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sábado, 17 de novembro de 2012

Luiz Gama: Minha Mãe *

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.
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Minha mãe era mui bela,
Eu me lembro tanto dela
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas
Suas palavras sagradas
C’os risos que ela me deu.
Junqueira Freire

Era mui bela e formosa,
Era a mais linda pretinha,
Da adusta Líbia rainha,
E no Brasil pobre escrava!
Oh, que saudades que eu tenho
Dos seus mimosos carinhos,
Quando c’os tenros filhinhos
Ela sorrindo brincava.

Éramos dois seus cuidados,
Sonhos de sua alma bela;
Ela a palmeira singela,
Na fulva areia nascida.
Nos roliços braços de ébano.
De amor o fruto apertava,
E à nossa boca juntava
Um beijo seu, que era vida,

Quando o prazer entreabria
Seus lábios de roxo lírio,
Ela fingia o martírio
Nas trevas da solidão.
Os alvos dentes nevados.
Da liberdade eram mito,
No rosto a dor do aflito,
Negra a cor da escravidão.

Os olhos negros, altivos,
Dois astros eram luzentes;
Eram estrelas cadentes
Por corpo humano sustidas.
Foram espelhos brilhantes
Da nossa vida primeira,
Foram a luz derradeira
Das nossas crenças perdidas.

Tão ternas como a saudade
No frio chão das campinas,
Tão meiga como as boninas
Aos raios do sol de abril.
No gesto grave e sombria,
Como a vaga que flutua,
Plácida a mente era a Lua
Refletindo em Céus de anil

Suave o gênio, qual rosa
Ao despontar da alvorada,
Quando treme enamorada
Ao sopro d’aura fagueira.
Brandinha a voz sonorosa,
Sentida como a Rolinha,
Gemendo triste sozinha,
Ao som da aragem faceira.

Escuro e ledo o semblante,
De encantos sorria a fronte,
Baça nuvem no horizonte
Das ondas surgindo à flor;
Tinha o coração de santa,
Era seu peito de Arcanjo,
Mais pura n’alma que um anjo,
Aos pés de seu Criador.

Se junto à Cruz penitente,
A Deus orava contrita,
Tinha uma prece infinita
Como o dobrar do sineiro,
As lágrimas que brotavam
Eram pérolas sentidas
Dos lindos olhos vertidas
Na terra do cativeiro.

Primeiras Trovas Burlescas (1861)



* Clique no título lá em cima e leia "Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan", de Ligia Fonseca Ferreira.
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Roteiro da Poesia Brasileira Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas (1861), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa e ajudou a fundar os primeiros periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867).

sábado, 14 de julho de 2012

Luiz Gama: Quem sou eu? *

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Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
Esta palavra  Ninguém! 
A. E. Zaluar, Dores e Flores

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
Á sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
Á virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino,
Que no plectro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não das Kalendas,
E com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela Arte de Vieira,
E com jeito e proteções,
Galgam altas posições!
Mas eu, sempre vigiando,
Nessa súcia vou malhando
De tratantes, bem ou mal
Com semblante festival.
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pinga de rubor,
Diz a todos que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
 Faz a todos injustiça 
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
 Neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista 
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados,
Mas que tendo ocasião,
São mais feros que o Leão.
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza,
Vive à lei da natureza:
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas num  momento.
O que sou e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições
Contras as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos,
Hão de chamar-me tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu, que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, eu sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda casta,
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra.
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
Belas damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos, Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar e guerra,
— Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados,
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos. —
O amante de Siringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Mendes, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, a matinada,
Porque tudo é bodarrada!
Primeiras trovas burlescas (1861) **

* Clique no título lá em cima e leia "Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan", de Ligia Fonseca Ferreira;
** Clique aqui e leia "Primeiras Trovas Burlescas", do poeta Luiz Gama.
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Roteiro da Poesia Brasileira  Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São PauloSP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas (1861), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa e ajudou a fundar os primeiros periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867).

domingo, 10 de junho de 2012

Francisco Otaviano: Morrer... Dormir...

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Morrer... Dormir... não mais! Termina a vida,
E com ela terminam nossas dores;
Um punhado de terra, algumas flores,
E, às vezes, uma lágrima fingida!

Sim! Minha morte não será sentida;
Não deixo amigos, e nem tive amores!
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
 Algozes vis de um'alma consumida.

Tudo é podre no mundo! Que me importa
Que ele amanhã se esb'roe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe...
Vem , pois, ó Morte! ao Nada me transporta!
Morrer... dormir... talvez sonhar... quem sabe?
(1925)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo SP; Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825 1889), nascido no Rio de Janeiro, escritor, jornalista, advogado, político e diplomata, não teve preocupação em publicar livros: suas duas obras, juntas, Cantos de Selma (1872) e Traduções e Poesias (1881), perfizeram a tiragem de 57 exemplares; apenas postumamente, em 1925, teve sua poesia reunida.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Junqueira Freire: Louco (Hora do delírio)

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Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.

Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra su'alma,
E nessa luta foi vencido aquele.

Foi uma repulsão de dois contrários;
Foi um duelo, na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos;
Foi o divino a combater co'o humano.


Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe do nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.


Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.


Agora, sim  o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
Ou sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
E zombando o chamais, portanto:  um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
Aproxima-se mais à essência etérea.
Contradições poéticas (1868)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Luis José Junqueira Freire (1832  1855), nascido em Salvador  BA, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a por não considerar com vocação para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855); seguiu-se, postumamente, Contradições Poéticas (1868).

terça-feira, 5 de junho de 2012

Narcisa Amália: Perfil de Escrava


Quando os olhos entreabro á luz que avança
Batendo a sombra e pérfida indolência,
Vejo além da discreta transparência
Do alvo cortinado uma criança;

Pupila de gazela viva e mansa,
Com sereno temor colhendo a ardência...
Fronte imersa em palor... Rir de inocência,
 Rir que trai ora a angústia, ora a esperança...

Eis o esboço fugaz da estátua viva,
Que  de braços em cruz  na sombra avulta
Silenciosa, atenta, pensativa!

 Estátua? Não, que essa cadeia estulta
Há-de quebrar-te, mísera cativa,
Este afeto de mãe, que a dona oculta!
Nebulosas (1872)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Narcisa Amália de Campos (1852  1924), nascida em São João da Barra  RJ, teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis; é raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar de relativo sucesso no Brasil do século XIX; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo e também atuou no magistério.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Antonio Carlos Secchin: Soneto das Luzes


Uma palavra, outra palavra, e vai um verso,
eis doze sílabas dizendo coisa alguma.
Trabalho, teimo, limo, sofro e não impeço
que este quarteto seja inútil como a espuma.

Agora é hora de ter mais seriedade,
para essa rima não rumar até o inferno.
Convoco a musa, que me ri da imensidade,
mas não se cansa de acenar um não eterno.

Falar de amor, oh meu pastor, é o que eu queria,
porém os fados já perseguem teu poeta,
deixando apenas a promessa da poesia,

matéria bruta que não coube no terceto.

Se o deus flecheiro me lançasse a sua seta,
eu tinha a chave pra trancar este soneto.
Todos os ventos (2002)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 70, Seleção e Prefácio de Afonso Henriques Neto, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2009, São Paulo  SP; Antonio Carlos Secchin, nascido no Rio de Janeiro  RJ em 1952, é doutor em Letras, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Letras; publicou A Ilha (Rio de Janeiro: edição do autor, 1971), Ária de estação (Rio de Janeiro: São José, 1973), Elementos (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983), Diga-se de passagem (Rio de Janeiro: Ladrões do Fogo, 1988), Poema para 2002 (Rio de Janeiro: Cacto Arte e Ciência, 2002), Todos os ventos (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002), 50 poemas escolhidos pelo autor (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2006).

domingo, 3 de junho de 2012

Francisco Otaviano: Ilusões da Vida


Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
(1925)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825 1889), nascido no Rio de Janeiro, escritor, jornalista, advogado, político e diplomata, não teve preocupação em publicar livros: suas duas obras, juntas, Cantos de Selma (1872) e Traduções e Poesias (1881), perfizeram a tiragem de 57 exemplares; postumamente, em 1925, teve sua poesia reunida.