____________________
[traduzido por Jorge Wanderley]
Duas meninas descobrem
o segredo da vida
numa linha súbita
de poesia.
Eu, que não sei o
segredo, escrevi
este verso. Elas
me dizem:
(através de outra pessoa)
que descobriram,
mas não dizem o que era
nem tampouco
qual o verso. Agora,
que já faz uma semana,
certamente esqueceram
o segredo,
qual era o verso ou o nome
do poema. E eu amo as duas
por descobrirem aquilo
que não posso descobrir
e por me amarem
e ao verso que escrevi
e porque o esqueceram,
de modo
que mil vezes até que a morte
as encontre, elas poderão
fazer a descoberta de novo, em outros
versos.
em outros
acontecimentos. Amo-as por desejarem
descobrir,
por
admitirem que exista
um tal segredo; sim, amo-as
principalmente
por isto.
The Secret
Two girls discover
the secret of life
in a sudden line of
poetry.
I, who don't know the
secret wrote
the line. They
told me
(through a third person)
they had found it
but not what it was
not even
what line it was. No doubt
by now, more than a week
later, they have forgotten
the secret,
the line, the name of
the poem. I love them
for finding what
I can't find,
and for loving me
for the line I wrote,
and for forgetting it
so that
a thousand times, till death
finds them, they may
discover it again, in other
lines
in other
happenings. And for
wanting to know it,
for
assuming there is
such a secret, yes,
for that
most of all.
____________________
Do jeito delas: vozes femininas de língua
inglesa [várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish
Wanderley, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo
Carneiro, Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo
Henriques Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Denise Levertov (1923
— 1997) ou Priscilla Denise Levertoff, inglesa de Ilford, Essex, tendo recebido
educação em casa, “demonstrou entusiasmo pela escrita desde cedo e estudou balé,
arte, piano e francês, além de disciplinas básicas”, foi poeta, ativista política
e feminista; aos 12 anos, remeteu alguns de seus poemas a T. S. Eliot, poeta já
consagrado, e obteve como resposta uma “carta de duas páginas” incentivando-a; aos
17 anos, publicou seu primeiro poema, nesta mesma época atuou como enfermeira civil
em Londres por ocasião do bombardeio aéreo ao sul da cidade, atacado por aviões
alemães nazistas; seu primeiro livro de poesia, The Double Image, foi publicado
em 1946; em 1947, por ter se casado com o escritor americano Mitchell Goodman, foi
morar nos Estados Unidos, passou a viver principalmente em Nova York, vindo a naturalizar-se
cidadã estadunidense em 1955; obras poéticas: The Double Image (1946), Here and
Now (1956), With Eyes at the Back of our Heads (1959), O Taste and See: New Poems
(1964) ...; consta de sua biografia que, nas décadas de 1960 e 1970, tornou-se “muito
mais politicamente ativa em sua vida e obra”, como editora de poesia do The Nation,
apoiou e publicou trabalhos de poetas feministas e de outros ativistas de esquerda,
juntou-se ao War Resisters League, em oposição à participação na Guerra do Vietnam,
tendo sido membro fundadora do coletivo anti-guerra, ao lado de Noam Chomsky, Mitchell
Goodman e outros; a poeta também atuou na educação, lecionando na Brandeis University,
no MIT, na Tufts University, na University of Massachusetts — Boston, na Stanford
University (professora de inglês [emérita]), na University of Washington; em 1984,
recebeu o diploma de Doutora em Literatura pelo Bates College e, de 1982 a 1993,
foi professora titular na Stanford University; Denise Levertov foi biografada por
Dana Greene [Denise Levertov: A Poet’s Life, pela University of Illinois Press,
2012] e por Donna Krolik Hollenberg [A Poet's Revolution: The Life of Denise Levertov,
pela University of California Press, 2013]; o reconhecimento de sua importância
nos meios literários estadunidenses das décadas de 1950 e 1960 “não veio de seus
pares da mesma geração, mas de poetas vanguardistas, mais velhos e consagrados",
Keneth Rexroth e William Carlos Williams entre os quais.