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segunda-feira, 8 de maio de 2023

Bocage: A minha Lília morreu [mote e glosas*]


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Mote:

A minha Lília morreu.

Glosas

Assim como as flores vivem,
A minha Lília viveu;
Assim como as flores morrem,
A minha Lilia morreu.

Assomando o negro dia,
Ave sinistra gemeu;
Cumpriu-se o funesto agouro:
A minha Lilia morreu.

Desfalece, ó Natureza,
Acelera o fado teu;
Esta voz te guie ao Nada:
A minha Lilia morreu.

Fadou-me o caso medonho
Vate que nos astros leu;
Os vates são como os Numes:
A minha Lilia morreu.

Que é do Sol? Que é do Universo?
Tudo desapareceu;
Foi-se toda a Natureza:
A minha Lilia morreu.

A minha ventura e Lília
Num só laço Amor prendeu:
Morreu a minha ventura,
A minha Lilia morreu.

Em parte da minha essência
Minha essência pereceu;
Não vivo senão metade:
A minha Lilia morreu.

Oh quanto ganhava o Mundo!
Oh, quanto o mundo perdeu!
Doce lucro e triste perda!
A minha Lilia morreu.

Para exultar o Universo
A minha Lília nasceu;
Para os Numes exultarem
A minha Lilia morreu.

Meu coração desgraçado,
Desgraçado porque és meu,
Evapora-te em suspiros:
A minha Lilia morreu.

As estrelas se apagaram,
A Natureza tremeu,
Os promontórios gemeram,
A minha Lilia morreu.

Disse, ao ver sereno eflúvio,
Que o puro Olimpo correu:
Aquela é a alma de Lília,
A minha Lilia morreu.


* Registro de Marisa Lajolo, selecionadora de textos e estudos biográfico e crítico deste Bocage — Literatura Comentada:
          Enraizada na mais antiga tradição portuguesa, a poesia com mote é fartamente documentada no Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende, publicado em 1516. Muito cultivada por poetas do século XVI (Camões, inclusive), coexiste, a partir de então, com formas mais modernas de poesia (medida nova), em oposição às quais é incluída na medida velha.
          Manifesta-se usualmente através de poemas de versos curtos, onde o(s) verso(s) inicial(is) que constitui(em) o mote, fornece(m) o tema e/ou assunto a ser desenvolvido no resto da composição que, intitulada glosa, volta ou desenvolvimento, deve incorporar o mote em diferentes posições no interior das estrofes.
          Poemas compostos por mote e glosa sugerem um modo de produção poético ligado a comemorações: em tabernas ou salões, alguém fornece mote, como uma espécie de desafio. Cabe aos poetas demonstrarem seu talento, através do improviso que encadeia o mote, glosando-o.
          O poema com mote e glosa atravessa séculos e oceanos: em Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), 1880), uma personagem, o Viegas, durante uma festa familiar, revive o antigo costume de pedir motes aos presentes e glosá-los.
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Bocage — Literatura Comentada, Seleção de textos, notas, estudos biográfico e crítico por Marisa Lajolo e Estudo histórico por Ricardo Maranhão, 2ª edição, 1988, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

sábado, 15 de abril de 2023

Bocage: Que eu fosse enfim desgraçado / Escreveu do Fado a mão; . . . — mote (quadra)

 
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Mote (quadra):

Que eu fosse enfim desgraçado
Escreveu do Fado a mão;
Lei do Fado não se muda;
Triste do meu coração!

GLOSA:

Três vezes sobre meus lares
Vozeou, quando eu nascia,
Ave que aborrece o dia,
Que prevê cruéis azares:
Amor dividira os ares
De seus tormentos cercado;
À funda estância do Fado
O voo havia abatido;
E ambos tinham resolvido
Que eu fosse enfim desgraçado*.

Esse, que os primeiros ais
Vai soltar triste, e choroso,
Seja à Fortuna odioso,
Seja prezado aos mortais.
Dos mimos de Amor jamais
Desfrute a consolação;
Ame, porém ame em vão,
Ferva-lhe n’alma o ciúme
Isto no horrendo volume
Escreveu do Fado a mão.

Cresci, cresceram comigo
Meus danos, e num transporte
Curva maga a ler-me a sorte
Com roucas preces obrigo:
Eis que toma um livro antigo,
Abre, vê, folheia, estuda,
Té que me diz carrancuda:
“Nos caracteres que olhei
Fim ao teu mal não achei:
Lei do Fado não se muda.

Absorto, convulso, e frio,
Deixo de erriçada grenha
A Fúria em côncava penha
Seu lar medonho, e sombrio:
Debalde luto e porfio
Contra a Sorte desde então.
Céus! Não achar compaixão!
Céus! Amar sem ser amado!
Bárbara lei do meu fado!
Triste do meu coração!


* Nota de Marisa Lajolo, selecionadora de textos e estudos biográfico e crítico deste Bocage — Literatura Comentada: O último verso de cada estrofe (chamada décima por conter dez versos) é constituído, respectivamente, por cada um dos versos que perfazem a estrofe fornecida ao poeta como mote.
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Bocage — Literatura Comentada, Seleção de textos, notas, estudos biográfico e crítico por Marisa Lajolo e Estudo histórico por Ricardo Maranhão, 2ª edição, 1988, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

terça-feira, 21 de março de 2023

Bocage: epístola — Elmano a Josino

 
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Epístola*

Elmano a Josino1

Dans ces climats... tout est sourd à mes cris2
M.me du Bocage, Tragédie des Amazones. Ato IV, cena VI.

Josino, meu Josino, a cujo lado
Gozei de alegres, venturosos dias,
Enquanto o quis Amor e o quis o Fado;
Sócio meu, que ora atento e mudo ouvias
A minha branda lira maviosa,
Ora a seus ternos sons teu canto unias;
Tu, que da linda Márcia carinhosa
Inflamas com mil ósculos ardentes
As faces cor de neve e cor‑de‑rosa;
Tu, que no ingénuo peito não consentes
O vício, que por lei da Natureza
Mancha e corrompe os corações ausentes;
Tu, que adorando as aras da Beleza,
Tributas nos altares da Amizade
Puros incensos, exemplar firmeza;
Tu, que desta alma ocupas a metade,
Ouve o trémulo som, com que suspira
Dentro dela a tristíssima Saudade.
Desde que a existência expus à ira
Do fero mar3, meu peito não sossega,
Meu pensamento esfalfa‑se, delira.
Indomável paixão, que a todos cega,
De teus conselhos falta, honrado amigo,
À desesperação minha alma entrega.
Louco fui, não pensei (mil vezes digo)
Que em horas se trocassem de tormento
Horas tão doces, que passei contigo;
Fiei‑me de um fugaz contentamento,
Devendo conhecer que os bens do mundo
São qual o sutil pó, que espalha o vento;
Por isso agora, aflito e vagabundo,
Estranho tanto o mal; por isso agora
De lágrimas sem fim meu rosto inundo;
Por isso, na paixão que me devora,
Invoco a muda paz da sepultura,
Da suspirada morte a feliz hora.
Míseros gostos! Mísera ternura!
Que sempre, injusto Amor, teus servos tenham
Queixumes que formar contra a ventura!
Uns, adorando ingratas que os desdenham,
Tarde no escuro abismo, em que descansa
O desengano horrível, se despenham;
Outros, chorando a pérfida mudança
De uma alma desleal, enfurecidos
Co’a morte arrostam, que no Inferno os lança;
Outros, enfim, como eu, correspondidos,
Depois, em longa ausência amarga e crua,
Arrancam das entranhas mil gemidos.
Tal, fraudulento Amor, é a lei tua,
Lei que o Fado aprovou para que a Terra
A si mesma se estrague e se destrua.
Ah Josino fiel! Que horror faz guerra
Aos tristes olhos meus nestes lugares,
Onde me pôs a Sorte, onde me encerra!
Sem medo à fúria dos terríveis mares,
Vim do culto, benéfico Ocidente
Viver com tigres, habitar palmares:
Aqui tórrida zona abafa a gente,
Ferve o clima, arde o ar, e eu não sinto,
Que tu, fogo de Amor, és mais ardente;
Aqui vago em perpétuo labirinto
Sempre em risco de ver maligno braço
No próprio sangue meu banhado e tinto.
Mas caso dos perigos eu não faço,
E que posso temer, quando procuro
Rasgar da frágil vida o tênue laço?
Enche‑me, sim, de horror o culto impuro
Ídolos vãos, sacrílegos altares,
Vis cerimônias deste povo escuro.
Eterno Deus! Não longe de teus lares
Tépida nuvem de maldito incenso,
Dado ao negro Satã, perturba os ares.
Que tolerância tens, Monarca imenso!
Por mais crimes, Senhor, que o mundo faça,
Tudo releva teu Amor intenso.
Desce, ah desce dos Céus, potente graça,
Difunde a santa luz, a santa crença
Pelos cegos mortais que o erro enlaça!
Volto, Josino, a ti. Letal doença
Do Báratro surgiu, veio intimar‑me
A antiga, universal, cruel sentença;
Negras fauces abriu para tragar‑me;
Porém cedeu, rugindo, à voz divina,
Que a vida, a meu pesar, quis conservar‑me.
Eis que pérfida mão cabal ruína4
(Sepultando o dever no esquecimento)
A todos nos prepara e nos destina.
Rasgado o peito co’um punhal cruento,
Ia baixar o teu choroso amigo,
Qual vítima inocente, ao monumento:
Uma alma infame, um bárbaro inimigo
Da fé, das leis, do trono, um desumano,
Merecedor de eterno, de infernal castigo,
Tendo embebido seu furor insano
Na falsa gente brâmane inquieta,
Que amaldiçoa o jugo lusitano,
Contra nós apontava a mortal seta.
Mas estorvou o inevitável tiro
A mão divina, poderosa e reta.
Desenvolveu‑se o crime, inda respiro,
E já destes, ó réus de atroz maldade,
Em vis teatros o final suspiro5.
Eis, amigo, a recente novidade,
Que da remota Goa ao Tejo envio
Nas murchas, débeis asas da Saudade.
A quem tem da tua alma o senhorio,
Of ’reço numa férvida lembrança
Provas do afeto, em que jamais esfrio.
Dize à minha dulcíssima esperança,
À suave prisão desta alma aflita,
Que no meu coração não há mudança;
Que estou gemendo aqui, bem como grita
Pelo perdido, alígero consorte
Viúva rola, que a floresta habita;
Que é a minha paixão tão forte,
Que há-de na escuridão da sepultura
Volver‑me as cinzas, superior à morte;
E que espero, apesar da ausência dura,
Por milagre de Amor, que os meus gemidos,
Voando aos lares seus, aos seus ouvidos,
Lhe vão justificar minha ternura.


Registro e Notas de Marisa Lajolo, selecionadora de textos e estudos biográfico e crítico deste Bocage — Literatura Comentada:
* Epístola — A epístola é uma composição poética que mimetiza, em versos, a situação de produção de uma carta. Deve mencionar, obrigatoriamente, o remetente e o destinatário, aparecendo este, geralmente, na função de vocativo, no início do texto.
          Identificada, assim, por traços formais, a epistola costuma configurar um poema longo, que permite a exposição de um determinado ponto de vista. [...]
1. Na menção explícita a um remetente (Elmano, pseudônimo de Bocage) e a um destinatário (Josino) temos os elementos que permitem reconhecer este texto como uma epístola.
2. A epígrafe em francês, retirada da Tragédia das Amazonas, diz: “Nesses climas... tudo é surdo aos meus gritos”. Madame du Bocage é provavelmente uma tia materna do poeta.
3. Estes versos, em que Bocage fala de sua viagem, nos permitem classificar esta epístola como um documento de sua vida no ultramar, provavelmente em Goa.
4. Bocage, aqui, narra a seu amigo Josino uma tentativa do povo de Goa de libertar-se do jugo português. Trata-se, provavelmente, da Conjuração dos Pintos, cujos líderes foram condenados à morte, com exceção de padre Faria, que conseguiu fugir para a França.
5. Bocage alude aqui à execução dos conjurados.
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Bocage — Literatura Comentada, Seleção de textos, notas, estudos biográfico e crítico por Marisa Lajolo e Estudo histórico por Ricardo Maranhão, 2ª edição, 1988, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

sexta-feira, 10 de março de 2023

Bocage: Estando enfermo um poeta, . . . & outros epigramas

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II

A um mulato comilão que murmurava de mim

Dizem que o Flavio glutão
Em Bocage aferra o dente:
Ora é forte admiração
Ver um cão morder na gente!

— 

III

A um mau médico

Doutor, até do hospital
Te sacode enfermo bando.
Qual será disto a causal?
É porque, em tu receitando,
Qualquer doença é mortal.

— 

IV

Estando enfermo um poeta,
Foi visitá-lo um doutor,
E em rigorosa dieta
Logo, logo, o mandou pôr.

“Regule-se, coma pouco”
(Diz-lhe o médico eminente).
“Ai, senhor! (acode o louco)
Por isso é que estou doente.”

— 

V

Epigrama imitado

Levando um velho avarento
Uma pedrada num olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo doutor, não das dúzias,
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

«Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso.»

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Bocage — Literatura Comentada, Seleção de textos, notas, estudos biográfico e crítico por Marisa Lajolo e Estudo histórico por Ricardo Maranhão, 2ª edição, 1988, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Álvares de Azevedo: Spleen e Charutos * — (I) Solidão

Literatura Comentada Alvares de Azevedo
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Nas nuvens cor de cinza do horizonte
A lua amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.

Ergueu-se, vem da noite a vagabunda
Sem xale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É doida por amor da noite a filha.

As nuvens são uns frades de joelhos,
Rezam adormecendo no oratório;
Todos têm o capuz e bons narizes
E parecem sonhar o refeitório.

As árvores prateiam-se na praia,
Qual de uma fada os mágicos retiros...
Ó lua, as doces brisas que sussurram
Coam dos lábios teus como suspiros!

Falando ao coração que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
De ondas mortas no lençol de prata?

Minh'alma tenebrosa se entristece,
É muda como sala mortuária...
Deito-me só e triste, sem ter fome
Vendo na mesa a ceia solitária.

Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear comigo!


* Nota dos Organizadores: Spleen: palavra inglesa que sugere tédio, depressão, inatividade, estando geralmente ligada à ideia de mal do século. "Spleen e Charutos": nome bastante original, de certa forma até galhofeiro, uma vez que aproxima um estado de espírito e um objeto concreto e prosaico, mencionado repetidas vezes por Álvares de Azevedo em sua obra.
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Álvares de Azevedo  Literatura Comentada, seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por: Bárbara Heller, Luís Percival Leme de Brito e Marisa Lajolo, 1982, Editora Abril, São Paulo — SP; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Bocage: Camões, grande Camões, quão semelhante . . . (Soneto)

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Camões, grande Camões, quão semelhante 
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!1
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo, 
Arrostar co'o sacrílego gigante;2

Como tu, junto ao Ganges sussurrante, 
Da penúria cruel no horror me vejo; 
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, 
Também carpindo estou, saudoso amante. 

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura 
Meu fim demando ao Céu, pela certeza 
De que só terei paz na sepultura. 

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!... 
Se te imito nos transes da Ventura, 
Não te imito nos dons da Natureza. 




Nota da organizadora:
1. Este soneto, em que Bocage se auto-identifica a Camões, é bastante conhecido. A propósito dele, convém lembrar que, no Arcadismo, o Classicismo era tomado como modelo e, com isso, a escolha de Camões como padrão de excelência poética não se confunde com a identidade na desgraça, a que Bocage alude;

2. O “sacrílego gigante” pode ser entendido como o gigante Adamastor, figura através da qual, em Os Lusíadas, Camões representa o cabo das Tormentas (sul da África) que, antes da expedição de Vasco da Gama, limitava o mar conhecido e navegável. Bocage, aqui, refere-se à viagem que tanto ele quanto Camões fizeram às Índias, cujo itinerário exigia a passagem pelo cabo da Boa Esperança (antes cabo das Tormentas).
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Bocage — Literatura Comentada (seleção de textos, notas, estudos biográfico e crítico — Marisa Lajolo; estudo histórico — Ricardo Maranhão), 1988, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765  1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano  anagrama de Manoel, e Sadino  homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, às quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Álvares de Azevedo: Lembrança de Morrer

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No more! o never more!
Shelley

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro

 Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade 
 é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade  é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos 
 bem poucos  e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

 Foi poeta  sonhou  e amou na vida. 

Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!


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Álvares de Azevedo  Literatura Comentada, seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por: Bárbara Heller, Luís Percival Leme de Brito e Marisa Lajolo, 1982, Editora Abril, São Paulo — SP; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).