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domingo, 11 de agosto de 2019

Jean De La Fontaine: Invocação à volúpia

Resultado de imagem para pequena antologia de poemas franceses de François Villon a Fernando Pessoa por Renata Cordeiro
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Ó Volúpia, sem quem, e já na tenra idade,
O viver e o morrer nos seriam iguais;
Imã universal de todos animais,
Sabes mesmo atrair com impetuosidade!
Por ti fazemos as ações
Por tua causa e seduções
Corremos atrás do mau fado
Não há capitão ou soldado,
Ou ministro de Estado, ou príncipe, ou servente
Que não te tenham sempre em mente.
A nós cabe nutrir, se, da insônia nascido,
Um som gostoso não nos encantasse o ouvido,
Se não nos desse o som suave sensação.
Faríamos uma canção?
O que se chama glória em linguajar pomposo,
O que nos Jogos lá do Olimpo era precioso,
És propriamente tu, Volúpia divinal.
E não tem valimento o prazer sensual?
Por quê, então, os dons da Flora,
O sol-pôr, a risonha Aurora,
Pomona e os delicados pratos,
Baco, a alma dos ricos repastos,
Florestas, águas, pradarias,
Ó mãe das doces fantasias?

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Jean De La Fontaine

Invocation à la volupté *

Ô douce Volupté, sans qui, dès notre enfance,
Le vivre et le mourir nous deviendraient égaux;
Aimant universel de tous les animaux,
Que tu sais attirer avecque violence!
Par toi tout se meut ici-bas.
C'est pour toi, c'est pour tes appâts,
Que nous courons après la peine:
Il n'est soldat, ni capitaine,
Ni ministre d'État, ni prince, ni sujet,
Qui ne t'ait pour unique objet.
Nous autres nourrissons, si pour fruit de nos veilles
Un bruit délicieux ne charmait nos oreilles,
Si nous ne nous sentions chatouillés de ce son,
Ferions-nous un mot de chanson?
Ce qu'on appelle gloire en termes magnifiques,
Ce qui servait de prix dans les jeux olympiques,
N'est que toi proprement, divine Volupté.
Et le plaisir des sens n'est-il de rien compté?
Pour quoi sont faits les dons de Flore,
Le Soleil couchant et l'Aurore,
Pomone et ses mets délicats,
Bacchus, l'âme des bons repas,
Les forêts, les eaux, les prairies,
Mères des douces rêveries?


* Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: na busca deste poema pela internet, no idioma francês, em diversas páginas nas quais o poema foi localizado, há o registro de “Éloge de la Volupté” como sendo o seu título; registre-se também que além disso o poema contém outros dezoito versos além dos que aqui estão transcritos.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, edição bilíngue, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Jean de La Fontaine (1621 1695), nascido em Château-Thierry França, foi poeta e fabulista; iniciou-se em teologia e direito mas não concluiu seus estudos, a literatura foi sempre a sua prioridade; considerado o pai da fábula moderna, entre 1664 e 1674 escreveu quase toda a sua obra, histórias e fábulas, nas quais os animais adquiriam feições humanas; são conhecidas, entre outras, as fábulas "A Lebre e a Tartaruga", "O Leão e o Rato" e a recontação de "A Cigarra e a Formiga", fábula atribuída a Esopo; ambientou-se nos meios literários em Paris, conhecendo e convivendo com escritores, poetas e dramaturgos, como Corneille, Madame de Sévigné, Boileau, Racine, Molière e Voltaire; escreveu Contos (1665), Os Amores de Psique e Cupido, Fábulas Escolhidas (coletânea dividida em seis partes, 1668, e a cada nova edição novas fábulas eram acrescentadas); pertenceu à Academia Francesa de Letras.

terça-feira, 19 de março de 2019

Olegário Mariano: A Cigarra e a Formiga

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Em casa apalacetada
E de construção antiga
Vivia vida folgada
Uma tal Dona Formiga
Muito mal vista e falada.

Saía de manhã cedo
Para um terreno baldio,
Um monturo escuro e feio.
Levava o saco vazio...
Voltava com o saco cheio.

Trabalhava o dia inteiro
Catando insetos na estrada.
Chegando em casa, cansada,
Punha tudo no celeiro
E ficava deslumbrada:
“Se eu reduzisse a dinheiro
Toda essa carga pesada,
Seria a mais abastada
Deste Rio de Janeiro”.
E a usurária impenitente
Torcia as mãos de contente.

Mas de noite, às horas mortas,
Tendo medo dos ladrões,
Metia trancas nas portas,
Cadeados nos portões.
Via em tudo um mascarado,
No vento julgava ouvir
Vozes vindas do telhado...
E não podia dormir.

E apenas amanhecia,
Quando descansar queria
Para o labor começar,
De fora, saudando o dia,
Vinha-lhe a voz envolvente,
Clara, límpida, contente
Da que vive a cantar.

E a antipática formiga
Em imprecações dispara:
“Por que essa doida não para
De cantar essa cantiga?”

“Vou matá-la!” E, de repente,
Ouvindo a voz da razão,
Diz: “É melhor ser prudente.
Vamos agir suavemente.
Ela há de se conformar.
Dou comida. Ela tem fome.
E enquanto a bandida come
Não se lembra de cantar”.

Perto, num barraco, em cima
Do cocuruto do morro,
Pobrezinha, a mendigar,
Dona Cigarra vivia
Sua vida de cachorro,
Mas cantava todo dia.
Que o seu destino é cantar.

A formiga, alucinada,
Em fúria desabalada,
Vai à casa da vizinha,
Sobe o morro agachadinha
E bate à porta daquela
Que cantava, tagarela.

“Bom dia, amiga e vizinha!
Eu gosto muito de a ouvir,
Mas como ando adoentada
E passo a noite acordada,
Pago o que você pedir:
Por favor não cante tanto
Para que eu possa dormir.”

A cigarra olhou a intrusa
Com o desprezo mais profundo:
“O seu cofre não tem fundo,
Você compra com dinheiro
Tudo quanto desejar,
Mas permita que lhe diga:
O meu silêncio, formiga,
Nem com todo o ouro do mundo
Você consegue comprar!”

Desde esse dia, a formiga
A um ódio mortal se agarra.
Tudo faz contra a cigarra
Que ela procura extinguir.
E a cigarra continua
Cantando de rua em rua
Para que a sua inimiga
Nunca consiga dormir.

(Tangará Conta Histórias  Poemas Infantis. Ilustrações de
Noêmia Guerra. 1953, São Paulo: Melhoramentos, pp. 8795.)

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Olegário Mariano — Série Essencial 59, Academia Brasileira de Letras, Organização de Pedro Marques, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi jornalista, poeta e letrista musical; fez o primário e o secundário em Recife e cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estreado na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, e vivido o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Careta e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como ‘o poeta das cigarras’ por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, Caixa de Brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945), Tangará Conta Histórias (poemas infantis, 1953), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho (‘Cai, cai balão’, ’Tutu-marambá’ e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Tristan Corbière: O Poeta e a Cigarra

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                                 Para Marcela

Um poeta havendo rimado,
P R E N S A D O
Viu sua musa desprovida
De madrinha e quase despida:
Nem sequer a menor fatia
De verso... ou de verminharia.
E foi lamentar-se, fominha,
Para sua loura vizinha,
Implorando a ela emprestar
Seu breve nome pra rimar
(Seria uma rima com ela).
 Ó! Eu vos pagarei Marcela,
Até agosto, fé no animal!
Os juros mais o capital.
A vizinha, bem prestimosa,
Será seu mais gentil defeito:
 Então: tudo a vosso preceito?
Vossa musa é muito ditosa...
Dia e noite, a quem vem de fora,
Rimai meu nome... E vos agrade!
E eu estarei bem à vontade

Vamos, vamos: cantai agora.

Tristan Corbière

Le Poète et la Cigale

À Marcelle

Un poète ayant rimé,
I M P R I M É
Vit sa Muse dépourvue
De marraine, et presque nue:
Pas le plus petit morceau
De vers… ou de vermisseau.
Il alla crier famine
Chez une blonde voisine,
La priant de lui prêter
Son petit nom pour rimer
(C’était une rime en elle).
 Oh ! je vous paîrai, Marcelle,
Avant l’août, foi d’animal!
Intérêt et principal. 
La voisine est très prêteuse,
C’est son plus joli défaut :
 Quoi : c’est tout ce qu’il vous faut?
Votre Muse est bien heureuse…
Nuit et jour, à tout venant,
Rimez mon nom…. Qu’il vous plaise!
Et moi j’en serai fort aise.

Voyons : chantez maintenant.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finisterre, foi poeta simbolista e teve seu trabalho conhecido só após Paul Verlaine o incluir na coletânea Les Poètes maudits ('Os poetas malditos', 1883); consta que tal referência bastou para trazer Tristan Corbière à luz pública e o firmasse como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; escreveu e publicou um único livro em vida, Les amours jaunes (1873); morreu aos 29 anos de idade, acometido de tuberculose.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Anacreonte: A Cigarra

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(Tradução de Castilho *)

Feliz cigarra, invejo-te!
Pousada lá nos píncaros
destas folhudas árvores,
que bem que te hás de estar!

Gota de orvalho mínima
te sobra de Castália;
que do Parnaso aos cânticos
desbanca o teu cantar.

Quanto nos dias plácidos
os campos têm de flórido,
de ameno, de frutífero,
dominas! tudo é teu.

Amiga és tu do agrícola;
para ninguém maléfica;
por seu arauto músico
o estio te elegeu.

Estimam-te as Piérides,
Ama-te o nume Délfico;
dele te veio em dádiva
esse primor de voz.

Da terra, ó filha ingênua!
A todos tão simpática!
Isenta dos descômodos
que pesam sobre nós!

Toda fervor poético!
Em hinos, sempre extáticos,
Soltando de contínuo
delícias musicais.

Leve, sutil crepúsculo!
Quase incorpóreo espírito!
Dás-me ares, minha alígera,
dos entes imortais.

Anacreonte

Μακαρίζομέν σε, τέττιξ,
τε δενδρέων π’ κρων
λίγην δρόσον πεπωκώς
βασιλες πως είδεις.
σ γάρ στι κενα πάντα,
πόσα βλέπεις ν γρος
χπόσα φέρουσιν λαι.
σ δ φείδεαι γεωργν,
π μηδενός τι βλάπτων·
σ δ τίμιος βροτοσιν,
θέρεος γλυκς προφήτης.
φιλέουσι μέν σε Μοσαι,
φιλέει δ Φοβος ατός,
λιγυρν δ’ δωκεν ομην·
τ δ γρας ο σε τείρει.
σοφέ, γηγενής, φίλυμνε,
παθής, ναιμόσαρκε·
σχεδν ε θεος μοιος.


* O poema "A Cigarra", pela tradução ('artística' e 'rimada') de Antônio Feliciano de Castilho (1800 1876), poeta português, compôs a palestra proferida por Amadeu Amaral, na cidade de Santos, em junho de 1917, em que discorreu sobre a conhecida fábula "A Cigarra e a Formiga; o palestrante toma partido e faz elogio à cigarra e seu canto, em detrimento da formiga e seu trabalho. 
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Letras Floridas, de Amadeu Amaral (conferência, palestras e ensaios), 1976, Editora Hucitec, São Paulo SP; Anacreonte (570 a.C ?  488 a.C ?), de origem jônica, nascido em Teos, na Ásia Menor, foi um poeta lírico grego; de sua biografia consta ter escrito diversos livros de poemas odes, epigramas, canções, elegias, etc. dos quais só nos é dado conhecer fragmentos; frise-se também que famosas odes a ele atribuídas foram de outros autores gregos que as escreviam à moda do Mestre jônico, daí a nomeação atual aceita de Odes Anacreônticas em vez de Odes de Anacreonte.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Bastos Tigre: A cigarra e a formiga (versão modernista)

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Cantou a cigarra
Durante o verão
Cantiga bizarra
De ardente emoção
Em voz estridente
A glória candente
Do sol do verão.

Nos troncos robustos
Nos galhos, nas ramas,
Nos dias adustos
Nas tardes em chamas,
Cantou a alegria
Da vida vadia
Sem tédio, nem dramas.

Mas chega o inverno inclemente
E encontra a infeliz sem teto,
No miserê mais completo
Sem dez centavos de seu.
E a boêmia imprevidente,
Tendo vazia a barriga
Lembrou-se, então, da formiga
E à sua casa correu.

Formiga é sócia da firma
"Limpa-campo limitada".
Tem fortuna calculada
Em mais de dez mil milhões.
E, segundo o povo afirma,
Tornou-se arqui-milionária,
Como líder proletária
Arrasando plantações.

À porta do formigueiro
Falou à chefe da casa:
 A miséria que me arrasa
A incomodar-te me obriga,
Preciso de algum dinheiro...
Mas a frase não termina
Pois, irônica e ferina,
Foi lhe dizendo a formiga:

 Dinheiro? Com todo o gosto
Tenho pena de quem sofre.
Às ordens tens o meu cofre
Para que vivas em paz.
Mas bem sabes, pago imposto,
Tenho IAPC, tenho sócios
E negócios são negócios,
Que garantias me dás?

 Assino uma promissória,
Formiga, a 90 dias.
 Mas quais são as garantias?
Os endossantes quais são?
Torna a cigarra simplória:
 Três velhos amigos meus:
A "esperança", o louva-deus,
E o grilo. Emprestas, então?

 Tu estás maluca, cigarra?
Três boêmios desta marca!
Não vês que ninguém embarca
Em tais negócios assim?
Não serve gente da farra,
Quero banqueiros da praça,
Como a abelha, a broca, a traça,
O gafanhoto e o cupim.

 Eu não me dou com tal gente...
 Se não te dás, nada feito.
Procura então outro jeito:
No verão que é que fazias?
 No verão, alegremente,
Eu nas árvores cantava.
Lindos concertos eu dava
Das mais doces melodias.

 Cantavas... Eu bem me lembro.
Se me lembro da algazarra
Que tu fazias, cigarra.
Quando eu andava a lidar
Ardia o sol de dezembro
E tu cantavas, vadia.
Agora que o tempo esfria,
Cigarra, toca a dançar!

O conselho da formiga
Tomou-o a cigarra. E o fato
É que tem hoje um contrato
Para em bailado dançar.
Já não é mais "da cantiga"
Bailarina ela é agora,
Como Pavlova, Isadora,
Nijinski, Serge Lifar...

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bastos Tigre (1882  1957), pernambucano de Recife, foi poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

domingo, 21 de setembro de 2014

La Fontaine: A Cigarra e a Formiga

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(Tradução de Bocage)

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Quis valer-se da formiga
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar-se o aceso estio.

“Amiga  diz a cigarra 
Prometo à fé d’animal,
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal.”

A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
“No verão em que lidavas?”
À pedinte, ela pergunta.

Responde a outra: “Eu cantava
Noite e dia, a toda hora.”
Oh! Bravo!, torna a formiga;
Cantavas? Pois dança agora!

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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Jean de La Fontaine (1621 1695), nascido em Château-Thierry França, foi poeta e fabulista; iniciou-se em teologia e direito mas não concluiu seus estudos, a literatura foi sempre a sua prioridade; considerado o pai da fábula moderna, entre 1664 e 1674 escreveu quase toda a sua obra, histórias e fábulas, nas quais os animais adquiriam feições humanas; são conhecidas, entre outras, as fábulas  "A Lebre e a Tartaruga", "O Leão e o Rato" e a recontação de "A Cigarra e a Formiga", fábula atribuida a Esopo; ambientou-se nos meios literários em Paris, conhecendo e convivendo com escritores, poetas e dramaturgos, como Corneille, Madame de Sévigné, Boileau, Racine, Molière e Voltaire; escreveu Contos (1665), Os Amores de Psique e Cupido, Fábulas Escolhidas (coletânea dividida em seis partes, 1668, e a cada nova edição novas fábulas eram acrescentadas); pertenceu à Academia Francesa de Letras.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

La Fontaine: O Galo e a Pérola

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(Tradução de Gonçalves Crespo)

Um galo achou num terreiro
Uma pérola, e ligeiro
Corre a um lapidário e diz:
"Isto é bom, é de valia.
De milho um grão todavia
Era um achado mais feliz."

Um néscio ficou herdeiro
De um manuscrito, e a um livreiro
Vai à pressa, e fala assim:
"É bom, é livro acabado,
Concordo, mas um ducado
Valia mais para mim!"

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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Jean de La Fontaine (1621  1695), nascido em Château-Thierry  França, foi poeta e fabulista; iniciou-se em teologia e direito mas não concluiu seus estudos, a literatura foi sempre a sua prioridade; considerado o pai da fábula moderna, entre 1664 e 1674 escreveu quase toda a sua obra, histórias e fábulas, nas quais os animais adquiriam feições humanas; são conhecidas, entre outras, as fábulas  "A Lebre e a Tartaruga", "O Leão e o Rato" e a recontação de "A Cigarra e a Formiga", fábula atribuida a Esopo; ambientou-se nos meios literários em Paris, conhecendo e convivendo com escritores, poetas e dramaturgos, como Corneille, Madame de Sévigné, Boileau, Racine, Molière e Voltaire; escreveu Contos (1665), Os Amores de Psique e Cupido, Fábulas Escolhidas (coletânea dividida em seis partes, 1668, e a cada nova edição novas fábulas eram acrescentadas); pertenceu à Academia Francesa de Letras.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Mário Pederneiras: A Cigarra e a Formiga

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Dona Formiga
Pertence à classe das senhoras sérias,
Tem cuidado da casa e de alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.

Além de tudo, é de ambições modestas,
Todo o seu bem, no seu labor converte
E faz da vida idéias esquisitas…
Não faz visitas
E não se diverte…
Nunca se viu Dona Formiga, em festas.

De tanto se ocupar da vida e do futuro
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cômica;
Pois, mesmo assim, nos amplos e maçudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de econômica.

Trabalha muito no pesado Estio,
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o Frio
E cessa a lida,
Já ela está com a dispensa cheia.

Dona Cigarra  esta, coitada!
Não vale nada
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
Da sua Alma de estroina e vagabunda…
Entretanto,
Dona Cigarra, eu sei, passa misérias. 

Não tem a mínima noção exata
De arranjos econômicos de casas,
A própria fama, às vezes, malbarata...
A fartura que aumenta ou diminua,
Que a considere, o mundo, inepta, incapaz,
Diga que a vida que ela segue é torta,
Pouco se importa.
O que ela quer é o Sol e a Rua,
Porque ela não é mais
Do que um garoto de asas.

É da boêmia a mais perfeita imagem,
Adora a luz e mora na folhagem…
E tal a vida é e tal a aceita,
Sempre de sonhos e ilusões repleta…
Dona Cigarra até parece feita
Da própria massa de que é feito o Poeta!

Passa o Verão… E o véu do Estio,
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre,
Torna-se a Vida mais penosa e séria…
Dona Cigarra não resiste ao frio
E, coitadinha, morre
E morre, quase sempre, na miséria. 

Contam, que um dia,
Morta, do Sol, a límpida alegria,
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar,
Um pedaço de pão do seu celeiro…

Como a Formiga, então lhe perguntasse 
Onde se achava
E o que fizera na estação passada,
Honestamente, disse que cantava…
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…

           Por isso, é que eu não gosto da Formiga
.

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Coleção Nossos Clássicos — Mário Pederneiras, poesia, Volume 29, Apresentação de Rodrigo Otávio Filho, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Mário Veloso Paranhos Pederneiras (1868 1915), carioca do Rio de Janeiro, foi poeta fortemente influenciado pela poesia da escola simbolista francesa e também pelos grandes nomes do Simbolismo da língua portuguesa naquele período  Cruz e Sousa, Antonio Nobre e Cesário Verde; estreou na imprensa por volta de 1878 ao tornar-se colaborador do jornal O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro; entre 1895 e 1908, foi co-fundador, diretor e redator das revistas Rio Revista, Galáxia e Mercúrio, e da revista Fon-Fon, que foi responsável pela segunda fase do movimento simbolista; colaborou ainda com os periódicos A Gazeta de Notícias, Sans Dessous, O Tagarela e Novidades; escreveu e publicou Agonias (1900), Rondas Noturnas (1901), Histórias do meu Casal (1906), Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida (1912) e Outono (1921, obra póstuma, com poemas de 1914 e ilustrações de Calixto e João Carlos).