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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Tristan Corbière: Duelo das camélias

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Eu vi o sol duro de encontrar aos tufos
Esgrimir.  Vi a esgrima ensolarar,
Fazendo paradas em lances bufos;
Melros de negro assistiam brilhar.

Um senhor em camisa se aprontava;
Parecia uma camélia, todo branco;
No ramo outra flor rosa vicejava
Como… E o florete vergou num flanco.

 Raiva, estou roxo!… Ah! ele me degola –
… Camélia branca  lá  como Sua gola…
Camélia amarela,  aqui  mastigada…

Meu amor morto, da lapela caiu.
 Eu, chaga aberta, flor primaveril!
Camélia viva, de sangue matizada!

Tristan Corbière

Dueul aux camélias

J'ai vu le soleil dur contre les touffes
Ferrailler. J'ai vu deux fers soleiller1,
Deux fers qui faisaient des parades bouffes;
Des merles en noir regardaient briller.

Un monsieur en ligne arrangeait sa manche;
Blanc, il me semblait un gros camélia;
Une autre fleur rose était sur la branche,
Rose comme... Et puis un fleuret plia.

Je vois rouge... Ah oui! c'est juste: on s'égorge
... Un camélia blanc comme Sa gorge...
Un camélia jaune, ici tout mâché...

Amour mort, tombé de ma boutonnière2.
A moi, plaie ouverte et fleur printanière!
Camélia vivant, de sang panaché!

Veneris Dies 13 ***

Notas do tradutor Marcos Antônio SiscarRetoma o tema baudelairiano do duelo amoroso (por exemplo, em “Duellum”). O título remete também ao romance de Alexandre Dumas Filho, A Dama das camélias, de 1849.
1. verso 2 — “Soleiller” é um neologismo, de origem provençal, construído a partir de “soleil”;
2. verso 12 — “Bouttonière” significa também a incisão fina e comprida que pode fazer um florete;
*** “Veneris Dies 13 — joga com a etimologia de “vendredi”, dia de Vênus e sexta-feira 13, dia fatídico.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Tristan Corbière: O Renegado

 

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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

(Homens do mar)

Isto é um renegado. Um grande contumaz:
   Para fazer nada, tudo faz.
Cortou sete mares, ou mais; bravo e poltrão,
Corsário anfíbio, em passeio ou em ação;
Escravo, flibusteiro, negro, branco, soldado,
Capanga; faz de tudo um pouco, o coitado:
Macaco, sabujo de dama... e mesmo: dama.
Profeta in partibus, vendendo a alma por grama;
Veneno, flautista, carrasco ou enforcado,
Médico, eunuco; pedinte, um facão do lado...

A morte o conhece, e já não se sente atraída...
Cuspido pela morte, cuspido pela vida,
Ele come homem, ouro, excremento, poeira,
Come chumbo, ambrósia… ou nada Aquilo que cheira. —

Seu nome! Trocar de pele lhe era fácil...
Em todas as línguas é: Cidalísia, Inácio,
Todos los santos... Mas tal peso já não tem;
O T. F. de forçado apagou muito bem!...

Quem o moveu... o amor? Já cheirou a cueiro!
Ele violou tudo: a forca e o carcereiro.
Ódio? Não. Roubo? Recusou o que era dado.
Amarrou o bode do vício? Não é viciado:
Não... na barriga ele tem uma messalina,
É um temperamento... um artista de rapina.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Não teve misericórdia nem com o diabo.
Tenha o leme! Apodreceu tudo até o cabo,
Matou toda besta, destratou o trato tosco...
Puro, por haver purgado todo desgosto.

                   Baleares.

Tristan Corbière

Le Rénégat*

(Gens de mer)

Ça c’est un renégat. Contumace partout:
    Pour ne rien faire, ça fait tout.
Écumé de partout et d’ailleurs; crâne et lâche,
Écumeur amphibie1, à la course, à la tâche;
Esclave, flibustier, nègre, blanc, ou soldat,
Bravo: fait tout ce qui concerne tout état;
Singe, limier de femme... ou même, au besoin, femme;
Prophète in partibus, à tant par kilo d’âme;
Pendu, bourreau, poison, flûtiste, médecin,
Eunuque; ou mendiant, un coutelas en main...

La mort le connaît bien, mais n’en a plus envie...
Recraché par la mort, recraché par la vie,
Ça mange de l’humain, de l’or, de l’excrément,
Du plomb, de l’ambroisie... ou rien Ce que ça sent.

Son nom? Il a changé de peau, comme chemise...
Dans toutes langues c’est: Ignace ou Cydalyse2,
Todos los santos... Mais il ne porte plus ça;
Il a bien effacé son T. F. de forçat!...

Qui l’a poussé... l’amour? Il a jeté sa gourme3!
Il a tout violé: potence et garde-chiourme.
La haine? Non. Le vol? Il a refusé mieux.
Coup de barre4du vice? Il n’est pas vicieux;
Non... dans le ventre il a de la fille-de-joie,
C’est un tempérament... un artiste de proie.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Au diable même il n’a pas fait miséricorde.
Hale encore! Il a tout pourri jusqu’à la corde,
Il a tué toute bête, éreinté tous les coups...
Pur, à force d’avoir purgé tous les dégoûts.

              Baléares5.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
O poema apresenta uma sequência de autodefinições comparável à dos poemas-epitáfio em Corbière, poeta “anfíbio”. [ . . . ] [traduzido] da seção do livro chamada “Homens do mar”.
1. verso 4 – “Amphibie”: segundo o dicionário Littré, o homem que professa, sucessivamente, sentimentos contrários;
2. verso 16 – “Ignace”: lembra o santo; “Cydalyse”, nome utilizado por Nerval [Gérard de] lembra um nome de cortesã;
3. verso 19 – “Jeter la gourme”: fazer loucuras na mocidade;
4. verso 22 – “Avoir le coup de barre”: sentir-se repentinamente muito cansado;
5. “Baléares”: os portos das ilhas Baleares eram ponto de passagem e de refúgio para todo tipo de aventureiro em ação no Mediterrâneo.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

sábado, 24 de setembro de 2022

Tristan Corbière: Infante em seu lençol (risinho)

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

O prazer te foi duro, mais fácil é o mal
   Deixa-o vir à luz do dia.
À musa funesta já não se faz madrigal;
   Vais e o anjo fica à revelia

Teu lenço conhece o pus, e teu lençol o fel;
   Canta, mas deixa essa mania
De sair à rua estendendo teu chapéu,
   Por vinténs de amor ou ironia.

Agora dorme: eis o sono que liberta;
Com tua agonia a Morte brinca esperta,
   Como o gato magro e o rato;

Sorrateira, a pata te lança ou te deita.
E o velho paroxismo ainda te deleita:
   Torce a boca, escuma... e seja grato.

Tristan Corbière

Petit coucher1
(risette)

Le plaisir te fut dur, mais le mal est facile
   Laisse-le venir à son jour.
À la Muse camarde on ne fait plus d'idylle;
   On s'en va sans l'Ange à son tour

Ton drap connaît ta plaie, et ton mouchoir ta bile;
   Chante, mais ne fais pas le four
D'aller sur le trottoir quêter dans ta sébile,
   Un sou de dégoût ou d'amour.

Tu vas dormir: voici le somme qui délie;
La Mort patiente joue avec ton agonie,
   Comme un chat maigre et la souris;

Sa patte de velours2 te pelotte et te lance.
Le paroxysme3 encor est une jouissance:
   Tords ta bouche, écume... et souris.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
1. Pela temática da morte e pelo tratamento em segunda pessoa, esse poema “reencontrado” lembra bastante a seção “Rondéis para depois”, embora suas imagens sejam mais fortes. Título  “Petit coucher” era uma expressão da época da monarquia que designava a cerimônia para o momento em que o rei se recolhia. “Risette” (risinho de criança), como subtítulo, evoca a homofobia contida no título: “petit coucher” (adjetivo + substantivo), uma cochilada, pode ser lido “petit couché” (substantivo + particípio passado), a criança em sua cama. Como em “Rondéis pour Après”, a imagem do sono remete à da morte. A tradução destaca aqui a idéia do príncipe (infante, como substantivo) em sua cama, mas também a idéia de uma certa ingenuidade infantil (“infante”, adjetivo em função de advérbio), em face da morte (“lençol” entendido como mortalha, como em “Soneto póstumo”), de acordo com a atmosfera do poema;
2.Chat qui fait parte de velours” é o gato que apresenta as patas tendo escondido suas garras. Em sentido figurado, “faire patte de velours” significa dissimular um objetivo maligno sob uma aparência inofensiva;
3. Provável referência a [Alfred de] Musset, em Namouna: Chez lui la jouissance était un paroxysme.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

sábado, 6 de agosto de 2022

Tristan Corbière: Aventura galante e a ventura

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Odor della feminità.

Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz  um pouco  é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida…

Um belo dia  triste ofício!  eu, assim,
 Ofício!...  velejava. Ela passou por mim.
 Ela quem?  A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a…  porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E… estendeu-me a mão, e…
                                               me deu uns tostões.

Rua dos Mártires.

Tristan Corbière

Bonne fortune et fortune1

Odor della feminitá.

Moi, je fais mon trottoir, quand la nature est belle,
Pour la passante qui, d’un petit air vainqueur,
Voudra bien crocheter, du bout de son ombrelle,
Un clin de la prunelle ou la peau de mon cœur…

Et je me crois content pas trop! mais il faut vivre:
Pour promener un peu sa faim, le gueux s’enivre…

Un beau jour quel métier! je faisais, comme ça,
Ma croisière. Métier!… Enfin, Elle passa
Elle qui? La Passante! Elle, avec son ombrelle!
Vrai valet de bourreau, je la frôlai… mais Elle

Me regarda tout bas, souriant en dessous,
Et… me tendit sa main, et…
                                                  m’a donné deux sous.

Rue des Martyrs2.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
1. Variação periódica do soneto “A uma passante”, de Baudelaire. No título, há um jogo de palavra com “fortune”, que pode designar uma “aventura galante” quando ela é boa, “bonne”. A fortuna ou a ventura alcançadas nessa aventura são uma referência irônica aos “tostões” do final do poema;
2. “Rue des Martyrs” — Rua famosa de Montmartre, numa área conhecida de prostituição. O “mártir” não deixa de remeter, ironicamente, à sorte que tem o poeta em sua aventura parisiense.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Tristan Corbière: Pobre rapaz

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

A Besta-Fera.

Ele que assobiava altivo, seu desafinamento,
Perto de mim minguava; ele procurava,
Não achava, e… eu gostava de ver que o tento
Lhe faltava, o herói não soube ver que me amava.

Provoquei ricochetes no peito em tormento.
Ele só olhava… É isso que o estragava?…
Que difícil é tocar o poeta, este instrumento!…
Eu o toquei, E isso  de fato  me alegrava.

Morreu!… Ah  até que era um rapaz engraçado.
Levou então a sério o papel destinado
Para si, nem me contou…  E morreu, assim?…

Teria se deixado fluir de poesia?…
Morto de chic, de tísica, ou porque bebia,
Ou, talvez, enfim de nada… talvez de Mim!

Tristan Corbière

Pauvre garçon

La Bête féroce.

Lui qui sifflait si haut, son petit air de tête1,
Était plat près de moi; je voyais qu’il cherchait…
Et ne trouvait pas, et… j’aimais le sentir bête,
Ce héros qui n’a pas su trouver qu’il m’aimait.

J’ai fait des ricochets sur son cœur en tempête.
Il regardait cela… Vraiment, cela l’usait?…
Quel instrument rétif à jouer, qu’un poète!…
J’en ai joué. Vraiment moi cela m’amusait.

Est-il mort?… Ah c’était, du reste, un garçon drôle.
Aurait-il donc trop pris au sérieux son rôle,
Sans me le dire… au moins. Car il est mort, de quoi?…

Se serait-il laissé fluer de poésie…
Serait-il mort de chic2 de boire, ou de phtisie,
Ou, peut-être, après tout: de rien… ou bien de Moi.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
1. “Air de tête” constrói-se provavelmente sobre “voix de tête” (tom de voz agudo e estridente);
2. “Chic” é uma gíria do mundo da pintura no século XIX que se refere ao diletantismo e à pose, ao uso das formas da moda. O chic é um “mau uso da memória”.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Tristan Corbière: O Cachimbo do poeta

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Sou o Cachimbo de um poeta,
Sua ama: que a Besta lhe aquieta.

Quando um sonho cego apanha
A fronte em seu louco trajeto,
Fumego… e ele, no seu teto,
Já não vê as teias de aranha.

…Eu dou-lhe um céu de paisagens:
Nuvens, mar, deserto, miragens;
Seu olho morto ali se perde…

E quando a névoa se faz pesada
Crê ver uma sombra passada,
E minha boquilha ele morde…

Outra tormenta desabrida
Solta-lhe alma, corrente e vida!
… Sinto-me que apago. Ele dorme

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Dorme, pois dorme a Besta lassa.
Traga do sonho o conteúdo…
Pobre amigo!… a fumaça é tudo.
 Se é certo que tudo é fumaça.

Paris. — Janeiro.

Tristan Corbière

La Pipe au poète*

Je suis la Pipe d’un poète,
Sa nourrice, et: j’endors sa Bête.

Quand ses chimères éborgnées
Viennent se heurter à son front,
Je fume… Et lui, dans son plafond,
Ne peut plus voir les araignées**.

… Je lui fais un ciel, des nuages,
La mer, le désert, des mirages;
Il laisse errer là son œil mort…

Et, quand lourde devient la nue,
Il croit voir une ombre connue,
Et je sens mon tuyau qu’il mord…

Un autre tourbillon délie
Son âme, son carcan, sa vie!
… Et je me sens m’éteindre. Il dort

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Dors encor: la Bête est calmée,
File ton rêve jusqu’au bout…
Mon Pauvre!… la fumée est tout.
S’il est vrai que tout est fumée…

Paris. — Janvier***.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
* Variação sobre um poema de Baudelaire (“La Pipe”). ([traduções de] NA [Nelson Ascher] e RB [Régis Bonvicino], em Corpo Extranho, nº 3);
** — Jogo de palavras com a expressão “avoir des araignées dans le plafond”; Na Introdução deste Os Amores amarelos vemos: . . . “No alto, uma aranha tece sua teia. É bastante curiosa a forma como essa obra pictórica torna visual o movimento de linguagem preferido pelo poeta. Em francês, “avoir des araignées dans le plafond” designa a loucura, alteração psíquica  que o registro familiar dota de um tom irônico. “Ter macaquinhos no sótão" seria a expressão correspondente em português. . . .;
*** “Paris. — Janeiro” — Lembra a idéia de conforto do cachimbo ao pé do fogo, durante o inverno. De fato, “tudo é fumaça”, inclusive sobre os tetos da cidade de Paris, naquela época.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Tristan Corbière: Horas

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Esmola ao salteador em caça
Ao olho assassino um mau-olhado!
Ao espadachim ferro cruzado!
Minha alma não está em estado de graça!

Sou o lunático de Pamplona,
Meu medo é o riso que ressona:
É a Lua hipócrita no céu,
Horror! trazendo a noite com seu negro véu…

Já ouço a matraca se agitando…
É a mala hora me chamando.
Dentro do oco das noites cai: um dobre… dois

Já contei mais de quatorze horas…
A hora é uma lágrima  Choras,
Peito meu!… Cante mais, cante Conte depois.

Tristan Corbière

Heures1

Aumône au malandrin en chasse
Mauvais œil à l’œil assassin2!
Fer contre fer au spadassin!
Mon âme n’est pas en état de grâce!

Je suis le fou de Pampelune,
J’ai peur du rire de la Lune,
Cafarde, avec son crêpe noir…
Horreur! tout est donc sous un éteignoir.

J’entends comme un bruit de crécelle…
C’est la male heure qui m’appelle.
Dans le creux des nuits tombe: un glas… deux glas

J’ai compté plus de quatorze heures…
L’heure est une larme Tu pleures,
Mon cœur!… Chante encor, va Ne compte pas.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar: Esse poema de imagética estranha e alucinada se constrói dentro de um clima de Idade Média lendária.
1. Título — Na liturgia católica, as “horas” são a sequência de preces ou meditações que ocupam as diferentes horas do dia;
2. O “oeil assassin”, no vocabulário galante, é o olhar que fere o coração de forma eficaz.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

sábado, 7 de maio de 2022

Tristan Corbière: Desencorajoso

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Foi um poeta verdadeiro: Não tinha canto.
Morto: ele amava o dia e desdenhava o pranto.
Pintor: ele não pintava, esquecido que era…
Ele via muito  e ver é uma cegueira.

 Sonhador: habitava o sonho, que se esvai,
Sem ir com ele às nuvens, de onde se cai,
Sem abrir seu personagem e buscar-se dentro.

 Puro herói de romance: ele adorava a loura
Bruma ao sol que amorena, e a lua que nos doura…
Mas não amava nunca  Ele não tinha tempo. 

 Explorador incansável: Remos a remar
Cá embaixo ele via, do alto de seu olhar,
Lasso de piedade pelas boas remadas…

Mineiro das idéias: tocava a fronte espessa,
Para coçar uma espinha ou coçar a cabeça
Em seu trabalho  Fazer nada. 

 Falava: “Sim, a Musa é estéril! é filha
De amor, ociosidade, prostituição;
Não deformem a moça em ventre de família
Que cobre o garanhão para a reprodução!

“Entornem a massa, pedreiros das idéias!
Vocês que, amados por seu capricho insensato,
Tudo é vaidade! , quando o dia clareia,
Mostram-na com alarde aos olhos dos beatos!

“Ela acariciava, como se afoga um gato,
E vocês prenderam sua asa ou seu véu,
Orgulhosos de empunhar a pluma do pato,
Ou pó-de-mico, para agitar o pincel!”

 Ele dizia: “Ó florinha! Ingênuo Oceano!
Não creiam que nos faltem pintores e poetas!…
O vidraceiro pinta! e tem por sucedâneo
Um cego que canta raspando a palheta,

Ou um cego que pinta com a clarineta!
 É isso a arte?…”
                               Restou-lhe no Sublime Besta
Afogar o orgulho vazio e a virgindade.

Mediterrâneo.

Tristan Corbière

Décourageux1

Ce fut un vrai poète: Il n’avait pas de chant.
Mort, il aimait le jour et dédaigna de geindre.
Peintre: il aimait son art Il oublia de peindre…
Il voyait trop Et voir est un aveuglement.

Songe-creux2: bien profond il resta dans son rêve;
Sans lui donner la forme en baudruche qui crève,
Sans ouvrir le bonhomme, et se chercher dedans.

Pur héros de roman: il adorait la brune,
Sans voir s’elle était blonde… Il adorait la lune;
Mais il n’aima jamais Il n’avait pas le temps.

Chercheur infatigable: Ici-bas où l’on rame,
Il regardait ramer, du haut de sa grande âme.
Fatigué de pitié pour ceux qui ramaient bien…

Mineur de la pensée: il touchait son front blême,
Pour gratter un bouton ou gratter le problème
Qui travaillait là — Faire rien3.

Il parlait: “Oui, la Muse est stérile! elle est fille
D’amour, d’oisiveté, de prostitution4;
Ne la déformez pas en ventre de famille
Que couvre un étalon pour la production!”

“Ô vous tous qui gâchez5, maçons de la pensée!
Vous tous que son caprice a touchés en amants,
Vanité, vanité La folle nuit passée,
Vous l’affichez en charge aux yeux ronds des manants!6

“Elle vous effleurait, vous, comme chats qu’on noie,
Vous avez accroché son aile ou son réseau,
“Fiers d’avoir dans vos mains un bout de plume d’oie,
“Ou des poils à gratter, en façon de pinceau!”

Il disait: “Ô naïf Océan! Ô fleurettes,
Ne sommes-nous pas là, sans peintres, ni poètes!…
Quel vitrier a peint! quel aveugle a chanté!…
Et quel vitrier chante en râclant sa palette,

“Ou quel aveugle a peint avec sa clarinette!
Est-ce l’art?…”
                              Lui resta dans le Sublime Bête
Noyer son orgueil vide et sa virginité.

Méditerranée.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
1. Poema que faz parte da seção “Golpes da sorte” (“Raccrocs”: termo usado no jogo de bilhar). “Desencorajoso”, em tom de epitáfio, apresenta os fiascos da vida do poeta e termina com uma crítica ao pensamento e à arte burguesa dos contemporâneos;
2.Songe-creux” é o sonhador, aquele que devaneia;
3.Faire rien” é a tradução literal do italiano “farniente”;
4. [versos 17 e 18] – Os elementos evocados fazem referência e respondem ao poema “La Nuit de mai”, de Musset;
5.Gächer”, para o pedreiro, é o ato de misturar a massa. Mas significa estragar. “Entornar”, em português, pode significar perturbar, turvar;
6. [versos 23 e 24] – Trata-se ainda de uma resposta a Musset, à criação entendida como nobre sacrifício.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.