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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Joséphin Soulary: O Soneto

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[traduzido por Álvaro Reis]

Não caberei aqui diz-me, doida, sorrindo
Vou romper-te, afinal, colete de Procusto!
Infla o colo e depois torce o quadril robusto,
E estorce em demasia um braço airoso e lindo...

Nessas lutas, paciente, esqueço um tempo infindo.
Pelo estreito vestuário em que seu talhe ajusto,
Ora apertando um laço, ora outro desunindo,
Faço passar, por fim, cabeça, espádua e busto.

Sob as dobras da veste, os contornos, agora,
Desenhemos com arte... E a forma se avigora,
Vede: a roupa flutua e a beleza se acusa.

Estará bem ou mal nesses traços serenos?
Nada ao corpo de mais, nem na alma de menos
Gosto assim da mulher e assim desejo a Musa.

Joséphin Soulary

Le Sonnet

Je n’entrerai pas là, dit la folle en riant,
Je vais faire éclater ce corset de Procuste!
Puis elle enfle son sien, tord sa hanche robuste,
Et prête à contresens un bras luxuriant.

J’aime ces doux combats, et je suis patient.
Dans l’étroit vêtement qu’à sa taille j’ajuste,
Là serrant un atour, ici le déliant,
J’ai fait passer enfin tête, épaules et buste.

Avec art maintenant dessinons sous ces plis
La forme bondissante et les contours polis.
Voyez! la robe flotte, et la beauté s’accuse

Est-elle bien ou mal en ces simples dehors?
Rien de moins dans le coeur, rien de plus sur le corps,
Ainsi me plaît la femme, ainsi je veux la Muse.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [várias autorias e tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Joséphin Soulary ou Joseph Marie Soulary (1815 1891), francês de Lyon, foi um escritor, dramaturgo comedista e poeta francês; rejeitado pelos pais, teve uma infância difícil, aos dezesseis anos alistou-se num regimento, depois, acolhido por Hippolyte-Paul Jaÿr, então prefeito de Lyon e que apreciava suas poesias, tornou-se funcionário da prefeitura e seguiu dupla carreira: a administrativa gerente de escritório e, depois, bibliotecário no Palais de Arts de Lyon e a literária; de seus traços bibliográficos, é tido que seus sonetos humorísticos atraiam a atenção e encantavam os leitores; tinha o pleno domínio das técnicas poéticas, particularmente das do soneto; suas obras: À travers champs (1837), Les Cinq cordes du luth (1838), Les Éphéméres (deux séries, 1846 et 1857), Sonnets humouristiques (1862), Les Figulines (1862), Pendant l’invasion (1871), Les Rimes ironiques (1877), Jeus divins (1882), e duas comédias: Un grand homme qu'on attend (1879) e La Lune rousse (1879); suas obras poéticas foram reunidas em 3 volumes (18721883).

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Joséphin Soulary: Os dois Cortejos


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[traduzido por Júlio Maciel]

A dois cortejos se abre a igreja. Um em sombria
tristeza vem: conduz de um anjo o esquife estreito;
segue-o aflita mulher, e quase tresvaria,
os prantos a afogar no escandecido peito.

É o outro um batizado: e na faixa macia
se agita o pequenito; a mãe, com mimo e jeito,
dá-lhe o inefável seio e o afaga e acaricia
e o abraça, a rir, radioso o gesto, em triunfo o aspeito.

Do templo, batizado e enterro vão-se embora.
Súbito, as duas mães se encontram... Nesse instante,
uma, furtivo olhar, no olhar da outra demora.

E dolorosa cena, ó lance edificante!
A jovem mãe que ria, ao ver o esquife, chora,
e a que chorava ri, ao contemplar o infante!

Joséphin Soulary

Les deux cortèges

Deux cortèges se sont rencontrés à l’église.
L’un est morne: il conduit le cercueil d’un enfant;
Une femme le suit, presque folle, étouffant
Dans sa poitrine en feu le sanglot que la brise.

L’autre, c’est un baptême!: au bras que le défend
Un nourrissson gazouille une note indécise;
Sa mère, lui tendant le dux sein qu’il épuise,
L’embrasse tout entier d’un regard triomphánt!

On baptise, on absuot, et le temple se vide.
Les deux femmes, alors, se croisent sous l’abside,
Échangent um coup d’oeil aussitôt détourné;

Et merveilleux retour qu’inspire la prière
La jeune mère pleure e regardant la bière,
La femme qui pleurait sourit au nouveau-né!
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Joséphin Soulary ou Joseph Marie Soulary (1815 1891), francês de Lyon, foi um escritor e poeta francês; rejeitado pelos pais, teve uma infância difícil, aos dezesseis anos alistou-se num regimento, depois, acolhido por Hippolyte-Paul Jaÿr, então prefeito de Lyon e que apreciava suas poesias, tornou-se funcionário da prefeitura e seguiu dupla carreira: a administrativa gerente de escritório e, depois, bibliotecário no Palais de Arts de Lyon e a literária; de seus traços bibliográficos, é tido que seus sonetos humorísticos atraiam a atenção e encantavam os leitores; tinha o pleno domínio das técnicas poéticas, particularmente das do soneto; suas obras: À travers champs (1837), Les Cinq cordes du luth (1838), Les Éphéméres (deux séries, 1846 et 1857), Sonnets humouristiques (1862), Les Figulines (1862), Pendant l’invasion (1871), Les Rimes ironiques (1877), Jeus divins (1882), e duas comédias; suas obras poéticas foram reunidas em 3 volumes (1872—1883).

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Joséphin Soulary: Sonhos ambiciosos

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[traduzido por Lúcio de Mendonça*]

Se eu tivesse algum chão: montanha, vale ou seara,
quisera um pouco d’água: arroio, olho ou cachoeira;
uma árvore plantara: ipê, cedro ou palmeira;
erguera um teto: telha-vã, colmo ou coivara.

Na árvore um ninho bom: frouxel, palha ou taquara,
reteria um cantor: sabiá, melro ou coleira;
sob o teto um bom leito: estrado, rede ou esteira,
reteria uma huri: parda, morena ou clara.

Basta um pequeno chão; para que o demarcasse,
pediria à mulher que mais me enamorasse:
fica em frente do sol que vem rompendo; espera;

até onde na selva a tua sombra avance,
apenas até lá meu horizonte alcance:
ventura que na mão se não colhe, é quimera!

Rio, 1893.


Rêves ambitieux

Si j’avais un arpent de sol, mont, val ou plaine,
Avec un filet d’eau, torrent, source ou ruisseau,
J’y planterais un arbre, olivier, saule ou frêne,
J’y bâtirais un toit, chaume, tuile ou roseau.

Sur mon arbre, un doux nid, gramen, duvet ou laine,
Retiendrait un chanteur, pinson, merle ou moineau.
Sous mon toit, un doux lit, hamac, natte ou berceau,
Retiendrait une enfant, blonde, brune ou châtaine.

Je ne veux qu’un arpent; pour le mesurer mieux,
Je dirais à l’enfant la plus belle à mes yeux:
«Tiens-toi debout devant le soleil qui se lève;

Aussi loin que ton ombre ira sur le gazon,
Aussi loin je m’en vais tracer mon horizon.»
Tout bonheur que la main n’atteint pas n’est qu’un rêve.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe sobre este poema Sonhos ambiciosos, do item “Lúcio de Mendonça”, anotado com a expressão “(J. Soulary)” logo abaixo do título: trata-se de uma tradução do poema Rêves ambitieux do poeta francês Joséphin Soulary; Lúcio de Mendonça também traduziu poemas de Alfred de Musset, Jean Richepin, Heinrich Heine, Ludwig Uhland, Henry Mürger, Sainte-Beuve, Théophile Gautier, Victor Hugo, etc.
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Joséphin Soulary ou Joseph Marie Soulary (1815 1891), francês de Lyon, foi um escritor e poeta francês; rejeitado pelos pais, teve uma infância difícil, aos dezesseis anos alistou-se num regimento, depois, acolhido por Hippolyte-Paul Jaÿr, então prefeito de Lyon e que apreciava suas poesias, tornou-se funcionário da prefeitura e seguiu dupla carreira: a administrativa e a literária; de seus traços bibliográficos, é tido que seus sonetos humorísticos atraiam a atenção e encantavam os leitores; tinha o pleno domínio das técnicas poéticas, particularmente das do soneto; suas obras: À travers champs (1837), Les Cinq cordes du luth (1838), Les Éphéméres (deux séries, 1846 et 1857), Sonnets humouristiques (1862), Les Figulines (1862), Pendant l’invasion (1871), Les Rimes ironiques (1877), Jeus divins (1882), e duas comédias; suas obras poéticas foram reunidas em 3 volumes (1872-1883).