Mostrando postagens com marcador Sérgio Caponi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sérgio Caponi. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de março de 2022

Francesco Petrarca: Se o doce olhar, desta que me mata, vi, . . . [soneto]

 
____________________
[traduzido por Sérgio Caponi]

Soneto CLXXXIII

Se o doce olhar, desta que me mata, vi,
e se das palavrinhas o suave porte,
e se amor sobre mim a faz tão forte
quando fala, ou mesmo, quando ri,

Triste crença, se, talvez, ela divide,
ou por minha culpa ou malvada sorte,
os olhos da Mercê como os da morte,
lá onde me desafia a que não duvide.

Se tremo e sinto o coração gelado,
sempre que vejo variar sua figura,
este tremer é, de antiga prova, nato,

já que mulher é móvel por natura:
Pois bem sei que um amoroso estado,
no coração de mulher, bem pouco dura.

[Il Canzoniere]

Petrarca

Soneto CLXXXIII

Se 'l dolce sguardo di costei m'ancide,
et le soavi parolette accorte,
et s'Amor sopra me la fa sí forte
sol quando parla, over quando sorride,

lasso, che fia, se forse ella divide,
o per mia colpa o per malvagia sorte,
gli occhi suoi da Mercé, sí che di morte,
là dove or m'assicura, allor mi sfide?

Però s'i' tremo, et vo col cor gelato,
qualor veggio cangiata sua figura,
questo temer d'antiche prove è nato.

Femina è cosa mobil per natura:
ond'io so ben ch'un amoroso stato
in cor di donna picciol tempo dura.

[Il Canzoniere]
____________________
Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas — SP; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Dante Alighieri: Tão gentil e tão honesta aparenta . . . [soneto]

 
____________________
[traduzido por Sérgio Caponi]

Tão gentil e tão honesta se aparenta
Minha dama quando outro a saúda
Que, trêmula, a língua se torna muda
e o olhar, ao seu, se desalenta.

No louvor que então se lhe acrescenta,
na modéstia que a veste e aveluda,
como benesse que do céu transmuda,
na terra, tal qual milagre, se assenta.

E tão afável se mostra a quem a mira
que o coração abranda-se em doçura
que só conhece quem a experimenta.

Se move os lábios, nele se apresenta
um espírito pleno de brandura
que à alma vai dizendo: “Suspira!”.

Dante Alighieri

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua deven, tremando muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mòstrasi sì piacente a chi la mira,
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova:

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: “Sospira!”.

(Vita Nuova XXVI)
____________________
Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Dante Alighieri: Um sopro espesso faz crescer na mente . . . [soneto]

 
____________________
[traduzido por Sérgio Caponi]

Um sopro espesso faz crescer na mente
a obscuridade que o amor me inspira.
Doído, indago frequentemente:
“Haverá outro que também delira?”

Pois a amor me assalta subitamente
De forma que quase a minha vida tira.
Restando vivo um espírito, somente,
Que a mente ocupa ao tanger a lira.

Depois me esforço a recobrar o ânimo,
E assim pálido, mas inspirado,
Venho ver-te, crendo que és a cura:

Porém, se meus olhos nos teus arrimo,
um tremor, então, no coração gerado
expulso a alma que em mim perdura.

Dante Alighieri

Spesse fiate vègnonmi a la mente
le oscure qualità ch’Amor mi dona,
e vénnemi pietà sí che sovente
io dico: “Lasso! avvien elli a persona?”;

ch’Amor m’assale subitanamente,
sì che la vita quase m’abbandona:
càmpami uno spirto vivo solamente,
e que’ riman, perché di voi ragiona.

Poscia mi sforzo, ché mi voglio atare;
e così smorto, d’onne valor vòto,
vegno a vedervi, credendo guerire:

e se io levo li occhi per guardare,
nel cor mi si comincia uno tremoto,
chef a de’ polsi l’anima partire.

(Vita Nuova XVI)
____________________
Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

domingo, 14 de novembro de 2021

Dante Alighieri: De Amor falam todos os meus pensamentos. . . . [soneto]

 
____________________
[traduzido por Sérgio Caponi]

De Amor falam todos os meus pensamentos.
Por si, são de modo tão distinto
Que se de um quero seu poder, pressinto
que, de outro, o valor nutre seus intentos.

Outro, esperança põe nos sentimentos,
Enquanto de outro vem um choro indistinto.
Só por dó concordam. Se medo sinto,
No coração tremem em seus assentos.

Melhor que não saiba o que dizer
E, calado, nada de nada diga:
Desorientado, perdido de amor,

Se deles quisesse os préstimos recorrer
Melhor seria chamar minha inimiga,
A piedade, e a pôr a meu dispor.

Dante Alighieri

Tutti li miei pensier parlan d’Amore;
e hanno in lor sì gran varietate,
ch’altro mi fa voler sua potestate,
altro folle ragiona il suo valore,

altro sperando m’apporta dolzore,
altro pianger mi fa spesse fiate;
e sol s’accordano in cherer pietate,
tremando di paura che è nel core.

Ond’io non so da qual matera prenda;
e vorrei dire, e non so ch’io mi dica:
così mi trovo in amorosa erranza.

E se con tutti voi fare accordanza,
convènemi chiamar la mia nemica,
madonna la Pietà, che mi difenda.

(Vita Nuova XIII)
____________________
Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Dante Alighieri: Não há madeira de nó, assim, tão forte . . . [soneto]

____________________
[traduzido por Sérgio Caponi]

Não há madeira de nó, assim, tão forte
Nem há pedra que, assim, seja tão dura
Que esta que me leva à sepultura,
Com seus olhos, não mudaste a sorte.

Se acaso encontra quem lá aporte,
E não recue desse olhar que fura,
Melhor que morra, que mais não apura
Dessa piedade que, por si, é morte.

Por que tanto poder, assim, se insere
Nos olhos de uma tão cruel senhora
Que não poupa nem mesmo a quem lhe adora?

E opõe ao amor soberba tal
Que aos que mata, não só ignora
Como oculta ainda o que lhes foi fatal.

(Canzoniere, LXV)

Dante Alighieri

E’ non è legno di sì forti nocchi,
nè ancor dura tanto alcuna pietra,
ch’esta crudel, che mia morte perpetra,
non vi mettesse Amor co’ suoi begli occhi.

Or dunque s’ella incontra uom che l’adocchi,
ben gli de’ ’l cor passar, se non s’arretra;
onde ‘l convien morir: ché mai no impetra
mercé ch‘il suo dever pur si spannocchi.

Deh, perchè tanta virtù data fue
agli occhi d’una donna così acerba,
che suo fedel nessuno in vita serba?

Ed è contro a pietà tanto superba,
Che s’ altri muor per lei, nol mira piue,
anzi gli asconde le belezze sue.

(Canzoniere, LXV)
____________________
Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas – SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obra: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Francesco Petrarca: Quanto mais me avizinho ao dia extremo . . . [soneto]

 
____________________
[traduzido por Sérgio Caponi]

Soneto XXXII

Quanto mais me avizinho ao dia extremo
Que a humana miséria só faz ser breve
Mais vejo o tempo andar veloz e leve,
E o meu te esperar, falso e pequeno.

E digo ao pensamento: Não muito andemos
De amor falando agora, que o duro e grave
Terreno que calco, como fresca neve
Se vai derretendo; onde nós paz teremos?

Porque com ele decairá aquela esperança
Que me fez delirar assim longamente,
E o riso e o pranto, e o medo e a ira;

Veremos claro, que frequentemente
Por coisa duvidosa outra se avança,
E, em vão, inutilmente se suspira.

(O Cancioneiro)

Petrarca

Soneto XXXII

Quanto piú m’avicino al giorno extremo
che l’umana miseria suol far breve,
piú veggio il tempo andar veloce et leve,
e ’l mio di lui sperar fallace et scemo.

I’ dico a’ miei pensier’: Non molto andremo
d’amor parlando omai, ché ’l duro et greve
terreno incarco come frescha neve
si va struggendo; onde noi pace avremo:

perché co llui cadrà quella speranza
che ne fe’ vaneggiar sí lungamente,
e ’l riso e ’l pianto, et la paura et l’ira;

sì vedrem chiaro poi come sovente
per le cose dubbiose altri s’avanza,
et come spesso indarno si sospira.

(Il Canzoniere)
____________________
Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas — SP; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.