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[traduzido por José Saramago]
Deve-se estar sempre
embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que
esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem
tréguas.
Mas de quê? De vinho, de
poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.
E se algumas vezes, nos
degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso
quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao
vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que
geme, a todo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que
horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão:
“São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do
Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa
escolha.”
Enivrez-vous
Il faut être toujours ivre.
Tout est là. C’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du
Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer
sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de
poésie, ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les
marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de
votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue,
demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui
fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce
qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l’étoile,
l’oiseau, l’horloge, vous répondront: “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être
pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De
vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.”
[Le spleen de Paris — Les
cinquante petits poèmes en prose — 1869]
* Nota do tradutor José
Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já
que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade
é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal
menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais —
Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios
complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª
edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 —
1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia
no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico
de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo
e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia,
sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX;
traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos
Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição
póstuma, 1869) e outros.