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domingo, 21 de novembro de 2021

Ana Akhmátova: Tranquilo corre o Don silencioso, . . .

 
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2.

[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

Tranquilo corre o Don silencioso,
Amarela, a lua entra em casa,

Entra, o boné de viés,
Vê uma sombra, amarela, a lua.

Essa mulher está enferma,
Essa mulher está só,

Marido na cova, filho no xadrez,
Rogai por mim.

[1938]

Ana Akhmátova

II

Тихо льется тихий Дон,
Желтый месяц входит в дом.

Входит в шапке набекрень.
Видит желтый месяц тень.

Эта женщина больна,
Эта женщина одна.

Муж в могиле, сын в тюрьме,
Помолитесь обо мне.

[1938]
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961) Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Ana Akhmátova: Voam leves as semanas, . . .

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

6.

Voam leves as semanas,
O que se passou, não entendo.
Como te olhavam, filhinho,
Na prisão as noites brancas,
E como te olham ainda
Seus olhos quentes de gavião,
E falam da tua cruz
Alta e da tua morte.

(1939.)

Ana Akhmátova

VI

Легкие летят недели,
Что случилось, не пойму.
Как тебе, сынок, в тюрьму
Ночи белые глядели,
Как они опять глядят
Ястребиным жарким оком,
О твоем кресте высоком
И о смерти говорят.

[Весна (1939.) г.]
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; suas obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961) Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Ana Akhmátova: À morte

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

8.

Vais vir mesmo, por que não agora?
Espero-te  estou muito mal.
Apaguei a luz e escancarei a porta
Para ti, tão prodigiosa e simples.
Assume para isso o aspecto que quiseres,
Penetra, envenenado projétil
Ou sorrateira aproxima-te, adestrado bandido,
Ou como a névoa do tifo* sufoca-me.
Ou então, como uma fábula por ti inventada
E conhecida de todos, até à náusea 
Faz com que eu veja a ponta de um barrete azul**
E branco de medo, o administrador.
Para mim agora tudo é indiferente. Enovela-se o Ienissei,
Fulgura a estrela do norte.
E o brilho azul dos olhos amados
O último horror encobre.

19 de agosto de 1939. Casa da Fontanka.

Ana Akhmátova

8.

К СМЕРТИ

Ты все равно придешь  зачем же не теперь?
Я жду тебя  мне очень трудно.
Я потушила свет и отворила дверь
Тебе, такой простой и чудной.
Прими для этого какой угодно вид,
Ворвись отравленным снарядом
Иль с гирькой подкрадись, как опытный бандит,
Иль отрави тифозным чадом.
Иль сказочкой, придуманной тобой
И всем до тошноты знакомой, 
Чтоб я увидела верх шапки голубой
И бледного от страха управдома.
Мне все равно теперь. Клубится Енисей,
Звезда Полярная сияет.
И синий блеск возлюбленных очей
Последний ужас застилает.

19 августа 1939, Фонтанный Дом

Notas dos tradutores:
* Durante a epidemia de tifo era hábito ferver todos os indumentos, havendo portanto muito vapor nas casas dos doentes;
** Cor do uniforme dos agentes da NKVD.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Ana Akhmátova: A loucura com sua asa . . .

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

9.

A loucura com sua asa
Já cobriu meia alma,
Ela verte um vinho inflamado
E atrai-me ao vale negro.

Já compreendi que a ela
Devo ceder a vitória,
Ouvindo meu delírio
Como se fosse o alheio.

E nada ela permite
Que leve embora comigo
(Por mais que lhe implore
E a enfade, lamurienta):

Nem os olhos terríveis do filho 
Petrificada dor ,
Nem o dia em que veio a tempestade,
Nem a hora de adeus no calabouço,

Nem o frescor de mãos suaves,
Nem as sombras agitadas das tílias,
Nem o leve som longínquo
Dos últimos consolos.

4 de maio de 1940, Casa da Fontanka.

Ana Akhmátova

9.

Уже безумие крылом
Души накрыло половину,
И поит огненным вином,
И манит в черную долину.

И поняла я, что ему
Должна я уступить победу,
Прислушиваясь к своему
Уже как бы чужому бреду.

И не позволит ничего
Оно мне унести с собою
(Как ни упрашивай его
И как ни докучай мольбою):

Ни сына страшные глаза —
Oкаменелое страданье,
Ни день, когда пришла гроза,
Ни час тюремного свиданья,

Ни милую прохладу рук,
Ни лип взволнованные тени,
Ни отдаленный легкий звук —
Слова последних утешений.

4 мая 1940, Фонтанный Дом.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; suas obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 19091960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Ana Akhmátova: Há dezessete meses eu grito . . .


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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

5.

Há dezessete meses eu grito,
Te chamo para casa.
Joguei-me aos pés do carrasco,
Meu filho e meu terror.
Tudo turvou-se para sempre,
Não posso mais distinguir
Quem é homem ou fera e quanto
A pena me cabe esperar.
Há somente flores de pó,
E o tilintar do turíbulo, e rastros,
Algures, para lugar nenhum.
Direto nos olhos fita-me
E ameaça de morte próxima
A enorme estrela.

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Ana Akhmátova

5.

Семнадцать месяцев кричу,
Зову тебя домой.
Кидалась в ноги палачу
Ты сын и ужас мой.
Все перепуталось навек,
И мне не разобрать
Теперь, кто зверь, кто человек,
И долго ль казни ждать.
И только пышные цветы,
И звон кадильный, и следы
Куда-то в никуда.
И прямо мне в глаза глядит
И скорой гибелью грозит
Огромная звезда.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889  1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; bibliografia:  Entardecer (1912), Rosário  (1914), Rebanho branco (1917), Capim  (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e a partir daí Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

domingo, 17 de junho de 2018

Ana Akhmátova: Veredicto

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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

7.

E a palavra de pedra caiu
Em meu peito ainda vivo.
Não é nada, já estava preparada,
Darei um jeito, de qualquer maneira.

Hoje, tenho muito que fazer:
É preciso acabar com o eco da memória,
É preciso que a alma se transforme em pedra,
É preciso reaprender a viver.

Se não... O quente farfalhar do estio,
Uma festa, atrás do meu postigo.
Há tempo pressentira esse
Dia claro e a casa vazia.

22 de junho de 1939. * Casa da Fontanka. **

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Ana Akhmátova

7.

Приговор

И упало каменное слово
На мою еще живую грудь.
Ничего, ведь я была готова,
Справлюсь с этим как-нибудь.

У меня сегодня много дела:
Надо память до конца убить,
Надо чтоб душа окаменела,
Надо снова научиться жить.

А не то... Горячий шелест лета,
Словно праздник за моим окном.
Я давно предчувствовала этот
Светлый день и опустелый дом.

1939. летo

Notas dos tradutores:
* A data se refere à condenação de Lev Gumilióv [1912  1992, filho de Ana Akhmátova] para o campo de concentração;
** Casa de Fontanka ou Fontánni Dom, nome dado ao palácio dos condes Cheremiétiev, sobre o rio Fontanka, em São Petersburgo, construído em 1750-1755 pelos arquitetos F. S. Argunóv e S. I. Chevakínski; a poetisa residiu ali, juntamente com outras pessoas, de 1923 a 1941.
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Réquiem Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo SP; Ana Akhmatóva (1889  1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; bibliografia: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e a partir daí Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.