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[Análise]
[III]
[traduzido por Lúcio de
Mendonça1]
Ó lágrimas, em que se vão
nossos rancores,
Qual proceloso céu,
fuliginoso, troante,
Elétrico, e que em chuva
esvaece num instante;
Ó lágrimas, ó mais suave dos
licores,
Quando vos bebe o amante a
berijos vencedores,
Qual bebe o sol, passado o
chuveiro, anhelante,
Pelas nuvens que enxuga, o
arco-íris brilhante;
Ó lágrimas, que assim cais de
nossas dores,
Como o orvalho, da flor cai do
quebrado cálice;
Vauquelin2 e
Foureroy3 fizeram-vos a análise,
Ó lágrimas, e os dois, no
crisol, afinal,
Encontraram, por junto, o que
aqui vai escrito:
Água,
sal, soda, muco, e fósforo de cal.
Ó lágrimas, ideal rócio d’alma!...
Bonito!
(Minas, 1885)
[Murmúrios e Clamores — ‘agrupamento Musa Peregrina:
traduções’ — poesias completas, de Lúcio de Mendonça, 1902,
pág. 304, H. Garnier, Livreiro-Editor, Rio de
Janeiro — RJ]
Analyse
[Sonets Amers — III]
O larmes, où s'en vont se
noyer nos rancœurs,
Comme un ciel orageux,
grondant, couleur de suie,
Chargé de foudre, et qui
soudain se fond en pluie;
O larmes, ô la plus suave des
liqueurs,
Quand un amant vous boit sous
ses baisers vainqueurs
Ainsi que le soleil après
l'averse enfuie
Boit l'arc-en-ciel dans les
nuages qu'il essuie;
O larmes, diamants qui tombez
de nos cœurs
Comme l'eau du matin tombe des
fleurs brisées;
Vauquelin et Fourcroy vous ont
analysées,
O larmes; et dans leurs
creusets, sur leurs réchauds,
Ils ont trouvé ceci, tel que
je vais écrire:
Eau, sel, soude, mucus et phosphate
de chaux.
O larmes, diamants du cœur!...
Laissez-moi rire!
(Les Blasphemes [groupement Sonets
Amers], 1884)
Nota de R. Magalhães Júnior,
autor deste Poesia e Vida de Augusto dos Anjos:
1. A tradução de Lúcio de Mendonça foi incluída na “Musa Peregrina [traduções]”, na parte final do volume Murmúrios e clamores, publicado em 1902. Várias outras saíram em jornais e revistas.
Notas do blogue Verso e
Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página destaca:
2. Louis Nicolas Vauquelin, cientista francês, assistente e sucessor de Fourcroy na Universidade de Paris [cfe. R. Magalhães Júnior, autor deste Poesia e Vida ...]3. Conde Antoine François de Fourcroy, cientista francês da Universidade de Paris, foi responsável pela análise da “composição química das lágrimas humanas” [assistido por Vauquelin], no início do século 19. [idem item 2, acima]
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Poesia e Vida de Augusto dos Anjos: R. Magalhães Júnior, 2ª edição
corrigida e aumentada, 1978, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ, e Instituto Nacional do Livro
— MEC, Brasília — DF; Auguste-Jules Richepin, ou Jean Richepin (1849 —
1926), franco-argelino nascido em Medeia — Argélia, à época departamento
francês no norte da África, diplomou-se em Literatura na École Normale
Supérieure, Paris, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, estivador,
porteiro, professor ...; frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros
parisienses, sua vida boêmia e marginal acabou por inspirá-lo na criação das
primeiras e provocativas poesias, as quais, já na estréia com sua obra La
chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como o ocorrido com Baudelaire (na
publicação de Les Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação à prisão, além do
pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas terem sido
considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras: coleções
de poemas: Chanson des gueux (1876), Les Caresses (groupements: Floréal, Thermidor,
Brumaire et Nivôse, 1877), Les Blasphemes (1884), La Mer (1886), Les Litanies de
la mer (1894), Mes Paradis (1894), La Bombarde (1899), Poèmes durant la guerre:
1914-1918 (1919), Les Glas (1922) ..., romances: Les Morts bizarres (1876), Madame
André (1878), La Glu (1881), Le Pave (1883), Miarka la fille à l'ours (1883), Les braves gens
(1886), Césarine (1888) ..., e peças teatrais: Nana Sahib (drame en vers en 7 tableaux,
1883), Le Chemineau (drame en 5 actes, 1897), etc.; o poeta também compôs
textos para músicos, colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie
Française (Academia Francesa); um “viajante incansável”, andejou por Londres,
viajou pela Itália, Espanha, Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões
em que proferia conferências e redigia artigos para a imprensa parisiense.



