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[traduzido por Claudia Cavalcanti]
Leite-breu d' aurora nós o bebemos à tarde
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma cova grande nos ares
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e escreve
ele escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de ouro
Margarete
ele escreve e aparece em frente à casa e brilham as estrelas ele
assobia
e chama seus mastins
ele assobia e chegam seus judeus manda cavar uma cova na terra
ordena-nos agora toquem para dançarmos
Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tarde
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e escreve
que escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de
ouro
Margarete
Teus cabelos de cinza Sulamita cavamos uma cova grande nos ares
onde não
se deita ruim
Ele grita cavem mais até o fundo da terra vocês ai vocês ali cantem
e
toquem
ele pega o ferro na cintura balança-o seus olhos são azuis
cavem mais fundo as pás vocês aí vocês ali continuem tocando
para
dançarmos
Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tardinha
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com as serpentes
Ele grita toquem mais doce a morte a morte é uma mestra
d'Alemanha
Ele grita toquem mais escuro os violinos depois subam aos ares
como
fumaça
e terão uma cova grande nas nuvens onde não se deita ruim
Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é uma mestra d'Alemanha
nós te bebemos à tarde e de manhã bebemos e bebemos
a morte é uma mestra d'Alemanha seu olho é azul
ela te atinge com bala de chumbo te atinge em cheio
na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
ele atiça seus mastins contra nós dá-nos uma cova no ar
ele brinca com as serpentes e sonha a morte é uma mestra
d'Alemanha
teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita
(Ópio e Memória, 1952)
Todesfuge
Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar
Margarete
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er
pfeift seine Rüden herbei
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde
er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar
Margarete
Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften
da
liegt man nicht eng
Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und
spielt
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz
auf
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen
Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die
Luft
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus
Deutschland
dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith
(Mohn und Gedächtnis, 1952)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de
Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva,
1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel
ou Paul Celan (1920 — 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina — Romênia, hoje
Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta,
tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours — França,
um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª
Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas;
Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num
campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como
assistente editorial e tradutor — traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em
Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen
(1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle
(De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die
Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968),
Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976);
recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner
de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na
Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor
alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação
anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua
morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos
de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.