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Assim como há gente que tem medo do novo, há gente que
tem medo do antigo. Eu defenderei até a morte o novo por causa do antigo e até
a vida o antigo por causa do novo. O antigo que foi novo é tão novo como o mais novo novo. O que é preciso é saber discerni-lo
no meio das velhacas velharias que nos impingiram durante tanto tempo.
Arnaut Daniel, João Airas de Santiago, John Donne, Marino,
Corbière ou Hopkins, Gregório de Matos ou Sousândrade ou Kilkerry, num sentido
mais largo, não são menos novos que Joyce ou Pound ou Oswald ou Pignatari. São irmãos no tempo, mais irmãos e
mais próximos que a diluente maioria dos literatti que nos cercam. Como não amá-los? Meu amor vegetal crescendo vasto.
“Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje,
que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando
menos, os seus companheiros de espírito?” (Fernando Pessoa).
A minha maneira de amá-los é traduzi-los. Ou degluti-los,
segundo a Lei Antropofágica de Oswald de Andrade: só me interessa o que não é
meu. Tradução para mim é persona. Quase heterônimo. Entrar dentro da
pele do fingidor para refingir tudo de novo, dor por dor, som por som, cor por
cor. Por isso nunca me propus traduzir tudo. Só aquilo que sinto. Só aquilo que
minto. Ou que minto que sinto, como diria, ainda uma vez, Pessoa em sua própria
persona.
Outrossim, ou antes, outronão: tradução é crítica, como
viu Pound melhor que ninguém. Uma das melhores formas de crítica. Ou pelo menos
a única verdadeiramente criativa, quando ela — a tradução — é criativa.
Tem mais. Vendo o que eles fizeram no seu tempo aprendemos
melhor o que fazer ou não fazer — porque já foi feito melhor — no nosso. O
“paideuma” de Pound: a ordenação da informação para que o próximo homem ou geração poderá achar o mais
rapidamente possível a parte viva dela e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos.
A poesia é uma família dispersa de náufragos bracejando
no tempo e no espaço. Tento reunir aqui alguns de seus raros sobreviventes, dos
que me falam mais de perto: os que lutaram sob uma bandeira e um lema radical —
a invenção e o rigor. Os intraduzidos e os intraduzíveis. Os que alargaram o
verso e o fizeram controverso, para chegar ao reverso.
Se disserem que isso não tem nada com o presente, direi
que é mentira. Ezra Pound aprendeu muito com muitos deles. E quem não aprendeu
com EP merece mais a nossa piedade que a nossa reprodução, como disse
Hemingway. Os concretos aprenderam muito com essa gente. Os futurocratas
passadófobos, que dividem a história em antes e depois de si mesmo, não passam
de medíocres narcisistas que já serão enterrados no próximo passado do futuro.
A poesia, por definição, não tem pátria. Ou melhor, tem
uma pátria maior. “Um Oriente ao oriente do oriente.” Mas se disserem que tudo
isso não tem nada a ver com “as nossas raízes”, é outra mentira. Um dia, um dedo, um dado dizem o contrário. É isso. Ovo
novo no velho. “Fui-o outrora agora.”
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Verso Reverso Controverso: Augusto de
Campos — estudos
críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas,
Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998,
Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Augusto Luís Browne de
Campos, paulistano, nascido em 1931, poeta, tradutor, ensaísta e crítico
literário e de música, é reconhecido, desde 1952, quando lançou a revista
literária "Noigandres" em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e
Décio Pignatari, como um dos criadores, representantes e divulgadores do
movimento internacional da Poesia Concreta; a maioria de seus poemas está
reunida em Viva Vaia (1979) e Não (2003); obra poética: Antologia Noigandres
(1962), Linguaviagem (1970), Equivocábulo (1970), Colidoouescapo (1971),
Despoesia, 1979 — 1993 (1994), Poesia é Risco, antologia poético-musical (cd —
livro, 1995); o autor também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu
outros autores, em voo solo ou em co-autoria com outros estudiosos da
literatura, inclusos Haroldo de Campos e Décio Pignatari.








