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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Jean Richepin: Analyse

 
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[Análise]

[III]

[traduzido por Lúcio de Mendonça1]

Ó lágrimas, em que se vão nossos rancores,
Qual proceloso céu, fuliginoso, troante,
Elétrico, e que em chuva esvaece num instante;
Ó lágrimas, ó mais suave dos licores,

Quando vos bebe o amante a berijos vencedores,
Qual bebe o sol, passado o chuveiro, anhelante,
Pelas nuvens que enxuga, o arco-íris brilhante;
Ó lágrimas, que assim cais de nossas dores,

Como o orvalho, da flor cai do quebrado cálice;
Vauquelin2 e Foureroy3 fizeram-vos a análise,
Ó lágrimas, e os dois, no crisol, afinal,

Encontraram, por junto, o que aqui vai escrito:
Água, sal, soda, muco, e fósforo de cal.
Ó lágrimas, ideal rócio d’alma!... Bonito!

(Minas, 1885)
[Murmúrios e Clamores —  ‘agrupamento Musa Peregrina:
traduções’ — poesias completas, de Lúcio de Mendonça, 1902,
pág. 304, H. Garnier, Livreiro-Editor, Rio de Janeiro — RJ]

Jean Richepin

Analyse

[Sonets Amers III]

O larmes, où s'en vont se noyer nos rancœurs,
Comme un ciel orageux, grondant, couleur de suie,
Chargé de foudre, et qui soudain se fond en pluie;
O larmes, ô la plus suave des liqueurs,

Quand un amant vous boit sous ses baisers vainqueurs
Ainsi que le soleil après l'averse enfuie
Boit l'arc-en-ciel dans les nuages qu'il essuie;
O larmes, diamants qui tombez de nos cœurs

Comme l'eau du matin tombe des fleurs brisées;
Vauquelin et Fourcroy vous ont analysées,
O larmes; et dans leurs creusets, sur leurs réchauds,

Ils ont trouvé ceci, tel que je vais écrire:
Eau, sel, soude, mucus et phosphate de chaux.
O larmes, diamants du cœur!... Laissez-moi rire!

(Les Blasphemes [groupement Sonets Amers], 1884)

Nota de R. Magalhães Júnior, autor deste Poesia e Vida de Augusto dos Anjos:
1. A tradução de Lúcio de Mendonça foi incluída na “Musa Peregrina [traduções]”, na parte final do volume Murmúrios e clamores, publicado em 1902. Várias outras saíram em jornais e revistas.
Notas do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página destaca:
2. Louis Nicolas Vauquelin, cientista francês, assistente e sucessor de Fourcroy na Universidade de Paris [cfe. R. Magalhães Júnior, autor deste Poesia e Vida ...]
3. Conde Antoine François de Fourcroy, cientista francês da Universidade de Paris, foi responsável pela análise da “composição química das lágrimas humanas” [assistido por Vauquelin], no início do século 19. [idem item 2, acima]
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Poesia e Vida de Augusto dos Anjos: R. Magalhães Júnior, 2ª edição corrigida e aumentada, 1978, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro RJ, e Instituto Nacional do Livro — MEC, Brasília DF; Auguste-Jules Richepin, ou Jean Richepin (1849 1926), franco-argelino nascido em Medeia Argélia, à época departamento francês no norte da África, diplomou-se em Literatura na École Normale Supérieure, Paris, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, estivador, porteiro, professor ...; frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros parisienses, sua vida boêmia e marginal acabou por inspirá-lo na criação das primeiras e provocativas poesias, as quais, já na estréia com sua obra La chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como o ocorrido com Baudelaire (na publicação de Les Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação à prisão, além do pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas terem sido considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras: coleções de poemas: Chanson des gueux (1876), Les Caresses (groupements: Floréal, Thermidor, Brumaire et Nivôse, 1877), Les Blasphemes (1884), La Mer (1886), Les Litanies de la mer (1894), Mes Paradis (1894), La Bombarde (1899), Poèmes durant la guerre: 1914-1918 (1919), Les Glas (1922) ..., romances: Les Morts bizarres (1876), Madame André (1878), La Glu (1881), Le Pave (1883), Miarka la fille à l'ours (1883), Les braves gens (1886), Césarine (1888) ..., e peças teatrais: Nana Sahib (drame en vers en 7 tableaux, 1883), Le Chemineau (drame en 5 actes, 1897), etc.; o poeta também compôs textos para músicos, colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie Française (Academia Francesa); um “viajante incansável”, andejou por Londres, viajou pela Itália, Espanha, Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões em que proferia conferências e redigia artigos para a imprensa parisiense.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Lúcio de Mendonça: Alice


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Os seus olhos são como os das pombas,
sem falar no que está oculto dentro.
Cântico dos Cânticos, [Salomão, 1, 15.]

Imagina um sorriso só de criança,
Todo candura, e junta-lhe a meiguice
De um sorriso de mãe; e tens ideado
O sorriso de Alice.

Imagina um olhar mistério e sonho,
Cheio de luz, de glória, de doidice...
Com a sedução dos olhos da mãe-d’água;
E tens o olhar de Alice.

Imagina uma grave melodia,
Tão doce como nunca mais se ouvisse,
Como nunca se ouviu na terra ainda;
E tens a voz de Alice.

Já viste como o cisne fende o lago?
Como desliza a névoa na planície?
Como anda na clareira a pomba rola?
É ver o andar de Alice.

Olha o macio pétalo corado
De rosa que de todo não abrisse,
O mimo da conchinha nacarada,
É a boca de Alice.

Se um dia visses no alcantil dos cerros
A imaculada neve que caísse,
Verias, ai de mim! do que é formado
O coração de Alice.

[Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902)]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; sem o auxílio de professor para o aprendizado das “primeiras letras”, descobriu a leitura e a escrita “ligando sons e caracteres gráficos” e jornais e, aos 16 anos, matriculou-se no Colégio Pimentel, em São Gonçalo; em 1871, já em São Paulo, e já tendo iniciado o curso de Direito, também deu início às suas atividades poético-literárias: escreveu um caderno de versos, Risos e Lágrimas; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro, Colombo, de Campanha MG, Semana, de Valença RJ e O País, do Rio; traduziu poemas de Musset, Richepin, Heinrich Heine, Ludwig Uhland, Henri Mürger, Théophile Gautier, Victor Hugo, ...; suas obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); desde 1889, com a proclamação da república, passou a ocupar diversos cargos públicos até ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal e continua escrevendo para jornais, agora sob o pseudônimo de Juvenal Gavarni, entre outros; Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela; o poeta, com o agravamento de problemas na visão, aposentou-se e morreu completamente cego.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Joséphin Soulary: Sonhos ambiciosos

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[traduzido por Lúcio de Mendonça*]

Se eu tivesse algum chão: montanha, vale ou seara,
quisera um pouco d’água: arroio, olho ou cachoeira;
uma árvore plantara: ipê, cedro ou palmeira;
erguera um teto: telha-vã, colmo ou coivara.

Na árvore um ninho bom: frouxel, palha ou taquara,
reteria um cantor: sabiá, melro ou coleira;
sob o teto um bom leito: estrado, rede ou esteira,
reteria uma huri: parda, morena ou clara.

Basta um pequeno chão; para que o demarcasse,
pediria à mulher que mais me enamorasse:
fica em frente do sol que vem rompendo; espera;

até onde na selva a tua sombra avance,
apenas até lá meu horizonte alcance:
ventura que na mão se não colhe, é quimera!

Rio, 1893.


Rêves ambitieux

Si j’avais un arpent de sol, mont, val ou plaine,
Avec un filet d’eau, torrent, source ou ruisseau,
J’y planterais un arbre, olivier, saule ou frêne,
J’y bâtirais un toit, chaume, tuile ou roseau.

Sur mon arbre, un doux nid, gramen, duvet ou laine,
Retiendrait un chanteur, pinson, merle ou moineau.
Sous mon toit, un doux lit, hamac, natte ou berceau,
Retiendrait une enfant, blonde, brune ou châtaine.

Je ne veux qu’un arpent; pour le mesurer mieux,
Je dirais à l’enfant la plus belle à mes yeux:
«Tiens-toi debout devant le soleil qui se lève;

Aussi loin que ton ombre ira sur le gazon,
Aussi loin je m’en vais tracer mon horizon.»
Tout bonheur que la main n’atteint pas n’est qu’un rêve.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe sobre este poema Sonhos ambiciosos, do item “Lúcio de Mendonça”, anotado com a expressão “(J. Soulary)” logo abaixo do título: trata-se de uma tradução do poema Rêves ambitieux do poeta francês Joséphin Soulary; Lúcio de Mendonça também traduziu poemas de Alfred de Musset, Jean Richepin, Heinrich Heine, Ludwig Uhland, Henry Mürger, Sainte-Beuve, Théophile Gautier, Victor Hugo, etc.
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Joséphin Soulary ou Joseph Marie Soulary (1815 1891), francês de Lyon, foi um escritor e poeta francês; rejeitado pelos pais, teve uma infância difícil, aos dezesseis anos alistou-se num regimento, depois, acolhido por Hippolyte-Paul Jaÿr, então prefeito de Lyon e que apreciava suas poesias, tornou-se funcionário da prefeitura e seguiu dupla carreira: a administrativa e a literária; de seus traços bibliográficos, é tido que seus sonetos humorísticos atraiam a atenção e encantavam os leitores; tinha o pleno domínio das técnicas poéticas, particularmente das do soneto; suas obras: À travers champs (1837), Les Cinq cordes du luth (1838), Les Éphéméres (deux séries, 1846 et 1857), Sonnets humouristiques (1862), Les Figulines (1862), Pendant l’invasion (1871), Les Rimes ironiques (1877), Jeus divins (1882), e duas comédias; suas obras poéticas foram reunidas em 3 volumes (1872-1883).

quarta-feira, 8 de março de 2023

Lúcio de Mendonça: A Besta Morta

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Na senzala, no chão, numa esteira amarela,
Jaz o filho de Cam, o maldito. É um velho.
No mal coberto ombro os vestígios do relho
Traçaram-lhe uma cruz, a única que o vela.

Cruza no peito as mãos roídas do trabalho.
Sobram do cobertor os grossos pés informes.
Dorme, descansa enfim, que do sono em que dormes
Já não pode acordar-te a sanha do vergalho!

Como única oração que tua alma proteja,
Por sobre a podridão de tua boca fria
Vibra no ar zumbindo a mosca de vareja...

Enquanto, ao longe, o sino, em voz cansada e lenta,
Reza, doce cristão, a sua Ave Maria,
E o moribundo sol as nuvens ensanguenta.

[Visões do Abismo — 1888 / Murmúrios
e Clamores: poesias completas — 1902]

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha MG; suas obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); desde 1889, com a proclamação da república, passa a ocupar diversos cargos públicos até ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal, mas continua escrevendo para jornais, agora sob o pseudônimo de Juvenal Gavarni, entre outros; Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Lúcio de Mendonça: O consórcio maldito

 
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XIV

Ele é um rude sujeito honrado e generoso,
Forte e trabalhador. Ela é toda franzina;
E de antiga nobreza; e é da raça felina
O seu mavioso gesto elétrico e nervoso.

Jura-lhe amor, e tem-lhe um ódio rancoroso.
Sobro o peito do atleta o régio busto inclina,
E mete-lhe no bolso a mão fidalga e fina
E despoja-o. E ele, o bom e cego esposo,

Deixa-se despojar, e trabalha, calado.
Ela com uns padres vis anda de mancebia,
E, fartos, riem dele, o enorme desgraçado.

Ela é a Messalina, a barregã sombria,
Ele, um trabalhador estúpido e enganado.
Ele chama-se Povo, e ela Monarquia.

(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha MG; obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Lúcio de Mendonça: A um senador do império

 
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Ora estás no apogeu da glória reluzente:
Subiste para sempre; és vitaliciamente
Nosso legislador, grande homem, se é que o há.

Perdoa como um deus a grande alma de Alá.

És coluna e farol da vasta monarquia.
Tens uma firme glória enorme que irradia
Ante uma multidão imensa de fiéis...
E, além de toda a glória, alguns contos de réis.
Vê, se já podes ver, os homens com que ombreias:
Octaviano o cantor que venceu as sereias,
Feiticeiro que muda em joias o papel,
Ateniense que tem o lábio ungido em mel
E que põe na palavra os brilhos do diamante;
Como o arcanjo Miguel formoso e coruscante,
Vê José Bonifácio, alma gêmea do sol.

Que iluminada altura e que brilhante escol!

No velho Panteão do campo de Santana,
Cinge-te o louro eterno a fronte soberana.
Senador e ministro! estás sentado à mão

De Deus Padre; e nem vês, embaixo, a multidão
O povo, a plebe vil sem nome e sem dinheiro,
Corja de pedinchões vadios e venais...
Tu campeias no céu e vê-te o mundo inteiro...

Judas Iscariotes, pagaram-te demais!

De feito, que eras tu? Vaidoso como um odre
Vazio, e, quanto ao mais, uma consciência podre.
Como Troplong, o infame, ao vil Napoleão,
Jurista, te vendeste a Pedro, o bom patrão.
Quiseste enodoar ao mesmo tempo, traste!
A blusa popular com que te apresentaste.
Mas não! manchado és tu, manchada é a libré
Que tu vestes agora; o ínfimo galé
Teria nojo dela!

És hoje um poderoso
Ministro e senador; pois olha, um cão leproso
Fugiria de ti, por não sujar-se mais.
Transpuseste orgulhoso os augustos umbrais
Do senado, e a curul que sob ti se infama
Há de ser como aquele ominoso Hakeldama
Com o preço da traição comprado, um mau lugar
Estéril e sem luz campo de sepultar.

Refere a tradição que um déspota romano
Fez cônsul um cavalo. O nosso soberano,
Calígula jogral, tirano bonachão,
Para nos aviltar, faz senador um cão.

Minas [Gerais], 1884.
(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha MG; obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

domingo, 4 de setembro de 2022

Henry Murger: Antítese

 
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[traduzido por Lúcio de Mendonça]

É um asilo pobre, é um retiro austero,
Onde a estudar se encerra um solitário hóspede.
Dorme ao dia; mal vem
A noite, se levanta a trabalhar; acende
Sobre a mesa truncada a fumegante lâmpada,
Que vela aí também.

Na lareira apagada amontoa-se a cinza,
E o grilo friorento e de fagulhas ávido,
Não as vendo no lar,
Cessa de modular a costumada endeixa
Sobre a grade de ferro, onde a lenha em suplício
Torcia-se a estalar.

No entanto, sopra enregelado vento,
E quem passa na rua, agasalhado e trêmulo,
As garras lhe sentiu.
Na esfera divinal tiritam as estrelas,
E a peliça de arminho a mais e mais adensa-se,
Que o teto já vestiu.

Na vidraça, resvala o vento pelas frestas,
E a geada, burilando os caprichos fantásticos,
Já fez dali saltar
Um sutil arabesco onde em roscas se torce
A fronde tropical de flora imaginária
Quase a desabrochar.

A janela é estreita e nunca se alumia
Da alegria do sol nos ósculos esplêndidos.
Pelas paredes vai
Do teto até ao chão o suor de novembro,
Qual comprido colar de pérolas e de âmbares,
Que se debulha e cai.

E ele pôs-se a velar a sublime vigília,
Mas ao que mora ali, quando a cidade dorme,
Tudo se transverteu...
Um palácio encantado aos olhos se lhe ostenta,
Porque tem por amante uma divina Piéride,
Que canta ao lado seu!

[S. Paulo, 1871]

Henry Murger

Anthithèse

C'est un asile pauvre, une retraite austère
Où s'est clos, dans l'étude, un hôte solitaire.
Le jour, il dort; la nuit,
Pour se mettre à son oeuvre il se relève, allume
Sur sa table boiteuse une lampe qui fume,
Et qui veille avec lui.

Dans l'âtre mort la cendre en talus s'amoncelle
Et le grillon frileux, amant de l'étincelle,
N'en voyant plus, hélas!
Cesse de lamenter sa plainte accoutumée
Sur le vieux chenet-sphinx où la bûche enflammée
Se tordait en éclats.

Et pourtant au dehors souffle une bise aiguë;
Sous de triples manteaux le passant, dans la rue,
Sent les ongles du froid;
L'étoile a des frissons dans la sphère divine,
Et la neige épaissit la fourrure d'hermine
Dont s'est vêtu le toit.

Aux vitres, où le vent par la fêlure glisse,
Le givre, en burinant son étrange caprice,
A déjà fait saillir
Une souple arabesque où se tord en spirale
Le feuillage irisé d'une flore idéale
Prête à s'épanouir.

La fenêtre est étroite et jamais ne s'éclaire
Au rayon matinal de la clarté solaire.
Du sol jusqu'au plafond,
Sur les jaunes parois, la sueur de novembre
Semble un long chapelet formé de perles d'ambre
Qui s'égrène et qui fond.

Mais pour l'hôte du lieu, lorsque Paris sommeille,
Et qu'auprès de son oeuvre il commence sa veille,
Toute sa pauvreté,
Comme un palais féerique, à ses yeux s'illumine,
Car cet hôte est l'amant d'une muse divine
Qui chante à son côté!

1843.

[Les Nuits d’hiver — 1861)
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Louis-Henri Murger ou Henry Murger (1822 1861), francês parisiense, com escassa e fragmentada educação escolar, foi romancista e poeta; abandonando os estudos aos 15 anos, Henry Murger enfrentou uma variedade de trabalhos braçais antes de se empregar no escritório de um advogado; passou a escrever poemas e, chamando a atenção do escritor Étienne de Jouy, com quem teve ligação, tornou-se secretário do conde Aleksey Tolstoi, um nobre russo que vivia em Paris; iniciou a carreira literária em 1841 com ensaios literários e poéticos e, para sobreviver, escreveu sobre tudo o que o mercado gráfico jornalístico era demandado e aceitava; foi editor de um jornal de moda, Le Moniteur de la Mode, e de comércio de chapelaria, Le Castor; suas obras: Scènes de la vie de bohème (novela, 18471849), Scènes de la vie de jeunesse (1851) Le Bonhomme Jadis (comédia, 1852), Ballades et Fantaisies (poesias, 1854), Les Nuits d’hiver (poesias, 1861) etc.; vários de seus romances surgiram na revista Revue des deux Mondes, entre os quais Les Pays Latin (1851), Adeline Prótat (1853) e Les Buverus d’eau (1854); o poeta viveu sempre atormentado por questões financeiras, morreu aos 38 anos e, de sua biografia, consta que seu funeral foi custeado pelo governo francês e que o jornal Le Figaro criou um fundo para arrecadar dinheiro e construir um monumento à memória do poeta, com ampla aceitação e colaboração de expoentes do jornalismo, literatura, teatro e artes; sua obra Scènes de la vie de bohème inspirou e serviu de base para os compositores Giacomo Puccini e Ruggero Leoncavallo criarem as óperas La Bohème, ambas de mesmo nome, em 1896 e 1897.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Lúcio de Mendonça: XV — No fundo do abismo

 
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(paráfrase de um dito popular)

Paramos de descer e de rolar,
Paramos: é o fundo já do abismo.
Tirou de todo a máscara o cinismo;
É noite negra na alma popular.

Nasceu esta miséria deste par
A Monarquia e o Ultramontanismo.
Despojou-nos o negro banditismo,
No covil-trono e no balcão-altar.

Ó Pátria! surge deste inferno em que ardes!
Concidadãos! debalde esperareis,
Se das mãos do opressor tudo esperardes.

Não! vós não vos salvais se não bebeis
Todo o sangue do último dos padres
Pelo crânio do último dos reis!

Minas [Gerais], 1879.
(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha  MG; obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Lúcio de Mendonça: XII — A propriedade

 
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Sua, rasgando o seio à terra dura,
Ao sol ardente, o rude jornaleiro;
E na lôbrega mina fria, escura,
Lida e mata-se o intrépido mineiro.

No inclemente oceano traiçoeiro,
O pescador, que o negro céu tortura
Com as gélidas cordas do aguaceiro,
Em cada onda à morte se aventura.

Na cidade, entretanto, o gordo agiota
Farto digere e consolado arrota,
Pousando o cálix de licor enxuto.

O que o Trabalho ganha em todo um dia,
Sua Alteza o Capital, que se enfastia,
Em meia hora o fuma num charuto.

(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha MG; obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Lúcio de Mendonça: XIII — A propriedade (no cemitério)

 
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[Visões do abismo]

Aqui jaz o calor da juventude,
As generosas ambições de glória,
O amor a luz da vida transitória,
O entusiasmo e os sonhos e a virtude...

Tudo enterrou-se aqui: o áspero e rude
Egoísmo, e o orgulho e a ilusória
Esperança... Aqui jaz toda uma história
Encadernada em cada um ataúde.

Neste fúnebre pouso derradeiro
A eternidade no silêncio fala...
Mas ainda tem altares o dinheiro,

Que nem a Morte a humanidade iguala:
Para o rico o epitáfio lisonjeiro,
E para o pobre o anônimo da vala!

(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo — atual USP do Largo de São Francisco —, foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha —  MG;  obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.