domingo, 30 de junho de 2013

Euclides da Cunha: O estouro da boiada

          Em Os Sertões, Euclides da Cunha nos mostra o que ocorria pelas bandas do sertão baiano (a terra) com o sertanejo (o homem) e seu cotidiano, para descrever e explicar (a luta) a Guerra de Canudos.
          Num pequentrecho do livro, o autor relata o estouro da boiada. Naquele sertão descrito pelo autor, o clique para o estouro podia ser qualquer coisa, bastava um incidente trivial como “o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo”.
          E ao vaqueiro, era em vão todo o esforço para acalmar a manada e, assim, trazê-la de volta à trilha e conduzí-la ao seu destino pré-estabelecido. Restava aguardar. Só com o atropelo dos brutos cessado é que "reaviam-no à vereda da fazenda".

PS: Os grifos do texto, em negrito, são um puro atrevimento de responsabilidade deste blogueiro que aqui está postando.
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A arribada

          Segue a boiada vagarosamente, à cadência daquele canto triste e preguiçoso. Escanchado, desgraciosamente, na sela, o vaqueiro, que a revê unida e acrescida de novas crias, rumina os lucros prováveis: o que toca ao patrão, e o que lhe toca a ele, pelo trato feito. Vai dali mesmo contando as peças destinadas à feira; considera, aqui, um velho boi que ele conhece há dez anos e nunca levou à feira, mercê de uma amizade antiga; além, um mumbica claudicante, em cujo flanco se enterra estrepe agudo, que é preciso arrancar; mais longe, mascarado, cabeça alta e desafiadora, seguindo apenas guiado pela compressão dos outros, o garrote bravo, que subjugou, pegando-o "de saia", e derrubando-o, na caatinga; acolá, soberbo, caminhando folgado, porque os demais o respeitam, abrindo-lhe em roda um claro, largo pescoço, envergadura de búfalo, o touro vigoroso, inveja de toda a redondeza, cujas armas rígidas e curtas relembram, estaladas, rombas e cheias de terra, guampaços formidáveis, em luta com os rivais possantes, nos logradouros; além, para toda a banda, outras peças, conhecidas todas, revivendo-lhe todas, uma a uma, um incidente, um pormenor qualquer da sua existência primitiva e simples.

          E prosseguem, em ordem, lentos, ao toar merencório da cantiga, que parece acalentá-los, embalando-os com o refrão monótono:

                                   E cou mansão
                                  E cou... ê caõ...

ecoando saudoso nos descampados mudos...

Estouro da boiada
         
          De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura. . . (*)
          A boiada arranca.
          Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos campeiros.
          Origina o incidente mais trivial o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-os embolados, em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos.
          E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas, estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos tabuleiros ruído soturno e longo de trovão longínquo...
         Destroem-se em minutos, feito montes de leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se, apisoados, os pousos; ou esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos, fugindo para os lados, evitando o rumo retilíneo em que se despenha a "arribada"  milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-se impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalancha viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas enristado o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso às crinas do cavalo o vaqueiro!
         Já se lhe tem associado, em caminho, os companheiros, que escutaram, de longe, o estouro da boiada. Renova-se a lida: novos esforços, novos arremessos, novas façanhas, novos riscos e novos perigos a despender, a atravessar e a vencer, até que o boiadão, não já pelo trabalho dos que o encalçam e rebatem pelos flancos senão pelo cansaço, a pouco e pouco afrouxe e estaque, inteiramente abombado.
         Reaviam-no à vereda da fazenda; e ressoam, de novo, pelos ermos, entristecedoramente, as notas melancólicas do aboiado.

(*) Estourar, arrancar, ou arribar a boiada, são sinônimos do mesmo fato que nos sertões do norte reproduzem, talvez mais intensas, as disparadas dos pampas.

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Os Sertões, Livro I, 1973, Editora Três, São Paulo SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 1909), nascido em Cantagalo RJ, foi escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador e engenheiro; seu grande feito literário foi Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos-reportagens do jornal O Estado de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora à cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, espanhol, dinamarquês, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos.

sábado, 22 de junho de 2013

Genésio dos Santos: notícias do Brasil [junho de 2013]

pela internet
me informam que a primavera chegou

no calendário
vejo que apenas está começando o inverno

será que
o mundo está de ponta-cabeça?

Minha foto
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Genésio dos Santos, paulista de Itapetininga, nascido em 1952, poeta e cronista, é aprendiz de blogueiro.