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Mote:
A minha Lília morreu.
Glosas
Assim como as flores vivem,
A minha Lília viveu;
Assim como as flores morrem,
A
minha Lilia morreu.
Assomando o negro dia,
Ave sinistra gemeu;
Cumpriu-se o funesto agouro:
A
minha Lilia morreu.
Desfalece, ó Natureza,
Acelera o fado teu;
Esta voz te guie ao Nada:
A
minha Lilia morreu.
Fadou-me o caso medonho
Vate que nos astros leu;
Os vates são como os Numes:
A
minha Lilia morreu.
Que é do Sol? Que é do Universo?
Tudo desapareceu;
Foi-se toda a Natureza:
A
minha Lilia morreu.
A minha ventura e Lília
Num só laço Amor prendeu:
Morreu a minha ventura,
A
minha Lilia morreu.
Em parte da minha essência
Minha essência pereceu;
Não vivo senão metade:
A
minha Lilia morreu.
Oh quanto ganhava o Mundo!
Oh, quanto o mundo perdeu!
Doce lucro e triste perda!
A
minha Lilia morreu.
Para exultar o Universo
A minha Lília nasceu;
Para os Numes exultarem
A
minha Lilia morreu.
Meu coração desgraçado,
Desgraçado porque és meu,
Evapora-te em suspiros:
A
minha Lilia morreu.
As estrelas se apagaram,
A Natureza tremeu,
Os promontórios gemeram,
A
minha Lilia morreu.
Disse, ao ver sereno eflúvio,
Que o puro Olimpo correu:
Aquela é a alma de Lília,
A
minha Lilia morreu.
*
Registro de Marisa Lajolo, selecionadora de textos e estudos biográfico e
crítico deste Bocage — Literatura Comentada:
Enraizada
na mais antiga tradição portuguesa, a poesia com mote é fartamente documentada
no Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende, publicado em 1516. Muito cultivada
por poetas do século XVI (Camões, inclusive), coexiste, a partir de então, com
formas mais modernas de poesia (medida nova), em oposição às quais é incluída
na medida velha.
Manifesta-se
usualmente através de poemas de versos curtos, onde o(s) verso(s) inicial(is)
que constitui(em) o mote, fornece(m) o tema e/ou assunto a ser desenvolvido no
resto da composição que, intitulada glosa, volta ou desenvolvimento, deve
incorporar o mote em diferentes posições no interior das estrofes.
Poemas
compostos por mote e glosa sugerem um modo de produção poético ligado a
comemorações: em tabernas ou salões, alguém fornece mote, como uma espécie de
desafio. Cabe aos poetas demonstrarem seu talento, através do improviso que
encadeia o mote, glosando-o.
O
poema com mote e glosa atravessa séculos e oceanos: em Memórias Póstumas de
Brás Cubas (Machado de Assis), 1880), uma personagem, o Viegas, durante uma
festa familiar, revive o antigo costume de pedir motes aos presentes e
glosá-los.
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Bocage — Literatura Comentada, Seleção
de textos, notas, estudos biográfico e crítico por Marisa Lajolo e Estudo
histórico por Ricardo Maranhão, 2ª edição, 1988, Editora Nova Cultural Ltda., São
Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 — 1805), nascido em Setúbal — Portugal,
foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista
na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte
para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia
naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando
então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar
sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas
artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano — anagrama de
Manoel, e Sadino — homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal);
em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e,
após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último
dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome
de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage,
Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora
Urselina, ...

