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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

W. H. Auden: A carta

Livro Poemas W. H. Auden - R$ 20,00 em Mercado Livre
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[traduzido por José Paulo Paes]

Desde a primeira descida a um novo
Vale, com um franzir de sobrolhos
Por causa do sol e dos extravios,
Nele ficas, por certo: hoje ouvi o
Grito de um pássaro inopinado
Contra a tempestade, eu agachado
Atrás de um redil de carneiros; vi
O arco do ano completar-se e aí
Refazer-se o gasto giro do amor,
Sem fim nem desvio enganador.
Há de ver, há de passar, como vimos
A andorinha no teto, o verdeprimo
Arrepio da primavera, passou
Um trem solitário, que encerrou
As manobras de Outono. Mas ei-la,
Interrompendo a reflexão caseira,
O pensamento afeito ao entardecer,
A carta, a tua voz mesma a dizer
Muitas coisas, mas não que regressas.

O dedo não dorme, a fala não cessa
Quando amor recebe, bem amiúde,
Uma injusta resposta que o ilude.
Eu, a par das estações, vou indo
Sempre vário e com um amor distinto;
Não questiono em demasia o aceno
E o sorriso pétreo deste ameno
Deus rústico que tem receio, sempre,
De dizer algo mais do que pretende.

Um poema do britânico W. H. Auden - Jornal Opção
W. H. Auden

The letter

From the very first coming down
Into a new valley with a frown
Because of the sun and a lost way,
You certainly remain: to-day
I, crouching behind a sheep-pen, heard
Travel across a sudden bird,
Cry out against the storm, and found
The year’s arc a completed round
And love’s worn circuit re-begun,
Endless with no dissenting turn.
Shall see, shall pass, as we have seen
The swallow on the tile, spring’s green
Preliminary shiver, passed
A solitary truck, the last
Of shunting in the Autumn. But now,
To interrupt the homely brow,
Thought warmed to evening through and through,
Your letter comes, speaking as you,
Speaking of much but not to come.

Nor speech is close nor fingers numb,
If love not seldom has received
An unjust answer, was deceived.
I, decent with the seasons, move
Different or with a different love,
Nor question overmuch the nod,
The stone smile of this country god
That never was more reticent,
Always afraid to say more than it meant.

December 1927
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W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr. Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

W. H. Auden: A meio caminho

Resultado de imagem para companhia das letras Poemas Auden
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[traduzido por José Paulo Paes]

Tendo abdicado facilmente, em termos comparativos,
E despachado teus amigos quase todos,
Escapando de submarino
Com uma barba postiça, meio à espera de que os portos estivessem
vigiados,
Chegaste até aqui e não está nevando:
Como iremos celebrar tua chegada?

Haveremos de mencionar, naturalmente,
Teu acampamento anual para os trabalhadores vidreiros de Tutbury,
Tua fase de fotografar pássaros, o teu sonho no Hook,
Mesmo o teu inverno em Praga, embora sem muitos pormenores.
Tua pública recusa de uma bússola
Está marcada para o dia de amanhã.

Olha agora este mapa.
O vermelho quer dizer estrada de primeira, o amarelo de segunda,
As palavras riscadas são campos de batalha, os caracteres góticos
Indicam pontos de interesse arqueológico.

Nosso homem te levará de carro até a Torre de Tiro;
Receamos ser impossível ir mais longe do que isso.
Em Bigsweir trata de procurar o Kelpie.
Se encontrares o sr. Wren é melhor te esconderes dele.
Antes de partir, consulta um hidroterapeuta.
Tens alguma pergunta? Não?
                                               Está bem. Já podes ir.

W. H. Auden | The Douglas P. Cooper Distinguished Contemporaries ...
W. H. Auden

Half way

Having abdicated with comparative ease
And dismissed the greater part of your friends,
Escaping by submarine
In a false beard, half-hoping the ports were watched,
You have got here, and it isn’t snowing:
How shall we celebrate your arrival?

Of course we shall mention
Your annual camp for the Tutbury glass-workers,
Your bird-photography phase, your dream at the Hook,
Even your winter in Prague, though not very fully:
Your public refusal of a compass
Is fixed for to-morrow.

Now look at this map.
Red means a first-class, yellow a second-class road,
Crossed swords are for battlefields, gothic characters
For place of archaeological interest.

Our man will drive you as far as the Shot Tower:
Further than that, we fear, is impossible.
At Bigsweir look out for the Kelpie.
If you meet Mr. Wren it is wiser to hide.
Consult before leaving a water-doctor.
Do you wish to ask any questions?
                                                               Good. You may go.

January 1930
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W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr. Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

W. H. Auden: Ventos

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[traduzido por João Moura Jr.]

Bucólicas

1.

(para Alexis Léger)

     Debaixo de nossas violências
Jaz quieto o Primeiro Papai,
     Velado, e muitas donzelinhas,
Mas sopram ventos desossados
     Sobre o tribunal, sobre o templo,
Fazendo lembrar à Metrópole
     A sexta do Plioceno, quando,
À sua sagrada insuflação
     (Houvesse apanhado em teleósteo
Para inspirar, ou então um artrópode,
     Adviria também nossa morte?)
Um cérebro-de-bolha disse.
     “Eu sou amado, logo existo”
 E talvez hoje lado a lado
     O leão e o menino estivessem,
Se houvesse insistido em tal lógica.

     Ventos fazem o tempo, que
É aquilo que desagrada às
     Pessoas desagradáveis e
Adoram observar as boas:
     Quando procuro uma metáfora
Para nossa Cidade Autêntica
     (Por quantos brigues de pavor
E por galerias lúgubres
     Teremos nós que rastejar
Antes de poder gritar: “Vede”!?),
     Vejo velhos em corredores
A sacudirem seus barômetros
     Ou o gramado que atravessa,
Mal terminou o desjejum,
     Às pressas, um paterfamilias
Para inspecionar teu pluviômetro.

Deusa dos ventos e da ciência,
     Quando, em algum dia sem vento
E de desalento, incapaz
     De criar estruturas ou nomes,
O Teu poeta cheio de tiques,
     Coçando-se, batendo os dentes,
Puxando o lóbulo da orelha,
     Inconscientemente invocar-Te,
Mostra Tua natureza boa,
     Deixa galo ou serva que silva
Irem buscar-lhe Arthur O’Bower;
     Então, se, de rosto redondo,
O absurdo, erudito falsário,
     Vier através dos sete reinos,
Faze estremecerem Teus álamos

     Para impedir Teu funcionário
De morrer, como um Velho Crente,
     Por alguma leitura espúria:
E em todos os ventos, não importa
     Qual dos Teus doze ele ouvirá,
Ventos do equinócio à meia-noite
     Ululando por sobre a relva
Ou o leve sussurro de
     Pinheiros em alguma tarde
Sem nuvens em pleno verão,
     Faze que sinta Tua presença
E que cada rito verbal
     Se realize devidamente,
E se realize na anamnese
     De tudo aquilo que é excelente
Mas uma criatura visível,
     Terra, Céu, alguns nomes queridos.

Funeral Blues” by W. H. Auden | Literary Fictions
W. H. Auden

Bucolics

1. Winds

(for Alexis Léger)

     Deep, deep below our violences,
Quite still, like our First Dad, his watch
     And many little maids,
But the boneless winds that blow
     Round law-court and temple
Recall to Metropolis
     That Pliocene Friday when,
At His holy insufflation
     (Had He picked a teleost
Or an arthropod to inspire,
     Would our death also have come?),
One bubble-brained creature said 
     ‘I am loved, therefore I am’ :
And well by now might the lion
     Be lying down with the kid,
Had he stuck to that logic.

     Winds make weather; weather
Is what nasty people are
     Nasty about and the nice
Show a common joy in observing:
     When I seek an image
For our Authentic City
     (Across what brigs of dread,
Down what gloomy galleries,
     Must we stagger or crawl
Before we may cry  O look!?),
     I see old men in hall-ways
Tapping their barometers,
     Or a lawn over which,
The first thing after breakfast,
     A paterfamilias
Hurries to inspect his rain-gauge.

Goddess of winds and wisdom,
     When, on some windless day
Of dejection, unable
     To name or to structure,
Your poet with bodily tics,
     Scratching, tapping his teeth,
Tugging the lobe of an ear,
     Unconsciously invokes You,
Show Your good nature, allow
     Rooster or whistling maid
To fetch him Arthur O’Bower;
     Then, if moon-faced Nonsense,
That erudite forger, stalk
     Through the seven kingdoms,
Set Your poplars a-shiver

     To warn Your clerk lest he
Die like an Old Believer
     For some spurious reading:
And in all winds, no matter
     Which of Your twelve he may hear,
Equinox gales at midnight
     Howling through marram grass,
Or a faint susurration
     Of pines on a cloudless
Afternoon in midsummer,
     Let him feel You present,
That every verbal rite
     May be fittingly done,
And done in anamnesis
     Of what is excellent
Yet a visible creature,
     Earth, Sky, a few dear names.

September 1953
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W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr. Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

domingo, 9 de agosto de 2020

W. H. Auden: Canção de Outono

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[traduzido por José Paulo Paes]

As folhas tombam bem depressa agora,
Nem o copo-de-leite se demora,
Amas de leite estão no campo-santo,
Mas carros de bebê seguem rolando.

Cicios de vizinho, esquerda, direita,
Roubando-nos àquilo que deleita,
Mãos hábeis a gelar no exílio forçado
De seus joelhos desacompanhados.

Seguindo perto o nosso rastro, a voz
De morto aos centos grita Ai de nós,
Braços erguidos em censura, a opor-
Se-nos com seus falsos gestos de amor.

Ossudos, pela mata revolvida
Correm trolls gritando por comida.
Rouxinol e coruja estão silentes
E o anjo, certo, vai primar por ausente.

Erguer-se clara e inescalável desde
Os longes a Cordilheira do Em-vez-de
De cujos frios ribeiros tão risonhos
Ninguém pode beber, exceto em sonhos.

W. H. Auden – Helena Barbas
W. H. Auden

Autumn Song

Now the leaves are falling fast,
Nurse's flowers will not last,
Nurses to their graves are gone,
But the prams go rolling on.

Whispering neighbours left and right
Daunt us from our true delight,
Able hands are forced to freeze
Derelict on lonely knees.

Close behind us on our track,
Dead in hundred cry Alack,
Arms raised stiffly to reprove
In false attitudes of love.

Scrawny through a plundered wood,
Trolls run scolding for their food,
Owl and nightingale are dumb,
And the angel will not come.

Clear, unscaleable, ahead
Rise the Mountains of Instead,
From whose cold cascading streams
None may drink except in dreams.

March 1936
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W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr. Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

W. H. Auden: Voltaire em Ferney

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[traduzido por José Paulo Paes]

Quase feliz agora, contemplava as suas propriedades.
Um exilado, relojoeiro, viu-o passando, mas não
Parou seu labor; de um asilo em adiantada construção,
Um carpinteiro o saudou; um agente veio-lhe dizer
Que algumas das árvores que plantara iam a bom crescer.
Os brancos Alpes brilhavam. Verão. E ele: uma sumidade.

Longe, em Paris, onde os seus inimigos, aliás,
O chamavam de iníquo, numa cadeira ereta, uma cega
Anciã esperava a morte e cartas. Ele lhe escreveria:
“Nada melhor que a vida.” E era? Sim, se se combatia
O falso e o injusto, certamente que a refrega
Valia a pena. Assim como a jardinagem. Civilizar.

Engabelando, ralhando, tramando, mente mais ladina
Que nenhuma, chefiava numa guerra santa as demais crianças
Contra os vis adultos e, como crianças, quando preciso fora,
Valera-se, humilde e velhaco, por amor da segurança,
Da resposta dúplice ou da mera mentira protetora.
Mas, constante como um campônio, aguardava-lhes a ruína.

Jamais descreu, como D'Alembert, de que seria vitorioso.
Somente Pascal era o grande inimigo, porque os restantes
Eram ratos já envenenados; porém havia tanto
Que fazer e apenas com ele se podia contar; quanto.
Ao pobre Diderot, era algo parvo porém perseverante;
Rousseau, sempre o soubera, iria desistir, todo choroso.

Sentinela, não podia dormir. Crimes, execuções,
Terremotos enchiam a noite. Em breve estaria morto.
Pela Europa toda ainda havia amas-secas com perversos
Desejos de cozinhar suas crianças. E só os versos
Dele as deteria talvez. Ao trabalho. Lá no alto, absortos,
Os astros compunham sem queixa suas lúcidas canções.

W. H. Auden - Poemas escolhidos
W. H. Auden

Voltaire at Ferney

Almost happy now, he looked at his estate.
An exile making watches glanced up as he passed,
And went on working; where a hospital was rising fast
A joiner touched his cap; an agent came to tell
Some of the trees he'd planted were progressing well.
The white Alps glittered. It was summer. He was very great.

Far off in Paris, where his enemies
Whsipered that he was wicked, in an upright chair
A blind old woman longed for death and letters. He would write
‘Nothing is better than life.’ But was it? Yes, the fight
Against the false and the unfair
Was always worth it. So was gardening. Civilize.

Cajoling, scolding, screaming, cleverest of them all,
He'd led the other children in a holy war
Against the infamous grown-ups, and, like a child, been sly
And humble when there was occassion for
The two-face answer or the plain protective lie,
But, patient like a peasant, waited for their fall.

And never doubted, like D'Alembert, he would win:
Only Pascal was a great enemy, the rest
Were rats already poisoned; there was much, though, to be done,
And only himself to count upon.
Dear Diderot was dull but did his best;
Rousseau, he'd always known, would blubber and give in.

So, like a sentinel, he could not sleep. The night was full of wrong,
Earthquakes and executions. Soon he would be dead,
And still all over Europe stood the horrible nurses
Itching to boil their children. Only his verses
Perhaps could stop them: He must go on working: Overhead
The uncomplaining stars composed their lucid song.

February 1939
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W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr. Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

terça-feira, 30 de junho de 2020

W.H Auden: Acalanto

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[traduzido por João Moura Jr.]

Pousa, amor, a cabeça sonolenta,
Humana sobre o meu braço inconstante;
A beleza das crianças pensativas
Tempo e febres consomem lentamente
E cabe à tumba mostrar quão efêmeras
Essas mesmas crianças vêm a ser:
Mas que em meu braço, até que nasça o dia,
Possa repousar a viva criatura,
Mortal e culpada, e, no entanto, para
Mim a coisa mais bela de se ver.

Nem a alma nem o corpo têm amarras:
Para os amantes, quando eles se deitam
No seu declive indulgente e encantado,
Tomados da languidez costumeira,
Intensa é a visão que Vênus manda
De uma simpatia sobrenatural,
De esperança e amor generalizado;
Enquanto uma abstrata intuição desperta,
No meio das geleiras e das pedras,
Do eremita o êxtase carnal.

Certeza e fidelidade se estiolam
Quando bate meia-noite o relógio
Como se fossem vibrações de um sino,
E lançam seu pedante palavrório,
Aos gritos, os delirantes em voga:
Os últimos centavos a pagar
 Assim o prevê o baralho mofino 
Serão saldados; porém, desta noite,
Que não se perca nenhum pensamento,
Nenhum suspiro, nenhum beijo ou olhar.

A beleza, a meia-noite e a visão morrem:
Deixa os ventos do amanhecer, que sopram
Suaves em tua sonhadora cabeça,
Exibirem um dia de tal forma
Propício que o olho e o coração o saúdem,
Satisfeitos com o mundo mortal;
Quer a secura meridiana te veja
Nutrida pela força involuntária
E permita-te ir a noite adversária
Guardada pelo amor universal.

W. H. Auden

Lullaby

Lay your sleeping head, my love,
Human on my faithless arm;
Time and fevers burn away
Individual beauty from
Thoughtful children, and the grave
Proves the child ephemeral:
But in my arms till break of day
Let the living creature lie,
Mortal, guilty, but to me
The entirely beautiful.

Soul and body have no bounds:
To lovers as they lie upon
Her tolerant enchanted slope
In their ordinary swoon,
Grave the vision Venus sends
Of supernatural sympathy,
Universal love and hope;
While an abstract insight wakes
Among the glaciers and the rocks
The hermit’s carnal ecstasy.

Certainty, fidelity
On the stroke of midnight pass
Like vibrations of a bell
And fashionable madmen raise
Their pedantic boring cry:
Every farthing of the cost,
All the dreaded cards foretell,
Shall be paid, but from this night
Not a whisper, not a thought,
Not a kiss nor look be lost.

Beauty, midnight, vision dies:
Let the winds of dawn that blow
Softly round your dreaming head
Such a day of welcome show
Eye and knocking heart may bless,
Find the mortal world enough;
Noons of dryness find you fed
By the involuntary powers,
Nights of insult let you pass
Watched by every human love.

January 1937
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W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr. Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.