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domingo, 20 de agosto de 2023

Charles Baudelaire: Embriagai-vos


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[traduzido por José Saramago]

          Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
          Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.
          E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a todo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão: “São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”

Charles Baudelaire

Enivrez-vous

          Il faut être toujours ivre. Tout est là. C’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
          Mais de quoi? De vin, de poésie, ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
          Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront: “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.”

[Le spleen de Paris — Les cinquante petits poèmes en prose — 1869]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Charles Baudelaire: O vinho dos trapeiros

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[traduzido por José Saramago]

Muitas vezes, à luz vermelha de um candeeiro
Cuja chama o vento sacode e cujo vidro atormenta,
No coração de um velho subúrbio, labirinto lodoso.
Onde a humanidade se agita em fermentos tempestuosos,

Vê-se um trapeiro que vem, meneando a cabeça,
Tropeçando, e esbarrando nas paredes como um poeta,
E, sem dar atenção aos espiões, seus súbditos,
Expande todo o coração em gloriosos projectos.

Presta juramentos, dita leis sublimes,
Derruba os maus, ergue de novo as vítimas,
E sob o firmamento como um dossel suspenso
Enebria-se dos esplendores da sua própria virtude.

Sim, estes seres fatigados de desgostos domésticos,
Moídos do trabalho e atormentados pela idade,
Extenuados e vergados sob um monte de restos,
Vomitados confusos do enorme Paris,

Regressam, perfumados de um odor de tonéis,
Seguidos de companheiros, encanecidos nas batalhas,
Cujos bigodes pendem como os velhos estandartes.
As bandeiras, as flores e os arcos triunfais

Erguem-se diante deles, solene magia!
E na estrondosa e luminosa orgia
Dos clarins, do sol, dos gritos e do tambor,
Trazem a glória ao povo ébrio de amor!

Assim através da Humanidade frívola
O vinho rola ouro, deslumbrante Páctolo;
Com a garganta do homem canta as suas proezas
E reina por seus dons como os verdadeiros reis.

Para afogar o rancor e embalar a indolência
De todos esses velhos malditos que morrem em silêncio,
Deus, tocado de remorsos, fizera o sono;
O Homem juntou-lhe o Vinho, filho sagrado do Sol.

Charles Baudelaire

Le vin des chiffoniers

Souvent, à la clarté rouge d'un réverbère
Dont le vent bat la flamme et tourmente le verre,
Au coeur d'un vieux faubourg, labyrinthe fangeux
Où l'humanité grouille en ferments orageux,

On voit un chiffonnier qui vient, hochant la tête
Butant, et se cognant aux murs comme un poète,
Et sans prendre souci des mouchards, ses sujets,
Épanche tout son coeur en glorieux projets.

Il prête des serments, dicte des lois sublimes,
Terrasse les méchants, relève les victimes,
Et sous le firmament comme un dais suspendu
S'enivre des splendeurs de sa propre vertu.

Oui, ces gens harcelés de chagrins de ménage,
Moulus par le travail et tourmentés par l'âge,
Éreintés et pliant sous un tas de débris,
Vomissement confus de l'énorme Paris,

Reviennent, parfumés d'une odeur de futailles,
Suivis de compagnons, blanchis dans les batailles
Dont la moustache pend comme les vieux drapeaux.
Les bannières, les fleurs et les arcs triomphaux

Se dressent devant eux, solennelle magie!
Et dans l'étourdissante et lumineuse orgie
Des clairons, du soleil, des cris et du tambour,
Ils apportent la gloire au peuple ivre d'amour!

C'est ainsi qu'à travers l'Humanité frivole
Le vin roule de l'or, éblouissant Pactole;
Par le gosier de l'homme il chante ses exploits
Et règne par ses dons ainsi que les vrais rois.

Pour noyer la rancoeur et bercer l'indolence
De tous ces vieux maudits qui meurent en silence,
Dieu, touché de remords, avait fait le sommeil;
L'Homme ajouta le Vin, fils sacré du Soleil!

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Charles Baudelaire: A alma do vinho


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[traduzido por José Saramago]

Uma noite, a alma do vinho cantava nas garrafas:
«Homem, vai de mim para ti, ó caro deserdado,
Nesta prisão de vidro e de selos vermelhos,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

Sei quanto é preciso, sobre a colina em chamas,
De esforço, de suor e de sol esbraseante
Para engendrar-se a minha vida e ser-me dada alma;
Mas não serei ingrato nem malfazejo,

Pois é imensa a alegria que sinto quando caio
Na garganta de um homem gasto pelo trabalho,
E o seu cálido peito é um túmulo tranquilo
Onde melhor me sinto do que nas frias caves.

Ouves tu ressoar as canções dos domingos?
E a esperança que ri no meu seio palpitante?
De cotovelos na mesa e arregaçando as mangas,
Tu me glorificarás e estarás radiante;

Iluminarei os olhos de tua mulher encantada;
A teu filho darei a cor e as forças
E serei para esse frágil atleta da vida
O óleo que reforça os músculos dos lutadores.

Em ti cairei, vegetal ambrósia,
Grão precioso lançado pelo eterno Semeador,
Para que do nosso amor nasça a poesia
Que subirá a Deus como uma rara flor!»


L’âme du vin

Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
"Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l'âme;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j'éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d'un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l'espoir qui gazouille en mon sein palpitant?
Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
Tu me glorifieras et tu seras content;

J'allumerai les yeux de ta femme ravie;
A ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L'huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l'éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur!"

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Charles Baudelaire: O vinho do assassino


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[traduzido por José Saramago]

Minha mulher está morta, sou livre!
Posso agora beber quanto quiser.
Quando chegava a casa sem dinheiro
Rasgava-me as fibras aos gritos.

Sou tão feliz como um rei;
O ar é puro, o céu admirável...
Tivemos um Verão assim!
Quando me apaixonei por ela.

A horrível sede que me dilacera
Precisaria para se satisfazer
De tanto vinho quanto pode conter
O túmulo dela; e não é dizer pouco:

Atirei-a ao fundo de um poço,
E empurrei-lhe mesmo para cima
Todas as pedras do bucal.
Hei-de esquecê-lo se puder!

Em nome dos juramentos de ternura,
De que nada pode desligar-nos,
E para nos reconciliarmos
Como nos bons tempos do nosso entusiasmo,

Implorei-lhe um encontro,
À noite, numa rua escura.
Ela veio! doida criatura!
Todos somos mais ou menos doidos!

Estava ainda bonita,
Embora fatigada! e eu,
Amava-a de mais! por isso
Lhe disse: Sai desta vida!

Ninguém pode entender. Um só
Desses bêbedos estúpidos
Terá pensado nas noites mórbidas
Fazer do vinho uma mortalha?

Essa crápula invulnerável
Como as máquinas de ferro
Nunca, de Verão ou de Inverno,
Conheceram o verdadeiro amor,

Com os seus negros bruxedos,
Seu cortejo infernal de alarmes,
Seus frascos de veneno, suas lágrimas,
Sem ruídos de grilhões e de ossadas!

Eis-me livre e solitário!
Esta noite estarei bêbedo a cair;
Depois, sem medo e sem remorso,
Deitar-me-ei no chão,

E dormirei como um cão!
A galera de pesadas rodas
Carregada de pedras e de lamas,
O vagão desgarrado pode vir

Esmagar-me a cabeça culpada
Ou cortar-me pelo meio,
Rio-me de tudo como de Deus,
Do Diabo ou da Santa Mesa!

Charles Baudelaire

Le vin de l’assassin

Ma femme est mort, je suis libre!
Je puis donc boire tout mon soûl.
Lorsque je rentrais sans un sou,
Ses cris me déchiraient la fibre.

Autant qu'un roi je suis heureux;
L'air est pur, le ciel admirable...
Nous avions un été semblable
Lorsque j'en devins amoureux!

L'horrible soif qui me déchire
Aurait besoin pour s'assouvir
D'autant de vin qu'en peut tenir
Son tombeau; ce n'est pas peu dire:

Je l'ai jetée au fond d'un puits,
Et j'ai même poussé sur ele
Tous les pavés de la margelle.
Je l'oublierai si je le puis!

Au nom des serments de tendresse,
Dont rien ne peut nous délier,
Et pour nous réconcilier
Comme au beau temps de notre ivresse,

J'implorai d'elle un rendez-vous,
Le soir, sur une route obscure.
Elle y vint! folle créature!
Nous sommes tous plus ou moins fous!

Elle était encore jolie,
Quoique bien fatiguée! et moi,
Je l'aimais trop! voilà pourquoi
Je lui dis: Sors de cette vie!

Nul ne peut me comprendre. Un seul
Parmi ces ivrognes stupides
Songea-t-il dans ses nuits morbides
A faire du vin un linceul?

Cette crapule invulnérable
Comme les machines de fer
Jamais; ni l'été ni l'hiver,
N'a connu l'amour véritable,

Avec ses noirs enchantements,
Son cortège infernal d'alarmes,
Ses fioles de poison, ses larmes,
Ses bruits de chaîne et d'ossements!

Me voilà libre et solitaire!
Je serai ce soir ivre mort;
Alors, sans peur et sans remord,
Je me coucherai sur la terre,

Et je dormirai comme un chien!
Le chariot aux lourdes roues
Chargé de pierres et de boues,
Le wagon enragé peut bien

Écraser ma tête coupable
Ou me couper par le milieu,
Je m'en moque comme de Dieu,
Du Diable ou de la Sainte Table!

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

domingo, 14 de maio de 2023

Charles Baudelaire: O vinho do solitário


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[traduzido por José Saramago]

O olhar singular de uma mulher galante
Que desliza para nós como o raio branco
Que a lua ondulosa envia ao lago trémulo
Quando quer banhar nele a beleza preguiçosa;

O último saco de escudos nas mãos de um jogador;
Um beijo libertino da magra Adeline;
Os sons de uma música enervante e carinhosa,
Semelhante ao grito distante da dor humana,

Tudo isto não vale, ó garrafa profunda,
Os bálsamos penetrantes que a tua pança fecunda
Reserva ao coração sedento do poeta piedoso;

Tu deitas-lhe a esperança, a juventude e a vida,
E o orgulho, tesouro da indigência,
Que nos torna triunfantes e iguais aos Deuses!

Charles Baudelaire

Le vin du solitaire

Le regard singulier d'une femme galante
Qui se glisse vers nous comme le rayon blanc
Que la lune onduleuse envoie au lac tremblant,
Quand elle y veut baigner sa beauté nonchalante;

Le dernier sac d'écus dans les doigts d'un joueur;
Un baiser libertin de la maigre Adeline;
Les sons d'une musique énervante et câline,
Semblable au cri lointain de l'humaine douleur,

Tout cela ne vaut pas, ô bouteille profonde,
Les baumes pénétrants que ta panse féconde
Garde au coeur altéré du poète pieux;

Tu lui verses l'espoir, la jeunesse et la vie,
Et l'orgueil, ce trésor de toute gueuserie,
Qui nous rend triomphants et semblables aux Dieux.

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Charles Baudelaire: O vinho dos amantes


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[traduzido por José Saramago]

Hoje o espaço é esplêndido!
Sem freio, sem esporas, sem brida,
Partamos a cavalo no vinho
Para um céu feérico e divino!

Como dois anjos atormentados
Por calentura implacável,
No azul cristal da manhã
Sigamos a miragem distante!

Suavemente balouçados sobre a asa
Do turbilhão inteligente,
Em um delírio paralelo,

Minha irmã, nadando lado a lado,
Fugiremos sem descanso nem tréguas
Para o paraíso dos meus sonhos!

Charles Baudelaire

Le vin des amants

Aujourd'hui l'espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture,
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balances sur l'aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
____________________
Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.