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domingo, 20 de agosto de 2017

Monteiro Lobato: Prefácio a "Rosário de Capiá" de Nhô Bento [trechos]

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          Foi em casa de Cicero Marques. Certa noite vi lá dois estranhos, um gordão e moreno a quem davam o nome de Nhô Bento  e era de fato um perfeito “Nhô”, bonachão, sossegado. Outro, um chatola, foi me apresentado como Pagano. Eu podia pensar tudo daqueles dois homens, menos que fossem dois verdadeiros e grandes poetas. Em certo momento Cícero pede a Nhô Bento que recite um dos seus poemas. Nhô Bento levanta-se e limpa o pigarro  e eu suspiro por dentro, preparando-me para a séca. Esses tais recitativos de encomenda são em geral uma estopada que a gente tem que engolir de cara amável, com palminhas no fim e pedidos hipócritas de “Recite outra...”

          Mas a minha surpresa foi grande. O homem pôs-se a dizer, com uma expressão, uma verdade e uma propriedade inexcedíveis, os melhores poemas caipiras que ainda ouvi  ricos de imagens novas, de modismos, de mil particularidades que no momento eu não podia analisar mas me enlevaram, como igualmente enlevaram a todos os presentes. Cicero olhava-nos orgulhoso  o orgulho dum empresário feliz. “Eu não dizia?” era a sua expressão ante o nosso espanto. E quando entre palmas Nhô Bento terminou o seu poema, o “Recite outro!” foi geral e sinceríssimo, porque versos como aqueles são como um bons-bocados que um não contenta.

          . . . Foi uma das mais belas noites de minha vida, essa em que travei conhecimento com dois estranhíssimos poetas, desses que não fazem invocação a Apolo, não entram nas academias, mas enchem a alma do povo e imortalizam-se de verdade  como o grande Catulo.
     
          Discutiu-se depois a publicação dos poemas de Nhô Bento e com prefácio meu! Pobre de mim! O menos crítico dos homens, o mais sem jeito, e virado “prefaciador” oficial” de livros, como antigamente havia na roça aqueles “oradores oficiais” das festinhas de família.

          . . .

          Este nosso país é um assombro. Nascemos aqui, vivemos aqui e morremos aqui e não o conhecemos. Conhecemo-lo tão pouco que quando apareceu o primeiro retrato d’après nature do jéca foi um espanto geral, e uma celeuma que durou anos e ainda é debatida. É que ninguém sabia como era o jéca  e sabem quantos jécas há neste país? Milhões. Talvez 15 milhões, isto é, a terceira parte da nação! Mas esses milhões de nacionais vivem de tal modo segregados da civilização das cidades grandes e pequenas, tão alheios à cultura geral, que somos etnograficamente um balde com dois terços de água e um de azeite  coisas imisturáveis.

          Temos duas civilizações, ou melhor, duas “culturas”: a cultura importada, dos que vivem nas cidades, sabem ler e escrever e até livros escrevem! E a “cultura local”, filha da terra como um cogumelo é filho dum pau podre, desenvolvida pelos homens do mato  o caboclo, o caipira, o jéca, em suma. Como o jéca nunca leu nada nem escreve, a sua cultura se foi fazendo ao tipo primitivo, por lentas acessões e restritas experiências locais e com a transmissão sempre oral. O assunto é grande demais para caber num prefácio; exige livros, já que se trata duma “cultura” de 15 milhões de seres humanos. Mas cumpre-nos aqui a considerar a galope um dos aspectos dessa “cultura”: a língua, pois foi na língua do jéca que Nhô Bento nos encantou.

          Essa língua descende da que os portugueses introduziram e que alijou a língua geral então existente nestes territórios: o tupi-guarani. Ficou a língua portuguesa sendo a língua geral do Brasil e até hoje o é. E por que o é? Porque aprendemos o português de duas maneiras: de ouvido e de leitura. Se o aprendêssemos só de ouvido, como acontece com o jéca, a nossa “língua geral” estaria hoje tão distanciada da língua portuguesa que um português não a entenderia. O que conserva as línguas e impedem que caminhem com velocidade excessiva pela tentadora da evolução, é a escrita.

          Mas como o jéca nunca soube ler nem escrever, a evolução da língua portuguesa em sua boca se fez a galope. Nhô Bento em seus poemas fixa muito bem a língua falada do jéca  e antes que me esqueça: por que os nossos filólogos não extraem a gramática dessa língua do jéca? Que interessante seria!... Quanta “mutação” vocabular, quanta variação da sintaxe, da prosódia, de tudo!... Troca do “b” pelo “v”: “cumbérsa”, “bérso”, “cuvérta”... O “lh” substituído pelo “i”: “abêia”, “páia”, “máia” (malha)... O “ou” reduzido a “ô”: “fumô”, “botô”... Quantos aspectos!

          Devíamos fazer a gramática da interessantíssima “língua do jéca” como os franceses fizeram a gramática da “língua do oc”; e devíamos ensinar essa gramática nas escolas, lado a lado com a gramática portuguesa, em vez de torturar as pobres crianças com o terrível e inútil latim do senhor Capanema. Ficaríamos assim educados em duas línguas, a geral, ou portuguesa, e uma língua auxiliar, a do jéca. Que vantagem haveria nisso? Oh, grande: podermos falar gramaticalmente com os 15 milhões de jécas que há no território brasileiro.

          . . . A forma escrita das línguas é um artificialismo tremendamente embaraçador da evolução natural das línguas. Tão emperrado, que no inglês a língua falada está p’ra cá, e a escrita está p’ra lá. Mr. Churchill escreve “enough” e diz “inâf”. O jéca teve a felicidade de não saber ler nem escrever, de não se preocupar com a Academia de Letras, de usar dos jornais unicamente o papel  e graças a isso “evoluiu” a língua portuguesa só de ouvido e sempre de acordo com as injunções da “lei do menor esforço” e da “lei da melhor compreensão”. E como suprimiu besteiras inúteis! Os verbos, por exemplo. Nós, por causa da tirania da escrita, ainda estamos com tantas variações pessoais como as tinha o latim. Dizemos: Eu tenho, Tu tens, Ele tem, Nós temos, Vós tendes, Eles têm. Ha um grave defeito aqui. Se o pronome já indica a pessoa do verbo, por que indicá-la novamente com a variação do verbo? Redundância, bobagem perda de esforço. O jéca, muito mais economizador de esforço, porque vive na maior das penúrias, diz: Eu tenho, Vancê tem, Ele tem, Nós tem, Vancês tem, Eles tem.

          O inglês também diz: I have, He have, We have, You have, They have  e tanto o jéca como o inglês exprimem perfeitamente a “pessoa que tem”, sem estarem latinescamente variando o pobre verbo.

          Há uma estranha aproximação do inglês com a língua do jéca, a ponto dum amigo meu, o visconde de Sabugosa, achar que essa língua deriva do inglês e não do português, como o saudoso Alvaro Guerra supunha. O jéca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês: diz, por exemplo, “as casa”, os “hóme” “as muié”, em vez de dizer redundantemente como o português, “as casas”, “os homens”, “as mulheres”. O inglês diz, “the houses” (o casas), “the men” (o homens), “the women” (o mulheres) a mesma coisa que o jéca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? Pensa com muita razão o jéca  e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.

          Tudo isso eu diria no prefácio de Nhô Bento, se fosse escrevê-lo E acentuaria que o mesmo direito que tiveram os portugueses de corromper o latim e transformá-lo em língua portuguesa, temos nós, letrados, de corromper a língua portuguesa e transformá-la na “língua brasileira”; e tem o iletrado jéca de “evoluí-la” em outro rumo. Mais cientificamente, podemos dizer que a língua portuguesa no Brasil está sofrendo duas variações: uma lenta, da gente que sabe ler e escrever; e outra rápida, da gente da roça segregada do urbanismo, do livro, do jornal e do radio  o abençoado jéca que tem a sorte de não ler os jornais do governo nem os da oposição e de não ouvir a “Hora do Brasil”.

          Quem condena como coisa “errada” o modo de falar ou a língua do jéca, revela-se curto de miolo. Os modos de variação duma língua são fenômenos naturais, e não há erro nos fenômenos naturais. Erro é coisa humana. Temos que estudar essas variações em vez de tontamente condená-las, pois condená-las equivale, por exemplo, a condenar os anéis de Saturno em nome dos planetas que não possuem anéis; os as caudas dos cometas em nome dos astros suras; ou as sementes da paineira por virem ao mundo envoltas num algodãozinho em nome das sementes de capiá que vêm nuas.

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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (conto, 1918), Cidades Mortas (conto, 1920), Negrinha (conto, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

José J. Veiga: Palíndromos

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A LENA JÁ ALERTA ATRELA A JANELA
SARAVÁ SAIAS AVARAS
IR À MISSA ASSIM, ARI
O TREPONEMA É AMENO PERTO

As frases acima são palíndromos, isto é, palavras que tanto pode ser lidas da esquerda para a direita ou vice-versa sem alterar o som nem o sentido. É um divertimento muito antigo, e já era praticado pelos gregos. Aliás, a palavra vem do grego, e significa “ir e voltar pelo mesmo caminho”.

Ao longo da história, muitos palíndromos foram atribuídos a gente famosa, como este, que teria sido feito por Napoleão ao avistar a Ilha de Elba, para onde ia preso: Able was I as I saw Elba. Isso é bastante improvável, considerando-se o estado de espírito contra os ingleses naquele momento, e por extensão contra a língua inglesa, supondo que ele a falasse.

Em Roma antiga o palíndromo se chamava verso anacíclico, e na Idade Média foi muito cultivado na França, onde dizem que foi feito este por um palindromista anônimo: L’âme des uns iamais n’use de mal, seja lá o que isso signifique.

Armar palíndromo é um divertimento arriscado. A pessoa fica de tal forma transtornada que chega a preocupar a família e os amigos. E no ambiente de trabalho os efeitos desta mania podem ser devastadores. Dizem que o imperador Nicolau I da Rússia (1796 1855) proibiu esse divertimento na corte por não aguentar mais tanto palíndromo. E o sultão Abdul Hamid I da Turquia (1721 1789) mandou recolher palindromistas à prisão. Verdade ou não, avisamos que o divertimento é perigoso.

Aqui vão alguns palíndromos para quem quiser começar, mesmo estando avisado:

  • A mala na lama.
  • Luz a anilina azul.
  • Logo me vem o gol.
  • Oiti só do sítio.
  • O navio do Ivano.
  • O ledo modelo.
  • Sete setes é o mínimo? O mínimo é sete setes.
  • Soluce séculos, Ana, soluce séculos.
  • A tirana Ana Rita.
  • Aroma é de amora.
  • Omitiram o marítimo.
  • O lobo réu quer o bolo.
Etc. etc.

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O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 — Restaurado por José J. Veiga, 1989, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, México, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

domingo, 16 de julho de 2017

José J. Veiga: Aniveldí

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Você conhece essa palavra?

Ultimamente tem aparecido no vocabulário de pessoas que falam em público ou dão entrevista uma palavra que não consta ainda em nenhum dicionário da língua. Como a palavra vem sendo aplicada quase que exclusivamente pelos chamados tecnocratas e seus admiradores, pensou-se a princípio que fosse um termo exclusivo da cultura oral desse grupo, como o “xadisso” dos escolares, o “simbora” dos caminhoneiros, o “sacumé” dos malandros, o “mequitá” dos roqueiros etc. Seria uma transposição fonética do som de alguma palavra estrangeira? A palavra é haniveldí ou aniveldí pelo menos é assim que soa.

Vamos dar alguns exemplos ouvidos recentemente no rádio e na televisão para ver se algum dos nossos leitores consegue identificar a origem da palavra:
  • De fato, pouco adianta ter uma estrutura sofisticada, aniveldí proteção do direito de autor...” (Informativo do Conselho Nacional de Direito Autoral, Ministério da Cultura.)
  • “Falando aniveldí atendimento ambulatorial...” (Médico na televisão.)
  • “Esse assunto tem que ser examinado aniveldí uma rigorosa avaliação quantitativa dos serviços disponíveis.” (Tecnocrata em debate na Rádio JB.)
  • Aniveldí comportamento comunitário me parece que a proposta não foi bem compreendida.” (Assessor do prefeito Marcelo Alencar em entrevista a O Globo.)
  • Aniveldí quebra de safra, não acho que o Brasil apresente excepcionalidade em comparação com outros países em desenvolvimento”. (Tecnocrata da Seplan falando na TV Globo.)
  • Aniveldí capacidade de pagar os serviços da dívida, os países de renda média importadores de petróleo são os que apresentam maior risco.” (Relatório do Banco Mundial para 1985.)
O que está parecendo é que a palavra aniveldí é daquelas que nada transmitem, entram na frase apenas para esticá-la ou dar a impressão de que o falante é cobra no assunto que está tratando. Vamos fazer a experiência de expurgá-la de qualquer das frases acima, e ver se ela faz falta:

“Falando de atendimento ambulatorial... ... ter uma estrutura sofisticada para a proteção do direito do autor. Pelo comportamento comunitário me parece... Em quebra de safra... Em capacidade de pagar...” (Não nos preocupamos em consertar as frases, todas formuladas segundo as tortuosidades da mente de seus autores.)

Em suma, não existe palavra alguma chamada aniveldí, nem precisa existir. O que existe é muito pedantismo, ou falta do que dizer.

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O Almanach de Piumhy Ano CLIX Número 02 Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, México, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy Ano CLIX Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy Ano CLX Número 03 (1989).

sábado, 27 de junho de 2015

Lourenço Diaféria: Conversa de Grego

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          Tinha recebido pequena herança de uma tia. Queria aplicar o dinheiro numa atividade que lhe desse algum lucro, porém, mais que lucro, satisfação intelectual. Descartou a idéia de abrir uma banca de jornal. Jornaleiro tem que acordar de madrugada. Queria coisa mais suave. Foi pedir conselho a um amigo. Ainda há pessoas que acreditam em conselhos. O amigo era criativo.
          Abra um curso de Grego. Todo mundo está abrindo curso de línguas. Inglês, Espanhol... Hoje, com o Mercosul, são comuns jogos de futebol contra a Argentina, o Uruguai, o Chile, o Espanhol está em alta. Não se admite mais o portunhol de antes. O negócio hoje é abrir um curso de Espanhol. Inglês também, é claro. Atualmente até para comer um sanduíche é preciso saber inglês. McDonald’s, Coca, Blue Life... Não se diz mais apartamento. É loft... Daqui a uns vinte anos, quando o Brasil tiver liquidado sua dívida externa, as relações pessoais com o resto do mundo serão feitas no idioma de Cervantes, de Carlos Gardel e, claro, na língua do Clinton... Entendeu?
           Não.
           É simples. É preciso alargar os horizontes. É a razão por que em qualquer esquina da cidade surgem placas de curso de línguas. Você tem que ser esperto... Entendeu?
           Ainda não.
           Serei muito objetivo. A cidade está saturada de cursos de Inglês e de Espanhol... Percebe?
           Percebo.
           Muito bem. Agora me diga: quantos cursos de Grego você conhece na cidade?
           Bem...
           Taí. Nenhum... Nem um, cara. O que existe é escola de Inglês, de Espanhol, de Informática... Até de ikebana. Mas de Grego, rapaz, não existe. Então é isso. Você tem que aproveitar as brechas que o mercado oferece. Abra um curso de Grego.
           Mas...
           Não tem mas. Já pensou formar classes de alunos interessados em ler Xenofonte no original? O problema do Brasil é que todo mundo quer ir pelo caminho mais fácil. O sujeito abre uma pizzaria, no mês seguinte outros doze cidadãos resolvem abrir o mesmo tipo de negócio na mesma rua. Desse jeito é claro que não pode dar certo... Veja o caso da comida por quilo. Está arruinando com o negócio do prato feito. O tradicional prato-feito elaborado com carinho, artesanalmente, cada bar com seu tempero peculiar... Hoje o prato-feito está indo pro brejo. Só tem comida por quilo. O mercado vai acabar saturado de comida por quilo. Escute o que lhe digo: daqui a cinqüenta anos, ou um pouco mais, quando o Brasil tiver se safado da dívida externa, ninguém vai poder nem olhar comida por quilo... Entendeu?
           Hum...
           Vou explicar melhor, Anaxágoras. Teu pai não era comandante da marinha mercante grega?
           Foi.
           E tua genitora? Nasceu onde?
           Em Chipre.
           Era cipriota. Eu sabia. Perguntei por perguntar. Veja bem. Teu pai era comandante de navio grego, tua mãe era cipriota, você se chama Anaxágoras, passou a infância ouvindo os pais falando Grego. Cursou a Universidade... Que curso você fez na faculdade?
           Grego, ué. Você sabe disso...
           Aí é que está. Você tem tudo para abrir o curso de Grego.
           Você acha que há alguém disposto a aprender Grego? Qual a utilidade prática? Inglês, vá lá... Até jogador do Palmeiras precisa disso para disputar a taça Toyota...
           Taça Mitsubishi.
           Mitsubishi, Honda, tanto faz... Tem o Torneio Mercosul...
           Mercosur.
           Tanto faz. Mas, Grego? Nem sei se a Grécia tem time de futebol.
           Claro que tem. Mas não estamos falando de futebol. As pessoas precisam alargar seus horizontes culturais. Quantas pessoas sabem quem foi Alexandre, o Grande? A vida de Alexandre é uma novela. Novela você entende o que quero dizer? No-ve-la. Já imaginou emplacar uma novela grega na TV? Quem dominou o mundo? Quem chegou a Roma e a Cartago? Quem atravessou as colunas de Hércules? Os gregos mudaram a face do mundo, rapaz. Ainda hoje, quando se quer falar que uma mulher é de fechar o comércio, o que se diz?
           Que é boazuda.
           Isso quem fala é a ralé. Gente educada diz: “É uma mulher de beleza helênica”. As pessoas ainda têm muito o que aprender com Tucídides, com o general Brásidas, com o cerco de Esfactéria, com a guerra do Peloponeso... A Grécia dá samba, amigo. Infelizmente as pessoas estão sendo induzidas a se entreter com histórias de macarronada, de amores entre fazendeiros e mucamas... Vá por mim, Anaxágoras. Abra um curso de Grego. Você vai faturar uma nota. Daqui a cem anos, quando Brasil...
          ... zerar a dívida externa...
           Exato. O Grego vai voltar a ter a importância cultural do passado. Mas alguém tem que iniciar o processo. Entendeu?
           Entendi...
           Então o próximo passo é bolar o nome da escola. Que tal Ágora? Ágora era a praça onde os gregos discutiam filosofia. Me parece um bom nome para um curso de Grego. Gostou da idéia?
           Não é ruim. Apenas precisa de uns ajustes técnicos...
          Três meses depois Anaxágoras inaugurava o Ágora, um restaurante especializado em delivery de prato-feito grego.

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Antologia de Crônicas — Crônica Brasileira Contemporânea (diversos cronistas), Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 1a. edição, 2005, Editora Moderna, São Paulo SP; Lourenço Carlos Diaféria (1933 2008), paulista e paulistano nascido no Brás, foi jornalista, cronista e contista; trabalhou nos jornais Folha de São Paulo, Jornal da Tarde, Diário Popular, Diário do Grande ABC, além de ter escrito para rádios e televisão; em 1977, trabalhando no jornal Folha de São Paulo, foi preso pelo regime militar, por ter escrito a crônica “Herói. Morto. Nós.”, publicada na edição de 01.09.77 daquele diário e considerada ofensiva às Forças Armadasem tal crônica, Diaféria comenta sobre o heroísmo de um sargento que, para salvar uma criança, pulara em um fosso de ariranhas num zoológico goiano (a criança sobreviveu e o sargento morreu), e faz comparação com Duque de Caxias, patrono do Exército, que tem uma estátua no centro de São Paulo, lembrando que sua espada “oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos”; obras do cronista: Um gato na terra do tamborim (1976), Circo dos Cavalões (1978), A morte sem colete (1983), O Empinador de Estrela (1984), A longa busca da comodidade (1988), O invisível cavalo voador Falas contemporâneas (1990), Papéis íntimos de um ex-boy assumido (1994) e outros títulos.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Glauco Mattoso: Soneto para quem corre "risco de morte" [2296]

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Suspeitem dos filólogos! Talvez
quem seja muito sábio saiba, além
do próprio nome, em puro português
dizer que tem "diproma" e "crasse" tem...

Um cara "especialista" é sempre alguém
que estuda, estuda, e sabe cada vez
mais sobre cada vez menos, e vem
naquilo progredindo: é o que ele fez.

Refiro-me ao estúpido gramático
que, só porque tornou-se "midiático",
pretende cagar regra e ser oráculo...

Sabe absolutamente tudo acerca
de simplesmente nada, e, antes que perca
o bonde, traduz "Múrfi" pro vernáculo...

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A Letra da Ley — Série Mattosiana, Volume 4, 2008, Dix Editorial — Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso, ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil (de 1977 a 1981, compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Panacéia Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo SP), O que é: Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O que é: Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo SP) etc etc etc, e bota etecétera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

terça-feira, 17 de março de 2015

Zé Dantas/Luiz Gonzaga: Abecê do sertão

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Lá no meu sertão pro caboco lê
tem que aprendê um ôtro abecê.
O jota é ji, o ele é ,
o esse é si, mas o erre
tem nome de .

Até o ípsilon lá é pissilone,
o eme é  e o ene é .
O efe é , o ge chama-se guê;
na escola é engraçado ouvir-se tanto "ê"

a, bê, cê, dê,
fê, guê, lê, mê,
nê, pê, quê, rê,
tê, vê e zê.
Zé Dantas e Luiz Gonzaga
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Luiz Gonzaga (1912 1989) é o rei do baião; Zé Dantas (1921 1962), compositor, poeta e folclorista foi parceiro musical do 'Lua', o Gonzagão, em muitas e conhecidíssimas músicas (Vozes da Seca, Acauã, O xote das meninas, Abecê do sertão, ...); Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro; um dia eu aprendo...

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Sírio Possenti: A nossa língua (falada ou escrita) por uns e outros (linguistas e gramáticos).

Reproduzo do site Ciência Hoje texto de Sírio Possenti, linguista e professor no Departamento de Linguística da Unicamp:
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Linguistas e gramáticos
Sírio Possenti dedica a primeira coluna do ano a pontuar diferenças entre o trabalho e os posicionamentos desses dois grupos em relação à língua. Para o linguista, gramáticos tendem a estudar e analisar menos e a exemplificar e julgar mais.
Por: Sírio Possenti
Publicado e atualizado em 27/01/2012
Os estereótipos são que os gramáticos defendem o português correto, formal, e que os linguistas defendem todas as variantes. Minha impressão pessoal é que o predicado ‘defensor’ até pode ser aplicado ao gramático, mas é incorretamente aplicado ao linguista.
As principais diferenças entre os dois grupos, ou entre os dois grupos de teorias (sem esgotá-las), considerados diversos critérios, são:
§         Quanto ao corpus: os gramáticos se baseiam em corpora escritos; dizem que seu corpus é literário, mas essa é mais uma jogada do que um fundamento; os ‘exemplos’ poderiam vir dos jornais ou das revistas semanais. Haveria ‘erros’? Mais ou menos tantos quantos se encontram na literatura, convertidos em exceções. Os linguistas privilegiam os dados orais, o que não quer dizer que sempre gravaram falas; muitos seguiram seu ouvido ou sua avaliação pessoal; a querela da gramaticalidade é o melhor exemplo. Lidam mais com fonemas do que com letras; levam em conta construções que não se encontram tipicamente em textos escritos. Ou seja: linguistas e gramáticos divergem sobre o que é – ou o que pertence a – uma língua. Apelando para uma analogia, é como se alguns biólogos incluíssem e outros excluíssem os animais ‘nojentos’. 
Se um fato ocorre sistematicamente, pertence à língua e deve ser descrito pela gramática
§         Quanto a teorias e métodos: para os gramáticos, a autoridade dos escritores é um critério para aceitar construções (e até exceções); para os linguistas, o critério para aceitar construções são os dados: se um fato ocorre sistematicamente, pertence à língua e deve ser descrito pela gramática. Pronúncias como “paiaço” e “muié”; concordâncias como “tu vai” e “os menino”, regências como “assistir o jogo” e “obedecer as regras” etc. são exemplos de pontos de discordância.
§         Quanto à explicitude e coerência das análises: gramáticas mais exemplificam do que analisam; são menos coerentes. Por exemplo, uma definição de sujeito pode não se aplicar a muitas construções sem que isso seja visto como um problema. As gramáticas não se preocupam em indicar o sujeito de uma interrogativa ou de uma imperativa depois de defini-lo como “o termo sobre o qual se declara” alguma coisa; ou em dizer que “a casa” é sujeito em “A casa tem três quartos” depois de definir sujeito como o que pratica ou sofre uma ação.
§         Quanto às controvérsias: gramáticos, eventualmente, discordam entre si, mas raramente se lê em uma gramática a crítica explícita de outra. Entre os linguistas, ao contrário, há verdadeiras polêmicas, ora devidas à preferência por uma ou outra teoria (formalistas e funcionalistas, por exemplo), ora devidas à preferência por uma ou por outra análise do mesmo fato (por exemplo, sobre a chamada “passiva sintética”).
§         Quanto aos erros: gramáticos consideram erros as variantes não ‘formais’ ou não ‘padrões’; linguistas, não. Um bom exemplo é o caso da colocação dos pronomes. Ainda há gramáticas que consideram erradas construções como “me dá um dinheiro”. Haveria uma regra segundo a qual não se pode começar oração com pronome oblíquo. Algumas, como a de Cunha e Cintra, ‘aceitam’ a colocação de pronomes à brasileira, mas em capítulo à parte, como se pedissem desculpas ao leitor (apesar disso, todos os exames que incluem questões gramaticais seguem as regras portuguesas; a culpa, claro, não é dos gramáticos). Linguistas consideram erros apenas construções que não são comuns em nenhuma comunidade de falantes. Numa frase como “tomei dois caipirrinhas”, um linguista detectará dois erros: um de concordância (duas) e a presença de um “r” que não deveria ocorrer (isto é, que um falante nativo do português não pronunciaria nessa palavra). E explica o fato como interferência de uma língua em outra: falantes que aprendem uma segunda língua cometem frequentemente erros desse tipo – muitos estudantes brasileiros de inglês dizem [tchitcher] em vez de [thitcher], porque seu dialeto transforma o “t” diante de “i” em “tch”, e transferem essa regra para o inglês etc.
§         Ainda quanto aos erros: gramáticos consideram erros sociais como se fossem estruturais. Por exemplo: a variação de “l” com “r” em palavras como “flamengo/framengo” (tal ‘troca’ nunca ocorre em começo de sílaba!!!) é parte de um processo histórico que derivou, entre outros casos, em “praia” ou “prata” (compare com “plaga” e com o espanhol “plata”). Tais pronúncias são explicáveis e previsíveis estruturalmente (e um linguista não tem dor de ouvido ao ouvi-las). Elas são socialmente estigmatizadas (em geral, caracterizam a fala popular ou rural). É um erro comparável a um de etiqueta ou de moda. Dizer que é um erro (em língua) equivale a dizer que uma saia curta é um erro no campo da moda (ou em moralidade!). É uma avaliação social, não linguística; às vezes, alguém diz que o som “fra” é horrível, mas ninguém o acha horrível em “fraco” ou em “fraque”. No entanto, trata-se do mesmo som, e no mesmo contexto...
A diferença entre linguistas e gramáticos é análoga à diferença entre antropólogos e missionários
§         Algumas comparações: a diferença entre linguistas e gramáticos é análoga à diferença entre antropólogos e missionários (um quer conhecer, outro quer converter) ou entre botânicos e paisagistas (um estuda as plantas, outro seleciona as ‘elegantes’ – um bom caso de ideologias em confronto). Uma terceira comparação: no campo da moda, há os estudiosos das roupas (na história) e os que emitem juízos – em programas de TV – sobre o que é elegante ou cafona. Observe-se que há programas de TV e colunas de jornal deste último tipo também sobre língua...
§         Uma nota final: muito frequentemente, os defensores das gramáticas não as conhecem; só conhecem os manuais de redação e as listas de erros e fazem de conta que os dois tipos de obra são iguais. Os manuais de redação obedecem a políticas de escrita; de fato, a políticas de edição. Não substituem gramáticas, cuja função é explicar uma língua – e, eventualmente, ajudar a situá-la no espaço ideológico da nacionalidade, como um trunfo espacial.
§         Ia esquecendo: os gramáticos são mais conhecidos (pelo menos, é o que se pensa); linguistas ainda provocam perguntas do tipo “o que você faz?” ou “quantas línguas você fala?”, um pouco como os que estudam gens ou neutrinos.