terça-feira, 31 de março de 2015

Arípio Fortes: Eu

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Orgânica matéria começada
na existência de um germe, que mui breve
a larvas bem vorazes talvez leve,
adube a terra e seja outra vez nada;

arcabouço de vísceras enfermas,
em que bilhões de células debalde
tentam reproduzir-se, embora escalde
nos vasos quente sangue a refazer-mas;

eu, que sinto no cérebro os remorsos,
no batuque de vil coreografia,
vencerem da razão os vãos esforços;

que irei caber no espaço exíguo, enfim,
dos sete palmos duma cova fria,
acho o mundo pequeno para mim!
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Antologia de Poetas Fluminenses  Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro RJ; Arípio Rodrigues Fortes (1897  1962), fluminense de Niterói, formado em Farmácia e Odontologia e Ciências Sociais e Jurídicas, foi escritor, poeta e prosador; escreveu e publicou, em 1951, Flores Secas (seleção de trabalhos dos anos de 1918 a 1949) e deixou-nos vários inéditos: Carapuças (contos), Espelho de Minh’Alma, Cantando e Chorando (trovas), Ligeiras Considerações sobre a Trova  Coincidência e Plágio, e um estudo sobre o valor medicinal das águas de Guarapari.

Monteiro Lobato: Um homem de consciência

O conto abaixo, de autoria de Lobato, faz parte do livro Cidades Mortas (contos, 1920) e pertence à era pré-modernista da literatura brasileira. Vale a pena a leitura.
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          Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.
          Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.
          Mas João Teodoro acompanhava com aperto do coração o desaparecimento visível de sua Itaoca.
          Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons agora só um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se acabando...
          João Teodoro entrou a incubar a idéia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.
          É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.
          Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma cacetada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, se julgava capaz de nada...
          Ser delegado numa cidadezinha daquelas é coisa seriíssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado e estava ele, João Teodoro, delegado de Itaoca!...
          João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada botou-as num burro, montou seu cavalinho magro e partiu.
          Antes de deixar a cidade foi visto por um amigo madrugador.
          Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?
          Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.
          Mas, como? Agora que você está delegado?
          Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado eu não moro. Adeus.
          E sumiu.

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Português no colégio — primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882  1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava  SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e se tornando seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; participou da criação da Companhia Editora Nacional; foi co-fundador da Editora Brasiliense e da Revista Brasiliense, juntamente com Caio Prado Júnior e Artur Neves e, na Argentina, por onde também andou, fundou a Editorial Acteon; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (contos, 1918), Cidades Mortas (contos, 1920), Negrinha (contos, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), e tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Antonio Galvão Júnior: O Povo quer mais escolas

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[Transcrito do Município, nos idos anos de 1870,
sob o título 'O Povo quer mais escolas']



          Diversos indivíduos estavam em um escritório de advogado, fazendo consultas.
          Consultas variadas, sobre fatos diversos.
          Dentre os indivíduos presentes estava um que parecia não ter pressa.
          Contemplava, em pé, os livros espalhados pela estante.
          Parecia ter de idade vinte anos.
          Estava tão preocupado que não percebeu que o advogado havia ficado só, tendo por isso chegado a sua vez.
          O advogado observou-o por algum tempo e, depois, fez-lhe a seguinte pergunta:
           O que pretende o senhor?
           Eu quero um conselho.
           Nesse caso  sente-se e fale.
          O moço obedeceu, chegou-se para junto do advogado, tomou uma cadeira e disse:
           Quero que o senhor me dê uma lista daqueles livros, para eu mandar comprar.
           Pretende advogar?  perguntou rindo, o advogado.
           Não senhor. Eu quero aprender mais do que sei.
           Aprender o quê?
           Aprender, preciso saber.
           Sabe ler?
           Sei um pouco.
           Nesse caso, comece por aprender a sua língua; compre antes de qualquer livro, uma gramática.
          Deu o nome do autor cuja gramática devia o cliente original comprar.
          Ao sair, o moço lhe perguntou:  Quanto lhe devo pelo conselho?
           Nada.
          — Obrigado, senhor.
          O moço saiu. Passou ao advogado, o fato desapercebido, julgando ao moço falta de bom senso.
          Passado algum tempo, o mesmo cliente apareceu e narrou-lhe o seguinte:
           Comprei a gramática, e lendo-a, logo nas primeiras páginas, encontrei: para se aprender o português, precisa-se de prática e de dicionário. Mandei comprar o dicionário, abri e reabri os dois grandes livros e fiquei mais confundido; não entendi nada. Quero que o senhor dê-me algumas lições, pode?
           Não posso, meus afazeres não permitem; há aí uma escola noturna onde o senhor pode tomar lições.
          O moço alegou que não podia frequentar as escolas, morava no sítio e por isso só podia aprender, consultando.
          Justou com o advogado que o ensinasse, permitindo pagar-lhe.
          O advogado deu-lhe algumas explicações. O moço ficou contente e, ao retirar-se, perguntou-lhe: — Quanto lhe devo?
           Nada.
           Assim não virei mais. Quero aprender e pago-lhe. Se o senhor nada quiser pelo seu trabalho, como hei de vir aqui mais?
          O advogado notou-lhe que tinha satisfação de ensiná-lo, e jamais julgaria importuno. Não queria e não devia perceber nada desse trabalho.
          O moço insistiu a ponto do advogado dizer-lhe: — No fim o sr. pagará.
          Mais de uma lição tem sido dada ao distinto moço, que faz um esforço sobrehumano para aprender.
          O fato é verdadeiro. O moço chama-se José Rodrigues de Oliveira e mora no bairro do Guarapó, deste município.
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Itapetininga e sua história — Antonio Galvão Júnior, Prefácio: Antonio Antunes Alves, Graco da Silveira Santos, Juvenal Paiva Pereira e Plinio Ribeiro, 1956, Gráfica Biblos Ltda., São Paulo — SP; Galvãozinho, ou Antonio Galvão Júnior, itapetiningano, foi jornalista, tido como “um dos maiores repórteres surgidos na cidade”; trabalhou inicialmente na oficina do pai, como tipógrafo, e atuou nos periódicos itapetininganos Tribuna Popular e Diário de Itapetininga, e no Semanário, de Sorocaba.

Antônio Ferreira: Solitário, que segues tão contente . . . [soneto]

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Solitário, que segues tão contente
O caminho mais árduo, que nos guia
Da nossa escura noite àquele dia,
Em que vive tão clara a imortal gente;

Esperta esse meu sono, em que dormente
Tive até agora est’alma, sê-me guia,
Por onde eu suba aos céus, que antes não via,
De mim mesmo enganado cegamente.

Escuro, triste, morto, e mal vivido
Tempo, de mágoa, e de arrependimento,
Gastado em vãos desejos, vãos cuidados!

Já achou meu vago espírito seu assento:
Sejam ou esquecidos, ou chorados
Os tristes dias, em que andei perdido.

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Antônio Ferreira (1528  1569), português de Lisboa, formado em Humanidades e Leis (Direito) na Universidade de Coimbra, foi desembargador e poeta; tido como um dos maiores representantes do Classicismo Renascentista em língua portuguesa, é considerado o discípulo mais famoso de Sá de Miranda, renomado poeta dessa geração Seiscentista; conhecedor dos idiomas Grego e Latim, escreveu elegias, éclogas, epístolas, epigramas, odes, epitalâmios, tragédias e comédias; obras publicadas postumamente: Tragédia Mui Sentida e Elegante de Dona Inês de Castro (1587), Poemas Lusitanos (coletânea de quase toda sua obra, 1598), Bristo e Cioso (comédias, 1622).

domingo, 29 de março de 2015

Olavo Bilac: Em mim também, que descuidado vistes, . . . [soneto: Via Láctea *]

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VI

Em mim também, que descuidado vistes,
encantado e aumentando o próprio encanto,
tereis notado que outras cousas canto
muito diversas das que outrora ouvistes. **

Mas amastes, sem dúvida ... Portanto,
meditai nas tristezas que sentistes:
que eu, por mim, não conheço cousas tristes,
que mais aflijam, que torturem tanto.

Quem ama inventa as penas em que vive:
e, em lugar de acalmar as penas, antes
busca novo pesar com que as avive.

Pois sabei que é por isso que assim ando:
que é dos loucos somente e dos amantes
na maior alegria andar chorando.

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Notas do Organizador:
* Toda a Via-Láctea, na ed. príncipe, trazia a inscrição: “À Que me Espera dedico. Rio de Janeiro, 11/11/87. O.B.”
** trazia vírgula depois de ouvistes, na príncipe. Já com ponto na ed. definitiva.
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Poesia Parnasiana — Antologia (vários autores), Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira.

sábado, 28 de março de 2015

Olegário Mariano: Resignação

Livro Toda Uma Vida De Poesia Olegário Marianno 2 Volumes
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Cada dia que passa, cada dia
Aumenta a angústia dessa inquietação:
A vida que vivi foi tão vazia!
Tão inútil meu sonho de ascensão!

Caminhei... caminhei... Cego sem guia,
Sem pai, sem mãe, sem filho, sem irmão,
Fui bom demais dando o que não podia...
Vivo hoje da ternura que me dão.

Velho e só, olho em volta e vejo apenas
Como andorinhas farfalhando as penas,
As lembranças voejando em torno a mim.

E sem vacilações e sem descrença,
Esperando a ilusão da recompensa,
Jogo um beijo ao Passado e... espero o fim.

(Mundo Encantado  1955)

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Toda Uma Vida de Poesia — Volume II (1932 a 1955) — Olegário Mariano, Primeira edição, 1957, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como o "poeta das cigarras" por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho ('Cai, cai balão', 'Tutu-marambá' e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Luís Carlos: Minha Sombra

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Esta minha implacável companheira,
que em si me reproduz a vã figura,
numa expressão de morte prematura,
caminhando comigo a vida inteira;

sempre muda, se fez a mensageira
dos silêncios da minha desventura;
convertendo-me o corpo em nódoa escura,
à força de ser muda e verdadeira.

Em vão procuro aprofundar-lhe o arcano.
Sombra... Visão de uma outra vida ausente.
Toco-a. Dissolve-a o meu contato humano.

Mas, se esqueço quem sou, surge-me à frente
e, quanto mais ao sol me aprumo e ufano,
mais ao chão me reduz humildemente.

(Colunas  1920)



Nota do Organizador:
Dedicado a Honório Armond.
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Poesia Parnasiana — Antologia (vários autores), Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Zalina Rolim: Passarinhos

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[Versos para crianças]

Um gracioso casalinho
De modesto parecer,
Há dias veio o seu ninho
Nas minhas flores tecer

Trabalham horas a fio
Ambos com jeito e amor,
E a construção avalio
Bonita como uma flor.

Materiais são folhinhas,
Penas, flocos de algodão,
Raízes, musgos,palhinhas,
Cabelos soltos no chão...

Tudo o parzinho açodado
Colhe aqui, rebusca além:
" Pió, pió, pio... olha, que achado!
 Pio, pio, pio... procura bem!

No biquinho bem segura
A sua carga gentil,
De aventura em aventura
Erguem o voo sutil.

E é tão calmo e tão bonito
O seu pequenino lar
Que invejo ser passarito
E lá com eles morar.

(publicado em A Mensageira, Ano II, número 35,
de 15 de dezembro de 1899, São Paulo)

Zalina Rolim
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869  1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897  1900) e para os jornais O ItapetiningaCorreio Paulistano e A Província de São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das Crianças (1897) Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora nomeado; viveu também em São Paulo.

Zalina Rolim: Vai-se acalmando a pouco e pouco, e sinto . . . [Soneto]

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C'est Dieu qui mit l'amour au
bout de toute chose,
L'amour en qui tout vit, l'amour
sur qui tout pose!
V. Hugo.

Vai se acalmando a pouco e pouco, e sinto
Que a paz lhe volta e as penas vão-se embora;
Se nele o amor não é de todo extinto,
A mágoa já não é também senhora.

Pobre amigo! a vagar num labirinto
De dúvidas e crenças, hora a hora,
Tudo entrevendo pálido e indistinto,
Temendo a noite e desejando a aurora...

E a noite veio só, não veio o dia...
Ai, coração, que a pérfida magia
Do amor ao seio teu não mais aporte!

E ele, baixinho e manso e dolorido:
 É a morte ser, assim, qual fui, traído,
Mas viver sem amor é mais que a morte.

(publicado em A Mensageira,
 Ano I,  número 9,  de 15 de
 fevereiro de 1898, São Paulo)

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869  1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897  1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das Crianças (1897) Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora nomeado; viveu também em São Paulo.

Félix de Athayde: [Imitação] da Pedra

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que importância
tem uma pedra

que importância
tem um poema

se não se faz pedra

se não se petrifica
se não ar[r]anha ou fere[a]

que importância
tem uma pedra

se não lhe confiro
minha raiva

ao atirá-la

que importância
tem um homem

se não tem raiva

que importância
tem um poema

se não posso pedra — 
atirá-lo contra

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Poesia Viva 1 (vários poetas) — Introdução de Antônio Houaiss, 1968, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Félix Augusto de Athayde (1932  1995), pernambucano de Olinda, foi jornalista, poeta e ensaísta; iniciou-se no Jornal do Commércio (Recife  PE) e trabalhou na Última Hora, Tribuna da ImprensaCorreio da ManhãO PaísO Estado de São PauloO GloboJornal do Brasil, e colaborou regularmente com o semanário O Pasquim; divulgou seus escritos em jornais, revistas e em antologias literárias; em vida, escreveu e publicou O Bicho Amoroso (poemas eróticos, 1980) e Aloísio Magalhães Interlocução Félix de Athayde (diálogo poético, 1984); postumamente, editou-se Poemas Reunidos (os dois livros anteriores, além de outros poemas, 2002); o poeta, que esteve exilado na década de 60, voltou clandestino ao Brasil, progressivamente retornou à legalidade e retomou suas atividades de jornalista e articulista.