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quarta-feira, 21 de abril de 2021

Pedro Kilkerry: Horas ígneas *

 

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Eu sorvo o haxixe do estio...
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes de cinza e brasa.

Sombras de voz hei no ouvido
De amores ruivos, protervos
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.

O mar faz medo... que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca

De animal.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Nem ondas de sangue... e sangue
Nem de uma nau Morre a cisma.
Doiram-me as faces do prisma
Mulheres flores num mangue...


* Nota de Massaud Moisés: Apud Augusto de Campos, Re-visão de Kilkerry. S. Paulo, Fundo Estadual de Cultura, 1970, pp. 94-5. Além de um longo e elucidativo estudo da obra do poeta, o volume reúne toda a sua obra dispersa.
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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Pedro Militão Kilkerry (1885 1917), baiano de Santo Antonio de Jesus, formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano 'Nova Cruzada', vindo a publicar seus poemas em revista homônima, órgão simbolista, e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Pedro Kilkerry: O muro

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Movendo os pés dourados, lentamente,
Horas brancas lá vão, de amor e rosas
As impalpáveis formas, no ar, cheirosas...
Sombras, sombras que são da alma doente!

E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente
Abrindo á tarde as órbitas musgosas
Vazias? Menos do que misteriosas
Pestaneja, estremece... O muro sente!

E que cheiro que sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa,
E lhe doa talvez aquela pele!

Mas um prazer ao sofrimento casa...
Pois o ramo em que o vento á dor lhe impele
É onde a volúpia está de urna asa e outra asa...

PEDRO KILKERRY
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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S.A., LR Editores Ltda, São Paulo — SP; Pedro  Militão Kilkerry (1885  1917), baiano de Santo Antonio de Jesus,  formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano 'Nova Cruzada', vindo a publicar seus poemas em revista homônima e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra  poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro; antes, em 1921, seus poemas haviam sido reunidos por Jackson de Figueiredo, em "Humilhados e Ofendidos", estudo que lhe dedicara.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Pedro Kilkerry: Ritmo Eterno

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Abro as asas da Vida à Vida que há lá fora.
Olha... Um sorriso da alma! Um sorriso da aurora!
E Deus  ou Bem! ou Mal  é Deus cantando em mim,
Que Deus és tu, sou eu  a Natureza assim.

Árvore! boa ou má, os frutos que darás
Sinto-os sabendo em nós, em mim, árvore, estás.
E o Sol, de cujo olhar meu pensamento inundo,
Casa multiplicando as asas deste mundo...

Oh, braços para a Vida! Oh, vida para amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me ilusões de um mar...
Alvor, turquesa, ondula a matéria... É veludo,

É minh'alma, é teu seio, e um firmamento mudo.
Mas, aos ritmos da Terra, és um ritmo do Amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza em flor!

ReVisão de Kilkerry (1985)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Simbolismo, Seleção e Prefácio de Lauro Junkes, 2006, Global Editora e Distribuidora, São Paulo — SP; Pedro Militão Kilkerry (1885 1917), baiano de Santo Antonio de Jesus, formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano 'Nova Cruzada', vindo a publicar seus poemas em revista homônima e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Pedro Kilkerry: É o Silêncio

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É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha. 
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda.  E a sala muda, muda...
Àfonamente rufa.  A asa da rima
Paira-me no ar.  Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
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E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...
Vês?  Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

Pedro Kilkerry
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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Pedro Militão Kilkerry (1885  1917), baiano de Santo Antonio de Jesus, formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano 'Nova Cruzada', vindo a publicar seus poemas em revista homônima e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Pedro Kilkerry: O Verme e a Estrela

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Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! ceguei da tua luz?

PEDRO KILKERRY
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Cinco Séculos de Poesia — Antologia da Poesia Clássica Brasileira, Seleção, Introdução e Organização de Frederico Barbosa, 2000, Landy Editora, São Paulo — SP; Pedro Militão Kilkerry (1885  1917), baiano de Santo Antonio de Jesus, formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano Nova Cruzada, vindo a publicar seus poemas em revista homônima e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro.