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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Kurt Bartsch: Natureza morta com faxineira

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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Cresce a grama sobre a via morta
Aqui antes passava o bonde
De oeste a leste leste a oeste
FECHANDO AS PORTAS, PARA TRÁS
Os trilhos enferrujando, as pontes
transpõem ruas mortas, as ruas
fechadas com muros, cimento, pra
eu não cair fora, diz Trude. Nossa,
tudo isso por causa de alguém que não
sabe nada, só lava escada, esfrega o chão
Ela ri, então a gente tem de
ficar aqui, você não acha

Kurt Bartsch

Stilleben mit Putzfrau

Gras wächst über die toten Gleise
Hier fuhr einst die S-Bahn
Von West nach Ost nach West
DIE TÜREN ACHLIESSEN, ZURÜCKBLEIBEN
Die Schienen rosten, die Brücken
Überquern tote Straßen, die Straßen
Mit Mauern verbaut, Beton, damit
Ich nicht sitften gehe, sagt Trude *. Ach
Soviel Aufwand für eine, die nicht
Kann als Treppen wischen, Füßböden scheuern
Sie lächelt, da muß man já
Hierbleiben, finden Sie nicht

* Nota dos tradutores: Apresentada aqui pelo nome “Trude” (apelido de Gertrud), a faxineira Joana é uma personagem recorrente nos textos em que Bartsch ironiza a vida do proletariado de vitrine socialista. As razões dadas pela faxineira para ficar na RDA contrapõem o quotidiano ao “Estado operário-camponês”: quem nada sabe vai fazer o quê do outro lado do muro? Tornou-se piada recorrente na RDA o abastardamento da sigla DDR (correspondente em alemão para RFA) como Der Dumme Rest — “o resto estúpido”.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Kurt Bartsch (1937 2010), alemão de Berlim, frequentou uma escola primária berlinense na [rua] Friedrichstraße, não concluiu o ginásio, começou a labutar cedo, trabalhou como vendedor de caixões, coveiro e, depois, como redator publicitário e assistente editorial na Aufbau-Verlag, foi poeta, dramaturgo e crítico literário; embora tenha sido aprovado preliminarmente na Weißensee Kunsthochschule Berlin [Escola de Artes Weißensee, Berlim], não pôde iniciar seus estudos por não possuir diploma do ensino médio; publicou seus primeiros textos, fragmentos satíricos, no início da década de 60; o poeta e dramaturgo, devido a suas publicações, paródias e peças cômicas de teatro frequentemente não saírem a gosto da cultura oficial e dos padrões da RDA (ex-Alemanha Oriental, socialista), o real socialismo, teve obras não publicadas no país e raramente suas peças foram ali encenadas; em 1980, de posse de um visto permanente de emigração, Kurt Bartsch mudou-se para Berlim (Ocidental), na então RFA (ex-Alemanha Ocidental, capitalista, hoje Alemanha), continuou escrevendo e publicando, inclusive livros infantis e peças radiofônicas; suas obras: Zugluft. Gedichte, Sprüche, Parodien (coletânea de poemas, 1968), Die Lachmaschine. Gedichte, Songs und ein Prosafragment (poemas, canções e fragmento em prosa, 1971), Kalte Küche. Parodien (1974), Der Bauch und andere Songspiele (peça, 1974), Kaderakte. Gedichte und Prosa (1979), Wadzeck. Roman (romance, 1980), Die Hölderlinie. Parodien (1983), Fanny Holzbein [romance autobiográfico, conta a infância do autor poeta, 2004) e outros títulos; é considerado, hoje, um dos principais representantes do círculo da Sächsischen Dichterschule [Escola de Poetas da Saxônia].

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Kurt Bartsch: Hades

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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Minha avó, velha massacrada
(O marido, um mineiro, morreu de cachaça)
jaz sepultada no muro entre leste e oeste 1.
Quando vou a ela no verão/inverno
No reino dos mortos (Hera arame farpado
Cresce das sepulturas, cuidado! ZONA DE FRONTEIRA)
Tenho de ter uma senha, que mostro
A pedido de Herr Cérbero 2
Porteiro do Hades, disfarçado de Guarda do Povo

Kurt Bartsch

Hades

Meine Großmutter, vielgeprügelte Alte
(Der Mann, ein Bergarbeiter, starb am Schnaps)
Liegt an der Mauer zwischen Ost und West begraben.
Wenn ich im Sommer/Winter zu ihr gehe
Ins Reich der Toten (Efeu Stacheldraht
Wächst aus den Gräbern, Achtung! GRENZGEBIET)
Muß ich ein Schriftstück haben, dieses zeige
Ich auf Verlangen von Herrn Cerberus
Wächter des Hades, verkleidet als Volkspolizist.

* Notas dos tradutores:
1 O cemitério da Sophienkirchgemeinde está situado exatamente na fronteira entre os dois muros paralelos que formavam o Muro de Berlim. Fica ao lado da Bernauer Straße, frequentemente mencionada por Bartsch. Quem morasse, como Bartsch, em Berlim Oriental, poderia chegar ao cemitério apenas com uma permissão especial provisória  situação análoga à do poema “Rua de Bernau”.
2 Cérbero – o cão de três cabeças da mitologia grega, filho de Typhon, protege o acesso ao Hades, reino dos mortos.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Kurt Bartsch (1937 2010), alemão de Berlim, frequentou uma escola primária berlinense na [rua] Friedrichstraße, não concluiu o ginásio, começou a labutar cedo, trabalhou como vendedor de caixões, coveiro e, depois, como redator publicitário e assistente editorial na Aufbau-Verlag, foi poeta, dramaturgo e crítico literário; embora tenha sido aprovado preliminarmente na Weißensee Kunsthochschule Berlin [Escola de Artes Weißensee, Berlim], não pôde iniciar seus estudos por não possuir diploma do ensino médio; publicou seus primeiros textos, fragmentos satíricos, no início da década de 60; o poeta e dramaturgo, devido a suas publicações, paródias e peças cômicas de teatro frequentemente não saírem a gosto da cultura oficial e dos padrões da RDA (ex-Alemanha Oriental, socialista), o real socialismo, teve obras não publicadas no país e raramente suas peças foram ali encenadas; em 1980, de posse de um visto permanente de emigração, Kurt Bartsch mudou-se para Berlim (Ocidental), na então RFA (ex-Alemanha Ocidental, capitalista, hoje Alemanha), continuou escrevendo e publicando, inclusive livros infantis e peças radiofônicas; suas obras: Zugluft. Gedichte, Sprüche, Parodien (coletânea de poemas, 1968), Die Lachmaschine. Gedichte, Songs und ein Prosafragment (poemas, canções e fragmento em prosa, 1971), Kalte Küche. Parodien (1974), Der Bauch und andere Songspiele (peça, 1974), Kaderakte. Gedichte und Prosa (1979), Wadzeck. Roman (romance, 1980), Die Hölderlinie. Parodien (1983), Fanny Holzbein [romance autobiográfico, conta a infância do autor poeta, 2004) e outros títulos; é considerado, hoje, um dos principais representantes do círculo da Sächsischen Dichterschule [Escola de Poetas da Saxônia].

terça-feira, 18 de junho de 2024

Kurt Bartsch: Tango Berlim


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

para Katharina Thalbach

Venham para a dança em cima do vulcão
O que viram no céu, o vermelho clarão
Era o bom e velho fim de tarde
Mas o que vem a seguir não é isso, não
Berlim, teu dançarino é a morte.

Dança um homem com uma bela dama
A rua calma, de manhã a luz é cinza
na medida em que ao longe o céu se enche
de fogo, sangue, não há quem saiba
Berlim, teu dançarino é a morte.

Dançam todos, o pai a mãe e o filho
ao rufo turvo e às sirenes, o canto
que há horas dos telhados avisa: má sorte
Morrem todos, o pai a mãe e o filho
Berlim, teu dançarino é a morte.

Kurt Bartsch

Tango Berlin

für Katharina Thalbach 1

Wie laden em zum Tanz auf dern Vulkan.
Der rote Sebein, den Sie am Himmel sahn
Das war das gute alte Abendrot
Doch bald danach fängt etwas andres an.
Berlin, dein Tänzer ist der Tod. 2

Es tanzt ein Mann mit einer schönen Frau.
Die Straße still, das Licht der Frühe grau
Indes im Fernen schon der Himmel loht
Von Feuer, Blut, man weiß es nicht genau.
Berlin, dein Tänzer ist der Tod.

Es tanzen alle, Vater Mutter Sohn
Nach dunkler Trommel und Sirenenton
Der uns seit Stunden von den Dächern droht.
Es sterben alle, Vater Mutter Sohn.
Berlin, dein Tanzer ist der Tod.

Notas dos tradutores:
1 Katharina Thalbach — nasceu em 1954, filha da atriz Sabine Thalbach e do diretor Benno Besson. Atriz famosa, fez o papel de Maria Matzerath no filme “O Garoto do Tambor” (1979), de Volker Schlöndorff, baseado no romance Die Blechtrommel, de Günther Grass. Emigrou, com Thomas Brasch, para a RDA em 1976.
2 Berlin, dein Tänzer ist der Tod! — canção de cabaret com música de Friedrich Hollaender e letra de Walter Mehring, lançada no início dos anos 20, os “anos loucos” na capital da República de Weimar. Antes disso, em novembro de 1918, as paredes de Berlim estavam repletas de cartazes anti-revolucionários, que mostravam uma donzela rechonchuda dançando com um esqueleto e o slogan “Berlin, halt ein! Besinne dich! Dein Tänzer ist der Tod.” — Berlim, pára com isso! Toma jeito! Teu dançarino é a morte.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Kurt Bartsch (1937 2010), alemão de Berlim, frequentou uma escola primária berlinense na [rua] Friedrichstraße, não concluiu o ginásio, começou a labutar cedo, trabalhou como vendedor de caixões, coveiro e, depois, como redator publicitário e assistente editorial na Aufbau-Verlag, foi poeta, dramaturgo e crítico literário; embora tenha sido aprovado preliminarmente na Weißensee Kunsthochschule Berlin [Escola de Artes Weißensee, Berlim], não pôde iniciar seus estudos por não possuir diploma do ensino médio; publicou seus primeiros textos, fragmentos satíricos, no início da década de 60; o poeta e dramaturgo, devido a suas publicações, paródias e peças cômicas de teatro frequentemente não saírem a gosto da cultura oficial e dos padrões da RDA (ex-Alemanha Oriental, socialista), o real socialismo, teve obras não publicadas no país e raramente suas peças foram ali encenadas; em 1980, de posse de um visto permanente de emigração, Kurt Bartsch mudou-se para Berlim (Ocidental), na então RFA (ex-Alemanha Ocidental, capitalista, hoje Alemanha), continuou escrevendo e publicando, inclusive livros infantis e peças radiofônicas; suas obras: Zugluft. Gedichte, Sprüche, Parodien (coletânea de poemas, 1968), Die Lachmaschine. Gedichte, Songs und ein Prosafragment (poemas, canções e fragmento em prosa, 1971), Kalte Küche. Parodien (1974), Der Bauch und andere Songspiele (peça, 1974), Kaderakte. Gedichte und Prosa (1979), Wadzeck. Roman (romance, 1980), Die Hölderlinie. Parodien (1983), Fanny Holzbein [romance autobiográfico, conta a infância do autor poeta, 2004) e outros títulos; é considerado, hoje, um dos principais representantes do círculo da Sächsischen Dichterschule [Escola de Poetas da Saxônia].