Trabalho nuvens como quem trabalha
o chão que é seu, mas eu não tenho
chão.
Cultivador da natureza falha,
planto no azul o que de azul me dão.
Sobre o campo de nuvens cresce a
palha
de sonho e cobre a minha solidão.
E esse abrigo de sonhos me
agasalha
contra os falsos azuis que vêm e vão.
Minha roça no ar produz estrelas,
mas eu não tenho mãos para colhê-las,
nesta safra de azul que é nova e
antiga.
Sou lavrador do quanto não se
lavra
e é preciso que eu ceife na
palavra
o maduro do azul e a sua espiga.
Lavoura azul, 1974

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Roteiro da Poesia
Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin,
Direção de Edla van Steen, primeira edição, 2007, Editora Global, São
Paulo — SP; José Francisco das Chagas (1924 — 2014), paraibano de Piancó, foi
poeta, escritor, cronista e jornalista; escreveu e publicou Canção da expectativa (1955), O discurso da ponte (1959), Pedra de Assunto (crônicas, 1961), Os telhados (1965), Maré-memória (1973), Lavoura azul (1974), Colégio do vento (1974), Maré de moça (1977), Pão e água (1978), Os canhões do silêncio (1979), A arcada do tempo (1982), Cem anos de infância ou o poeta e o rio (1985), entre outros títulos; teve alguns de seus poemas musicados por cantores da MPB — Chico César, Ednardo, Zeca Baleiro, Fagner e outros, no CD A Palavra Acesa de José Chagas (2013).