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sábado, 26 de março de 2022

Eugenio Montale: Ó vida, não te peço lineamentos . . .

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Ó vida, não te peço lineamentos
fixos, vultos plausíveis ou possessos.
Sinto que no teu giro inquieto o mesmo
sabor que tem o mel tem o absinto.

O coração propenso todo ao vil
raro se afeta com pressentimentos.
Tal como soa às vezes no silêncio
do descampado um tiro de fuzil.


Mia vita, a te non chiedo lineamenti
fissi, volti plausibili o possessi.
Nel tuo giro inquieto ormai lo stesso
sapore han miele e assenzio.

Il cuore che ogni moto tiene a vile
raro è squassato da trasalimenti.
Così suona talvolta nel silenzio
della campagna un colpo di fucile.
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere dela Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; obras: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre — versi del 1940—42 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 1962—1970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Eugenio Montale: Não raro tive o mal da vida ao lado . . .

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Não raro tive o mal da vida ao lado:
era o arroio arrochado que gorgolha,
ou era o esturricar-se de uma folha
ardida, ora o cavalo esquartejado.

Do bem não soube, exceto da magia
que emana da divina Indiferença:
como uma estátua assim na sonolência
do meio-dia, e a nuvem, e o falcão no ar alçado.

Eugenio Montale

Spesso il male di vivere ho incontrato:
era il rivo strozzato che gorgoglia,
era l'incartocciarsi della foglia
riarsa, era il cavallo stramazzato.

Bene non seppi, fuori del prodigio
che schiude la divina Indifferenza:
era la statua nella sonnolenza
del meriggio, e la nuvola, e il falco alto levato.
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere dela Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; obras: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre — versi del 1940—42 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 1962—1970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Eugenio Montale: O fogo que crepita na chaminé esverdeia . . .

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

O fogo que crepita
na chaminé esverdeia
e um vento escuro vaga
sobre o mundo indeciso. Um velho exausto
dorme junto a um braseiro
o sono dos abandonados.
E nesta luz abissal
que imita o bronze, não te despertes
adormecido! E tu caminhante
prossegue quieto; mas antes
um graveto ajunta à chama
da lareira e uma pinha
madura à cesta abandonada
a um canto: tombam por terra
as provisões guardadas
para a final viagem.

Eugenio Montale

II fuoco che scoppietta
nel caminetto verdeggia
e un’aria oscura grava
sopra un mondo indeciso. Un vecchio stanco
dorme accanto a un alare
il sonno dell’abbandonato.
In questa luce abissale
che finge il bronzo, non ti svegliare
addormentato! E tu camminante
procedi piano; ma prima
un ramo aggiungi alla fiamma
del focolare e una pigna
matura alla cesta gettata
nel canto: ne cadono a terra
le provvigioni serbate
pel viaggio finale.
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere dela Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; obras: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre — versi del 1940—42 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 1962—1970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Eugenio Montale: Sestear entre pálido e absorto . . .

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Sestear entre pálido e absorto
junto a um ardente muro de horto;
ouvir por entre sarças e estrepes
pios de melros, silvos de serpes.

Entre as fendas do solo ou pelo coentro
espiar filas de rubras formigas
que ora se espalham, ora se concentram
em cima de minúsculas vigas.

Observar entre a fronde a palpitar
ao longe as escamas do mar
enquanto se erguem os trêmulos rascos
das cigarras de altos penhascos.

E andando ao sol que nos baralha
a vista, ver triste maravilha
como é toda esta vida e sua estafa
ao longo deste muro que rebrilha
com seus cacos agudos de garrafa.

Eugenio Montale

Meriggiare pallido e assorto
presso un rovente muro d’ orto,
ascoltare tra i pruni e gli sterpi
schiocchi di merli, frusci di serpi.

Nelle crepe del suolo o su la veccia
spiar le file di rosse formiche
ch’ora si rompono ed ora s’intrecciano
a sommo di minuscole biche.

Osservare tra frondi il palpitare
lontano di scaglie di mare
mentre si levano tremuli scricchi
di cicale dai calvi picchi.

E andando nel sole che abbaglia
sentire con triste meraviglia
com’é tutta la vita e il suo travaglio
in questo seguitare una muraglia
che ha in cima cocci aguzzi di bottiglia.
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Eugenio Montale (1896 — 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere dela Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; obras: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre — versi del 1940—42 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 1962—1970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Eugenio Montale: Tanque

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[traduzido por Renato Xavier]

Passou no trêmulo vidro
um riso de beladona florida,
dentre os ramos as nuvens apressadas
à vista reassomavam
do fundo em flocos embaçados.
Um de nós atirou um seixo
que desfez essa tona luzidia:
as frouxas aparências se romperam.

Contudo eis que algo se arrasta
à flor do espelho que se alisa e refaz:
de irromper não é capaz,
quer viver e não sabe como;
nasceu e morreu, e não teve nome.

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Eugenio Montale

Tanque

Passò sul tremulo vetro
un riso di belladonna fiorita,
di tra le rame urgevano le nuvole,
dal fondo ne riassommava
la vista fioccosa e sbiadita.
Alcuno di noi tirò un ciottolo
che ruppe la tesa lucente:
le molli parvenze s’infransero.

Ma ecco, c’è altro che striscia
A fior della spera rifatta lisca:
di erompere non ha virtù,
vuol vivere e non sa come;
se lo guardi si stacca, torna in giù:
è nato e morto, e non ha avuto un nome.
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Ossos de Sépia Eugenio Montale, Tradução, Prefácio e Notas de Renato Xavier e Apresentação de Dora Ferreira da Silva, edição bilíngue, 2002, Companhia das Letras, São Paulo SP; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre versi del 194042 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 19621970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Eugenio Montale: Atraca junto à crestada margem . . .

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[traduzido por Renato Xavier]

Atraca junto à crestada margem
os barcos de papel; vai dormir
patrão menino: não deves ouvir
os bandos de espíritos que no ar malévolos pairem.

No recesso do horto o mocho esvoaça
e pesam nos tetos penachos de fumaça.
O instante que arruína meses de lavor lento
chega: ora eiva em segredo, ora arranca num vento.

Aparece a fratura; sem alarde talvez.
Quem construiu, sente-se condenado.
É quando só se salva o barco parado.
Amarra a tua frota entre as sebes.

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Eugenio Montale

Arremba su la strinata proda
le navi di cartone, e dormi,
fanciulletto padrone: che non oda
tu i malevoli spiriti che veleggiano a stormi.

Nel chiuso dell'ortino svolacchia il gufo
e i fumacchi dei tetti sono pesi.
L'attimo che rovina l'opera lenta di mesi
giunge: ora incrina segreto, ora divelge in un buffo.

Viene lo spacco; forse senza strepito.
Chi ha edificato sente la sua condanna.
È l'ora che si salva solo la barca in panna.
Amàrra la tua flotta tra le siepi.
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Ossos de Sépia Eugenio Montale, Tradução, Prefácio e Notas de Renato Xavier e Apresentação de Dora Ferreira da Silva, edição bilíngue, 2002, Companhia das Letras, São Paulo SP; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre versi del 194042 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 19621970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

domingo, 5 de agosto de 2018

Eugenio Montale: In Limine

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[traduzido por Ivo Barroso]

Folga se o vento sopra no pomar e o
faz tremer na ondulação da vida;
aqui se afunda um morto
urdume de memórias,
que horto já não é, mas relicário.

Não é um vôo este adejar ao sol
e sim a comoção do eterno seio;
vê como se transforma um pobre veio
de terra solitário num crisol.

Ímpeto desta parte do árduo muro.
Se avanças, tens contatos
(tu talvez) com o fantasma que te salva;
aqui vão-se compondo histórias, atos
riscados pelo jogo do futuro.

Procura a malha rota nesta rede
que nos estreita, e pula fora, escapa!
Vai, por ti faço votos — minha sede
será leve, a ferrugem menos áspera...

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Eugenio Montale

In Limine

Godi se il vento ch’entra nel pomario
vi rimena l’ondata della vita:
qui dove affonda un morto
viluppo di memorie,
orto non era, ma reliquario.

Il frullo che tu senti non è un volo,
ma il commuoversi dell’eterno grembo;
vedi che si trasforma questo lembo
di terra solitario in un crogiuolo.

Un rovello è di qua dall’erto muro.
Se procedi t’imbatti
tu forse nel fantasma che ti salva:
si compongono qui le storie, gli atti
scancellati pel giuoco del futuro.

Cerca una maglia rotta nella rete
che ci stringe, tu balza fuori, fuggi!
Va, per te l’ho pregato, – ora la sete
mi sarà lieve, meno acre la ruggine…

(Eugenio Montale, Ossi di Seppia
Arnoldo Mondadori Editore, 1948
pp. 22, 54, 68, 80, 76)
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na primeira guerra mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre — versi del 1940—42 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 1962—1970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Eugenio Montale: Quase uma fantasia

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[traduzido por Renato Xavier]

Amanhece, eu pressinto
pelo alvor da prata
frusta nas paredes:
risca um vislumbre as janelas fechadas.
De novo advento
do sol e as difusas
vozes, ruídos do hábito não traz.

Por quê? Penso num dia encantado
e do carrossel de horas sempre iguais
me reparo. Transbordará a força
que me intumescia, mago inconsciente,
há muito tempo. Agora hei de ir lá fora,
arrasar altas casas, nuas avenidas.

Diante mim terei terra de intactas neves
mas leves como vistas em tapeçaria.
Deslizará do céu cotonoso um raio tardio.
Prenhes de luz invisível, florestas e montes
far-me-ão o louvor dos regressos festivos.

Lerei contente os negros
signos de ramo no branco
como um essencial alfabeto.
Há o passado em conjunto
de ser-me adiante bem visto.
Não há de turvar som algum
essa alegria solitária.
Cruzará o ar
ou pousará numa estaca
algum galinho de março.

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Eugenio Montale

Quasi una fantasia

Raggiorna, lo presento
da un albore di frusto
argento alle pareti:
lista un barlume le finestre chiuse.
Torna l’avvenimento
del sole e le diffuse
voci, i consueti strepiti non porta.

Perché? Penso ad un giorno d’incantesimo
e delle giostre d’ore troppo uguali
mi ripago. Traboccherà la forza
che mi turgeva, incosciente mago,
da grande tempo. Ora m’affaccerò,
subisserò alte case, spogli viali.

Avrò di contro un paese d’intatte nevi
ma lievi come viste in un arazzo.
Scivolerà dal cielo bioccoso un tardo raggio.
Gremite d’invisibile luce selve e colline
mi diranno l’elogio degl’ilari ritorni.

Lieto leggerò i neri
segni dei rami sul bianco
come un essenziale alfabeto.
Tutto il passato in un punto
dinanzi mi sarà comparso.
Non turberà suono alcuno
quest’allegrezza solitaria.
Filerà nell’aria
o scenderà s’un paletto
qualche galletto di marzo.
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Ossos de Sépia  Eugenio Montale, Tradução, Prefácio e Notas de Renato Xavier e Apresentação de Dora Ferreira da Silva, edição bilíngue, 2002, Companhia das Letras, São Paulo  SP; Eugenio Montale (1896 —  1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre  versi del 194042 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 19621970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.