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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Friedrich Nietzsche: Pensamentos sobre o futuro de nossos institutos de formação [Prefácio]


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[traduzido por Pedro Süssekind]

Prefácio

          O leitor do qual espero alguma coisa deve ter três qualidades. Deve ser calmo e ler sem pressa. Não deve intrometer-se, nem trazer para a leitura a sua “formação”. Por fim, não pode esperar na conclusão, como um tipo de resultado, novos tabelamentos. Não prometo tabelamentos, nem novos planos de estudo para ginásios1 e outras escolas, admiro muito mais a natureza cheia de força daqueles que estão prontos para atravessar todo o caminho, desde as profundezas do empírico até as alturas dos problemas culturais autênticos, e novamente, destas para as entranhas dos regulamentos mais áridos e das tabelas arranjadas. Mesmo satisfeito por ter subido, ofegante, uma montanha bem alta e tendo recebido lá em cima a alegria da vista mais livre, nunca poderei satisfazer os amigos de tabelamentos neste livro. Bem vejo chegar um tempo em que homens sérios, a serviço de uma formação totalmente renovada e purificada, trabalhando em conjunto, vão se tornar de novo os legisladores da educação cotidiana esta que leva à referida formação . Provavelmente deverão elaborar de novo tabelamentos. Mas como está longe este tempo! e o que não vai acontecer até lá! Talvez encontre-se entre ele e o presente a dissolução do ginásio, talvez até mesmo a dissolução da universidade, ou pelo menos uma reformulação tão ampla dos assim chamados institutos de formação, que seus antigos tabelamentos parecerão, aos olhos da posteridade, sobras do tempo das palafitas.
          O livro se destina aos leitores calmos, a homens que ainda não estão comprometidos pela pressa vertiginosa de nossa época rolante, e que ainda não sentem um prazer idólatra quando se atiram sob suas rodas, portanto a homens que ainda não se acostumaram a estimar o valor de cada coisa segundo o ganho ou a perda de tempo. Ou seja a muito poucos homens. Estes, porém, “ainda têm tempo”, a eles é permitido, sem que fiquem ruborizados, procurar a reunião dos momentos mais frutíferos e mais fortes de seus dias, a fim de refletir sobre o futuro de nossa formação, eles podem até acreditar que chegam à noite de modo vantajoso e digno, quer dizer: na meditatio generis futuri.2 Um homem assim ainda não desaprendeu a pensar enquanto lê, ainda compreende o segredo de ler nas entrelinhas, sim, ele esbanja tanto, que ainda reflete sobre o que foi lido — talvez muito após ter largado o livro. E, contudo, não para escrever uma resenha ou um novo livro, mas apenas assim, para refletir! Esbanjador leviano! Você é o meu leitor, pois será calmo o suficiente para seguir um longo caminho com o autor, cujas metas ele mesmo não pode ver, nas quais deve acreditar honrosamente, para que uma geração posterior, talvez distante, veja com os olhos o que só tateamos às cegas, dirigidos apenas pelo instinto. Se o leitor, em contrapartida, pretender que só um pulo ligeiro é necessário, um ato bem-humorado, se considerar que se alcança tudo o que é essencial com uma nova “organização” decretada pelo estado, então devemos temer que ele não chegou a entender nem o autor, nem o problema propriamente dito.
          Por fim, dirige-se ao leitor a terceira e mais importante exigência: a de que ele não se intrometa de modo algum, à maneira do homem moderno, e não traga para a leitura a sua “formação”, algo como uma medida, como se com isto possuísse um critério para todas as coisas. Desejamos que ele seja suficientemente formado para pensar em sua formação de modo restrito e até desdenhoso. Então lhe seria permitido abandonar-se com total confiança à condução do escritor que, justamente, só ousa falar do não-saber e do saber do não-saber. Antes de tudo, o leitor não quer recorrer a nada além de um sentimento forte e agitado do que é específico em nossa barbárie presente, daquilo que nos distingue como bárbaros do século dezenove diante de outros bárbaros. Assim, com este livro na mão, ele procura os que são movidos por um sentimento semelhante. Deixem-se encontrar, solitários, em cuja existência eu acredito! Perdidos de si mesmos, que sofrem, em si mesmos, a dor da corrupção do espírito alemão! Contemplativos, cujos olhos são incapazes de escorregar de uma superfície para a outra com uma espiada cheia de pressa! Altivos, que Aristóteles celebra por atravessarem a vida hesitando e sem ação, a não ser que uma grande honra e uma grande obra os reclame! A vocês faço meu apelo. Não se escondam, só desta vez, na caverna de sua reclusão e de sua desconfiança. Pensem que este livro é destinado a ser seu arauto. Se vocês mesmo aparecerem no campo de batalha, em sua própria armadura, quem ainda cobiçará olhar para o arauto que os convocou?

Friedrich Nietzsche

Gedanken über die Zukunft unserer Bildungsanstalten Vorrede

          Der Leser, von dem ich Etwas erwarte, muß drei Eigenschaften haben. Er muß ruhig sein und ohne Hast lesen. Er muß nicht immer sich selbst und seine »Bildung« dazwischen bringen. Er darf endlich nicht am Schlusse, etwa als Resultat, neue Tabellen erwarten. Tabellen und neue Stundenpläne für Gymnasien und andre Schulen verspreche ich nicht, bewundere vielmehr die überkräftige Natur Jener, welche imstande sind, den ganzen Weg von der Tiefe der Empirie aus bis hinauf zur Höhe der eigentlichen Kulturprobleme und wieder von da hinab in die Niederungen der dürrsten Reglements und des zierlichsten Tabellenwerks zu durchmessen; sondern zufrieden, wenn ich, unter Keuchen, einen ziemlichen Berg erklommen habe und mich oben des freieren Blicks erfreuen darf, werde ich eben in diesem Buche die Tabellenfreunde nie zufriedenstellen können. Wohl sehe ich eine Zeit kommen, in der ernste Menschen, im Dienste einer völlig erneuten und gereinigten Bildung und in gemeinsamer Arbeit, auch wieder zu Gesetzgebern der alltäglichen Erziehung — der Erziehung zu eben jener Bildung — wer den; wahrscheinlich müssen sie dann wiederum Tabellen machen; aber wie fern ist die Zeit! Und was wird nicht alles inzwischen geschehen sein! Vielleicht liegt zwischen ihr und der Gegenwart die Vernichtung des Gymnasiums, vielleicht selbst die Vernichtung der Universität, oder wenigstens eine so totale Umgestaltung der eben genannten Bildungsanstalten, daß derem alte Tabellen sich späteren Augen wie Überreste aus der Pfahlbautenzeit darbieten möchten.
          Für die ruhigen Leser ist das Buch bestimmt, für Menschen, welche noch nicht in die schwindelnde Hast unseres rollenden Zeitalters hineingerissen sind und noch nicht ein götzendienerisches Vergnügen daran empfinden, wenn sie sich unter seine Räder werfen, für Menschen also, die noch nicht den Wert jedes Dinges nach der Zeitersparniß oder Zeitversäumniß abzuschätzen sich gewöhnt haben. Das heißt für sehr wenige Menschen. Diese aber »haben noch Zeit«, diese dürfen, ohne vor sich selbst zu erröten, die fruchtbarsten und kräftigsten Momente ihres Tages zusammensuchen, um über die Zukunft unserer Bildung nachzudenken, diese dürfen selbst glauben, auf eine recht nutzbringende und würdige Art bis zum Abend zu kommen, nämlich in der meditatio generis futuri. Ein solcher Mensch hat noch nicht verlernt zu denken, während er liest, er versteht noch das Geheimniß, zwischen den Zeilen zu lesen, ja er ist so verschwenderisch geartet, daß er gar noch über das Gelesene nachdenkt vielleicht lange nachdem er das Buch aus den Händen gelegt hat. Und zwar nicht, um eine Rezension oder wieder ein Buch zu schreiben, sondern nur so, um nachzudenken! Leichtsinniger Verschwender! Du bist mein Leser, denn du wirst ruhig genug sein, um mit dem Autor einen langen Weg anzutreten, dessen Ziele er nicht sehen kann, an dessen Ziele er ehrlich glauben muß, damit eine spätere, vielleicht ferne Generation mit Augen sehe, wonach wir, blind und nur vom Instinkt geführt, tasten. Wenn der Leser dagegen meinen sollte, es bedürfe nur eines geschwinden Sprungs, einer frohmütigen Tat, wenn er etwa mit einer neuen von Staats wegen eingeführten »Organisation« alles Wesentliche für erreicht hielte, so müssen wir fürchten, daß er weder den Autor noch das eigentliche Problem verstanden hat.
          Endlich ergeht die dritte und wichtigste Forderung an ihn, daß er auf keinen Fall, nach Art des modernen Menschen, sich selbst und seine »Bildung« unausgesetzt etwa als Maßstab dazwischen bringe, als ob er damit ein Kriterium aller Dinge besäße. Wir wünschen, er möge gebildet genug sein, um von seiner Bildung recht gering, ja verächtlich zu denken. Dann dürfte er wohl am zutraulichsten sich der Führung des Verfassers hingeben, der es gerade nur von dem Nichtwissen und von dem Wissen des Nichtwissens auswagen durfte, zu ihm zu reden. Nichts anderes will er vor den übrigen für sich in Anspruch nehmen, als ein stark erregtes Gefühl für das Spezifische unserer gegenwärtigen Barbarei, für das, was uns als die Barbaren des neunzehnten Jahrhunderts vor anderen Barbaren auszeichnet. Nun sucht er, mit diesem Buche in der Hand, nach solchen, die von einem ähnlichen Gefühle hin- und hergetrieben werden. Laßt euch finden, ihr Vereinzelten, an deren Dasein ich glaube! Ihr Selbstlosen, die ihr die Leiden der Verderbniß des deutschen Geistes an euch selbst erleidet! Ihr Beschaulichen, deren Auge unvermögend ist, mit hastigem Spähen von einer Oberfläche zur andern zu gleiten! Ihr Hochsinnigen, denen Aristoteles nachrühmt, daß ihr zögernd und tatenlos durchs Leben geht, außer wo eine große Ehre und ein großes Werk nach euch verlangen! Euch rufe ich auf. Verkriecht euch nur diesmal nicht in die Höhle eurer Abgeschiedenheit und eures Mißtrauens. Denkt euch, dies Buch sei bestimmt, euer Herold zu sein. Wenn ihr erst selbst, in eurer eignen Rüstung, auf dem Kampfplatze erscheint, wen möchte es dann noch gelüsten, nach dem Herolde, der euch rief, zurückzuschauen?


Notas do tradutor Pedro Süssekind:
1 O ginásio alemão (Gymnasien) corresponde à reunião do que chamamos no Brasil de ginásio (quinta a oitava série do primeiro grau) e de segundo grau. Quando Nietzsche fala, neste prefácio, de “tabelamentos” (Tabellen), ele está se referindo à organização do ensino universitário, aos chamados organogramas;
2 Meditação da raça humana.
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Cinco prefácios para cinco livros não escritos — Friedrich Nietzsche, Tradução, Prefácio e Notas de Pedro Süssekind, 1996, Livraria Sette Letras Ltda., São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.