
E o olho elástico detém o paraíso
A uma visível distância da cegueira,
E atordoado o corpo ecoa
“Assim, assim, como nada mais.”

Como nada  uma similaridade
Sem semelhança. O olho profético,
Que se fecha à dificuldade,
Se abre se comparado,
Dividindo a realidade
Como um presente simples demais, para a qual
Gratidão não tem linguagem,
Nem previsão tem visão.

Laura Riding

Death as death

To conceive death as death
Is difficulty come by easily,
A blankness fallen among
Images of understanding,
Death like a quick cold hand
On the hot slow head of suicide.
So is it come by easily
For one instant. Then again furnaces
Roar in the ears, then again hell revolves,
And the elastic eye holds paradise
At visible length from blindness,
And dazedly the body echoes
‘Like this, like this, like nothing else.’

Like nothing — a similarity
Without resemblance. The prophetic eye,
Closing upon difficulty,
Opens upon comparison,
Halving the actuality
As a gift too plain, for which
Gratitude has no language,
Foresight no vision.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Laura Riding: Os problemas de um livro

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

O problema de um livro é, primeiro, não ser
Pensamentos para ninguém
E ficará tão inescrito
Quanto permanecerá não lido
E construir um autor palavra por palavra
E ocupar sua cabeça
Até que a cabeça feche pra balanço
Para publicar a todos
Seu esvaziamento.

O segundo problema de um livro
É ficar desperto e pronto
À escuta como um dono de pousada
Querendo, não querendo hóspedes,
Indeciso entre a esperança de folga nenhuma
E a esperança de folga.
Vacilantes, as páginas cochilam
E piscam para os dedos que passam
Com sorriso proprietário, e fecham-se.

O terceiro problema de um livro é
Dar seu sermão e virar as costas
Suscitando comoção nas margens
Onde a língua cruza o olho,
Sem declarar nenhuma experiência de pânico,
Nenhuma cumplicidade neste tumulto.
A provação de um livro é não dar pistas
De ser provação, é ser neutro e leigo
No sentido reto do impresso.

O problema de um livro, principalmente,
É ser só livro na superfície;
Vestir capa como capa,
Se enterrar em morte-livro
Mas se sentir tudo menos livro,
Respirar palavras vivas, mas com o hálito
Das letras; endereçar vivacidade
Nos olhos que leem, ser respondido
Com letras e livrescidade.

Laura Riding

The troubles of a book

The trouble of a book is first to be
No thoughts to nobody,
Then to lie as long unwritten
As it will lie unread,
Then to build word for word an author
And occupy his head
Until the head declares vacancy
To make full publication
Of running empty.

The trouble of a book is secondly
To keep awake and ready
And listening like an innkeeper,
Wishing, not wishing for a guest,
Torn between hope of no rest
And hope of rest.
Uncertainly the pages doze
And blink open to passing fingers
With landlord smile, then close.

The trouble of a book is thirdly
To speak its sermon, then look the other way,
Arouse commotion in the margin,
Where tongue meets the eye,
But claim no experience of panic,
No complicity in the outcry.
The ordeal of a book is to give no hint
Of ordeal, to be flat and witless
Of the upright sense of print.

The trouble of a book is chiefly
To be nothing but book outwardly;
To wear binding like binding,
Bury itself in book-death,
Yet to feel all but book;
To breathe live words, yet with the breath
Of letters; to address liveliness
In reading eyes, he answered with
Letters and bookishness.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Laura Riding: Verdade


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Sempre procuramos a Verdade.
Ela tem medo de ser pega.
Livros são gaiolas.
Verdade não é um canário
Para ciscar palavras com paciência
E morrer depois de comer todas.

A verdade não gostaria de viver
Na cabeça ou na garganta ou no coração de alguém.
Não tente achá-la ali.

A verdade não é dríade pra ser punida numa árvore.
A verdade não é nenhuma náiade.
A verdade certamente se afogaria numa fonte.

Deixe a terra em paz.
A verdade não deixa pegadas.
Não escute
Até o silêncio se pôr com a lua.
A verdade não faz ruídos.
Não siga a luz
Que segue o sol
Que segue a noite.
A verdade dança além da luz
E do sol
E da noite.
A verdade não pode ser vista.

Deixe a curiosidade ficar em casa.
Ela pode se perder.
(A verdade freqüenta antros estranhos.)
Se, criança, o segredo se calça,
Um dia será imprudência.

Deixe a verdade em paz.
A verdade não pode ser pega.
Acho que ela não vive nada, não,
Pois teria medo de morrer, então.

Laura Riding

Truth

We keep looking for Truth.
Truth is afraid of being caught.
Books are bird-cages.
Truth is no canary
To nibble patiently at words
And die when they're all eaten up.

Truth would not like
To live in people's heads or hearts or throats.
Don't try to find her there.

Truth is no dryad to be punished in a tree.
Truth is no naiad.
Truth would be surely drowned in a spring.

Don't worry the earth.
Truth leaves no footprints.
Don't listen
Before silence has set with the moon.
Truth makes no noise.
Don't follow the light
That follows the sun
That follows the night.
Truth dances beyond the light
And the sun
And the night.
Truth can't be seen.

Let curiosity stay at home.
It may get lost.
(Truth has strange haunts.)
If stealth wears shoes
It grows up to imprudence.

Leave truth alone.
Truth can't be caught.
I think Truth doesn't live at all because
She'd have to be afraid of dying, then.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Laura Riding: Terra

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Não tenha medos extensos da Terra:
Seu nome universal é “Nenhum lugar”.
Se é Terra para você, é seu segredo.
Os registros externos terminam ali,
E você pode descrevê-la como parece,
E como parece, ela é,
Calma aparente
Em meio a pressa aparente.

Céus não vistos, ou só vistos,
Espaço escuro ou claro, espaço extraterrestre,
É um tempo antes da Terra existir
De onde você ruma
Ao perfeito agora.

Quase o lugar que ainda não é,
Aqui potencial de toda parte
Não tenho medos extensos dela:
Seu destino é simples,
Ser ainda mais o que será.

A Terra é o coração que erra
Até tornar sua mente
Mas ainda pulsa ignorância
De tudo o que sabe
Como milhas renegam o presente compacto
Que são o passado suspeito-de-si.
Não tenha grandes medos da Terra:
Só medos extensos serão destruídos.

Laura Riding

Earth

Have no wide fears for Earth.
Its universal name is “Nowhere”:
If it is Earth to you, that is your secret.
The outer records leave off there,
And you may write it as it seems,
And as it seems, it is,
A seeming stillness
Amidst seeming speed.

Heavens unseen, or only seen,
Dark or bright space, unearthly space,
Is a time before Earth was
From which you inward move
Toward perfect now.

Almost the place it is not yet,
Potential here of everywhere
Have no wide fears for it:
Its destiny is simple,
To be further what it will be.

Earth is your heart
Which has become your mind
But still beats ignorance
Of all it knows
As miles deny the compact present
Whose self-mistrusting past thay are.
Have no wide fears for Earth:
Destruction only on wide fears shall fall.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

domingo, 9 de outubro de 2022

Laura Riding: Sono transgredido


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Uma hora do dia foi subtraída
Para fazê-lo durar mais uma hora.
O dia dilatado cresceu
No que tinha sido interrompido.
Mais uma hora do sono foi subtraída,
Até que todo o sono fosse transgredido,
Embora o curso do dia
Durasse mais, mais se adiasse.

E o sono, sumido.
E o mesmo dia nunca termina,
Um dia enorme, e a insônia,
Um gradual entardecer rumo a logo se deitar.

Logo, logo.
E o sono, esquecido,
Tipo: o que foi nascer?
E nenhuma morte até aqui, o fim tão lento,
Parecemos partir mas permanecemos.

E se permanecemos
Algo mais há de ser feito
E nunca termine embora muito termine.
Pois o muito mantém os olhos bem abertos,
Muito aberto é muito mais sono esquecido,
Sono esquecido é sono transgredido,
Sono transgredido é a mente durando bem mais,
Mais pensamento, mais dizendo,
Em vez de dormindo, piscado, piscando,
Piscando de pé e por causa de sonhos
Que são iguais a todas as coisas comuns,
As coisas comuns iguais a todos os sonhos.

Laura Riding

Sleep contravened

An hour was taken
To make the day an hour longer.
The longer day increased
In what had been unfinished.
Another hour from sleep was taken,
Till all sleep was contravened,
Yet the day’s course
More long and more undone.

And the sleep gone.
And the same day goes on and on,
A mighty day, with sleeplessness
A gradual evening toward soon lying down.

Soon, soon.
And sleep forgotten,
Like: What was birth?
And no death yet, the end so slowly,
We seem departing but we stay.

And if we stay
There will be more to do
And never through though much is through.
For much keeps the eyes so much open,
So much open is so much sleep forgotten,
Sleep forgotten is sleep contravened,
Sleep contravened is so much longer mind,
More thought, more speaking,
Instead of sleep, blinking, blinking,
Blinking upright and with dreams
Same as all usual things,
Usual things same as all dreams.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia), e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Laura Riding: Oceano, filosofia falsa

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Primeiro de todas as falsas filosofias,
O oceano arenga para os doidos,
Os lógicos possessos do romance.
Seu olhar oscilante, essa massa oscilante,
Se abraçam em perda perpétua
Oceano é pó rejeitado
Peneirado numa metáfora
Por uma fina renúncia,
É uma lenta diluição.

À deriva, ritmos mesmerizam
O livro mudo de sonhos.
As linhas entoam mas tão inaudíveis
O trajeto é veraz demais e não conhece
Nem naufrágio nem seqüela.

Otimismos em desespero
Embarcam nesse apático frenesi.
Cérebros frustrados em seus olhos
Descansam nessa imagem de monotonia
E desmaiam, agradecidos.
Ah, corações tão peculiarmente íntegros,
O Céu vos proteja, diante de tal argumento,
Para que continueis persuadidos e íntegros,
O Céu vos proteja, se puder,
Enquanto visões se ampliam até um zero aquoso
E a profecia se expande até a extinção.

Laura Riding

Sea, false philosophy

Foremost of false philosophies,
The sea harangues the daft,
The possessed logicians of romance.
Their swaying gaze, that swaying mass
Embrace in everlasting loss —
Sea is the spurned dust
Sifted with fine renunciation
Into a metaphor,
A slow dilution.

The drifting rhythms mesmerize
The speechless book of dreams.
The lines intone but are not audible.
The course is overtrue and knows
Neither a wreckage nor a sequel.

Optimisms in despair
Embark upon this apathetic frenzy.
Brains baffled in their eyes
Rest on this picture of monotony
And swoon with thanks.
Ah, hearts whole so peculiarly,
Heaven keep you by such argument
Persuaded and unbroken,
Heaven keep you if it can
As visions widen to a watery zero
And prophecy expands into extinction.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939 a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Laura Riding: Muito funciona

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Muito funciona em fazer o mundo
Mais seguro por ser mais bonito.
Mas belezas demais esmagam a prova.
Beleza demais é um Letes.

A sucessão das coisas lindas
Deleita, não ilumina.
Não sabemos nada, nada ainda.
Beleza será verdade só uma vez.

Troque o multiplicado desnorteio
Por uma única apresentação do fato pela beleza;
E a revelação será instantânea.
Morreremos depressa.

Laura Riding

There is much at work

There is much at work to make the world
Surer by being more beautiful.
But too many beauties overwhelm the proof.
Too much beauty is Lethe.

The succession of fair things
Delights, does not enlighten.
We still know nothing, nothing.
Beauty will be truth but once.

Exchange the multiplied bewilderment
For a single presentation of fact by fairness;
And the revelation will be instantaneous.
We shall all die quickly.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Laura Riding: Por causa das roupas


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Sem costureiros para conectar
A boa vontade do corpo
Ao propósito da mente,
Devíamos ser dois mundos
Em vez de um mundo e sua sombra,
A carne.

A cabeça é um mundo
E o corpo um outro
O mesmo, mas algo mais lento
E mais deslumbrado e anterior,
A divergência sendo corrigida
No vestido.

Há um cheiro de Cristo
No tecido: abaixo do queixo
Não se quer mal algum. Igual, imune
À prova capital, o saber floresce
Do seio protegido da luz, e as coxas
São humildes.

A união da matéria com a mente
Pelo método da indumentária
Não destrói nossa nudez
Nem abafa a sineta do pensamento.
O momento apenas une-se à sua hora
Muda.

No íntimo existe o brilho do conhecimento
E por fora existe o sombrio da aparência.
Mas ao vestir o manto e a touca
Só com mãos e face aparecendo,
Internalizamos o sombrio e brilhamos
Suavemente.

Por causa disso, pela graça neutra
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos
E de nossas derrotas
Numa conjugação equilibrada e única:
Hesitamos entre senso e insensatez,
E vivemos.

Laura Riding

Because of clothes

Without dressmakers to connect
The good-will of the body
With the purpose of the head,
We should be two worlds
Instead of a world and its shadow,
The flesh.

The head is one world
And the body is another
The same, but somewhat slower
And more dazed and earlier,
The divergence being corrected
In dress.

There is an odour of Christ
In the cloth: bellow the chin
No harm is meant. Even, immune
From capital test, wisdom flowers
Out of the shaded breast, and the thighs
Are meek.

The union of matter with mind
By the method of raiment
Destroys no our nakedness
Nor muffles the bell of thought.
Merely the moment to its dumb hour
Is joined.

Inner is the glow of knowledge
And outer is the gloom of appearance.
But putting on the cloak and cap
With only the hands and the face showing,
We turn the gloom in and the glow forth
Softly.

Wherefore, by the neutral grace
Of the needle, we possess our triumphs
Together with our defeats
In a single balanced couplement:
We pause between sense and foolishness,
And live.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.