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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]
Cresce a grama sobre a via morta
Aqui antes passava o bonde
De oeste a leste leste a oeste
FECHANDO AS PORTAS, PARA TRÁS
Os trilhos enferrujando, as pontes
transpõem ruas mortas, as ruas
fechadas com muros, cimento, pra
eu não cair fora, diz Trude. Nossa,
tudo isso por causa de alguém que não
sabe nada, só lava escada, esfrega o chão
Ela ri, então a gente tem de
ficar aqui, você não acha
Stilleben mit Putzfrau
Gras wächst über die toten Gleise
Hier fuhr einst die S-Bahn
Von West nach Ost nach West
DIE TÜREN ACHLIESSEN, ZURÜCKBLEIBEN
Die Schienen rosten, die Brücken
Überquern tote Straßen, die Straßen
Mit Mauern verbaut, Beton, damit
Ich nicht sitften gehe, sagt Trude *. Ach
Soviel Aufwand für eine, die nicht
Kann als Treppen wischen, Füßböden scheuern
Sie lächelt, da muß man já
Hierbleiben, finden Sie nicht
* Nota dos tradutores: Apresentada aqui pelo nome “Trude” (apelido de
Gertrud), a faxineira Joana é uma personagem recorrente nos textos em que Bartsch
ironiza a vida do proletariado de vitrine socialista. As razões dadas pela
faxineira para ficar na RDA contrapõem o quotidiano ao “Estado
operário-camponês”: quem nada sabe vai fazer o quê do outro lado do muro?
Tornou-se piada recorrente na RDA o abastardamento da sigla DDR (correspondente
em alemão para RFA) como Der Dumme Rest — “o resto estúpido”.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães,
Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução
de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte
— MG; Kurt Bartsch (1937 — 2010), alemão de Berlim, frequentou uma escola primária
berlinense na [rua] Friedrichstraße, não concluiu o ginásio, começou a labutar cedo,
trabalhou como vendedor de caixões, coveiro e, depois, como redator publicitário
e assistente editorial na Aufbau-Verlag, foi poeta, dramaturgo e crítico literário;
embora tenha sido aprovado preliminarmente na Weißensee Kunsthochschule Berlin [Escola
de Artes Weißensee, Berlim], não pôde iniciar seus estudos por não possuir diploma
do ensino médio; publicou seus primeiros textos, fragmentos satíricos, no início
da década de 60; o poeta e dramaturgo, devido a suas publicações, paródias e peças
cômicas de teatro frequentemente não saírem a gosto da cultura oficial e dos padrões
da RDA (ex-Alemanha Oriental, socialista), o real socialismo, teve obras não publicadas
no país e raramente suas peças foram ali encenadas; em 1980, de posse de um visto
permanente de emigração, Kurt Bartsch mudou-se para Berlim (Ocidental), na então
RFA (ex-Alemanha Ocidental, capitalista, hoje Alemanha), continuou escrevendo e
publicando, inclusive livros infantis e peças radiofônicas; suas obras: Zugluft.
Gedichte, Sprüche, Parodien (coletânea de poemas, 1968), Die Lachmaschine. Gedichte,
Songs und ein Prosafragment (poemas, canções e fragmento em prosa, 1971), Kalte
Küche. Parodien (1974), Der Bauch und andere Songspiele (peça, 1974), Kaderakte.
Gedichte und Prosa (1979), Wadzeck. Roman (romance, 1980), Die Hölderlinie. Parodien
(1983), Fanny Holzbein [romance autobiográfico, conta a infância do autor poeta,
2004) e outros títulos; é considerado, hoje, um dos principais representantes do
círculo da Sächsischen Dichterschule [Escola de Poetas da Saxônia].