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Dizem que o irapuru *, quando desata
a voz — Orfeu do seringal tranquilo —,
o passaredo rápido a segui-lo,
em derredor agrupa-se na mata.
Quando o canto, veloz, muda em cascata,
tudo se queda, comovido, a ouvi-lo:
o canoro sabiá susta a sonata,
o canário sutil cessa o pipilo.
Eu próprio sei quanto esse canto é suave;
o que, porém, me faz cismar bem fundo
não é, por si, o alto poder dessa ave:
o que mais no fenômeno me espanta,
é ainda existir um pássaro no mundo
que se fique a escutar quando outro canta!...

* Nota de Sergio Faraco: Ou uirapuru, tangará.
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Livro dos Poemas — uma antologia de poetas
brasileiros e portugueses, Organização e Notas de Sergio Faraco, 2009,
L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Humberto de Campos Veras (1886 — 1934),
maranhense de Miritiba, hoje Humberto de Campos, autodidata, foi jornalista,
político, crítico, cronista, poeta, biógrafo e memorialista; foi colaborador e
redator dos periódicos Folha do Norte e Província do Pará; transferindo-se para
o Rio de Janeiro, trabalhou n’O Imparcial e no Correio da Manhã; bibliografia:
Poeira (poesia, 2 séries, 1910 e 1917), Da seara de Booz (contos, 1918), Tonel
de Diógenes (contos, 1921), Carvalhos e roseiras (crítica, 1923), Grãos de
mostarda (contos, 1926), Poesias completas (1933), Sombras que sofrem (crônicas,
1935), Reminiscências, memórias (1935), Últimas crônicas (1936), Gansos do
Capitólio (contos, 1943) e outros títulos.