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quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Ariano Suassuna: A Acauhan — A Malhada da Onça


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Com mote de Janice Japiassu

Aqui morava um Rei quando eu menino:
vestia ouro e Castanho no gibão.
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
pulsava, junto ao meu, seu Coração.

Para mim, seu Cantar era divino,
quando ao som da Viola e do bordão,
cantava com voz rouca o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu Pai. Desde esse dia,
eu me vi, como um Cego, sem meu Guia,
que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa,
Ele, a Brasa que impele ao Fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto ensanguentado.

(Poemas. Seleção, organização e notas de Carlos
Newton Júnior. Recife: Editora da Universidade
Federal de Pernambuco, 1999, p. 190.)

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Ariano Suassuna — Série Essencial 93, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Carlos Newton Júnior, 2018, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 11 de julho de 2023

Ariano Suassuna: A Favela e o Arraial


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          Um dia, eu estava lendo a excelente História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi, quando encontrei uma distinção feita por Machado de Assis e que, a meu ver, é indispensável para se entender o processo histórico brasileiro. Machado critica atos do nosso mau governo e coisas da nossa má política. Mostra-se ácido em ambos os casos e depois explica: "Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu país. O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco".
          Se Machado de Assis fosse vivo, notaria que hoje o Brasil real continua a ser o do povo e a revelar-se bom, dotado dos melhores instintos; e o Brasil oficial (que é o país "do real e do mercado") continua caricato e grotesco.
          Euclydes da Cunha, que parece ter feito distinção parecida com a machadiana, procurou assinalar aqueles dois países diferentes por meio de dois emblemas: via o Brasil oficial na rua do Ouvidor, centro da nossa cultura urbana, falsificada, de segunda mão e com pretensões a cosmopolita; e o Brasil real, no emblema bruto e poderoso do sertão.
          Eu, influenciado por Euclydes da Cunha, passei muito tempo dominado por visão semelhante. Até que, depois de alguns duros exames de consciência, descobri que, para ser fiel ao mestre, eu não deveria repeti-lo: tinha era que empunhar sua chama e tentar levá-la adiante. O Brasil real teria, na verdade, não um, mas dois emblemas, pois os arraiais do sertão tinham seus equivalentes urbanos nas favelas da cidade; e se o povo do Brasil real era aquele que habitava as favelas urbanas e os arraiais do campo, o Brasil oficial tinha seus símbolos mais expressivos nos bancos e no palácio do governo, onde reinam os presidentes e seus ministros.
          No momento em que cheguei a tal evidência, comecei também a me perguntar de onde surgira o nome "favela", aplicado aos lugares onde moram os pobres das nossas grandes cidades. Lembrei-me de que "favela" é uma planta típica das caatingas e carrascais do nosso sertão do Nordeste. Lembrei-me, também, de que, em Canudos, o grosso da artilharia que atirava sobre o arraial conselheirista ficava num certo "Morro da Favela". Teria o nome surgido a partir daí? Teria sido posto pelos soldados cariocas (pobres e também participantes de um Brasil tão real quanto o de Antônio Conselheiro)? Teriam sido alguns deles que, ao voltar da guerra para suas casas, situadas num morro qualquer do Rio, tinham percebido a semelhança e começado a chamá-lo de "Morro da Favela"?
          Durante muito tempo minha suspeita ficou sem confirmação. Mas recentemente, num "sebo" do Recife, comprei o livro Antônio Conselheiro e Canudos, de Ataliba Nogueira. E lá encontrei o que procurava. Falando sobre as atividades do arraial, diz o autor: "O grosso da população de Belo Monte trabalha na indústria da pele de cabra (...) Num dos morros do povoado vão buscar a casca da favela. Por extensão de sentido, aplica-se ao morro o nome dessa árvore ali abundante e cuja casca tem bom emprego na indústria do curtume. E, após a guerra de Canudos, no Rio de Janeiro, passaram a denominar favela a toda e qualquer casaria paupérrima situada no dorso dos morros".
          Em mim, a visão política é indissoluvelmente ligada à religiosa e à literária; assim, para meu trabalho de escritor, foi importantíssimo descobrir, pela "favela", a ligação entre os dois emblemas do Brasil verdadeiro: o emblema urbano e o rural; a "favela" da cidade e o "arraial" do sertão.

(Folha de São Paulo, 27 de abril de 1999.)

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Ariano Suassuna — Série Essencial 93, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Carlos Newton Júnior, 2018, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 25 de junho de 2023

Ariano Suassuna: Martelo Agalopado

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O galope sem freio dos Cavalos,
os punhais reluzentes do Cangaço,
a prata dos Bordões, no seu traspasso,
o pipocar do Rifle e seus estralos.
O Sino, com seus toques de badalo,
as Onças com seus olhos amarelos,
o Lajedo que é trono e que é Castelo,
o ressonar do Mundo esta Onça parda,
o vento, o sangue, o Sol, a madrugada,
e eu tinindo o galope do Martelo.

Na prisão destas Pedras fui atado,
aos olhos garça duma Cega fera.
O sangue da pobreza é uma Pantera
que estraçalha meu Povo injustiçado
Onde reina a justiça do Sonhado,
senhores do baraço e do Cutelo?
Ela vem! E eu, ao fogo do Flagelo,
mesmo em dura Prisão assim metido,
na cadeia dos anos vou, detido,
retinindo o galope do Martelo.

E as abelhas, o Mel acre e dourado,
e o angico, e o tambor, e a baraúna.
O concriz auri-rubro, a caraúna,
os cardeiros de frutos estrelados.
Chora a Vida: “Ai meu sangue assassinado!”
Grita o Mundo: “Na pedra eu me cinzelo!”
E o Tempo: “Tudo eu queimo e esfarelo!”
Quanto a mim, aos açoites da Virola,
vou, nas cordas de prata da Viola,
retinindo o galope do Martelo.

(1961 1972)

(Poemas. Seleção, organização e notas de Carlos
Newton Júnior. Recife: Editora da Universidade
Federal de Pernambuco, 1999, pp. 246—247.)

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Ariano Suassuna — Série Essencial 93, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Carlos Newton Júnior, 2018, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.