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domingo, 6 de abril de 2025

Cecília Meireles: A canção dos tamanquinhos

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Troc... troc... troc... troc…
ligeirinhos, ligeirinhos,
troc... troc... troc. troc…
vão cantando os tamanquinhos…

Madrugada. Troc... troc...
pelas portas dos vizinhos
vão batendo, Troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos…

Chove. Troc... troc... troc...
no silêncio dos caminhos
alagados, troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos...

E até mesmo, troc... troc...
os que têm sedas e arminhos,
sonham, troc... troc... troc...
com seu par de tamanquinhos…

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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora de Literatura Luso-Brasileira da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; além das já citadas, outras obras: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

sábado, 12 de novembro de 2022

Cecília Meireles: Passarinho no sapé

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P tem papo
o P tem pé
É o P que pia?
(Piu!)

Quem é?
O P não pia:
O P não é.
O P só tem papo
e pé.

Será o sapo?
O sapo não é.

(Piu!)

É o passarinho
que fez seu ninho
no sapé.

Pio com papo.
Pio com pé.
Piu-piu-piu:
Passarinho.

Passarinho
no sapé.

[1987]

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Poesia infantil e juvenil brasileira — Uma ciranda sem fim [ensaios/estudos de vários autores], Organização e Apresentação de Vera Teixeira de Aguiar e João Luís Ceccantini, 2012, Associação Núcleo Editorial Proleitura (ANEP), Cultura Acadêmica Editora, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; além das já citadas, outras obras: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Cecília Meireles: Ou isto ou aquilo

 
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Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
E vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Ou Isto ou Aquilo (1964)

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Poesia infantil e juvenil brasileira — Uma ciranda sem fim [ensaios/estudos de vários autores], Organização e Apresentação de Vera Teixeira de Aguiar e João Luís Ceccantini, 2012, Associação Núcleo Editorial Proleitura (ANEP), Cultura Acadêmica Editora, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; além das já citadas, outras obras: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Cecília Meireles: Canção da tarde no campo

 
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Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água parada.

(Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.)
Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

(Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.)

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua:
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

(Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.)

De tanto olhar para longe
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

(Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.)

(Poemas dos Poemas — 1923)

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; além das já citadas, outras obras: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

domingo, 15 de maio de 2022

Cecília Meireles: Viola

 
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Minha cantiga servia
para dizer coisas densas
que apenas eu mesmo ouvia.

Foi a palavra quebrada
por muito encontro guerreiro:
ferozes golpes de espada
na tênue virtude alada
de um coração prisioneiro.

Cantar não adianta nada.

Explicar-se não se explica.

Por entre coisas imensas,
torto e ignorado se fica.

Com pensativos vagares,
de fundos poços me abeiro:
chorar é muito mais fácil
e talvez mais verdadeiro.

(Mar Absoluto e outros poemas — 1945)

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; mais obras se somam às já citadas: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

domingo, 8 de maio de 2022

Cecília Meireles: Velho estilo

 
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Corpo mártir, conheço o teu mérito obscuro:
tu soubeste ficar imóvel como o firmamento,
para deixar passar as estrelas do espírito,
ardendo no seu fogo e voando no seu vento...

Corpo mártir que és dor, que és transe, que és silêncio,
e onde, obediente, vai batendo o coração,
sei que foste esquecido, e, quando um dia te acabares,
não é por ti que os olhos chorarão.

Ninguém viu que tu foste o solo e o oceano dócil
que sustentou jardins e embalou tanta viagem,
que distribuiu o amor, e mostrou a beleza,
dando e buscando sempre a sua própria imagem.

Um dia tu serás símbolo, ideia, sonho,
tudo o que agora apenas eu compreendo que és:
porque um dia virá que, nesta marcha do infinito,
alguém se lembrará que o mais alto dos cânticos
pousou, na terra, sobre uns pobres pés.

(Vaga Música — 1942)

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; mais obras, além das já citadas: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Cecília Meireles: Desenho

 
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Fui morena e magrinha como qualquer polinésia1,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam.

Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão2, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel3 colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas,
Levai-me aonde quiserdes! Aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

[Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)]


Notas da edição — Vocabulário:
1. Polinésia: Pessoa de uma raça que se espalha pela Oceania.
2. Burlão: Que pratica burla, isto é, logro ou zombaria.
3. Vergel: Jardim; pomar.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversos autores), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), nascida no Rio de Janeiro RJ, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; mais obras da poeta: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1a. edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Cecília Meireles: Xadrez

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Leva-me o tempo para a frente
Certo de sua direção
Pausado passo indiferente
(Peão.)

Que ímpeto me vem de repente
e se esforça por contrariá-lo?
Ó nervosa crina, asa ardente!
(Cavalo.)

Talvez meu poder aumente,
e o tempo invicto alcance e toque...
Como, porém, mudar-lhe a ação?
(Roque.)

Leva-me o tempo para a frente,
dizendo passo a passo: "És minha!"
"Rainha!"

E apenas digo, debilmente
Como quem sonha e se persuade
Tua, apenas tua serei...
"Rei!"

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Tabuleiro da vida: O xadrez na história. Histórias do xadrez — Herbert Carvalho, 2004, Editora Senac, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), nascida no Rio de Janeiro RJ, foi poeta, ensaísta, cronista, folclorista, tradutora e educadora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois, vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; bibliografia: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1a. edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Luis Cané: Romance da Menina Preta

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[traduzido por Cecília Meireles]

Toda vestida de branco,
muito engomadinha e quieta,
à porta de sua casa
estava a menina preta.

Grande laçarote branco
lhe ornamentava a cabeça;
e, pelo pescoço, muitas
voltas de contas vermelhas.

As outras crianças do bairro
brincavam com as companheiras.
As outras crianças do bairro
nunca brincavam com ela.

Toda vestida de branco,
muito engomadinha e quieta,
no seu silêncio sem lágrimas
chorava a menina preta.

Toda vestida de branco,
muito engomadinha e quieta,
dentro de um caixão de pinho
descansa a menina preta.

Um anjo branco à presença
de Deus a menina leva.
Não sabe a menina preta
se há de estar triste ou alegre.

Deus afaga-lhe a cabeça,
contemplando-a docemente,
e um lindo par de asas brancas
às suas espáduas prende.

Com seus dentes de canjica
sorri a menina preta.
Deus chama todos os anjos
e diz: “vão brincar com ela!”

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Luis Cané

El romance de la niña negra

Toda vestida de blanco,
almidonada y compuesta,
en la puerta de su casa
estaba la niña negra.

Un erguido moño blanco
decoraba su cabeza;
collares de cuentas rojas
al cuello le daban vueltas.

Las otras niñas del barrio
juegan en la vereda;
las otras niñas del barrio
no quieren jugar con ella.

Toda vestida de blanco,
almidonada y compuesta,
en un silencio sin lágrimas,
lloraba la niña negra...

Toda vestida de blanco,
almidonada y compuesta,
en un féretro de pino
reposa la niña negra.

A la presencia de Dios
un ángel blanco la lleva;
la niña negra no sabe
si ha de estar triste o contenta.

Dios la mira dulcemente,
le acaricia la cabeza
y hermosas alas blancas
a sus espaldas sujeta.

Los dientes de mazmorra
brillan en la niña negra.
Dios llama a los ángeles
y dice: ¡Jugad con ella!
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Luis Cóndor Malmierca Cané (1897  1957), argentino de Mercedes, província de Buenos Aires, foi notário, escritor, jornalista e poeta; estreou na literatura com Mal estudiante (poesias, 1925); sua poesia foi influenciada por poetas da Idade de Ouro da Espanha, Quevedo, Gôngora e Lope de Veja; bibliografia: em poesia, Mal estudiante (1925), Tiempo de vivir (1927), Romancero del Rio de la Plata (1936), Cancionero de Buenos Aires (1937), Nuevos romances y cantares de la colonia (1938), Tu amor y veinte centavos (1945), em prosa, Marido para mi hermanita, El amor de las muchachas, Romance de la niña negra, para teatro, Vanidad, La mujer que yo he soñado, Um agujero para mirar el cielo.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Cecília Meireles: Destino

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Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina tão desamparada
que não principia nem também termina,
e onde nunca é noite e nunca madrugada.

(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, por muito que espere,
não há quem me explique meu vário rebanho.
Perdida atrás dele na planície aérea,
não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.

(Pastores da terra, que saltais abismos, 
nunca entendereis a minha condição.
Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instáveis das reses dispersas.

(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como é tão serena a vossa ocupação!
Tendes sempre o indício da sombra que foge...
Eu, não.)

Pastora de nuvens, não paro nem durmo 
neste móvel prado, sem noite e sem dia.
Estrelas e luas que jorram, deslumbram
o gado inconstante que se me extravia.

(Pastores da terra, debaixo das folhas
que entornam frescura num plácido chão,
sabeis onde pousam ternuras e sonos.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dono da reses, do dono do prado.
E ás vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, não sei por que lado.

(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginação,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não.)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.

(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)

Poesia completa  edição do
 centenário, 2 volumes, 2001

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo —  SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901  1964), nascida no Rio de Janeiro  RJ, foi poeta, ensaísta, cronista, folclorista, tradutora e educadora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois, vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; bibliografia: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Elegia (1933  1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955),  Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.