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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Augusto de Campos: Verso, Reverso, Controverso [apresentação]

 
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          Assim como há gente que tem medo do novo, há gente que tem medo do antigo. Eu defenderei até a morte o novo por causa do antigo e até a vida o antigo por causa do novo. O antigo que foi novo é tão novo como o mais novo novo. O que é preciso é saber discerni-lo no meio das velhacas velharias que nos impingiram durante tanto tempo.
          Arnaut Daniel, João Airas de Santiago, John Donne, Marino, Corbière ou Hopkins, Gregório de Matos ou Sousândrade ou Kilkerry, num sentido mais largo, não são menos novos que Joyce ou Pound ou Oswald ou Pignatari. São irmãos no tempo, mais irmãos e mais próximos que a diluente maioria dos literatti que nos cercam. Como não amá-los? Meu amor vegetal crescendo vasto.
          “Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito?” (Fernando Pessoa).
          A minha maneira de amá-los é traduzi-los. Ou degluti-los, segundo a Lei Antropofágica de Oswald de Andrade: só me interessa o que não é meu. Tradução para mim é persona. Quase heterônimo. Entrar dentro da pele do fingidor para refingir tudo de novo, dor por dor, som por som, cor por cor. Por isso nunca me propus traduzir tudo. Só aquilo que sinto. Só aquilo que minto. Ou que minto que sinto, como diria, ainda uma vez, Pessoa em sua própria persona.
          Outrossim, ou antes, outronão: tradução é crítica, como viu Pound melhor que ninguém. Uma das melhores formas de crítica. Ou pelo menos a única verdadeiramente criativa, quando ela a tradução é criativa.
          Tem mais. Vendo o que eles fizeram no seu tempo aprendemos melhor o que fazer ou não fazer porque já foi feito melhor no nosso. O “paideuma” de Pound: a ordenação da informação para que o próximo homem ou geração poderá achar o mais rapidamente possível a parte viva dela e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos.
          A poesia é uma família dispersa de náufragos bracejando no tempo e no espaço. Tento reunir aqui alguns de seus raros sobreviventes, dos que me falam mais de perto: os que lutaram sob uma bandeira e um lema radical a invenção e o rigor. Os intraduzidos e os intraduzíveis. Os que alargaram o verso e o fizeram controverso, para chegar ao reverso.
          Se disserem que isso não tem nada com o presente, direi que é mentira. Ezra Pound aprendeu muito com muitos deles. E quem não aprendeu com EP merece mais a nossa piedade que a nossa reprodução, como disse Hemingway. Os concretos aprenderam muito com essa gente. Os futurocratas passadófobos, que dividem a história em antes e depois de si mesmo, não passam de medíocres narcisistas que já serão enterrados no próximo passado do futuro.
          A poesia, por definição, não tem pátria. Ou melhor, tem uma pátria maior. “Um Oriente ao oriente do oriente.” Mas se disserem que tudo isso não tem nada a ver com “as nossas raízes”, é outra mentira. Um dia, um dedo, um dado dizem o contrário. É isso. Ovo novo no velho. “Fui-o outrora agora.”

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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Augusto Luís Browne de Campos, paulistano, nascido em 1931, poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário e de música, é reconhecido, desde 1952, quando lançou a revista literária "Noigandres" em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, como um dos criadores, representantes e divulgadores do movimento internacional da Poesia Concreta; a maioria de seus poemas está reunida em Viva Vaia (1979) e Não (2003); obra poética: Antologia Noigandres (1962), Linguaviagem (1970), Equivocábulo (1970), Colidoouescapo (1971), Despoesia, 1979 — 1993 (1994), Poesia é Risco, antologia poético-musical (cd livro, 1995); o autor também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu outros autores, em voo solo ou em co-autoria com outros estudiosos da literatura, inclusos Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

sábado, 13 de julho de 2024

augusto de campos: américa latina: contra-boom da poesia

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o boom da américa latina espanhola
só esqueceu uma coisa
a poesia
(como viu octavio paz)

“acho a palavra boom repulsiva”
disse paz
“não se deve confundir
sucesso, publicidade ou venda
com literatura”

a poesia           arte pobre
lixo-luxo da cultura
nunca teve lugar
no mercado comum das letras latino-americanas
(onde só os brasileiros não vendem nada)

e no entanto
há algo nessa poesia
q merecia ser mais conhecido por aqui

claro, existe um grilo
entre nós e eles:
o surrealismo
(qualquer que seja o nome que lhe dêem)
impregna a massa dos poemas hispano-americanos
de uma insuportável retórica metaforizante
que não questiona a linguagem

a poesia brasileira
(que sofre de outros males)
nunca foi surrealista
(talvez porque o país seja surrealista
como disse o décio)

há uma belém-brasília
percorrendo a medula de nossa poesia
qualquer coisa jóia
qorpo estranho
entre o fácil e o fóssil

de oswald à poesia concreta
de joão cabral e joão gilberto
da pc à tropicália
criou-se uma outra linha experimental
antropófago-construtivista
que não tem paralelo
na américa espanhola

mas o chileno vicente huidobro (1893 1948)
especialmente o dos poemas visuais de 1917-18
e o de altazor (1931)
e o argentino oliverio girondo (1891 1967)
especialmente o de en la masmédula (1954)
superam os próprios cacoetes metafóricos
e caminham para o núcleo das palavras
que desintegram e reconstróem
em novas vivências léxicas
e novas sondagens poéticas

contemporâneos dos nossos modernistas
são dois raros pioneiros
habitantes
da face oculta criativa
da poesia latino-americana espanhola
a que existe

a que não quer titilar sentimentos
nem subornar más-consciências
poesia de linguagem
e não de língua
qorpo estranho

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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Augusto Luís Browne de Campos, paulista e paulistano, nascido em 1931, poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário e de música, é reconhecido, desde 1952, quando lançou a revista literária "Noigandres" em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, como um dos criadores, representantes e divulgadores do movimento internacional da Poesia Concreta; a maioria de seus poemas está reunida em Viva Vaia (1979) e Não (2003); obra poética: Antologia Noigandres (1962), Linguaviagem (1970), Equivocábulo (1970), Colidoouescapo (1971), Despoesia, 1979 — 1993 (1994), Poesia é Risco, antologia poético-musical (cd livro, 1995); o autor também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu outros autores, em voo solo ou em co-autoria com outros estudiosos da literatura, inclusos Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

augusto de campos: reverlaine


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paul verlaine
pauvre lélian
parecia fora da jogada
com todos os seus belos
sanglolons
mas vejam:
essa arte poética
débussydissonante
(que tem quase um século)
é de outra música.
o verso ímpar
de 9 sílabas
não é fácil de manejar
não é fácil também usar
a palavra ail
em vez de aile
ou alho
em lugar de ala
num poema.

e há uma série de d´sticos-lemas
até hoje válidos:
prends l’éloquence et tords-lui son cou!
q o confuso mário de andrade
da escrava que não era isaura
tachou de “errado”
erro corrigido por oswald
nos minipoemas
pau-brasil
como viu paulo prado:
“le poète japonais
essuye son couteau:
cette fois d’èloquence est morte”
ou
“em comprimidos,
minutos de poesia.”

“torce, aprimora, alteia, lima
a frase: e, enfim,
no verso de ouro engasta a rima
como um rubim.”

Olavo braz Martins dos Guimarães Bilac
tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac

pois sim

o qui dira les torts de la rima?
a rima, ce bijou d’un sou
(este toco oco):
“mulheres, rilke, esses bijus de um níquel!”
décio Pignatari em “o poeta virgem”
da sua bufoneria brasiliensis
(1952)!

de la musique avant toute chose
sim, a música é mais importante:
“all things that are...
are musical”
(richard crashaw)
“everything we do
is music”
(john cage)

“musica sola mei
superest medicina veneni”
disse a tarântula
à tarantela
“antidotum tarantulae”,
roma, 1641,
na pequena história da música
do mais útil mário de andrade.

“poesia não é bem literatura”
disse pound,
“provença knew”.

verlaine também, l’aventure
et tout le reste est littérature.

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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Augusto Luís Browne de Campos, paulistano, nascido em 1931, poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário e de música, é reconhecido, desde 1952, quando lançou a revista literária "Noigandres" em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, como um dos representantes, criadores e divulgadores do movimento internacional da Poesia Concreta; a maioria de seus poemas está reunida em Viva Vaia (1979) e Não (2003); obra poética: Antologia Noigandres (1962), Linguaviagem (1970), Equivocábulo (1970), Colidoouescapo (1971), Despoesia, 1979 — 1993 (1994), Poesia é Risco, antologia poético-musical (cd livro, 1995); o autor também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu outros autores, em voo solo ou em co-autoria com outros estudiosos da literatura, inclusos Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

João Alphonsus: A pedra no caminho

 
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          Este poeta mineiro, nascido à sombra do pico do Cauê, na antiga cidade de Itabira, hoje de Presidente Vargas, é uma das figuras mais discutidas pró e contra da poesia nacional. Em torno de alguns dos seus poemas chegaram a formar deliciosos equívocos dos choques das gerações, como por exemplo a respeito de “No meio do caminho”:

          No meio do caminho tinha uma pedra
          tinha uma pedra no meio do caminho
          tinha uma pedra
          no meio do caminho tinha uma pedra.

          Nunca me esquecerei desse acontecimento
          na vida de minhas retinas tão fatigadas.
          Nunca me esquecerei que no meio do caminho
          tinha uma pedra
          tinha uma pedra no meio do caminho
          no meio do caminho tinha uma pedra.

          Me lembro bem de que esses versos, publicados em Belo Horizonte por volta de 1925, causaram funda irritação entre os intelectuais que detinham a liderança da tabela, como se diz em linguagem esportiva. Desde os gramáticos, revoltados com o emprego do verbo “ter” pelo impessoal “haver”: não se devia dizer: “tinha uma pedra”, brasileirismo grosseiro, erro crasso de português; e sim “havia” uma pedra no meio do caminho. Mas ao o literato repelia o verso e se irritava com a falta de significação do que estava pronunciando: uma pedra no caminho, um desaforo! Nem sentido, nem poesia... Não se lhe poderia responder mesmo porque o literato recusaria lições que devia procurar a chave do poema no cansaço mental, no desânimo, no desalento que ressumbra dos versos quase desesperados na sua incapacidade expressional, monotônica do poeta “incapaz e frágil diante da vida” (como disse Mário de Andrade a respeito desse poema, na Revista Nova, em março de 1931).

          Há tempos alguém se lembrou de transformar em sonetos, ou em versos rimados e metrificados, algumas poesias modernistas. Eu aconselharia a esses vates incompreensíveis e até molestos sobretudo inartísticos que fornecessem aos leitores (aos do Jornal do Comércio, por exemplo) sempre uma réplica assim, de cada uma das suas malsinadas obrinhas. Os seus livros seriam assim organizados: numa página, o futurismo, para satisfazer aos que impam de apreciadores sutis de hermetismos poéticos; na outra página, o passadismo, ao alcance de qualquer apreciador da arte cada vez mais viva quanto mais velha... Para mostrar como isso seria praticável, vou fornecer aqui um soneto interpretativo daquele poema da pedra. A sério, já se vê. Preencho os claros ou os escuros do poema com as necessidades da métrica e da rima, que às vezes forçam a imagens ou expressões nem sempre muito justas (além de que, sou um poeta conscientemente aposentado):

         No meio do caminho sem sentido
          Em que a minha retina se cansava,
          Em face ao meu espírito perdido
          Naquela lassidão estranha e escrava,

          No meio do caminho sem sentido,
          Só uma pedra... Nada mais se achava!
          Que tudo se perdeu no amortecido,
          Morto marasmo de vulcão sem lava...

          Que tudo se perdeu na estrada infinda...
          Só a pedra ficou sob o meu passo
          E na retina se conserva ainda!

          Nem coração, furor, ódio, carinho,
          Nada restou senão este cansaço,
          A pedra, a pedra, a pedra no caminho!

(João Alphonsus, “A pedra no caminho”.
Folha da Manhã, São Paulo, 25.10.1942.)

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Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; João Alphonsus de Guimaraens (1901 1944), mineiro de Conceição de Mato Dentro, iniciou seus estudos em Mariana MG e, mudando-se para Belo Horizonte, concluiu a graduação em Direito, foi advogado, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; fundou a revista Verde, em parceria com Antonio Mendes e outros companheiros; bibliografia: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), A Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Massaud Moisés: Simbolismo [na literatura brasileira]

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                    I. Preliminares *

                    [ . . . ]

                    5. O nosso movimento simbolista não constituiu época literária autônoma; misturou-se ao Parnasianismo. O apego à forma deitava fundas raízes em nossa tradição literária para ceder facilmente aos ímpetos renovadores do Simbolismo: herdeiros da cultura portuguesa e tendo recebido o modelo simbolista através do exemplo que vinha de Lisboa, não estranha que o gosto pela versificação rigorosa, clássica, estivesse arraigado entre nós. O Romantismo custou a romper os módulos neoclássicos, que vigoravam praticamente desde o século XVII. E o Parnasianismo, renegando o conteúdo sentimental da revolução romântica, pouco fez para que o culto da forma ganhasse aceitação, a ponto de, resistindo às tentativas de mudança, permanecer até a modernidade, como denunciam as obras de Cassiano Ricardo e Jorge de Lima. Nem mesmo o Simbolismo lhe recusou o influxo: atesta-o a freqüência com que o soneto foi cultivado, inclusive com preciosismos parnasianos.1
                    Nas minúcias, entretanto, a métrica simbolista diferiu da parnasiana: “no interior do verso é que se mostravam mais audaciosos. O deslocamento da cesura, e até a ausência dela; a divisão do alexandrino segundo medida ternária, pareceram, e ainda parecerão a alguns, falta de música”.2 E ainda no corte do decassílabo e no eneassílabo, no emprego do pentassílabo e do hendecassílabo trocaicos, do verso de 17 e 19 sílabas, e finalmente na inovação do verso livre.3 Quanto a este, seu aparecimento se processou tardiamente: os primeiros simbolistas, ainda vulneráveis ao formalismo parnasiano, não o empregaram. A utilização consciente do novo recurso se deveu a Adalberto Guerra Duval (Palavras que o vento leva..., 1900),4 mas permaneceu ¨fruto isolado, até o aparecimento de Histórias do Meu Casal, de Mário Pederneiras, em 1906, e a estréia de Hermes Fontes, com Apoteoses, em 1908”,5 tornando-se comum no Modernismo. Além disso, os simbolistas, inspirados nos temas medievais, ressuscitaram a vilanela, o canto real, o rondó, o rondel, o pantum, a balada.6 Quanto ao vocabulário, seguiam o estímulo francês, com o seu caráter medievalizante, litúrgico, funeral, hermético e esotérico, a que não faltaram incidências maçônicas.
                    Outro aspecto a ponderar são os fatores históricos: o fulcro sócioeconômico-cultural da Nação havia-se transferido para o sul, mercê do desenvolvimento a partir da segunda metade do século XVIII, com a descoberta e exploração de jazidas auríferas, e sobretudo após a transladação da corte de D. João VI para o Rio de Janeiro, em 1808. Desde o Arcadismo, e mais precisamente com o Romantismo, o foco central de nossa atividade literária havia-se deslocado para o sul, conseqüente à mudança do eixo econômico, primeiro em torno do minério e, mais tarde, do café. E a tal ponto se enraizou na região sulina que nem o efêmero sonho dum eldorado amazônico, estimulado pela borracha, conseguiu desviar o rumo dos acontecimentos. O Sul apresentava condições ideais para a aclimação duma estética refinada, flor de estufa das civilizações, como era o Simbolismo. Inicialmente nucleado em Santa Catarina e no Paraná, cedo o movimento se transferiu para o Rio de Janeiro, onde encontrou ambiente intelectual ainda mais apropriado: nesse trânsito, as razões mesológicas cedem, ao menos em parte, pois Curitiba e Florianópolis continuavam a ser palco de manifestações simbolistas, a razões de ordem socieconômico-cultural.
                    Por fim, cumpre examinar as relações entre o Simbolismo e o Modernismo. Do ângulo da liberdade criadora e do à vontade formal, não há dúvida que as raízes do Modernismo devem ser procuradas no Simbolismo. Ainda mais: algumas tendências simbolistas penetraram o Modernismo (como o referido grupo de espiritualistas), enquanto outras vieram a influenciar poetas, como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, e outros. O verso livre, instrumento anarquizante das hostes modernistas, é legado simbolista. Admitindo-se que “toda a poesia moderna tem no Simbolismo o seu ponto de partida”,7 o Modernismo se identifica como uma espécie de Simbolismo inconsciente, ou a sua continuação.8 “Não restam mais dúvidas que o melhor de nossa poesia modernista tem suas origens nos poetas simbolistas. Suas ousadias e experiências foram bastante fecundas, e aí estão para atestar o quanto os modernistas de 22, e mesmo os de agora, lhes devem. De resto, um dos chefes da revolução de 22 Oswald de Andrade, reconheceu isso quando declarou, certa vez, que a linha ascendente da moderna poesia brasileira deriva do Simbolismo.”9 O mesmo se poderia dizer da prosa introspectiva duma Clarice Lispector, dum Lúcio Cardoso, dum Cornélio Pena. Mesmo na ficção de Oswald de Andrade, como nas Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), se adivinham expedientes cinematográficos e algo surrealistas de possível extração simbolista. Por vias subterrâneas, ou às escâncaras, o Modernismo manteve com o Simbolismo um comércio benéfico: o primeiro, continuando aspectos do segundo, procurava pôr em prática ideais de arte que o outro, tendo-os apenas vislumbrado, se apressou a comunicar à geração subseqüente, na esperança de vê-los concretizados.

                    [ . . . ]


Notas do autor de História da Literatura Brasileira — Simbolismo (1893 — 1922):
* Retomam-se, de forma abreviada, os capítulos iniciais do meu livro O Simbolismo, vol. IV dA Literatura Brasileira. S. Paulo, Cultrix, 1966
1. Péricles Eugênio da Silva Ramos, op. cit. [Poesia Simbolista, S. Paulo, Melhoramentos, 1965], pp. 27-8.
2. Andrade Muricy, op. cit. [Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, 3 vols., Rio de Janeiro, INL, 1952 (2² ed., 2 vols., Rio de Janeiro, INL, 1973)], vol. I, p. 42.
3. Idem, ibidem, pp. 41-3; Péricles Eugênio da Silva Ramos, op. cit., pp. 25-8.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos preconiza para Alberto Ramos um papel pelo menos de precursor, porquanto “adotou uma ‘prosa ritmada’ (1894) que era verso livre sem esse nome” (Poesia Parnasiana, S. Paulo, Melhoramentos, 1967, p. 247).
5. Andrade Muricy, op. cit., vol. 1, p. 42.
6. Idem, ibidem, pp. 46-7; Péricles Eugênio da Silva Ramos, Poesia Simbolista, pp. 27-8.
7. Otto Maria Carpeaux, Origens e Fins, Rio de Janeiro, Casa do Estudante do Brasil, 1944, p. 313.
8. Idem, ibidem, p. 328; Alceu de Amoroso Lima, op. cit., p. 55.
9. Fernando Góes, O Simbolismo, vol. IV do Panorama da Poesia Brasileira, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959, p. 18.
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História da Literatura Brasileira — Simbolismo (1893 — 1922): Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Massaud Moisés (1928 2018), paulista e paulistano, formado pela USP Universidade de São Paulo, foi professor titular de Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da mesma universidade, onde também desenvolveu importantes trabalhos de pesquisa na área e dirigiu o Centro de Estudos Portugueses, além de ter sido professor visitante em várias universidades norte-americanas e na Universidade de Santiago de Compostela Espanha; bibliografia: Fernando Pessoa: o Espelho e a Esfinge (1958), A Literatura Portuguesa (1960), Poemas escolhidos de Cruz e Sousa (introdução e seleção, 1961), O Simbolismo — volume IV d’A Literatura Brasileira (1966), A Criação Literária — Poesia (1967), A Criação Literária — Prosa (1967), A Literatura Portuguesa através dos textos (1968), O Conto Português (1975), Dicionário de Termos Literários (1974), Pequeno Dicionário de Literatura Portuguesa (em colaboração com outros especialistas, 1981), Literatura: Mundo e Forma (1982), História da Literatura Brasileira, 3 volumes — Origens, Barroco e Arcadismo; Realismo e Romantismo; Simbolismo (1983-1984-1985) etc. etc. etc.; o autor e professor teve muitas de suas reeditadas várias vezes; em 2015, Massaud Moisés doou sua biblioteca pessoal, com livros e todo mobiliário, para a Casa de Portugal, em São Paulo; foi membro da Academia Paulista de Letras.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Lygia Fagundes Telles: Poesia até o infinito

 
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          Li o livro do Carlos Drummond ele disse. E prosseguiu com uma careta: Horrível! Então aquilo é poesia? Eu também sou moderno, gosto dos modernos, mas assim também é demais!
           Pela primeira vez ouvi hoje alguns versos dele. Gostei muito! confessei.
           É impossível que você tenha gostado! retorquiu o poeta. Ouça só esta maravilha que eu tive a paciência de decorar… (…) Começou:

          No meio do caminho tinha uma pedra
           tinha uma pedra no meio do caminho
           tinha uma pedra
           no meio do caminho tinha uma pedra.

           Nunca me esquecerei desse acontecimento
           na vida de minhas retinas tão fatigadas.
           Nunca me esquecerei que no meio do caminho
           tinha uma pedra
           tinha uma pedra no meio do caminho
           no meio do caminho tinha uma pedra.

          (…) Calou-se e ficou a me olhar ansiosamente. Dei uma risada:
           Não acho horrível coisa nenhuma! Acho gozado exclamei.
          O moço da gravata-borboleta tirou então do bolso uns versos que compusera.
          Leu-os. E depois disse:
           Como você acaba de ver, nos meus também não há rima nem métrica. Mas há idéia e ritmo, compreendeu? Ao passo que…
           Sim, eu sei! interrompi-o, impaciente. Não há como um dia de mau humor para se dizer as verdades todas. Pensei naquele alexandrino e não resisti. Disse-lhe: Mas o fato é que já esqueci sua poesia. E não esqueci e “nunca me esquecerei desse acontecimento” a que você acaba de se referir.
          (…) Fui pela rua com o livro debaixo do braço e pensando em meu exame. A nota era muito baixa e isto era uma coisa aborrecida, apenas aborrecida. Mas inesquecível. Como se fosse uma pedra no sapato. No sapato não, que também era demais. Mas uma pedra no meio do caminho, bem no meio do caminho. Está claro que seria fácil contorná-la. Mas, em redor de mim, fisionomias empedernidas também iam encontrando outras pedras: um encontro desfeito por causa da garoa, uma carta que não chegou no momento desejado, uma vaga que foi preenchida por um outro… Pedras, pedras, pedras. Haverá outros encontros, chegarão outras cartas, abrir-se-ão muitas outras vagas. Mas a garoa caindo forte justamente naquele momento, e o carteiro passando reto, e aquele sujeito sentado num lugar que quase foi nosso… Não, esses acontecimentos nunca mais serão esquecidos.
          Agora eu já não achava essa poesia gozada. Tinha um autêntico gosto de vida e era um gosto bem amargo.

(“Poesia até o infinito”, A Manhã, Letras
e Artes, Rio de Janeiro, 01.05.1948)

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Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; Lygia Fagundes Telles, nascida em 1923, paulista e paulistana, fez o curso fundamental na Escola Caetano de Campos e se formou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP-SP), tendo também cursado a Escola Superior de Educação Física da USP, foi procuradora, romancista, contista e cronista; ainda estudante publicou nos jornais Arcádia e A Balança, ambos da Academia de Letras da Faculdade de Direito; colaborou como colunista de crônicas no jornal carioca A Manhã; bibliografia: Porão e Sobrado (contos, 1938), Praia Viva (contos, 1944), Ciranda da Pedra (romance, 1954), O Jardim Selvagem (contos, 1965), Antes do Baile Verde (contos, 1970), As Meninas (romance, 1973), Seminário de Ratos (contos, 1977), As Horas Nuas (romances, 1989), A Noite Escura e Mais Eu (contos, 1995), Invenção e Memória (contos, 2000) Conspiração de nuvens (2007) e tantos outros títulos; teve seus livros publicados em vários países: Portugal, Espanha, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, entre outros, além de obras adaptadas para televisão, teatro e cinema; recebeu inúmeros prêmios e condecorações por sua obra, entre os quais alguns Jabuti, alguns APCA, Prêmio Juca Pato e Prêmio Camões, sua consagração definitiva.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sosígenes Costa: O Pavão Vermelho

Resultado de imagem para A Criação Poética — Massaud Moisés, 1977,
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Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

Sosígenes Costa, Obra Poética,
 Rio de Janeiro, Leitura, 1959, p. 41.

Sosígenes Costa
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A Criação Poética  Massaud Moisés, 1977, Edições Melhoramentos / Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo  SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901  1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Olavo Bilac: O Parnasianismo [excerto]

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Foste e és o chefe da nossa escola poética. E não sei que nome deva dizer a esta doutrina, que me ensinaste, e ensinaste a tantos outros. Será ela essa famosa escola parnasiana, tão apregoada, tão defendida e tão combatida, sempre tão pouco compreendida? Pouco compreendida, porque não se pode bem compreender o que não existe...

Nunca houve uma escola parnasiana, nem aqui, nem na Europa, se nesta designação quisermos exprimir uma revolução poética, trazendo invenções de novidade. Houve aqui, como na Europa, uma brilhante logomaquia, sonora e vazia batalha de palavras em torno de uma palavra. Os corifeus do parnasianismo nada inventaram, como nada tinham inventado os românticos. Os paladinos de 1830 apenas tinham pretendido dar seiva nova de idealizações e de elocuções á planta da poesia, mirrada e anêmica, empobrecida pela secura do classicismo. E os de 1865, rebelando-se contra os últimos discípulos daqueles, somente quiseram restaurar estas qualidades, tão simples e tão belas, que estavam a ponto de ser esquecidas: a simplicidade e a correção. A extravagância da imaginação e o desalinho da fôrma iam expelir dos poemas a sobriedade, a clareza e a justeza, virtudes máximas do gênio greco-latino. Porque já eram sóbrios, claros e justos, na rudeza da vida pastoril, os primeiros poetas da nossa civilização, apercebidos de cajado e avena, sonhando, ao pé da montanha da Fócida, consagrada a Apolo e às Musas; aqueles foram os primeiros e verdadeiros parnasianos; e parnasianos foram pelas idades fora, todos os artistas que amaram e praticaram as idéias límpidas, os sentimentos altos e as expressões puras. Os poetas franceses, arregimentados no Parnasse Contemporain, não quiseram estabelecer uma teoria, em que se pregasse "a poesia sem paixão e sem pensamento, o desprezo dos sentimentos humanos, o culto dos versos bem feitos e ocos, e, em suma, a forma pela forma". Quiseram apenas lembrar que, em matéria de arte, não se compreende um artista sem arte; que, sem palavras precisas, não há idéias vivas; que, sem locução perfeita, não há perfeita comunicação, de sentimento; e que não pode haver simplicidade artística sem trabalho, e mestria sem estudo.

Estas mesmas idéias preconizaste, no Brasil, pela palavra e pela ação, meu nobre mestre. Foi esta a instrução, de que foste o maior e melhor professor. Não digamos "a escola parnasiana". Nem digamos ainda "escola", nem teoria; chamemos "a disciplina do bom gosto", à aula tua, em que me matriculei, antes dos meus vinte anos de idade, graças à boa estrela, que levou os meus passos à tua sombra.

Sempre haverá uma poesia popular sem arte, e poetas populares sem apuro gramatical e métrico, versejando com o falar da gente rústica. Acredito que é esta a verdadeira poesia, sentimento instintivo e pensamento espontâneo da terra e dos homens, nascendo do coração do povo, como o canto sai da garganta dos pássaros e o aroma da corola das flores. Esta será a legítima poesia, anônima e rude; e talvez seja esta a que mais dure... Mas, ao lado desta, inspirando-se dela, e dela aproveitando a seiva e o encanto, uma outra sempre haverá, culta e difícil; e sempre haverá, entre os bardos sem técnica, os artífices do estro literário. Quantos pregadores iletrados, quantos padres sem estudos clássicos, quantos modestos curas de aldeia sem brilho de eloqüência viveram no Brasil e em Portugal, no século XVII? não tinham talento, nem estilo, nem retórica; entretanto, comoviam e consolavam as almas simples e sofredoras, e eram bons e necessários, como os nossos trovadores campesinos. Pois bem, entre eles apareceu Antônio Vieira, construtor entre tantos operários, arquiteto esteta entre tantos pedreiros sem estética, artista entre tantos mesteirais... Não queiramos que toda a extensão da terra seja dada ao trabalho dos hortelões; demos uma nesga da horta á fantasia e ao lavor dos jardineiros! E' justo que, entre tantos latoeiros e funileiros, vivam alguns ourives!

Admitida esta necessidade, não admitíamos confusões entre os que se resignam ao poetar espontâneo e os que ambicionam ao sacerdócio do poetar artístico. Não tragam os aprendizes para a oficina da joalheria um material indigno, vocação errada, incapacidade, pechisbeque e miçangas, em vez de ouro e pérolas, preguiça em vez de paciência, negligência em vez de vontade e gosto. Não entrem no verso culto o calão e o solecismo, a sintaxe truncada, o metro cambaio, a indigência das imagens e do vocabulário, a vulgaridade do pensar e do dizer. Não seja a arte fancaria e biscate: seja tarefa difícil, consciente, asseada, em que haja sacrifício e orgulho! Só assim será bela e simples a obra. A própria Natureza não trabalha de improviso. De que suados labores, de que longos e pacientes esforços, de que complicado mecanismo de metamorfoses nascem a singeleza de uma flor e a naturalidade de uma borboleta!

Aos chamados poetas parnasianos também se deu outro nome: "impassíveis". Quem pode conceber um poeta que não seja suscetível de padecimento? Ninguém e nada é impassível: nem sei se as pedras podem viver sem alma. Uma estátua, quando é verdadeiramente bela, tem sangue e nervos. Não há beleza morta: o que é belo vive de si e por si só.
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["A Alberto de Oliveira", em Últimas Conferencias e
 DiscursosAlves, Rio, 1927; transcrito de Antônio
 Cândido e José Aderaldo Castelo  Presença da
 Literatura Brasileira  volume II, pp. 244  247]

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Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira.