a pá lavra nas bocas
de quem quer plantar
pra saciar a fome do mundo.
a pá lavra nos sonhos
de quem se recusa a buscar sonhos
nos cortiços, favelas e ruas
dos centros urbanos.
a pá lavra nas armas tão toscas
dos que resistem a fuzis, metralhadoras,
escudos e coletes à prova de balas
dos defensores de latifúndios improdutivos.
a pá lavra que mata ecoa
floresta propaga de boca em boca:
vergonha!
a pá lavra numa vida inteira
e em sete palmos de terra.
amém!
a pá lavra, enfim,
em duas só palavras:
REFORMA AGRÁRIA!
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P. da Silva (Genésio dos Santos), maio/1996: poema desenvolvido por ocasião das mortes de 19 trabalhadores rurais sem-terra, no sul do Pará, em 17 de abril de 1996, trabalhadores esses executados pela polícia paraense num episódio amplamente registrado na mídia como o Massacre de Eldorado dos Carajás; á época, três meses após as mortes, o Sindicato dos Bancários de São Paulo promovera um ato público itinerante lembrando o triste e revoltante acontecimento, e, durante a caminhada pelo centro de São Paulo, foi distribuido à população um documento pelo qual se cobrava o não esquecimento e a punição dos matadores e responsáveis pela chacina — no verso do documento fez-se constar o poema acima.