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[traduzido por Henriqueta Lisboa]
Todas íamos ser rainhas
de quatro reinos sob o mar:
Rosália com Efigênia
e Lucila com Soledade.
Lá do vale de Elqui, cingido
por cem montanhas, talvez mais,
que com dádivas ou tributos
ardem em rubro ou açafrão,
nós dizíamos embriagadas
com a convicção de uma verdade,
que havíamos de ser rainhas
e chegaríamos ao mar.
Com aquelas tranças de sete anos
e camisolas de percal,
perseguindo tordos fugidos
sob a sombra do figueiral,
dizíamos que os nossos reinos,
dignos de fé como o Corão,
seriam tão perfeitos e amplos
que se estenderiam ao mar.
Quatro esposos desposaríamos
quando o tempo fosse chegado,
os quais seriam reis e poetas
como David, rei de Judá.
E por serem grandes os reinos
eles teriam, por sinal,
mares verdes, repletos de algas
e a ave selvagem do faisão.
Por possuírem todos os frutos,
a árvore do leite e do pão,
o guaiaco não cortaríamos
nem morderíamos metal.
Todas íamos ser rainhas
e de verídico reinar;
porém nenhuma foi rainha
nem no Arauco nem em Copán...
Rosália beijou marinheiro
que já tinha esposado o mar,
e ao namorador nas Guaitecas
devorou-o a tempestade.
Sete irmãos criou Soledade
e seu sangue deixou no pão.
E seus olhos quedaram negros
de nunca terem visto o mar.
Nos vinhedos de Montegrande
ao puro seio de trigal,
nina os filhos de outras rainhas
porém os seus nunca, jamais.
Efigênia achou estrangeiro
no seu caminho e sem falar
seguiu-o sem saber-lhe o nome
pois o homem se assemelha ao mar.
Lucila que falava ao rio,
às montanhas e aos canaviais,
esta, nas luas da loucura
recebeu reino de verdade.
Entre as nuvens contou dez filhos,
fez nas salinas seu reinado,
viu nos rios os seus esposos
e seu manto na tempestade.
Porém lá no vale de Elqui,
onde há cem montanhas ou mais,
cantam as outras que já vieram,
como as que vierem cantarão:
Na terra seremos rainhas
e de verídico reinar,
e sendo grande os nossos reinos,
chegaremos todas ao mar.
Todas íbamos a ser reinas
Todas íbamos a ser reinas,
de cuatro reinos sobre el mar:
Rosalía con Efigenia
y Lucila con Soledad.
En el valle de Elqui, ceñido
de cien montañas o de más,
que como ofrendas o tributos
arden en rojo y azafrán.
Lo decíamos embriagadas,
y lo tuvimos por verdad,
que seríamos todas reinas
y llegaríamos al mar.
Con las trenzas de los siete años,
y batas claras de percal,
persiguiendo tordos huidos
en la sombra del higueral.
De los cuatro reinos, decíamos,
indudables como el Korán,
que por grandes y por cabales
alcanzarían hasta el mar.
Cuatro esposos desposarían,
por el tiempo de desposar,
y eran reyes y cantadores
como David, rey de Judá.
Y de ser grandes nuestros reinos,
ellos tendrían, sin faltar,
mares verdes, mares de algas,
y el ave loca del faisán.
Y de tener todos los frutos,
árbol de leche, árbol del pan,
el guayacán no cortaríamos
ni morderíamos metal.
Todas íbamos a ser reinas,
y de verídico reinar;
pero ninguna ha sido reina
ni en Arauco ni en Copán...
Rosalía besó marino
ya desposado con el mar,
y al besador, en las Guaitecas,
se lo comió la tempestad.
Soledad crió siete hermanos
y su sangre dejó en su pan,
y sus ojos quedaron negros
de no haber visto nunca el mar.
En las viñas de Montegrande,
con su puro seno candeal,
mece los hijos de otras reinas
y los suyos nunca-jamás. *
Efigenia cruzó extranjero
en las rutas, y sin hablar,
le siguió, sin saberle nombre,
porque el hombre parece el mar.
Y Lucila, que hablaba a río,
a montaña y cañaveral,
en las lunas de la locura
recibió reino de verdad.
En las nubes contó diez hijos
y en los salares su reinar,
en los ríos ha visto esposos
y su manto en la tempestad.
Pero en el valle de Elqui, donde
son cien montañas o son más,
cantan las otras que vinieron
y las que vienen cantarán:
«En la tierra seremos reinas,
y de verídico reinar,
y siendo grandes nuestros reinos,
llegaremos todas al mar».
[Tala — 1938]
(Antología: Gabriela Mistral en Verso y Prosa —
Edición conmemorativa, Real Academia
Española —
Asociación de
la Lengua Española, febrero de 2010,
World Color Perú S. A., Lima — Perú)
* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de
blogueiro desta página registra que, no cotejamento do poema original do livro
Antología: Gabriela Mistral en Verso y Prosa — Edición conmemorativa ..., com
páginas da internet, encontrou-se a variável abaixo para a 12ª estrofe do poema:
“En las viñas de Montegrande,con su puro seno candeal,mece los hijos de otras reinasy los suyos no mecerá.”
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Poesias Escolhidas: Gabriela
Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards,
Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio
Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel
de Literatura, 1971, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral
(1889 — 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy
Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina
Alcayaga, em sua cidade natal — a família não tinha dinheiro para custear sua
formação em pedagogia —, foi ajudante de professora, professora, poeta,
educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora
ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais
foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui,
de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou
seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial
de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário;
posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da
Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as
bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente
quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em
concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do
pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados
Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard,
Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914),
Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile
(1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile
(1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como
cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia
traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores
brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio
Nobel de Literatura, em 1945.