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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Vinicius de Moraes: Soneto de fidelidade

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De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Vinicius de Moraes (1913 1980), carioca, além de poeta, foi crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu Negro, que se tornaria um filme premiado) e letrista concorrido da Música Popular Brasileira; obra poética: Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos Poemas (1938), Poemas, Sonetos e Balada (1946), Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.

domingo, 27 de setembro de 2015

João Cabral do Melo Neto: Para a feira do livro

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Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido vegetal da folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que o vento em folha de livro.
Todavia a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania, varrendo o podre a zero.

Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro, anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto da música,
viva apenas enquanto voam suas redes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

terça-feira, 3 de março de 2015

Vicente de Carvalho: Folha solta

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Não me culpeis a mim de amar-vos tanto,
mas a vós mesma e à vossa formosura,
pois se vos aborrece, me tortura
ver-me cativo assim do vosso encanto.

Enfadai-vos; parece-vos que, enquanto
meu amor se lastima, vos censura;
mas sendo vós comigo áspera e dura,
que eu por mim brade aos céus não causa espanto.

Se me quereis diverso do que agora
eu sou, mudai; mudai vós mesma, pois
ido o rigor que em vosso peito mora,

a mudança será para nós dois:
e então podereis ver, minha senhora,
que eu sou quem sou por serdes vós quem sois.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Vicente Augusto de Carvalho (1866 1924), paulista de Santos, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP SP), além de ter feito carreira na área da Justiça (advocacia, juizado e ministério estadual), foi jornalista, poeta e contista; escreveu e publicou Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Versos da Mocidade (1909), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911), A Voz dos Sinos (1916), Luizinha (contos, 1924); é considerado por estudiosos da literatura brasileira um dos principais nomes do parnasianismo.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Mário Faustino: Vida toda linguagem

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Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará  oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem 
                                       como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
                      amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva,
tenta fazê-la eterna 
 como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
                                  língua
                                            eterna.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Mário Faustino dos Santos e Silva (1930 1962), piauiense de Teresina, foi jornalista, tradutor, crítico literário e poeta; inicialmente colaborou como cronista no jornal A Província do Pará e notabilizou-se como crítico escrevendo no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil; traduziu Ezra Pound, escreveu O Homem e sua Hora (poesias, 1955) e deixou-nos poemas esparsos publicados em jornais e revistas; foi tradutor da ONU Organização das Nações Unidas, entre 1959 e 1960; morreu em desastre aéreo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Pedro Kilkerry: É o Silêncio

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É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha. 
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda.  E a sala muda, muda...
Àfonamente rufa.  A asa da rima
Paira-me no ar.  Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
.......................................................................

E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...
Vês?  Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

Pedro Kilkerry
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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Pedro Militão Kilkerry (1885  1917), baiano de Santo Antonio de Jesus, formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano 'Nova Cruzada', vindo a publicar seus poemas em revista homônima e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Cassiano Ricardo: Poética

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            1
Que é a Poesia?
                            uma ilha
                            cercada
                  de palavras
                            por todos
                            os lados.

            2
Que é o poeta?
                          um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                          Um homem
                   que tem fome
          como qualquer outro
                          homem.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Cassiano Ricardo Leite (1895  1974), paulista de São José dos Campos, foi poeta, ensaísta e jornalista; publicou Borrões de Verde e Amarelo (1926), Vamos Caçar Papagaios (1926), Martim Cererê (1927), Deixa Estar, Jacaré (1931), O Sangue das Horas (1943), Um Dia Depois do Outro (1947), A Face Perdida (1950), Poemas Murais (1951), O Arranha-céu de Vidro (1956), João Torto e a Fábula (1956) etc.