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[traduzido
por Pedro Süssekind]
Prefácio
O leitor
do qual espero alguma coisa deve ter três qualidades. Deve ser calmo e ler sem
pressa. Não deve intrometer-se, nem trazer para a leitura a sua “formação”. Por
fim, não pode esperar na conclusão, como um tipo de resultado, novos
tabelamentos. Não prometo tabelamentos, nem novos planos de estudo para
ginásios1 e outras escolas, admiro muito mais a natureza cheia de
força daqueles que estão prontos para atravessar todo o caminho, desde as
profundezas do empírico até as alturas dos problemas culturais autênticos, e
novamente, destas para as entranhas dos regulamentos mais áridos e das tabelas
arranjadas. Mesmo satisfeito por ter subido, ofegante, uma montanha bem alta e
tendo recebido lá em cima a alegria da vista mais livre, nunca poderei satisfazer
os amigos de tabelamentos neste livro. Bem vejo chegar um tempo em que homens
sérios, a serviço de uma formação totalmente renovada e purificada, trabalhando
em conjunto, vão se tornar de novo os legisladores da educação cotidiana — esta que leva à referida formação —. Provavelmente deverão elaborar de novo tabelamentos. Mas
como está longe este tempo! e o que não vai acontecer até lá! Talvez
encontre-se entre ele e o presente a dissolução do ginásio, talvez até mesmo a
dissolução da universidade, ou pelo menos uma reformulação tão ampla dos assim
chamados institutos de formação, que seus antigos tabelamentos parecerão, aos
olhos da posteridade, sobras do tempo das palafitas.
O livro
se destina aos leitores calmos, a homens que ainda não estão comprometidos pela
pressa vertiginosa de nossa época rolante, e que ainda não sentem um prazer idólatra
quando se atiram sob suas rodas, portanto a homens que ainda não se acostumaram
a estimar o valor de cada coisa segundo o ganho ou a perda de tempo. Ou seja —
a muito poucos homens. Estes, porém, “ainda têm tempo”, a eles é permitido, sem
que fiquem ruborizados, procurar a reunião dos momentos mais frutíferos e mais
fortes de seus dias, a fim de refletir sobre o futuro de nossa formação, eles
podem até acreditar que chegam à noite de modo vantajoso e digno, quer dizer:
na meditatio
generis futuri.2 Um homem assim ainda não desaprendeu a
pensar enquanto lê, ainda compreende o segredo de ler nas entrelinhas, sim, ele
esbanja tanto, que ainda reflete sobre o que foi lido — talvez muito após ter
largado o livro. E, contudo, não para escrever uma resenha ou um novo livro,
mas apenas assim, para refletir! Esbanjador leviano! Você é o meu leitor, pois
será calmo o suficiente para seguir um longo caminho com o autor, cujas metas
ele mesmo não pode ver, nas quais deve acreditar honrosamente, para que uma
geração posterior, talvez distante, veja com os olhos o que só tateamos às
cegas, dirigidos apenas pelo instinto. Se o leitor, em contrapartida, pretender
que só um pulo ligeiro é necessário, um ato bem-humorado, se considerar que se
alcança tudo o que é essencial com uma nova “organização” decretada pelo
estado, então devemos temer que ele não chegou a entender nem o autor, nem o
problema propriamente dito.
Por fim, dirige-se ao leitor a
terceira e mais importante exigência: a de que ele não se intrometa de modo
algum, à maneira do homem moderno, e não traga para a leitura a sua “formação”,
algo como uma medida, como se com isto possuísse um critério para todas as
coisas. Desejamos que ele seja suficientemente formado para pensar em sua
formação de modo restrito e até desdenhoso. Então lhe seria permitido
abandonar-se com total confiança à condução do escritor que, justamente, só
ousa falar do não-saber e do saber do não-saber. Antes de tudo, o leitor não
quer recorrer a nada além de um sentimento forte e agitado do que é específico
em nossa barbárie presente, daquilo que nos distingue como bárbaros do século
dezenove diante de outros bárbaros. Assim, com este livro na mão, ele procura
os que são movidos por um sentimento semelhante. Deixem-se encontrar, solitários,
em cuja existência eu acredito! Perdidos de si mesmos, que sofrem, em si
mesmos, a dor da corrupção do espírito alemão! Contemplativos, cujos olhos são
incapazes de escorregar de uma superfície para a outra com uma espiada cheia de
pressa! Altivos, que Aristóteles celebra por atravessarem a vida hesitando e
sem ação, a não ser que uma grande honra e uma grande obra os reclame! A vocês
faço meu apelo. Não se escondam, só desta vez, na caverna de sua reclusão e de
sua desconfiança. Pensem que este livro é destinado a ser seu arauto. Se vocês
mesmo aparecerem no campo de batalha, em sua própria armadura, quem ainda
cobiçará olhar para o arauto que os convocou? —
Gedanken über die Zukunft unserer
Bildungsanstalten — Vorrede
Der Leser,
von dem ich Etwas erwarte, muß drei Eigenschaften haben. Er muß ruhig sein und ohne
Hast lesen. Er muß nicht immer sich selbst und seine »Bildung« dazwischen bringen.
Er darf endlich nicht am Schlusse, etwa als Resultat, neue Tabellen erwarten. Tabellen
und neue Stundenpläne für Gymnasien und andre Schulen verspreche ich nicht, bewundere
vielmehr die überkräftige Natur Jener, welche imstande sind, den ganzen Weg von
der Tiefe der Empirie aus bis hinauf zur Höhe der eigentlichen Kulturprobleme und
wieder von da hinab in die Niederungen der dürrsten Reglements und des zierlichsten
Tabellenwerks zu durchmessen; sondern zufrieden, wenn ich, unter Keuchen, einen
ziemlichen Berg erklommen habe und mich oben des freieren Blicks erfreuen darf,
werde ich eben in diesem Buche die Tabellenfreunde nie zufriedenstellen können.
Wohl sehe ich eine Zeit kommen, in der ernste Menschen, im Dienste einer völlig
erneuten und gereinigten Bildung und in gemeinsamer Arbeit, auch wieder zu Gesetzgebern
der alltäglichen Erziehung — der Erziehung zu eben
jener Bildung — wer den; wahrscheinlich müssen
sie dann wiederum Tabellen machen; aber wie fern ist die Zeit! Und was wird nicht
alles inzwischen geschehen sein! Vielleicht liegt zwischen ihr und der Gegenwart
die Vernichtung des Gymnasiums, vielleicht selbst die Vernichtung der Universität,
oder wenigstens eine so totale Umgestaltung der eben genannten Bildungsanstalten,
daß derem alte Tabellen sich späteren Augen wie Überreste aus der Pfahlbautenzeit
darbieten möchten.
Für die
ruhigen Leser ist das Buch bestimmt, für Menschen, welche noch nicht in die
schwindelnde Hast unseres rollenden Zeitalters hineingerissen sind und noch
nicht ein götzendienerisches Vergnügen daran empfinden, wenn sie sich unter
seine Räder werfen, für Menschen also, die noch nicht den Wert jedes
Dinges nach der Zeitersparniß oder Zeitversäumniß abzuschätzen sich gewöhnt
haben. Das heißt — für sehr wenige Menschen.
Diese aber »haben noch Zeit«, diese dürfen, ohne vor sich selbst zu erröten,
die fruchtbarsten und kräftigsten Momente ihres Tages zusammensuchen, um über
die Zukunft unserer Bildung nachzudenken, diese dürfen selbst glauben, auf eine
recht nutzbringende und würdige Art bis zum Abend zu kommen, nämlich in
der meditatio generis futuri. Ein solcher Mensch hat noch nicht verlernt zu
denken, während er liest, er versteht noch das Geheimniß, zwischen den Zeilen
zu lesen, ja er ist so verschwenderisch geartet, daß er gar noch über das
Gelesene nachdenkt — vielleicht lange nachdem
er das Buch aus den Händen gelegt hat. Und zwar nicht, um eine Rezension oder
wieder ein Buch zu schreiben, sondern nur so, um nachzudenken! Leichtsinniger
Verschwender! Du bist mein Leser, denn du wirst ruhig genug sein, um mit dem
Autor einen langen Weg anzutreten, dessen Ziele er nicht sehen kann, an dessen
Ziele er ehrlich glauben muß, damit eine spätere, vielleicht ferne Generation
mit Augen sehe, wonach wir, blind und nur vom Instinkt geführt, tasten. Wenn
der Leser dagegen meinen sollte, es bedürfe nur eines geschwinden Sprungs,
einer frohmütigen Tat, wenn er etwa mit einer neuen von Staats wegen
eingeführten »Organisation« alles Wesentliche für erreicht hielte, so müssen
wir fürchten, daß er weder den Autor noch das eigentliche Problem verstanden
hat.
Endlich
ergeht die dritte und wichtigste Forderung an ihn, daß er auf keinen Fall, nach
Art des modernen Menschen, sich selbst und seine »Bildung« unausgesetzt etwa
als Maßstab dazwischen bringe, als ob er damit ein Kriterium aller Dinge
besäße. Wir wünschen, er möge gebildet genug sein, um von seiner Bildung recht
gering, ja verächtlich zu denken. Dann dürfte er wohl am zutraulichsten sich
der Führung des Verfassers hingeben, der es gerade nur von dem Nichtwissen und
von dem Wissen des Nichtwissens auswagen durfte, zu ihm zu reden. Nichts
anderes will er vor den übrigen für sich in Anspruch nehmen, als ein stark
erregtes Gefühl für das Spezifische unserer gegenwärtigen Barbarei, für das,
was uns als die Barbaren des neunzehnten Jahrhunderts vor anderen Barbaren
auszeichnet. Nun sucht er, mit diesem Buche in der Hand, nach solchen, die von
einem ähnlichen Gefühle hin- und hergetrieben werden. Laßt euch finden, ihr
Vereinzelten, an deren Dasein ich glaube! Ihr Selbstlosen, die ihr die Leiden
der Verderbniß des deutschen Geistes an euch selbst erleidet! Ihr
Beschaulichen, deren Auge unvermögend ist, mit hastigem Spähen von einer
Oberfläche zur andern zu gleiten! Ihr Hochsinnigen, denen Aristoteles
nachrühmt, daß ihr zögernd und tatenlos durchs Leben geht, außer wo eine große
Ehre und ein großes Werk nach euch verlangen! Euch rufe ich auf. Verkriecht euch
nur diesmal nicht in die Höhle eurer Abgeschiedenheit und eures Mißtrauens.
Denkt euch, dies Buch sei bestimmt, euer Herold zu sein. Wenn ihr erst selbst,
in eurer eignen Rüstung, auf dem Kampfplatze erscheint, wen möchte es dann noch
gelüsten, nach dem Herolde, der euch rief, zurückzuschauen? —
Notas do tradutor Pedro Süssekind:
1 O ginásio alemão (Gymnasien) corresponde à reunião do que chamamos no Brasil de
ginásio (quinta a oitava série do primeiro grau) e de segundo grau. Quando
Nietzsche fala, neste prefácio, de “tabelamentos” (Tabellen), ele está se referindo à organização do ensino universitário,
aos chamados organogramas;
2 Meditação da raça humana.
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Cinco prefácios
para cinco livros não escritos — Friedrich Nietzsche,
Tradução, Prefácio e Notas de Pedro Süssekind, 1996, Livraria Sette Letras
Ltda., São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm
Nietzsche (1844 — 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual
Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor;
estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e
foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu
e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie
aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos
que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor
(David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano,
um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte
originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer
como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876),
Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen
Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou
Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 —
1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von
Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral,
1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung,
1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra
o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que
a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas,
reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado
nos cursos de Filosofia.