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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Emiliano Perneta: Vencidos

 
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Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?… E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço…
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E gloria à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!

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Os Sonetos — Antologia: diversas autorias, Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Emiliano David Perneta (1866 1921), paranaense nascido “em um sítio” na região de Pinhais, à época zona rural de Curitiba [hoje município de Pinhais PR], formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco), foi poeta, professor de português, jornalista e advogado; teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época, estreando em 1883 com publicação no periódico curitibano O Dilúculo; em 1887, já em São Paulo, fundou A Vida Semanária, da qual foi redator, depois foi coproprietário de A Quinzena Paulista: letras e artes (hoje, periódicos considerados raros, encontrados na Biblioteca Nacional) e, na companhia de outros intelectuais fundou a Folha Literária; em 1888 publicou seu primeiro livro, Músicas; após formar-se trabalhou como jornalista nos periódicos Cidade do Rio e Novidades, ambos no Rio de Janeiro, por um breve período exerceu o ofício de promotor de justiça em Minas Gerais, depois, de retorno a Curitiba, passou a lecionar, trabalhou como auditor do Exército, fundou a revista literária Victrix; integrando-se nos círculos boêmios da capital do estado, difundiu a leitura de autores franceses, Baudelaire entre os quais, e com isso impulsionou o movimento simbolista, ele próprio sendo considerado e reconhecido como “o maior expoente do simbolismo no Paraná”; suas obras: Músicas (1888), Carta à Condessa d’Eu (1889), O Inimigo (prosa dramática, 1889), Alegoria (prosa dramática, 1903), Ilusão (poemas, 1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, poemas, 1934); produziu libretos operísticos: Papilio Innocentia (ópera, baseada no romance Inocência, de Visconde de Taunay (1911) e A Vovozinha (ópera infantil, 1914); como jornalista, o poeta também colaborou no Diário Popular, na Gazeta de São Paulo e em mais periódicos; Emiliano Perneta foi um dos fundadores do Centro de Letras do Paraná (“núcleo da atual Academia Paranaense de Letras”), do qual tornou-se presidente de 1913 a 1918.

domingo, 17 de maio de 2026

Guilherme de Almeida: O jogral

 
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Ei-lo! Sob o faiscar de escárnios e sorrisos,
no sombrio salão de um grão-senhor feudal,
sacode e arrasta a irônica brial
de tufos, de galões, de fitas e de guizos...

Guincha, e gagueja, e salta, e canta... E, entre indecisos
clarões de lampadário e a graça medieval
das damas e galãs, o mísero jogral
vai diminuindo a dor e exagerando os risos...

Ninguém sabe entender os seus esgares bufos,
porque ele veste o amor, a corcunda e a tristeza
de fitas, de galões, de guizos e de tufos...

E vai levando assim sentimental truão!
glorioso de fazer sorrir sua princesa,
a dor no fundo da alma e um títere na mão!

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Messidor, poesias (coletâneas: Nós, A Dança das Horas, Suave Colheita), sem data, Círculo do Livro, São Paulo — SP; Guilherme de Andrade e Almeida (1890 1969), paulista de Campinas, estudou nos ginásios Culto à Ciência (Campinas), e São Bento e N. Sra. do Carmo (ambos em São Paulo), formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi jurista, professor de direito, poeta, jornalista, cronista social, ensaísta, crítico cinematográfico e tradutor; trabalhou como redator n’O Estado de São Paulo e no Diário de São Paulo, foi diretor da Folha da Manhã e da Folha da Noite, fundador do Jornal de São Paulo; participante da Semana de Arte Moderna (1922), colaborou nos periódicos modernistas Klaxon, Verde e Terra Roxa; consta que a sua produção de "haicais em português" teve início após seu encontro com Kozo Ichige, cônsul japonês no Brasil, à época, 1936; suas obras: em poesia: Nós (estréia literária, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (1919), A flor que foi um homem — Narciso (1921), A Frauta que eu perdi (1924), Meu (1925), Raça (1925), Encantamento (1925), Simplicidade (1929), Você (1931), Estudante poeta (1943), Tempo (1944), Poesia Vária (1947), Rua (1961); em prosa: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (ensaio, 1926), Ritmo, Elemento de Expressão (1926), Gente de Cinema (1929), O meu Portugal (1933), A Casa (palestra, 1935), Gonçalves Dias e o Romantismo (conferência, 1944), Histórias, talvez... (1948), As Palavras de Buda (1948), e mais títulos em verso e prosa; traduziu, entre outros, Paul Géraldy, Rabindranath Tagore, Charles Baudelaire (Fleurs du Mal), Paul Verlaine (Parallèlement) e, ainda, a peça Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean Paul Sartre; foi membro da ABL Academia Brasileira de Letras, do IHGSP Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e do Instituto de Coimbra (Portugal)...

sábado, 16 de maio de 2026

Teixeira de Pascoaes: Uma ave e o poeta

 
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I

Sobre aquele pinheiro aureolado,
De inerte e vegetal melancolia,
Um passarinho, alegre e alvoroçado,
Cantou, cantou, durante todo o dia...

Fiquei-me a ouvi-lo mudo e extasiado...
Mas, por fim, perguntei-lhe: Que alegria,
Se fez, em ti, ó corpo acostumado
À cruz das tuas asas de agonia?

Que descobriste, além, no céu profundo?
Ou que milagre aconteceu no mundo?
Grande coisa decerto adivinhaste...

A aurora revelou-te o seu mistério?
E divina canção de amor etéreo,
À luz, sombra de Deus, alevantaste?

II

E a avezinha serena e confiada,
Num olhar de ternura me envolveu;
E, em sua doce voz iluminada
E tão cheia de graça, respondeu:

Meu canto é luz do sol em mim filtrada;
Vou a cantar... e canta a luz do céu.
E das aves da noite a voz cerrada
É penumbra que nelas se embebeu.

Sonho a perfeita e mística alegria!
Desejo ser a alma da harmonia,
Que toda a terra e todo o espaço inflama!

Quero ser o Infinito e a Eternidade;
Não ser a estrela e ser a claridade;
Ser apenas o Amor, não ser quem ama.

(As Sombras — 1907)

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A Poesia de Teixeira de Pascoaes — Ensaio e Antologia, de Jacinto do Prado Coelho, 1945, Atlantida Livraria Editora Ltda., Coimbra — Portugal; Teixeira de Pascoaes, pseudônimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (1877 1952), português de Amarante, formado em Direito pela Faculdade de Coimbra exerceu os ofícios de advogado e juiz por breve período , foi poeta e escritor; estreou na literatura publicando Embriões em 1895, tendo sido consagrado com o lançamento de Sempre em 1898, obra “que simboliza o encontro do poeta consigo mesmo”; Pascoaes, considerado um “poeta-filósofo”, foi cultor e iniciador do então denominado “movimento saudosista” nas artes literárias lusitanas; em 1911, no Porto, ajudou a fundar o grupo Renascença Portuguesa, o qual tinha como objetivo lutar pela elevação cultural da república portuguesa; fundou a revista Águia, órgão do grupo Renascença, e a dirigiu até 1917; suas obras: em poesia: Embriões (1895), Belo, 1ª parte (1896), Belo, 2ª parte (1897), À Minha Alma e Sempre (ambos em 1898), Terra Proibida (1900), Jesus e Pã (1903), Vida Eterna (1906), As Sombras (1907), Senhora da Noite (1909), Marãnos (1911), Regresso ao Paraíso (1912), Verbo Escuro (1914), Elegia da Solidão (1920), Cantos Indecisos (1921), O Pobre Tolo (1924), Últimos Versos (publicação póstuma, 1953) e outros; em prosa: O Espírito Lusitano e o Saudosismo (1912), O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa (1913), A Arte de Ser Português (1915), À Beira Num Relâmpago (1916), Os Poetas Lusíadas (conferências, 1919), O Bailado (1921), A Nossa Fome (1923), Livro de Memórias (autobiografia, 1928), O Homem Universal (1937) ...; biografias romanceadas: Napoleão (1940), O penitente Camilo Castelo Branco (1942), Santo Agostinho (1945) etc.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Elizabeth Barrett Browning: Como eu te amo

 
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(traduzido por Fernando Torquato Oliveira)

De que maneira eu te amo? Impossível dizer.
Eu te amo em dimensões de abismo e de altitude,
onde a alma ainda alcança o azul da plenitude,
no limite do ideal, além do próprio ser.

Eu te amo dia a dia, em nímia beatitude,
desde a luz da manhã à luz do anoitecer;
eu te amo livremente, ou sem leis nem poder;
eu te amo com orgulho, e com terna atitude.

Eu te amo com o raro amor dos desencantos,
com a fé infantil, que permanece forte,
com o estranho calor dos crentes e dos santos.

Eu te amo com paixão, com lágrimas, transporte.
E se Deus o quiser, implorando em meus prantos,
amar-te-ei, também, depois da própria morte!

Elizabeth Barrett Browning

Sonnet 43
How do I love thee?

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.

I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right;
I love thee purely, as they turn from praise.

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose

With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

(Sonnets from the Portuguese — 1847)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Elizabeth Barrett Browning (1806 1861), inglesa de Coxhoe Hall, Durham, foi poetisa do Romantismo e da época vitoriana; autodidata, exceto por ter recebido “algumas instruções de grego e latim de um tutor que vivia com a família e ajudava seu irmão Edward”, ainda aos dez anos de idade, já havia lido várias peças de Shakespeare, traduções homéricas, de Pope, histórias da Inglaterra, Grécia e Roma e, logo após, peças de Racine e Molière, o Inferno, de Dante; todo o Antigo Testamento, em hebraico, Tom Paine, Voltaire, Rousseau e Mary Wollstonecraft; aos 15 anos de idade, tornou-se praticamente inválida por problemas de coluna e, depois, teve sua saúde agravada por complicações pulmonares; em 1846, casando-se com o também poeta Robert Browning, mudou-se para Florença Itália, ali vivendo pelo resto da vida; Elizabeth escreveu seu primeiro poema aos 12 anos, The Battle of Marathon (A Batalha de Maratona), em 4 tomos, que seu pai mandou imprimir; suas obras: An Essay on Mind and Other Poems (Um Ensaio sobre a Mente e Outros Poemas, 1826), Prometheus e Outros Poemas (1833), The Seraphim and Other Poems (Serafim e Outros Poemas, 1838), Sonnets from the Portuguese (Sonetos da Portuguesa, 1847), Casa Guidi Windows (Janelas da Casa Guidi, 1851), Aurora Leigh (1856), Poems Before Congress (Poemas Perante o Congresso, 1860) e outros, além de textos em prosa; traduziu a peça Prometeu Acorrentado (Prometheus Bound) atribuída a Ésquilo, dramaturgo da Grécia Antiga.

domingo, 10 de maio de 2026

Tristan Corbière: Paris diurna

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Ver grande esfera ao céu, rubro cobre a brilhar,
Caçarola imensa onde Deus faz cozinhar
Restos de refeição, maná, úmido em suor
Sempre o prato do dia e úmido de amor.

Os cachorros em círculo aguardam lá ao forno,
Ouve-se ao leve a carne rançosa a soar,
Os bêbados também, canecas a virar;
O mísero tirita esperando seu turno.

Crês assim que o sol frita para todo mundo
Gordas férvidas sobras que o ouro em cheio inunda?
Não, o caldo do cão em nós cai lá do céu.

Eles sob o luzir e nós sob a goteira,
Para nós, desventura sem a lumeeira.
Nossa própria substância é o saco de fel.


Paris diurne

Vois aux cieux le grand rond de cuivre rouge luire,
Immense casserole où le bon Dieu fait cuire
La manne, l'arlequin, l'éternel plat du jour:
C'est trempé de sueur et c'est trempé d'amour.

Les laridons en cercle attendent près du four,
On entend vaguement la chair rance bruire,
Et les soiffards aussi sont là, tendant leur buire;
Le marmiteux grelotte en attendant son tour.

Crois-tu que le soleil frit donc pour tout le monde
Ces gras graillons grouillants qu'un torrent d'or inonde?
Non, le bouillon de chien tombe sur nous du ciel.

Eux sont sous le rayon et nous sous la gouttière.
A nous le pot au noir qui froidit sans lumière.
Notre substance à nous, c'est notre poche à fiel.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874, Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Nelson Ascher: 14 versos

 
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Não zombes, crítico, da forma
que, além de poetas como Dante,
Quevedo ou Mallarmé durante
os séculos quando era a norma,

Púchkin, narrando com maestria
um duelo em seu Ievguêni Oniéguin
(num duelo desses morreria),
usou como outros não conseguem.

Sem rejeitar a própria era,
Drummond e Rilke, todavia,
levaram o soneto a extremos

de perfeição e, em sua cegueira,
Borges também, conforme via,
mais do que nós, que vemos, vemos.

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Parte alguma: Poesia (1997- 2004) — Nelson Ascher, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Nelson Ronny Ascher, nascido em 1958, paulista e paulistano, iniciou curso de Medicina, abandonou, formou-se em Administração pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), São Paulo, especializou-se em Comunicações e Semiótica, é poeta, jornalista, editor, tradutor de poesia e crítico de literatura e cinema; ainda estudante de medicina, no jornal do centro acadêmico da faculdade, em texto de estréia no mundo literário discorreu sobre a obra de Jorge Luís Borges; no final dos anos 70 publicou sua primeira resenha na Folha da Tarde, à época jornal de grande circulação, logo após passou a escrever para a Folha de São Paulo, ali se tornando um dos editores culturais: editou o Folhetim — suplemento dominical de cultura, prestou constante colaboração, escreveu críticas, traduziu T. S. Eliot e Herberto Padilla; criou e editou a Revista da USP; traduziu e ainda traduz poesias de várias línguas: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, russo e húngaro; suas obras: em poesia, Ponta da língua (1983), O sonho da razão (1993), Algo do sol (1996), Parte alguma: poesia 1997-2004 (2005), ensaio: Pomos da discórdia (antologia de traduções, 1996), traduções: Poesia alheia: 124 poemas traduzidos (1998), foi um dos organizadores das antologias Nothing the Sun could not explain: 20 Contemporary Brazilian Poets (1997), Folhetim — poemas traduzidos (1987) e outros.

domingo, 3 de maio de 2026

Da Costa e Silva: Saudade

 
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Saudade! Olhar de minha mãe rezando
E o pranto lento deslizando em fio…
Saudade! Amor da minha terra… O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de Junho. O caburé com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando…
E à noite as folhas lívidas cantando
A saudade infeliz de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento…
Ai! mortalhas de neve sobre a serra…

Saudade! O Parnaíba velho monge
As barbas brancas alongando… E, ao longe
O mugido dos bois da minha terra…

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Os Sonetos — Antologia: diversas autorias, Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos crônicas e crítica literária publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Rainer Maria Rilke: Morgue

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[traduzido por José Paulo Paes]

Ali jazem em ordem como se
à espera de algum ato tardio
que os pudesse ligar entre si e
reconciliá-los com aquele frio;

tudo está por enquanto inacabado.
Por que, dentro dos bolsos, um cartão
com o nome de cada? O ar de enfado
nas suas bocas, foi esforço vão

tentar lavá-lo: só ficou patente.
Mais áspera, a barba ainda nos rostos:
o zelador da morgue tem seus gostos;

nem os de boca aberta lhe dão náuseas.
Com olhos revirados sob as pálpebras,
os mortos veem-se agora interiormente.

R. M. Rilke

Morgue

Da liegen sie bereit, als ob es gälte,
nachträglich eine Handlung zu erfinden,
die mit einander und mit dieser Kälte
sie zu versöhnen weiss und zu verbinden;

denn das ist alles noch wie ohne Schluss.
Wasfür ein Name hätte in den Taschen
sich finden sollen? An dem Überdruss
um ihren Mund hat man herumgewaschen:

er ging nicht ab; er wurde nur ganz rein.
Die Bärte stehen, noch ein wenig härter,
doch ordentlicher im Geschmack der Wärter,

nur um die Gaffenden nicht anzuwidern.
Die Augen haben hinter ihren Lidern
sich umgewandt und schauen jetzt hinein.

[Neue Gedichte — 1º (1907)]
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., bilíngue, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Hermes Fontes: Estrela d'alva

 
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Vem por aí o Dia... Ó loura Estrela d'Alva,
escudeira do Sol, cuja vanguarda assumes!
Ao teu beijo estelar, a alma se nos ressalva,
e se ofusca a “lanterna azul” dos vaga-lumes...

Pela planície do Ar, que a Noite, em fuga, escalva,
vão-se os astros... Só tu sorris, e te presumes
uma salva geral de palmas, uma salva
de pétalas, de sons, de cores, de perfumes...

Estrela d’Alva, noiva e irmã dos sonhadores!
Taça, onde os olhos vão beber, contra as moléstias,
remédios imortais e purificadores...

Cercam-te, régia noiva, etéreas brumas... veste-as;
véu nupcial que te envia a Terra, expansa em flores,
Pela escada de luz das tuas louras réstias...

MCMIV.
(Apoteoses, pág. 28, 2ª Edição, 1915,
Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro,)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

sábado, 25 de abril de 2026

Jan Wagner: prego

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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

mal na parede e já era o centro,
lançava seu raio para fora
dos quintais, campos, celeiro
de nabos, das granjas, da horta

de rabanetes, ficava mais amplo, mondial;
pendurávamos os chapéus, agasalhos
de lá, capa e guarda-chuvas, molduras,
até que o esquecíamos, daquele olhar

duro ainda ali, quando já tínhamos
nos mudado e cidade e casa e rua
já haviam desaparecido lá em cima tão firme,

tão brilhante sobre leste e oeste,
que serviria para navegarmos no escuro
e a velhos marinheiros de consolo.

Jan Wagner

nagel

kaum in der wand, war er die mirte,
schnellte sein radius
über die gärten, felder, rübenmiete
lunaus, die hühnerställe, das radies-

chenbeet, wurde umfassender, mondial:
wir hängten die hüte auf. wir hängten strick-
jacken und rahmen, hängten regenmäntel
und schirme auf, bis wir ihn fast vergaßen, dessen harter blick

noch da sein wird, wenn wir längst ausgezogen
und stadt und haus und straße
verschwunden sind so unbeirrt weit oben,

so glänzend über west und ost,
daß sich im dunkeln navigieren ließe
nach ihm, und alten seefahrern ein trost.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Joachim du Bellay: Se nossa vida é menos do que um dia . . . [soneto]

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[traduzido por Mário Laranjeira]

IV

Se nossa vida é menos do que um dia
No eterno, se o ano que dá a volta
Expulsa cada dia, que não volta,
Se é perecível tudo que se cria,

Que pensas tu, minha alma aprisionada?
Por que te apraz o escuro deste dia,
Se, pra voar à clara moradia,
Às costas tens asa bem emplumada?

Lá, está o bem que o espírito deseja,
Lá, o repousar que todo mundo almeja,
Lá, o amor, lá, o prazer profundo.

Lá, ó minha alma, ao alto céu guiada,
Poderás ter a Idéia revelada
Da beleza que adoro neste mundo.

Joachim du Bellay

Si notre vie est moins qu’une journée . . .

IV

Si notre vie est moins qu’une journée
En l’éternel, si l’an qui faict le tour
Chasse nos jours sans espoir de retour,
Si périssable est toute chose née,

Que songes-tu, mon ame emprisonnée?
Pourquoi te plaît l’obscur de nostre jour,
Si pour voler en un plus clair séjour,
Tu as au dos l’aele bien empanée?

Là, est le bien que tout esprit désire,
Là, le repos que tout le monde aspire,
Là, est l’amour, là, le plaisir encore.

Là, ô mon âme, au plus haut ciel guidée,
Tu y pourras reconnaître l’Idée
De la beauté, qu’en ce monde j’adore.
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Poetas franceses da Renascença [edição bilíngue], Seleção, Apresentação e Tradução de Mário Laranjeira, 1ª edição, agosto de 2004, Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Joachim du Bellay (1522 1560), francês de Anjou, comuna de Liré, à época Reino da França, estudou Direito na Université de Poitiers, cursou o Collège de Coqueret, Paris, foi poeta renascentista; tendo ficado órfão muito jovem, foi educado pelo irmão René du Bellay; estudante do Coqueret, conviveu com Pierre de Ronsard [que conhecera desde Poitiers] e outros poetas, e, influenciado por Jean Dorat, professor de grego, foi um dos criadores do grupo literário Brigade que, após a inclusão de mais poetas, se transformou na Pléiade: tinha como objetivo valorizar a produção de textos na língua francesa, os quais devessem ser de qualidade compatível à dos clássicos gregos e latinos; Du Bellay interagiu ativamente na Pléiade e escreveu o Manifesto do grupo, La Défense et illustration de la langue française; entre 1553-1557 o poeta viveu em Roma, acompanhou seu primo Jean du Bellay que havia se tornado cardeal, tendo dele recebido a incumbência de administrar as despesas da casa cardinalícia, “desapontou-se, foi absorvido pelas intrigas da corte papal, envolveu-se diretamente em eventos diplomáticos entre França e Itália”, escreveu Les Regrets obra na qual explicitou críticas à vida romana e seu desejo de retornar à Anjou francesa e Les Antiquités de Rome; suas obras: A Defesa da Ilustração da Língua Francesa (manifesto, La Défense et illustration de la langue française, 1549), A Oliveira (L’Olive [anagrama de Viole, referência e louvor à Mademoiselle de Viole], 1549), Versos Líricos (Vers lyriques, 1549), Vários jogos rústicos e outras obras poéticas (Divers Jeux Rustiques et autres œuvres poétiques, 1558); Os Lamentos (coleção de sonetos, Les Regrets, 1558), As Antiguidades de Roma (Les Antiquités de Rome, 1558), La nouvelle manière de faire son profit des Lettres (1559), O Poeta Cortesão (Le Poète courtisan, 1559) e outros títulos; nas duas últimas obras citadas, poemas de teor satírico, Du Bellay fez uso do pseudônimo J. Quentil du Troussay; em 1552, o poeta traduziu para o francês o Quarto Livro de Eneida (Le Quatriesme Livre de l'Eneide), de Virgilio; teve poemas musicados por vários compositores.