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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Paul Celan: Decapado . . .

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[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Decapado pela
rajada da tua língua
o palavrório furta-cor do ad-
vivido  o centi-
língue meu mau-
poema, o nadema.

Na e-
vorsão,
livre,
o caminho pela neve
antropomórfica,
penitente, até
acolhedoras
mesas e casas de geleira.

Fundo
na fenda dos tempos,
junto
ao gelo em favos,
aguarda, um arcristal,
o teu irrevogável
testemunho.

Paul Celan

Weggebeizt . . .

Weggebeizt vom
Strahlenwind deiner Sprache
das bunte Gerede des An-
erlebten  das hundert-
züngige Mein-
gedicht, das Genicht.

Aus-
gewirbelt,
frei
der Weg durch den menschen-
gestaltigen Schnee,
den Büßerschnee, zu
den gastlichen
Gletscherstuben und -tischen.

Tief
in der Zeitenschrunde,
beim
Wabeneis
wartet, ein Atemkristall,
dein unumstößliches
Zeugnis.
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Ar-Reverso: Paul Celan, edição bilíngue, Tradução e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2021, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor, ensaísta e professor-leitor de alemão na Ècole Normale Supérieure, em Paris; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov, de Arthur Rimbaud e Paul Valéry, de Óssip Mandelstam e Aleksandr Blok, de William Shakespeare e Emily Dickinson, de Fernando Pessoa e muitos outros; em Paris desde 1947, estudou Germanística e Linguística; o poeta conhecia o iídiche e foi fluente em francês, russo e ucraniano, entre outros idiomas; obra poética: Der sand aus den Urnen (A areia das urnas, 1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (Ar-reverso, 1967), Fadensonnen (Fiossóis, 1968), Lichtzwang (Lucipressão, póstumo, 1970), Schneepart (Parte da neve, póstumo, 1971), Zeitgehöft (Fazenda do tempo, póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Paul Celan: Frihed

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[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Na casa de duplo delírio,
onde voam petribotes
pelo
clique do alvirrei, rumo aos mistérios,
onde a infinda
desumbilical
palavra Orlog cruza,

estou, amamentada à canamarca,
em ti, em
tanques de patos.

eu canto

o que canto?

O manto
do sabotador
com os rubros, os alvos
círculos nos
entre-
pontos
entre eles
avistas errante conosco
o libre-
estelar Alto
agora nos recobre,

a nobrezinabre do cais,
com seu pensarladrilho
cercando a testa,
circacumula o espíeito, a espuma,

rápido
desfloram ruídos
aquém e além do luto,

perto-
velejante
a pontapus da coroa
num olho nati-
oblíquo
versos diz
em danês.

Paul Celan

Frihed

Im Haus zum gedoppelten Wahn,
wo die Steinboote fliegen
überm
Weißkönigs-Pier, den Geheimnissen zu,
wo das endlich
abgenabelte
Orlog-Wort kreuzt,

bin ich, von Schilfmark Genährte,
in dir, auf
Wildenten-Teichen,

ich singe

was sing ich?

Der Mantel
des Saboteurs
mit den roten, den weißen
Kreisen um die
Einschuß-
stellen
durch sie
erblickst du das mit uns fahrende
frei-
sternige Oben
deckt uns jetzt zu,

der Grünspan-Adel vom Kai,
mit seinen Backstein-Gedanken
rund um die Stirn,
häuft den Geist rings, den Gischt,

schnell
verblühn die Geräusche
diesseits und jenseits der Trauer,

die näher-
segelnde
Eiterzacke der Krone
in eines Schief-
geborenen Aug
dichtet
dänisch.
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Ar-Reverso: Paul Celan, edição bilíngue, Tradução e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2021, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor, ensaísta e professor-leitor de alemão na Ècole Normale Supérieure, em Paris; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov, de Arthur Rimbaud e Paul Valéry, de Óssip Mandelstam e Aleksandr Blok, de William Shakespeare e Emily Dickinson, de Fernando Pessoa e muitos outros; em Paris desde 1947, estudou Germanística e Linguística; o poeta conhecia o iídiche e foi fluente em francês, russo e ucraniano, entre outros idiomas; obra poética: Der sand aus den Urnen (A areia das urnas, 1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (Ar-reverso, 1967), Fadensonnen (Fiossóis, 1968), Lichtzwang (Lucipressão, póstumo, 1970), Schneepart (Parte da neve, póstumo, 1971), Zeitgehöft (Fazenda do tempo, póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

sábado, 10 de maio de 2025

Paul Celan: Quando na cama . . .

 
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[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Quando na cama
de bandeira desaparecida te deitas,
com sílabas negrazuis, na sombra em cílio-neve,
vem pela fundição-
pensar,
nadando o ferro grou
a ele ter abres.

Seu bico tiquetaqueia-te a hora
em cada boca em cada uma
toca, na corda brasil, um milênio-
silêncio,
desprazo e prazo
cunham-se até a morte,
táleres, vinténs
te chovem cerrado pelos poros,
em
forma de segundo
tu voas e trancas
as portas Ontem e Hoje, fosfórico,
qual dentes do eterno,
brota teu um, brota também
teu outro seio,
contra as garras, sob
os baques : tão densa,
tão fundo
semeada
a estrelada
semente
do grou.

Paul Celan

Wenn du im Bett . . .

Wenn du im Bett
aus verschollenem Fahnentuch liegst,
bei blauschwarzen Silben, im Schneewimperschatten,
kommt, durch Gedanken-
güsse,
der Kranich geschwommen, stählern
du öffnest dich ihm.

Sein Schnabel tickt dir die Stunde
In jeden Mund in jeder
glöcknert, mit glutrotem Strang, ein Schweige-
Jahrtausend.
Unfrist und Frist
münzen einander zutode,
die Taler, die Groschen
regnen dir hart durch die Poren,
in
Sekundengestalt
fliegst du hin und verrammelst
die Türen Gestern und Morgen, phosphorn,
wie Ewigkeitszähne,
knospt deine eine, knospt auch die
andere Brust,
den Griffen entgegen, unter
den Stößen : so dicht,
so tief
gestreut
ist der sternige
Kranich-
Same.
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Ar-Reverso: Paul Celan, edição bilíngue, Tradução e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2021, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor, ensaísta e professor-leitor de alemão na Ècole Normale Supérieure, em Paris; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov, de Arthur Rimbaud e Paul Valéry, de Óssip Mandelstam e Aleksandr Blok, de William Shakespeare e Emily Dickinson, de Fernando Pessoa e muitos outros; em Paris desde 1947, estudou Germanística e Linguística; o poeta conhecia o iídiche e foi fluente em francês, russo e ucraniano, entre outros idiomas; obra poética: Der sand aus den Urnen (A areia das urnas, 1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (Ar-reverso, 1967), Fadensonnen (Fiossóis, 1968), Lichtzwang (Lucipressão, póstumo, 1970), Schneepart (Parte da neve, póstumo, 1971), Zeitgehöft (Fazenda do tempo, póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Lucrécio: Da natureza das coisas [trecho], livro 4. 1045 — 1062


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[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Assim, as partes se inflam de semente e surge           1045
vontade de seguir loucuras de libido
[que incita as partes túrgida com mais semente],
e o corpo busca o que feriu de amor a mente;
pois todos tombam junto da ferida, e o sangue
se apressa para o ponto em que sentira o golpe:         1050
se perto, o rubro humor¹ ataca o inimigo.
Se alguém sofrer os golpes das flechas de Vênus,
quer o atinja um menino de ares feminis,
ou a mulher que exibe amor em todo o corpo,
logo ele tenta, busca unir-se na ferida,                         1055
lançar o humor que sai do corpo noutro corpo,
pois um desejo mudo anuncia o prazer.
Eis nossa Vênus, donde vem o nome Amor²,
dali destila a gota do dulçor venéreo
nos corações, depois a frígida paixão;                         1060
se longe está quem amas, restam simulacros
e o doce amor então revira nosso ouvido.

Lucrécio

De rerum natura [trecho] livro 4. 1045 — 1062]

Inritata tument loca semine fitque uoluntas                    1045
eicere id quo se contendit dira lubido,
[incitat inritans loca turgida semine multo]
idque petit corpus, mens unde este saucia amore;
manque omnes plerumque cadunt in uulnus et illam
emicat in partem sanguis, unde icimur ictu,                    1050
et si comminus est, hostem ruber occupat umor,
sic igitur Veneris qui telis accipit ictus,
siue puer membris muliebribus hunc iaculatur
seu mulier toto iactans e corpore amorem,
unde feritur, eo tendit gestique coire                                  1055
et iacere umorem in corpus de corpore ductum;
manque uoluptatem praesagit muta cupido.
Haec Venus est nobis; hinc autemst nomem Amoris,
hinc illaec primum Veneris dulcedinis in cor
stillauit gutta et successit frigida cura;                              1060
nam si abest quod ames, praesto simulacra tamen sunt
illius et nomen dulce obuersatur ad auris.

Notas do tradutor Guilherme Gontijo Flores:
1. verso 1051: Humor (umor) aqui indica o conceito antigo dos quatro amores que estão no homem; neste momento, trata-se do sangue.
2. verso 1058: Amor é representado, no mais das vezes, como filho de Vênus.
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Titus Lucretius Carus, Tito Lucrécio Caro (99 a.C? 55 a.C.), nascido provavelmente em Roma, de quem temos pouquíssimas informações sobre sua vida, foi poeta e filósofo; chegou até nossos dias uma sua única obra: De rerum natura (Da natureza das coisas), um poema contendo 7 mil versos deixado inacabado, “um tratado epicurista escrito em versos hexamétricos, em gênero didático”, conforme registro de Guilherme Gontijo Flores; afora isso, restam algumas especulações, notícias sem comprovação, e tudo o mais permanece desconhecido; acerca de De rerum natura, em Poetas que pensaram o mundo, o pensador Francis Wolff registra ser “a mais longa obra materialista da Antiguidade, o mais importante poema filosófico de todos os tempos, o principal testemunho que nos resta da doutrina epicuriana”; Lucrécio foi contemporâneo de Cícero (106 a.C. 43 a.C.).

quinta-feira, 10 de março de 2022

Ovídio: Cênis/Ceneu [Metamorfoses XII, 168—209]

 
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[traduzido por Raimundo Carvalho]

Metamorfoses XII, 168209: Cênis/Ceneu

O próprio Eácide1 e os Aques maravilharam-se,
quando disse Nestor2: “em vosso tempo, o único
a desdenhar o ferro, impenetrável, foi
Cigno3; porém, outrora, mil golpes sofrendo
em corpo ileso, Ceneu da Perrébia4, eu vi,
pois Ceneu da Perrébia, ilustre em feitos, Ótris5
habitava; também, mais admirável nele
é que mulher nascera”. O prodígio comove;
e rogam todos narração; até Aquiles:
“Vamos, nos conta, pois queremos te escutar,
eloquente ancião, ciência desta era,
quem foi o tal Ceneu, porque mudou de sexo,
em que guerras e em que campo de batalha, tu
o conhecestes, quem o venceu, se o venceram”.
Então, o ancião: “embora me obste a tarda idade,
e muito do que quando jovem vi me escape,
e mais me lembro ainda; e nada marcou tanto
meu peito, entre casos de guerra e de paz;
mas se alguém pôde uma longa senectude
tornar espectador de tanto, já vivi
duzentos anos e entro no terceiro século.
     De insigne graça era Cênis, filha de Élato,
da Tessália a mais bela virgem; em vizinhas
urbes e em tuas (patrícia tua era, Aquiles)
em vão a desejavam muitos pretendentes.
Talvez também Peleu6 tentasse aquele tálamo,
se já não lhe coubera o enlace com tua mãe
ou a promessa; Cênis com ninguém o tálamo
partilhara, e enquanto em praia oculta estava,
diz a fama que o deus do mar a violou;
e após Netuno gozos fruir de nova Vênus,
disse: ‘ qualquer desejo teu será cumprido,
exprime-o’; isto á fama também replicou.
Cênis diz: ‘Esta afronta torna grande o voto,
jamais eu sofra nada igual; não ser mulher,
concede-me, isso é tudo’. E em tom mais grave disse
as últimas palavras, igual a voz de homem
e assim era, pois já o deus do mar profundo
enuiu, mais lhe dando: que possa jamais
ser ferido por golpe ou por ferro morrer.
Contente com o dom, viris ações fazendo
o Atrácide7, através dos campos pêneos erra.”

Ovídio

Metamorphoseon Liber XII, 168209

Hoc ipse Aeacides, hoc mirabantur Achiui,
cum sic Nestor ait: ‘uestro fuit unicus aeuo
contemptor ferri nulloque forabilis ictu
Cygnus. At ipse olim patientem uulnera mille
corpore non laeso Perrhaebum Caenea uidi,
Caenea Perrhaebum, qui factis inclitus Othryn
Incoluit, quoque id mirum magis esset in illo,
femina natus erat. ‘Monstri nouitate mouentur
quisquis adest, narretque rogant: quos inter Achilles:
‘dic age! Nam cunctis eadem est audire voluntas,
o facunde senex, aeui prudentia nostri,
quis fuerit Caeneus, cur in contraria uersus,
qua tibi militia, cuius certamine pugnae
cognitus, a quo sit uictus, si uictus ab ullo est.’
Tum senior: ‘quamuis obstet mihi tarda vetustas,
multaque me fugiant primis spectata sub annis,
plura tamen memini. Nec quae magis haereat ulla
pectore res nostro est inter bellique domique
acta tot, ac si quem potuit spatiosa senectus
spectatorem operum multorum reddere, uixi
annos bis centum; nunc tertia uiuitur aetas.
     Clara decore fuit proles Elateia Caenis,
Thessalidum uirgo pulcherrima, perque propínquas
perque tuas urbes (tibi enim popularis, Achille),
multorum frustra uotis optata procorum.
Temptasset Peleus thalamos quoque forsitan illos:
sed iam aut contigerant illi conubia matris
aut fuerant promissa, tuae; nec Caenis in ulos
denupsit thalamos secretaque litora carpens
aequorei uim passa dei est (ita fama ferebat),
utque nouae Veneris Neptunus gaudia cepit,
“sint tua uota licet” dixit “secura repulsae:
elige, quid uoueas!” (eadem hoc quoque fama ferebat)
“Magnum” Caenis ait “facit haec iniuria uotum,
tale pati iam posse nihil; da, femina ne sim:
omnia praestiteris.” Grauiore nouissima dixit
uerba sono, poteratque uiri uox illa uideri,
sicut erat; nam iam uoto deus aequoris alti
adnuerat dederatque super, nec saucius ullis
uulneribus fieri ferroue occumbere posset.
Munere laetus abit studiisque uirilibus aeuum
exigit Atracides Peneiaque arua pererrat.’

Notas do tradutor Raimundo Carvalho:
1. Eácide: Aquiles, neto de Éaco. Aques: habitantes da Acaia, gregos em geral;
2. Nestor: rei de Pilos, célebre pela sabedoria, eloquência e longevidade;
3. Cigno: Filho de Netuno e Cânace, guerreiro de corpo invulnerável, transformado em cisne;
4. Perrébia: região da Tessália;
5. Ótris: monte da Perrébia;
6. Peleu: amante de Tétis e pai de Aquiles;
7. Atrácide: Ceneu, habitante de Átrax, cidade da Tessália.
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta de sua biografia que a poesia de Ovídio influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Catulo: A ti eu me confio e meus amores, . . . [Catulo 15]

 
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[traduzido por João Angelo Oliva Neto]

Catulo 15

A ti eu me confio e meus amores1,
Aurélio2, e de pudor eu peço vênia
pois se já desejaste algo em teu ânimo
que mantivesses casto e inteirinho,
preserves em pudor este menino3,
não digo das pessoas delas nada
temo a passar na praça aqui e ali
com suas próprias coisas ocupadas.
Minha paúra és tu, e é teu pau
fatal aos bons, fatal aos maus meninos;
por onde queiras, como queiras, leva-o,
quando saíres, pronto pra tudo.
Só ele excluo, sim, pudicamente,
pois se uma idéia má4 ou louca fúria
te impelir, pérfido, a tamanho crime
de preparar insídias contra mim,
então ah!, infeliz e malfadado,
pelos pés arrastado, por teu rabo
aberta vão passar mugens5 e rábãos6.

Catulo

Catullus 15

Commendo tibi me ac meos amores,
Aureli. Veniam peto pudentem,
ut, si quicquam animo tuo cupisti,
quod castum expeteres et integellum,
conserues puerum mihi pudice,
non dico a populo nihil ueremur
istos, qui in platea modo huc modo illuc
in re praetereunt sua occupati
uerum a te metuo tuoque pene
infesto pueris bonis malisque.
Quem tu qua lubet, ut lubet moueto
quantum uis, ubi erit foris paratum:
hunc unum excipio, ut puto, pudenter.
Quod si te mala mens furorque uecors.
in tantam impulerit, sceleste, culpam,
ut nostrum insidiis caput lacessas,
a tum te miserum malique fati,
quem attractis pedibus patente porta
percurrent raphanique mugilesque.

Notas do tradutor João Angelo Oliva Neto:
1. Meus amores: é pessoa, o menino Juvêncio, objeto do amor pederástico de Catulo;
2. Aurélio: desconhecido;
3. menino: puer, o favorito do poeta;
4. ideia má: mala mens, demência, loucura;
5. mugens: mugiles, tipo de peixe;
6. rábãos: raphani, tipo de rabanete, rábano. A pena era reservada aos adúlteros pegos em flagrante; ver Horácio (Sátiras, 1, 2, 131133).
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Caio Valério Catulo (87 a.C. 54 a.C., datas presumíveis), nascido em Verona (?) na Roma antiga, Império Romano, foi poeta lírico latino; estudos atuais sobre Catulo são convergentes em anotar que, embora Cícero (106 a.C.  43 a.C.) tenha proferido, de forma pejorativa, ser o poeta um novo (poetae novi, moderno), foi, porém, Catulo quem cometera a “licenciosidade” de, à época, introduzir / expressar, no universo literário latino, “correntes líricas importadas da Grécia, estranhas aos antigos padrões épicos (mitológicos).”; conforme o professor João Angelo Oliva Neto, “Catulo pertenceu a um grupo de poetas e intelectuais que, nos meados do século 1 a.C., rompeu com o passado literário romano”, daí advirem as críticas recebidas de Cícero, chamando-os, com ironia, de poetae novi (poetas novos).; o poeta Catulo exerceu influência em Ovídio (43 a.C.  17 ou 18 d.C.), Horácio (65 a.C.  8 a.C.) e Marcial (38 d.C.  104 d.C.); do grupo de poetae novi, da primeira metade do primeiro século a.C., só chegaram até nós, deste século d.C. atual, Carmina, do próprio Catulo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Ovídio: Átis e Licabas [Metamorfoses V, 46—73]

 
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[traduzido por Raimundo Carvalho]

Metamorfoses V, 4673: Átis e Licabas

Bélica Palas1 vem, protege o irmão com a égide,
e o encoraja. Havia o hindu Átis, que Limnae,
filha do Ganges deu à luz sob vítrea água,
crê-se; de rara formosura, e rica veste
realçando-a, tinha só dezesseis anos;
e vestia uma clâmide tíria, bordada
de ouro; ornavam-lhe o colo colares dourados
e o cabelo de mirra untado um curvo pente.
Destro em fixar o dardo, de qualquer distância,
era-o mais ainda em retesar o arco.
E enquanto retesava o arco maleável,
Perseu o atinge com tição que ardia em ara,
e, aos ossos fraturados, fundiu sua face.
      Quando a louvada face embebida ao sangue
viu o assírio Licabas, seu parceiro íntimo,
que não dissimulava um amor verdadeiro,
depois que lhe exalou a vida acerba chaga,
pranteou Átis e agarrou o arco que este
retesara, dizendo: “vem lutar comigo,
e não te ufanes pela morte dele, e mais
ódio que glória colhes”. Nem dissera ainda
tudo isso, dispara a penetrante seta,
que, evitada, adentrou a sinuosa veste.
Volve-lhe o alfanje usado em morte de Medusa2
O Acrisioníade3, e lhe enfia ao peito. E ele,
morrendo, com os olhos sob a noite escura,
Procura em torno Átis, encosta-se nele,
e aos Manes4 vão, juntos na morte, consolados.

Ovídio

Metamorphoseon Liber V, 4673

Bellica Pallas adest et protegit aegide fratrem datque animos.
Erat Indus Athis, quem flumine Gange
edita Limnace uitreis peperisse sun undis
creditur, egregius forma, quam diuite cultu
augebat, bis adhuc octonis integer annis,
indutus chlamydem Tyriam, quam limbus obibat
aureus; ornabant aurata monilia collum
et madidos murra curuum crinale capillos;
ille quidem iaculo quamuis distantia misso
figere doctus erat, sed tendere doctior arcus.
tum quoque lenta manu flectentem  cornua Perseus
stipite, qui media positus fumabat in ara,
perculit et fractis confudit in ossibus ora.
      Hunc ubi laudatos iactantem in sanguine uultus
Assyrius uidir Lycabas. Iunctissimus illi
et comes et ueri non dissimulator amoris,
postquam exhalantem sub acerbo uulnere uitam
deplorauit Athin, quos ille tetenderat arcus
arripit et ‘mecum tibi sint certamina!’ dixit;
‘nec longum pueri fato laetabere, quo plus
inuidiae quam laudis habes.’ Haec omnia nondum
dixerat: emicuit neruo penetrabile telum
uitatumque tamen sinuosa ueste pependit.
Vertit in hunc harpen spectatam caede Medusae
Acriosiniades adigitque in pectus; at ille
iam moriens oculis sub nocte natantibus atra
circumspexit Athin seque adclinauit ad illum
et tulit ad manes iunctae solacia mortis.

Notas do tradutor Raimundo Carvalho:
1. Pallas: a deusa Palas Atena, Minerva. Perseu é seu irmão, por parte de pai, Júpiter;
2. Medusa: uma das Górgones, vencida por Perseu, cuja cabeça serviu como arma para este, pois quem a mirava era imediatamente petrificado;
3. Acrisioníade: Perseu, neto de Acrísio, pai de Danae;
4. Manes: espírito dos mortos.
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta de sua biografia que a poesia de Ovídio influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.