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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Hans Magnus Enzensberger: no livro de leitura do 7º ano

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[traduzido por Almeida Faria]

não leias odes, meu filho, lê os horários;
são mais exatos. desenrola os mapas náuticos,
antes que seja tarde. sê vigilante, não cantes.
o dia virá, em que eles de novo pregarão listas
no portão e marcarão aos que dizem não a sigla
no peito. aprende a passar despercebido, aprende mais que eu:
mudar de bairro, de passaporte, de cara.
torna-te hábil na pequena traição,
na diária suja salvação. úteis
são as encíclicas para acender o lume,
os manifestos: embrulhar manteiga e sal
para os indefesos. raiva e paciência são necessárias,
o fino pó mortal, moído
por aqueles que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

(defesa dos lobos)

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Hans Magnus Enzensberger

ins lesebuch für die oberstufe

lies keine oden, mein sohn, lies die fahrpläne:
sie sind genauer. roll die seekarten auf,
eh es zu spät ist. sei wachsam, sing nicht.
der tag kommt, wo sie wieder listen ans tor
schlagen und malen den neinsagern auf die brust
zinken. lern unerkannt gehn, lern mehr als ich:
das viertel wechseln, den pass, das gesicht.
versteh dich auf den kleinen verrat,
die tägliche schmutzige rettung. nützlich
sind die enzykliken zum feueranzünden,
die manifeste: butter einzuwickeln und salz
für die wehrlosen. wut und geduld sind nötig,
in die lungen der macht zu blasen
den feinen tödlichen staub, gemahlen
von denen, die viel gelernt haben,
die genau sind, von dir.

(verteidigung der wölfe)
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Hans Magnus Enzensberger — Poemas Políticos, edição bilíngue, Tradução e Nota Bibliográfica de Almeida Faria, 1975, Publicações Dom Quixote, Lisboa Portugal; Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929,  alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, é poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; bibliografia: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh  (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift  (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972),  Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991) Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também faz uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Hans Magnus Enzensberger: canção daqueles que sabem sobre tudo e têm sempre razão

Capa
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[traduzido por Almeida Faria]

que é preciso fazer algo e mesmo imediatamente
já o sabemos
que contudo é demasiado cedo para fazê-lo
que contudo é demasiado tarde para fazê-lo
já o sabemos

e que a vida nos corre bem
e que assim vai continuar
e que não vale a pena
já o sabemos

e que nós temos culpa
e que não temos culpa de termos culpa
e que temos culpa de não termos culpa disso
e que já estamos fartos
já o sabemos

e que se calhar seria melhor calar a boca
e que não vamos calar a boca
já o sabemos
já o sabemos

e que não podemos ajudar ninguém
e que ninguém pode ajudar-nos
já o sabemos

e que somos inteligentes
e que temos a escolha entre nada e nulo
e que temos de analisar este problema a fundo
e que deitamos no chá dois torrões de açúcar
já o sabemos

e que somos contra a opressão
e que os cigarros vão subir de preço
já o sabemos

e que estamos sempre a prever tudo
e que havemos sempre de ter razão
e que disto nada resulta
já o sabemos

e que isto é tudo mentira
já o sabemos

e que isto é tudo
já o sabemos

e que sobreviver não é tudo é nada
já o sabemos

e que sobrevivemos a isto
já o sabemos

e que tudo isto não é nada novo
e que viver é lindo
e que isto é tudo
já o sabemos
já o sabemos
já o sabemos

e que já sabemos isto
já o sabemos

(kursbuch 10 — 1967)

Hans_Magnus_Enzensberger.jpg
Hans Magnus Enzensberger

lied von denen, auf die alles zutrifft und die alles schon wissen

daß etwas getan werden muß und zwar sofort
daß wissen wir schon
daß es aber noch zu früh ist um etwas zu tun
daß es aber zu spät ist um noch etwas zu tun
das wissen wir schon

und daß es uns gut geht
und daß es so weiter geht
und daß es keinen zweck hat
das wissen wir schon

und daß wir schuld sind
und daß wir nichts dafür können daß wir schuld sind
und daß wir daran schuld sind daß wir nichts dafür können
und daß es uns reicht das wissen wir schon
und daß es vielleicht besser wäre die fresse zu halten

und daß wir die fresse nicht halten werden
das wissen wir schon
das wissen wir schon

und daß wir niemand helfen können
und daß uns niemand helfen kann
das wissen wir schon

und daß wir begabt sind
und daß wir die wahl haben zwischen nichts und wieder nichts
und daß wir dieses problem gründlich analysieren müssen
und daß wir zwei stück zucker in den tee tun
das wissen wir schon

und daß wir gegen die unterdrückung sind
und daß die zigaretten teurer werden
das wissen wir schon

und daß wir es jedesmal kommen sehen
und daß wir jedesmal recht behalten werden
und daß daraus nichts folgt
das wissen wir schon

und daß das alles wahr ist
das wissen wir schon

und daß das alles ist
das wissen wir schon

und daß überstehn nicht alles ist sondern gar nichts
das wissen wir schon

und daß wir es überstehn
das wissen wir schon

und daß das alles nicht neu ist
und daß das eben schön ist
und daß das alles ist
das wissen wir schon
das wissen wir schon
das wissen wir schon

und daß wir das schon wissen
das wissen wir schon

(kursbuch 10  1967)
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Hans Magnus Enzensberger — Poemas Políticos, edição bilíngue, Tradução e Nota Bibliográfica de Almeida Faria, 1975, Publicações Dom Quixote, Lisboa  Portugal; Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929,  alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, é poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; bibliografia: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala nacional, poesia, 1960), Allerleirauh  (poemas, 1961),  Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia:  Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Zukunftsmusik  (Futuro Música, poesia, 1991) Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também faz uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Hans Magnus Enzensberger: às cegas

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[traduzido por Almeida Faria]

ser vencedor
será coisa dos que vêem
os zarolhos
agarraram-na
tomaram o poder
e fizeram do cego rei

na fronteira fechada estão
polícias jogando à cabra-cega
de vez em quando apanham um oculista
procurado
por atividades subversivas

todos os senhores importantes trazem
um emplastrozinho preto
sobre o olho direito
nos depósitos de objetos achados criam bolor
entregues por cães de cegos
lupas e óculos sem dono

jovens astrônomos ambiciosos
mandam pôr olhos de vidro
pais de vistas largas
ensinam os filhos a tempo
na progressiva arte de envesgar

o inimigo contrabandeia água bórica
para a conjuntiva dos seus agentes
conceituados burgueses contudo não confiam
considerando as circunstâncias
nos seus próprios olhos
deitam sal e pimenta na cara
apalpam chorando os monumentos nacionais
e aprendem a escrita braile

diz-se que o rei declarou recentemente
que olha cheio de confiança para o futuro.

(fala nacional)

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Hans Magnus Enzensberger

blindlings

siegreich sein
wird die sache der sehenden
die einäugigen
haben sich in die hand genommen
die macht ergriffen
und den blinden zum könig gemacht

an der abgeriegelten grenze stehen
blindekuhspielende polizisten
zuweilen erhaschen sie einen augenarzt
nach dem gefahndet wird
wegen staatsgefährdender umtriebe

sämtliche leitende herren tragen
ein schwarzes pflästerchen
über dem rechten aug
auf den fundämtern schimmeln
abgeliefert von blindenhunden
herrenlose lupen und brillen

strebsame junge astronomen
lassen sich glasaugen einsetzen
weitblickende eltern
unterrichten ihre kinder beizeiten
in der fortschrittlichen kunst des schielens

der feind schwärzt borwasser ein
für die bindehaut seiner agenten
anständige bürger aber trauen
mit rücksicht auf die verhältnisse
ihren augen nicht
streuen sich pfeffer und salz ins gesicht
betasten weinend die sehenswürdigkeiten
und erlernen die blindenschrift

der könig soll kürzlich erklärt haben
er blicke voll zuversicht in die zukunft

(landessprache)
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Hans Magnus Enzensberger — Poemas Políticos, edição bilíngue, Tradução e Nota Bibliográfica de Almeida Faria, 1975, Publicações Dom Quixote, Lisboa Portugal; Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929,  alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, é poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; bibliografia: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh  (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift  (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972),  Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991) Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também faz uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Hans Magnus Enzensberger: os desaparecidos

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[traduzido por Almeida Faria]

                    a nelly sachs

não a terra os engoliu, foi o ar?
como a areia são inumeráveis, contudo não em areia
se tornaram, mas em nada, em monte
são esquecidos. amiúde e mão na mão,

como os minutos, mais que nós,
contudo sem recordação. não registrados,
não decifráveis no pó, mas desaparecidos
os seus nomes, colheres e solas.

não nos atormentam. ninguém pode
lembrar-se deles: nasceram,
fugiram, morreram? reclamados
não foram. sem lacuna
é o mundo, contudo concatenado
por aquilo a que não dá abrigo,
pelos desaparecidos. estão em toda a parte.

sem os ausentes não haveria nada aqui.
sem os fugitivos não haveria nada firme.
sem os esquecidos nada certo.

os desaparecidos são justos.
assim nos desfazemos também.

(Braille  escrita para cegos)

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Hans Magnus Enzensberger

die verschwundenen

für nelly sachs                    

nicht die erde hat sie verschluckt. war es die luft?
wie der sand sind sie zahireich, doch nicht zu sand
sind sie geworden, sondern zu nichte. in scharen
sind sie vergessen. häufig und hand in hand,

wie die minuten. mehr als wir,
doch ohne andenken. nicht verzeichnet,
nicht abzulesen im staub, sondern verschwunden
sind ihre namen, löffel und sohlen.

sie reuen uns nicht. es kann sich niemand
auf sie besinnen: sind sie geboren,
geflohen, gestorben? vermiwßt
sind sie nicht worden. lückenlos
ist die welt, doch zusammengehalten
von dem was sie nicht behaust,
von den verschwundenen. sie sind überall.

ohne die abwesenden wäre nichts da.
ohne die flüchtigen wäre nichts fest.
ohne die vergessenen nichts gewiß.

die verschwundenen sind gerecht.
so verschallen wir auch.

(Blindenschrift)
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Hans Magnus Enzensberger — Poemas Políticos, edição bilíngue, Tradução e Nota Bibliográfica de Almeida Faria, 1975, Publicações Dom Quixote, Lisboa Portugal; Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929,  alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, é poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; bibliografia: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961),  Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille  escrita para cegospoesia, 1964),  Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver  (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991) Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também faz uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.